16 de set de 2006,15:18
TERCEIRA LEVA
Barcos, Israel Scardua




“O papel do artista é convencer os outros da veracidade de suas mentiras”.

Paul Klee





CICERONEANDO


Mais um passo e o Diversos chega a um verdadeiro oceano de palavras e sensações. É uma Leva carregada de vontades de expressão. Numa delas, abrimos espaço para uma pequena mostra de telas do artista plástico capixaba Israel Scardua. Alguns de seus quadros podem ser vistos por entre os textos diversos de agora. Numa entrevista, o mesmo artista também nos empresta suas opiniões sobre alguns aspectos da arte. As janelas da poesia aparecem abertas onde vemos a energia do uno homem-mulher, recordações vivas de Wally Salomão; matemática das emoções; e a atemporal constatação da perenidade da guerra, num poema escrito há mais de vinte anos por Affonso Romano de Sant’Anna. Na sessão Conto, um belo texto de Bolívar Landi sobre livros e que é também, numa possível leitura, a necessidade de concessões nas relações humanas. O paraense e andarilho Luiz Felipe da Palma usa sua sensível crônica para exprimir sentimentos comuns numa conexão que junta River Phoenix, James Dean e Exupéry. Por aqui, também lemos sobre a escrita provocante e descompromissada de rigores formais do jornalista Aparecido Raimundo de Souza. Universo Musical traz a ótica sensível sobre os cantares do cantor e compositor Xangai. No mais, as palavras rondam em torno da poeta grapiúna Valdelice Pinheiro, bem como cinema, música e etc. Sejam bem-vindos à Terceira Leva!







JANELA POÉTICA (I)



JURAMENTOS

Neuzamaria Kerner


-“Namastê”
O Deus dentro de mim
saúda o Deus que habita teu templo.
O meu corpo saúda o teu
e se prepara para recebê-lo.
As promessas que ele te oferece
são de amor e prazeres infindos.
Não usarei o teu corpo, no entanto,
apenas para a satisfação do meu,
mas também para dividir a experiência
da entrega e da troca.
As minhas mãos ao tocarem teu corpo
produzirão as mil luzes que só explodem na primavera
para formar a aura das flores.
Massagearei tua boca com a minha
e só tu conhecerás o exato sabor da maçã do paraíso
e com um leve sorriso verás como é puro o pecar.
Minha boca produzirá os beijos mais doces
que serão salpicados na tua superfície
com gosto leve de sal.
Minhas narinas percorrerão teus recantos
e nenhum canto deixará de ser farejado,
vasculhado.
Como ave de pluma sedosa,
apenas roçando as asas,
para gáudio dos teus anseios
voarei, de ponta a ponta, sobre ti
e oferecerei meus seios,
alimento vital da tua alegria.
A cada investida suave tua
da minha boca ouvirás, bem baixinho, o teu nome.
Me atenderás ao chamado
e quase como um gemido dirás
que me queres sempre
e mais...
Depois qual leoa faminta
abrirei minhas fendas receptivas
e tuas expectativas de prover meu corpo
serão satisfeitas.
Estaremos como seres encantados e nesse momento
tu és meu deus nesse ritual dançante e confuso;
e eu, eterna escrava tua, mais uma vez, te saúdo.
Agora
com nossos dedos entrelaçados
e nossos delírios aquietados
estamos plenos de nós
porque transcendemos os nossos corpos
e por uns momentos realizamos o sonho
de sermos apenas um.


-“Namastê”
Eu te saúdo inteiramente
e no teu corpo prometo tocar levemente,
mas com a intensidade
do que é mais intenso no mundo.
Preencherei todos os teus vazios com minha seiva
e deixarei saciado cada minúsculo poro teu.
Minha barba, por fazer,
buscará no teu pescoço um gemido
que eu sei não ser de dor.
A minha carne estará macia e lisa
para amortecer teus movimentos
e a cada momento, como num ritual,
meus olhos se abrirão para buscar os teus
e, através deles, sugar a alma do teu prazer.
E quando o meu corpo perceber
cansaço manifesto do teu
desafiarei a lei da gravidade
e levitarei para poder continuar sobre ti.
Então, qual gaivota em busca de alimento no mar
mergulharei inteiro e quente
enquanto teu corpo firme e valente
dança a dança do amor
e se transmuda em pedaços de luar.
Tu és minha deusa
nessa cerimônia de amor
e eu, teu eterno escravo, mais uma vez, te saúdo.
Somos, agora, diferentes do que fomos há momentos
e a quietude se instala nessa ilusão.
Estamos plenos de nós
porque transcendemos os nossos corpos
e por uns momentos realizamos o sonho
de sermos apenas um.


