31 de dez de 2010,23:00
QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA LEVA





Klimtkaminskiano
Pintura: Ana Luisa Kaminski





CICERONEANDO


2010 desferiu seus últimos golpes. Junto com ele, homens, mesmo sem querer, realizaram suas inscrições no misterioso livro da existência. Recompensa saber que arte e vida são elementos indissociáveis, afeitos ao desafio das complementaridades. Cada linha, verso, imagem ou traço traz em si fragmentos recheados de vontades, projeções, devaneios, quiçá também extrapolações pouco prováveis de se materializar na prática. E há até mesmo a relatividade do real expandindo-se de modo intermitente naquilo que é pensado como puramente ficcional. Por isso, somos movidos pela força incontestável das múltiplas razões. Por isso, inquietamo-nos com nossas revoluções internas e necessitamos expelir tudo, ou quase tudo, em forma de epifanias mil. A arte, guardadas as devidas peculiaridades dos seus mais variados tentáculos, abraça certo poder de revelação e nos conduz ao exercício do questionamento. Daí, certa dose salutar de inconformismo a perseguir criações e seus incertos rumos. Antes de tudo, é muito bom sabermo-nos imperfeitos e limitados, prenhes de alcançar o desconhecido de nós mesmos. Talvez, então, isso promova a expansão decidida de realizações. Estendendo tal perspectiva, a Diversos Afins fecha um ciclo contemplando a passagem de seus atores de agora. Gente que, por seus versos, atravessa os dias com lirismo, como em Rita Santana, Marcilio Medeiros, Adrianna Coelho, Piligra, Luís Serra, Lílian Maial e Rubén Vedovaldi. Entrecortando os caminhos de prosa e poesia, vislumbramos a expressão telúrica e mística presente nas telas da artista plástica Ana Luisa Kaminski. A atmosfera dos contos de Adelaide Amorim, Juliana Gola e Nelson Alexandre sabe de hesitações e desvios da condição humana. Falando um pouco sobre o olhar documental que povoa suas imagens, o fotógrafo Ricardo Sena nos concede uma entrevista na qual pontua suas impressões em torno do ato especial de registrar pessoas e lugares. Com escutas bem abertas, Larissa Mendes nos apresenta o disco de estreia do multifacetado Marcelo Jeneci, artista que simboliza a renovada face de nossa MPB. A 52ª Leva assinala o término de um ano significativo de feitos. E não há maior recompensa do que teimar por essa estrada chamada cultura. A você, caro leitor, nossos mais sinceros agradecimentos pela valiosa cumplicidade que se prolonga no tempo e no espaço!



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.



JANELA POÉTICA (I)


BÊNÇÃO

Rita Santana


Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,

E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!

Posso despregar o afeto como macho cansado faz,

Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,

Sou mulher de agora, de hoje,

Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.

Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.

Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.

Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.

Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,

Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.

Endoideço alguns dias porque virá a sangria

E entrarei no templo das penitências,

Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,

Minha veemência é minha mordaça,

Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,

Senhora de um Deus-homem.

Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,

Essências de nomes, dores, fantasias.

Desacato porque sou poeta.

Tenho língua de fontelas, hildas.

Sou muito brava para donos

E afeita a clamores de desprotegidos.

Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.

Sou rata e rainha.



(A escritora baiana Rita Santana é poeta, contista e atriz. Graduada em Letras, especializou-se em Historia Social e Cultura Afro-Brasileira. Dentre suas obras publicadas estão “Tramela” (livro de contos editado pela Fundação Casa de Jorge Amado e que recebeu o Prêmio Braskem de Literatura 2004) e “Tratado das Veias” (poemas – Ed. As Letras da Bahia – FUNCEB – 2006))