(Do livro Eu Bebi a Lua – Ed. Bureau, Salvador, 1995)







Madona, Israel Scardua








CHAMBRE AVEC VUE PARA VALDELICE PINHEIRO


por Fabrício Brandão



Ouço a bossa francesa de Henri Salvador em minha “vitrola”. Os sons delicados e marcados por belíssimos arranjos parecem agora compor o cenário ideal da madrugada reinante a me atravessar. Por vezes, vislumbro em tal atitude o mundo visto de lado. Uma forma curiosa de enxergar além dos meus domínios, marcada por uma vontade pueril de estar em catarse de sentimentos. São tantos, aliás, que acabo pintando imagens soltas na escuridão como se vida própria tivessem e me ensinassem a lidar com a terapia de um meu silêncio necessário e pessoal.

Então, vou me deixando levar pelo exercício de apenas obedecer aos comandos do espírito iluminado. E por ter a consciência de que tais ímpetos não marcam hora para se abrigarem em mim, agarro a textura vibrante dos instantes e faço um ritual que não sabe o seu próprio fim. As mãos agora passeiam pelos livros na estante, reconhecendo em doses contemplativas a vontade de comunicação com outros mundos e seres. As marcas e o desejo que habitam o espaço onde me encontro apontam para a releitura incansável dos poemas da mulher em seus enigmas. E por acreditar plenamente na conjunção entre texto e vida pulsante, reconheço Valdelice Pinheiro, poeta grapiúna, de modos introspectivos, toques sensíveis, com seus dizeres precisos a me fazer companhia. Ela vem assim num lugar onde minha boca faz um pacto de só recitar o que os olhos e um coração maravilhados permitirem. Pretende ficar em minha memória com a condição de que seja através dos imperativos da suavidade. Meu Deus, quantas vezes precisei dessas palavras de ordem para aquietar a alma insone? Inúmeras, posso lembrar.

Não mais habito a escuridão agora, pois deito os olhos freneticamente sobre os versos da poeta. Percebo de forma curiosa o sentimento de proporções ilimitadas que fazia parte do processo criativo dela. Seus versos não cabiam apenas na arrumação gráfica e pontual visível a produzir os efeitos da poética, mas numa sensação de que o espaço físico do papel transcendia outras tantas vestes da alma. Então, tais ímpetos se transformavam na pictórica que complementava suas palavras. E o que vejo naqueles desenhos de Valdelice são outros poemas sendo construídos de forma inusitada. O incontido e o indefinível estavam ali pedindo para sair sem apontar rotas, apenas impelindo os leitores a buscar suas próprias veredas.

Trago os signos da poeta para me fazerem companhia nesta minha jornada, a qual nada mais é do que uma procura pelo sublime, pelo encantamento, pela paz renovadora. Quero ficar, sim! Não quero apenas passar! Quero permanecer firmando os espaços do sonho, chama que alimenta a vida. A beleza disso tudo é poder perceber quais são os usos ideais da liberdade. Aprende-se, em Valdelice, a entender que a missão de quem escreve, seja poeta ou não, é colocar lentes de aumento nas miudezas despercebidas da existência. Nesta perspectiva, leia-se o escritor como aquele alguém que ficou de sentinela na torrente do mundo e não se deixou esgotar por ela. Penso que até as adversidades carecem da inteireza de quem as narra, pois é assim que conseguem se perpetuar na lembrança humana.

Após devorar o alimento reconfortante dos versos, continuo vagando em torno dos espectros presentes nesse quarto. Têm ficado comigo os vestígios sentidos pela visão de Valdelice. Aliás, estes nunca me deixaram mesmo. Sei que dentro de mais um tempo sairei do meu transe espontâneo e tornarei ao cenário “real”. Tal como a impermanência de um adeus, partirei do nada ao nada apenas desejoso por um novo encontro.


( Os sentidos produzidos pela obra de Valdelice Pinheiro, poeta natural da cidade baiana de Itabuna, foram absorvidos através da leitura do livro Expressão Poética de Valdelice Pinheiro, organizado por Maria de Lourdes Netto Simões e publicado, no ano de 2002, pela Editora Editus)







Vila, Israel Scardua










JANELA POÉTICA (II)



GUERRA DA TERRA ALHEIA(*)

Affonso Romano de Sant’Anna



O povo que não tem pátria, patriota,
combate o povo que ontem
-nem pátria tinha.
E o fato é que o mais fraco
vai de novo pagando o pato
sem que se saiba ao certo
se o ovo nasceu primeiro
ou se, ao contrário, a galinha.

É isto fábula de rato e gato?
História de cordeiro e lobo?
De fato o povo que outrora
não tinha pátria
combateu em pátria alheia
para ter sua própria pátria.
Agora na pátria própria
combatem em alheia pátria
os que, sem pátria, combatem
prá ter, enfim pátria própria.

Não se sabe por que não podem
compartir a própria pátria
esses que compartem a pátria alheia.
São aranhas enredadas
no ódio da própria teia?
Por que não compartem terra
e céu, como as flores e pássaros
compartem a aldeia?

Há fim? Há princípio?
nesta história redonda e torta?
Por que não compartem a sorte
e a vida,esses compatriotas
do horror e morte? Além do mais
se há tanto tempo compartem a guerra
por que não podem compartir a paz?

*Poema escrito há mais de 20 anos e, infelizmente, atual.



(Affonso Romano de Sant’Anna é colaborador do Diversos Afins, além de escrever para os jornais Correio Braziliense e Estado de Minas. É autor de diversas obras, tais como A Mulher Madura (Editora Rocco, 1986) e Que fazer de Ezra Pound (Editora Imago, 2003)).









Blade Runner








CONTO




OS LIVROS E AS TRAÇAS

Bolívar Landi


Uma grande praga se abateu sobre a biblioteca. Milhares de traças a invadiram no inverno colocando em risco uma enorme quantidade de livros. As traças, embora não fossem ruins, precisavam se alimentar durante a longa estação.

Os livros aturdidos e diante do perigo iminente, convocaram uma estante de notáveis para encontrar uma solução. Logo depois, dirigiram-se às traças e propuseram:

-Não é justo que tenhamos todos que ser corroídos. Guardamos conhecimentos de grande importância! Escolheremos dentre nós alguns que vos serão entregues como alimento.

Às traças, importava apenas a sua sobrevivência e, sem hesitação, concordaram com o sugerido.

Os livros fizeram então uma audiência para decidir quais seriam sacrificados.

Os orgulhosos, de encadernamento luxuoso, sugeriram que os mais simples, de acabamento inferior, fossem oferecidos. Já os desprivilegiados de aspecto, ironizavam-lhes as belas formas, de conteúdo ordinário.

Os intelectuais sempre desdenharam das brochuras de entretenimento, não havendo para eles volumes mais inúteis. Em contrapartida, estes exaltavam sua capacidade de envolver e emocionar, criticando aqueles por sua tediosa arrogância.

Os novos consideravam os velhos ultrapassados, portanto, de pouco valor. Estes, por sua vez, condenavam a retórica impertinente e irresponsável dos novos, julgando-a de extremo perigo, que deveria ser eliminado.

Continuavam a discussão interminável, quando as traças, até então pacientes, começaram a atacar os livros indistintamente.

Ao fim do inverno, todos os livros haviam sido severamente danificados. Muitos dos seus longos textos foram completamente destruídos, à exceção de uma coleção de pequenos livros de sabedoria. Eles tinham chegado a um acordo com as traças. Elas seriam guiadas pelos livros e consumiriam apenas o que neles houvesse de menos importante. Foram-se as capas, as margens de cada página, os mínimos espaços vazios... E, assim, tiveram os pequenos livros o seu conteúdo preservado.

Moral: É sábio, cada um, um pouco ceder, para que todos possam sobreviver.



(Bolívar Landi é publicitário e colaborador do Diversos Afins)








Moça passeando, Israel Scardua






Apago a luz e sento diante do aparelho de TV para brincar de cinema.

A tela devora meus olhos. No filme, a imagem de River Phoenix me emociona. São detalhes subjetivos, mas em minha mente Phoenix e James Dean se misturam, são o mesmo na beleza, na vida vibrante, louca e meteórica.

Entro no filme e levo comigo a solidão do meu quarto, masturbo a minha carência me envolvendo com a ficção. Vejo Dean, ainda menino, diante de mim com um lápis e papel nas mãos, a voz infante e ainda fanhosa me pedindo “Desenha-me um carneiro”.

É difícil conter o sentimento que implode o meu peito e derrama os meus olhos. Meu pequeno James príncipe Phoenix, alienígena em meu planeta sonhando com uma flor.

Um porsche prateado passa por mim... Livre, veloz, mas não ouço o som do motor, mas sim a explosão do acidente e, em meio ao vermelho-sangue-fogo, o vejo subindo para o espaço envolto pela fumaça de volta para o seu asteróide.

- Boa viagem, menino, boa viagem!

O diretor grita “Corta!”. As luzes se apagam, a cena acaba, foi apenas outra seqüência, outro sonho, mas River Phoenix está morto.

Está morto, mas e daí? Foi tanta droga que não deu para suportar, e tudo é muito redundante. A droga é uma droga então é preciso fumar; a comida é uma droga e é preciso beber; o ar ficou uma droga então é preciso cheirar; a política também é uma droga, mas preciso votar.

Teu beijo é um pecado, menino! Mas como viver sem amar?

Por um instante esqueço o filme e me olho no espelho... Sou Exupéry sonhando com um menino. Estou nu, minhas mãos estão vazias, sou apenas um reflexo no espelho. Da TV vem a voz de River Phoenix, mas River Phoenix morreu.



(Luiz Felipe da Palma, o autor, sonhou um dia ser poeta, mas a vida lhe apresentou Maiakovski numa festa na casa de Garcia Lorca. Nasceu em Belém do Pará e um dia foi embora com um circo, dormiu nas areias da Praia do Futuro em Fortaleza, namorou uma poetisa de 80 anos na Paraíba (João Pessoa). Chegou em Vitória (ES) na boléia de um caminhão em 1998. Gosta de rock, mas não dispensa um bom Chico Buarque. Um dia vai morrer e depois reencarnar, como todo o mundo. Seus textos não possuem títulos, mas sempre começam em negrito – que poderia ser título – porque fazem parte de seus “Delírios” e estão contidos numa coletânea intitulada VIAGENS HOLOGRÁFICAS.)








JANELA POÉTICA (III)



EU SEI POR ONDE ANDA WALLY*

Fabrício Brandão


Vejo-te, poeta,
Quando desces o largo
De pedras calcadas pela expiação secular.
Abres o verbo,
O mesmo que te salta ao peito
Por entre o tecido floral que carregas.
Enquanto se atiras ao declive histórico,
Tuas mãos gesticulam
Da mesma forma como habitavas,
Outrora,
Entre nós.
Tens entre os dedos o substrato de nossas vidas
Traçado em linhas que se dispersam num tempo,
Espiral que gira e nos confunde.
Será que somos os mesmos?
No entanto, há ainda a boca que dispara
Abstraindo de tua afiada língua
As palavras que berras por entre os invisíveis.
Não somos mais os mesmos
E quando desta tua última visita
Saímos a buscar os sentimentos dos lugares.
De teu trunfo já posso me confortar
Como quem sempre soube os teus enigmas
E por mais que percorras
Estas vias de almas embutidas em pedras
Sei que nunca deste força ao abandono
Porque sempre tornas a esta cidade.

(*Para Wally Salomão)









Barco, Israel Scardua







MEANDROS LITERÁRIOS


VOCÊ SE ABILITA?

por Neuzamaria Kerner


Este texto não se propõe a ser uma resenha, análise literária, a fazer propaganda, nada disso. Apenas a comentar ligeiramente alguns dos escritos do Aparecido Raimundo de Souza, contidos em seus livros publicados: Quem se abilita? Com os chifres à Flor da Cabeça, As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir (Ed. Papel Virtual, Rio de Janeiro).

Este escritor paranaense, jornalista, advogado e mais um monte de coisas, aportou em Vitória do Espírito Santo e vive trilhando pelo mundo afora, numa vida meio cigana, saindo por aí tentando descomplicar o que é difícil de ser entendido: a própria vida e suas circunstâncias.

Leitor apaixonado, observador do mundo, um tanto solitário para, talvez, afastar a solidão que está nele e em todos nós. Ler e escrever, portanto, é um dos grandes prazeres da solidão, como diz Harold Bloom. Com irreverência, marca forte na sua obra, Aparecido nos faz ficar atentos à ironia e indignação que perpassam seus textos, quando escreve crônicas aparentemente “inocentes” e nos põe diante do espelho da vida, do cotidiano, por mais banal que possa parecer, mas que conduz - o leitor - a buscar empatia com a natureza dos seus escritos e com a própria natureza humana.

A leitura nos livros da presunção acadêmica, dos críticos ideólogos, longe das normas todas a que fomos acostumados a ter, deve seguir um padrão gramatical e palavreado específico. Não espere isso nos livros de Aparecido Raimundo de Souza porque seu texto requer do leitor uma habilidade para perceber as idéias opostas às dele e que, às vezes, geram um “conflito enriquecedor” numa leitura, que só depende de quem lê e que se abre para a transformação e esta tem sempre um caráter universal.

A ironia pode ter diversos significados na literatura, no entanto implica dizer algo cujo real significado pode ser diferente do conteúdo óbvio, chegando mesmo a sugerir o oposto do que é dito. Por esse motivo, estar aberto é perceber a sutileza que permeia um texto, que nunca é neutro, visto que somente um olhar atento pode ver e sentir a intencionalidade de quem o escreveu. Tudo o que é escrito passa pelo filtro de quem escreve. É uma parte de si que se desprende e vai ao encontro do leitor em sua auto-escuta, levando-o a desenvolver um eu autônomo.

À maneira de Gregório de Matos, ele, Aparecido, provoca, irrita, instiga, diverte e faz refletir sobre a natureza humana quando troca e inventa nomes, mexe com a mídia, com os artistas, com as vaidades, com textos canônicos, com os mais altos dignitários do poder, até com o Zé-ninguém que dobra uma esquina sem saber que está sendo notado. Tudo isso num palavreado que por vezes choca e, por outras, faz gozar os nossos ouvidos, ao falar de bundas, peitos, cacetes duros e tudo mais que se esconde sob o tapete da falsa moralidade, da hipocrisia.

Ele fala de gente como eu, como você, dele próprio e de coisas (des)interessantes como na crônica As Relíquias que não envelhecem. Confira alguns itens:

- As duas únicas fraldas de pano (na verdade, cueiros) usadas no nascimento do Menino Jesus, sendo certo que, enquanto uma era lavada e secada ao sol, a outra, Maria colocava na bunda da criança.

- Um casal de mosquitos Aedes Aegypti mumificados, passageiros da Arca de Noé.

- Cálamo feito de pena de galo que cantou após Pedro ter negado Cristo por três vezes.

- O camelo sobre o qual cavalgou a intrépida Rebeca quando partiu para desposar Isaque, bem como a cópia do contrato milionário desse animal com a Rede Globo, para atuar na novela ‘O Clone’.

- Calcinhas com figuras de reis tarados – cujo uso era costume entre as prostitutas de prestígio de Sodoma e Gomorra – muitas delas com cheiro forte de enxofre grudado no nylon.

- A última combinação, toda em seda, da Madre Teresa de Calcutá, usada antes dela ser beatificada por Roma.

- A certidão de óbito de Matusalém.

- As 30 moedas de prata que Judas recebeu pela venda do Filho do Homem e o depósito dessa quantia numa poupança da Caixa Econômica Federal.



(Além das obras citadas no texto acima, mais escritos do autor Aparecido Raimundo de Souza podem ser lidos em http://www.paralerepensar.com.br/aparecidoraimundo.htm )









Natureza morta, Israel Scardua










PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


por Fabrício Brandão


Durante os anos em que morei em Vitória, no Espírito Santo, conheci Israel Scardua, artista de alma sensível e que se revela de forma multifacetada em seus feitos. É professor de língua portuguesa há 17 anos, ator, cantor lírico e contador de histórias. Desde criança gostou de desenhar e de pintar. Autodidata nas artes plásticas, aprende observando, experimentando, estudando estéticas, assistindo a palestras e participando de discussões. Em seus quadros, usa carvão, pastel seco, aquarela, óleo, acrílica, lápis-de-cor e outros materiais. Explora temas como nus, sacros, paisagens, natureza morta, marinas, figuras humanas, retratos e outros. O próprio autor define sua obra como sendo marcada pelo academicismo ou por tendências impressionistas. O Diversos, além de realizar uma pequena exposição de algumas obras desse artista, aproveita a viagem e indaga Israel sobre questões pertinentes ao universo artístico.


DA -
Qual a crença que atravessa seu processo criativo?

ISRAEL -
A crença de que cada pincela é um pouco de mim, um pouco de minha sensibilidade, uma idéia um pouco panteísta, o criador em cada parte da criação. Mesmo nas releituras de pintores consagrados há um pouco de mim, de minha sensibilidade, um pouco do meu estilo. Comparo a releitura como um roteiro de cinema adaptado de uma obra literária.

DA -
Para a aparição visível dos contornos de suas obras, acreditas na existência da imagem pré-definida ou numa manifestação natural do algo surgido no instante em que se depara com a tela ainda vazia?

ISRAEL -
Geralmente me apaixono pela imagem e ela fica martelando em minha cabeça até que a pinto, se não a pintar dificilmente a esqueço. Fica aqui dentro pedindo para sair. Sou extremamente visual. Mesmo quando pinto um retrato não me prendo à foto ou ao modelo, visualizo-os e pinto-o com o olhar e a expressão de que gosto.

DA -
Percebo em suas obras a forte presença do sublime, de um algo bucólico, da representação suave de um mundo. Como definiria tais características frente a uma certa “desordem” pós-moderna na qual parecemos estar habituados a viver? Sua arte é um contraponto, um desejo de redenção?

ISRAEL -
Sim, a arte pode ser fuga, e a minha atividade artística revela fuga de minha vida agitada, corrida, numa cidade pequena, mas muito desorganizada e confusa. O trânsito, o consumismo, o trabalho, a corrida diária são substituídos por passeios ao ar livre, pescarias, cenas de mãe e filhos captados em momentos de carinho.

DA -
Em artigo publicado na Revista Continente Multicultural, o poeta Ferreira Gullar atiçou alguns ânimos ao questionar a consistência de obras de arte atuais decorrentes de uma tendência exibicionista, guardadas as devidas proporções já viciadas do termo. Segundo ele, este tipo de artista deixa de produzir um objeto em sua essência material para criar performances em cima de coisas já existentes, numa espécie de reorganização cênica. O que pensa dessa discussão?

ISRAEL - É um estilo, não me posiciono contra nenhuma tendência. Não vejo problema em reproduzir a essência material de um objeto nem em criar performances de coisas já existentes. Não acredito em arte que não seja liberdade. Sou atacado por críticos contemporâneos por ser acadêmico. Tenho liberdade de pintar o estilo de que gosto. Receio pela arte que está presa a estilo, a tendências de movimentos liderados por alguns artistas. As características que escolhem para os movimentos que lideram podem agradá-los, mas não quer dizer que vão me agradar também.

DA -
Citando nomes expressivos como os de Walter Benjamin e Umberto Eco, muito já se falou sobre a questão da existência de uma aura em torno dos feitos artísticos. Na sua opinião, de que é revestida verdadeiramente uma obra de arte?

ISRAEL -
A obra de arte é gerada, passa por uma gestação até nascer, é uma vida. Apego-me muito ao que pinto por isso fotografo tudo, dou nome, mostro. Há obras que não vendo. São de valor sentimental, há algo que impede receber dinheiro por elas.










UMA CANÇÃO



CHORO BANDIDO

Edu Lobo/Chico Buarque


Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu pra mim
Você nasceu pra mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons


(Canção feita para a peça O corsário do rei, de Augusto Boal)





Eletrodoméstica









ENCONTREI-TE, POETA DO CAMINHO!*


por Fabrício Brandão


Ela caminha pelos ventos litorâneos de um dia, sem saber que ali, logo adiante, topará com o atento observador Hélio Pólvora. Na cabeça, procura o mesmo rumo de sempre, a velha busca sublime que se mantém pela recriação de seu mundo desejoso de viver. Mas, o que seria viver para ela? Transformar em cotas seguras a afirmação material de uma estabilidade? Domar seu próprio gênio e aceitar as tempestades? Simplesmente viver para cultivar o amor dos seus? Construir o caminho possível, embora invisível ao turbilhão, que a leve a outra dimensão espacial?

Nada de se estranhar, mas a poeta prefere a última via sugerida. Então, internaliza a escolha antes mesmo de a figura do cronista, seu agora interlocutor, ganhar as devidas proporções de um questionamento. Eles conversam, ela fala de destinos, de vias projetadas pelo coração agitado, de fuga. Ele pergunta para onde. Ela responde imaginando algum lugar em nossa galáxia. Ele retruca sem a gana oposicionista, lívido, sereno e diz-lhe que seria melhor buscar o algo distante, pois o que temos às mãos anda já um tanto disputado pelas habituais pequenas batalhas da inquietude. Ela, então, reafirmando o que em sua alma já estava cristalizado, admite que o lugar é mais além. Depois, cada um segue os seus passos necessários.

Outro dia ela me telefonou. Mesmo depois de passados alguns anos daquele encontro com Hélio, percebo que ela ainda vislumbra a estrela distante. Falamos demoradamente sobre tantas coisas, apelos da palavra mesmo. Disse-me que iria ao Rio de Janeiro rever uma amiga, energizar-se, meditar em si mesma. Achei bacana a idéia e fui mais além quando sugeri que fizesse o exercício de sentar nas pedras do Arpoador e escrever um poema. A proposta me soou algo semelhante à busca perene da poeta, matéria-prima de um novo mundo. Os cenários vistos em seu encontro com o cronista e a minha sugestão de agora se situam paralelos a um universo eternamente em expansão. Ele se confunde com a visão das águas à beira-mar, à infinitude mesma do oceano.

Neste exato instante, não sei ao certo o que ela fez daquele convite. Talvez tenha visitado um novo ambiente e produzido um poema talhado em letras garrafais dentro da própria alma. Tudo o que sei é que jamais estará presa dentro daquela crônica de Hélio Pólvora, mas sim contida ali, dando significância às esperas do porvir. Relembro o seu Eppur si muove, a história que deve seguir sem, no entanto, negligenciar o presente. Sigamos, então, poeta, sem rolar a pedra de Sísifo ladeira acima. Melhor seria desejar de nossa fuga apenas o gosto da liberdade traduzida nestas águas renovadoras que agora molham nossos pés.

(*Para Neuzamaria Kerner)







UNIVERSO MUSICAL (I)



XANGAI: SUA VOZ, SUA MÚSICA(LIDADE)

por Neuzamaria Kerner


Foi assim que aconteceu: ele viu um anjo violeiro encantado que lhe pôs um encanto, ele pegou uma ponga e de canto em canto, vive a cantar. Tudo isso aconteceu lá em Itapebi, (Bahia) no córrego do Jundiá. Foi assim mesmo! Imagine um menino pegando carona com um anjo, ao meio dia, sol a pino, e lá do alto cantando sobre os rios da região. Tudo parou para ouvir. Os pés de cacau se curvaram silentes, os córregos todos pararam de banhar as pedras, as pessoas até pensaram que era o Deus-menino chegando de volta tal a força da sua musicalidade, tal a reverência de todos os seres encantados que habitavam aquele lugar. Tio Jani, seu pai, saiu correndo, pegou o pé-de-bode de 8 baixos, tocou bem alegre o xote Mariá ao ver a profecia se cumprir: era a voz de seu filho começando a se espalhar pelo mundo, como mais uma manifestação do sagrado.

Assim como a religião, a música é um fenômeno universal e não houve um ser humano, desde que o mundo é mundo, que não fizesse suas louvações à vida, cantando. Ninguém melhor do que o artista pode louvar com tanto sentimento as coisas da vida e as tornar acessíveis aos demais humanos o espetáculo de ver o fogo de Prometeu que nos incendeia permanentemente e não nos damos conta. O artista nos arregala o olhar para vermos o que já existe como se fosse a vez primeira.

Ao cantar – ou compor - Xangai recolhe a sonoridade do mundo e reinventa a música, como se ela nunca tivesse existido e, de novo, é Prometeu ao repartir conosco o fogo da sua voz, uma obra de arte, que nos arrebata inteiramente produzindo em nós o sentimento do sublime.

Infelizmente há pouca gente preocupada em “sentir” a música porque a indústria cultural aderiu totalmente à “teoria hipodérmica” que tudo massifica para consumo rápido no mercado, exigência do capitalismo, ao desvalorizar a arte e fazendo-a correr o risco de perder sua essência e três de suas características principais: “de expressivas, tornarem-se repetitivas; de trabalho de criação, tornarem-se eventos para consumo; de experimentação do novo, tornarem-se consagração do consagrado pela moda e pelo consumo.” Isso é a modernidade! Que pena!

Xangai (e outros) fugiu dessa massificação, não se rendeu e nem se vendeu. Tem o seu público que o idolatra pela sua forma de cantar, pela temática que usa nas suas cantorias, pela poesia que tira da terra seca e espalha sobre nossas cabeças como pó de pirlimpimpim que nos une ao cosmo no seu magnífico concerto.

De repente fico pensando que o Gênesis deveria começar assim:
no início era o silêncio absoluto e a voz de Xangai habitou em nós, transformando o calado em canto e este gerando a luz.

Deus viu que era bom e aprovou!





Neuzamaria Kerner e Xangai





BARDO VIOLEIRO
(a Eugênio XANGAI Avelino)

Neuzamaria Kerner



Toma tua viola, ó bardo,
e canta coisas
que nos tocam o coração.
louva o amor
e as donzelas que suspiram
ao teu passar.
Fala da vida que palpita
no compasso do teu peito
e canta, canta
do teu jeito de encantar.
Fala do cheiro da terra em cio,
da chuva que veio
e da que não veio também.
Fala do sol que abrasa e racha o chão
e do céu que abraça as musas
reclusas em teu coração.
Canta qual madrugador
que sopra onde quer
levando ao mundo tuas cantigas de amar.
Canta, ó bardo violeiro,
que as portas do sétimo céu
para todos se abrirão
e no fogo da tua canção
será a alma do mundo purificada.
E a vida que sem música era nada
a música em tua viola, finalmente, será vida.








DROPS DA SÉTIMA ARTE

por Fabrício Brandão




Eletrodoméstica. Brasil. 2005.


A produção cinematográfica do Recife vem se destacando cada vez mais. Uma confirmação dessa boa fase está no curta-metragem Eletrodoméstica. Neste filme, o diretor Kleber Mendonça Filho explora de uma forma bem curiosa as várias faces de uma dona-de-casa em seus afazeres domésticos. A protagonista é mostrada como um alguém que possui uma relação algo fetichista com todos os seus aparelhos eletrodomésticos. Não há atividade a ser feita em sua casa que deixe de utilizar o seu aparato. Mas, poderia dizer que não é o aspecto da dependência tecnológica o ponto forte do filme, e sim a bela construção tempo-emoção vista no comportamento da personagem. O que se vê é uma mulher num diálogo consigo mesma, moldando sua rotina através da funcionalidade dos aparelhos. Há esse desenho próprio de emoções, expressões, algo contido naquela pessoa que aguarda o término de mais um ciclo automático de coisas. Interessante também é uma espécie de sincronia onde quem marca o ritmo das sensações e da montagem é o barulho dos eletrodomésticos. A mulher eletrodoméstica é aquela que dilui sua solidão e seus impulsos dando vida ao inanimado. Um grande filme e, certamente, mais uma leitura possível para as coisas aparentemente simples do cotidiano.


(Eletrodoméstica pode ser visto pelo site www.portacurtas.com.br)



Blade Runner (O Caçador de Andróides). EUA. 1982.


Mais do que uma tentativa de antevisão futurista, Blade Runner é um emblema da condição humana no que se refere à memória. Dirigido por Ridley Scott, o filme se ambienta na Los Angeles de 2019, onde Deckard, policial interpretado por Harrison Ford, recebe como tarefa a missão de eliminar seis andróides(replicantes) aparentemente bastante semelhantes aos humanos e dotados de habilidades militares. Por trás da bela trilha sonora composta por Vangelis, a cidade futurista é caracterizada pelos apelos imagéticos onde são vistos painéis publicitários de afirmação do poderio das grandes corporações, imensos prédios, aglomeração urbana excessiva, poluição em todos os níveis e baixa qualidade de vida. Nesse contexto, a caça aos replicantes aparece atravessada por questões bastante interessantes. Uma delas se refere ao fato de alguns andróides, como é o caso de Roy, interpretado por Rutger Hauer, exprimirem uma reflexão, ao nível do humano, sobre as experiências vividas em sua existência. No mosaico cosmopolita que povoa a atmosfera da obra, vemos também uma certa incapacidade dos seres de construírem sua própria referência do passado. Tudo parece um tanto perdido e a memória aparenta só existir naquilo que é registrado em fotografias. Aqui, é possível ter uma sensação semelhante ao ambiente imaginado por Chico Buarque em sua Futuros Amantes, onde imperam vestígios de um algo guardado cuja revelação se projeta para um tempo incerto. Trazendo para os nossos dias de louca e incômoda pós-modernidade, fica um questionamento, o de saber se tudo o que vivemos não passa de uma farsa, um simulacro onde os possíveis lugares reais não passam de meros pastiches.








Pescador, Israel Scardua






JANELA POÉTICA (IV)



AS PARTES NA MATEMÁTICA DAS EMOÇÕES
(para Maria Angélica Pedrini Cuzzuol)

Neuzamaria Kerner



Além das metades
terços e quartos
pedaços pequenos
com os quais lidamos nos dias.

Metades terços quartos
e os mais e os menos
dos nossos e dos outros.

Pedaços matemáticos
das emoções todas
que na “média ponderada”
se impõe a razão.

No resultado final
a palavra
Solução
veste a roupa da
Esperança
e a vida vai se depurando...
inteiramente
governadamente
matematicamente.









UNIVERSO MUSICAL (II)



A OUTRA CARA DA BOSSA

por Fabrício Brandão



Composto em sua essência pelo trio de músicos Márcio Menescal, Alexandre Moreira e o Dj Marcelinho da Lua, o grupo Bossacucanova reúne elementos que constroem outras possibilidades para a MPB. Trata-se de um mix cuja base vem das raízes da Bossa Nova e que se acopla a ritmos muito bem dosados pela música eletrônica e pela dance music. Essa mistura, além de produzir uma batida bastante interessante e bem típica das feições dançantes modernas, consegue preservar o sotaque da Bossa tradicional. Com três discos gravados, o grupo empresta seus olhares a canções que, em sua maioria, são do período áureo daquele movimento.


Bossacucanova


Há um quê de experimentação presente em algumas de suas músicas. Exemplo disso é o que pode ser ouvido na faixa Bom-dia Rio, que faz parte do último álbum do grupo, Uma Batida Diferente. Nesta canção, além da bela voz de Cris Delano, cantora que marca presença em vários trabalhos da banda, pode-se ouvir a voz sampleada de Roberto Menescal num depoimento sobre a Bossa Nova. O próprio Menescal, que é um ícone bossanovista, aparece como um parceiro constante do Bossacucanova, principalmente no disco Brasilidade. Outros tantos artistas como Marcos Valle, Simoninha, Adriana Calcanhoto e o talentoso Celso Fonseca contribuem para essa fusão de estilos que servem para reforçar o bom gosto desse repertório. Para quem acredita que coisas boas podem ser transformadas em outras de igual valor, vale a pena prestar atenção no trabalho desse trio.


(Detalhes sobre o grupo podem ser vistos no site: www.bossacucanova.com)







JANELA POÉTICA (V)


LEMBRA, CORPO...

Konstantinos Kaváfis


Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
Agora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.


(Extraído do livro Poemas, Editora Nova Fronteira, tradução de José Paulo Paes)

 
publicado por Fabrício Brandão
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