Anja Rosa
Pintura: Ana Luisa Kaminski






EXERCÍCIO DA NOITE

Adelaide Amorim


Os longos pés de capim acompanhando a estrada do lado direito refletem um pouco da luz dos faróis. Fantasmagórico. À beira da estrada, imbatíveis muralhas. A vista da Barra iluminada em colares de lâmpadas, luzes enfileiradas, isoladas no meio de uma escuridão que de longe parece uma poça, o recorte da avenida reinventado. Tudo visto de longe fica desprezível. Percepção – pensou –, percepção é tudo – e uma espécie de coro infantil em sustenido bem agudo espoca em sua cabeça. O engulho de silêncio desmorona, interrompido de chofre como por um acesso de soluços. Amanhã começo uma nova tela. Amanhã começo uma outra vida. Amanhã viro outra pessoa e deixo de me arrastar miseravelmente em dependências. Vou voar amanhã. Volto o rosto para fora e mergulho na noite, vento na pele secando os lábios, incomodando nos olhos. Abrir-se para a estrada como quem toma um novo rumo antes do amanhecer, bem cedinho ainda escuro. Embalagem de presente, presente para mim que chega amanhã, que abro amanhã de manhã. Impossível ver através do papel de embrulho, mas é minha nova vida embrulhada em treva. Nenhum prodígio é possível aqui e agora. Nem tarô nem mapa astral. Tudo aqui e agora. Ai, que aperto no esterno, garganta em nó. Nem sequer posso dizer o que sou enquanto viajo a seu lado, e meu crânio pode explodir a qualquer momento e sujar o carro todo. “Tá com sono?” Você, desinteressado. “Já estive”, eu, enigmática.

Rio em silêncio sem mexer a boca. Rio dentro do plexo, do ventre à garganta. Toda direção não escolhida é um descaminho: podia ser outra, não podia? Então não é outro caminho, mas o caminho escolhido. Que se abre como uma serpente luminosa no obscuro caminho, agora prestes a clarear. Todo dia arrematado é um dia a menos. O primeiro dia do resto – se deixar que o mundo dirija meus passos, o que será de mim? Serei outra em vez de ser eu mesma? E o que tenho sido até aqui? A secretária de meu antigo chefe escrevia frases feitas com letra de freira foragida do convento. Hipertireoidiana, olhos esbugalhados e riso histérico. O primeiro dia do resto de quê? – pensamento corroído, gasta sola de sapato muito usado. O que todo mundo sabe – e como dói saber: não é a minha vida, não é a vida dela, é a vida que nos deixam viver, filosofia barata de botequim.

“Que que aconteceu?” “Nada, até aqui não aconteceu nada.” Olhar de esguelha. “Cê tá calada. Fala alguma coisa aí.” “Então para aí um pouco.” “Pra quê?” Escolhi um terreno que não é aquele que me ofereceram. Capino o terreno que escolhi, pronto. Só cresce aqui o que eu quero e nem olho para os lados. Chegamos ao ponto em que falar ficou inútil, tanto nos embrenhamos no irremediável. Meus pecados prescreveram num azul distante de montanha, e agora preciso de pecados novos. Por algum tempo flutuei salva e bem-aventurada, mas não dava para aguentar. Acordei balançando numa rede sobre o abismo. Já não há montanhas à vista e achei melhor descer arduamente ao plano, à garganta. Estreito. Caminho para a terra firme do vale que é onde gosto de viver. Não há leite morno que me salve da escuridão da noite.

Agora havia dores de parto na noite escura, mas eram dores provisórias como todas as dores de parto, definitivas como todo parto e seu produto. Como quero bem a mim, não posso querer bem a você que não é eu e quer me converter em você. Tentei mostrar, insinuei, expliquei com riqueza de detalhes e gritei até ficar rouca. E agora isso: “mas por quê?” Se ao menos você pudesse, talvez também eu pudesse – mas é melhor esquecer. Teus planos só me incluem se eu for você e é nisso que você me aterroriza. Cabe alguém além de você mesmo nesses planos? A resposta tem por base repetidas experiências em que as variáveis foram mantidas e que se prolongaram por uma e meia década: só quem se dispuser a ser sugado, parasitado e extinto na forte correnteza de um mundo alheio, alienante, alien. Ainda por cima com prazer. Mas com prazer todo mundo sabe o preço.

Capim busca o céu, coisa ordinária em exercício de alongamento, empertigadas criaturas sem nome. Criaturas sem nome podem ser felizes? Sofrem além da sede? O desprezo não as atinge, nem isso podem sofrer, por mais que se alonguem: a limitada liberdade de se alongar, e é só. Não veem nem ouvem nem vibram nem choram. Às vezes penso que tudo, mas tudo mesmo, até as bactérias e os protozoários, são a seu modo réplicas do homem. Alguém já pensou e disse isso, não me lembro quem. Micróbios de bigode, camarões falantes, fibras lenhosas sentimentais, pedras que riem de rolar. Eu nunca feliz contigo. Uma pedra teria sido mais. Um capim teria se alongado sem problemas a teu lado e nem ia querer ser percebido em sua liberdade de capim. Quando pensei que era livre caiu na minha frente uma figura desprezível que ainda não conhecia: era eu diante de um espelho assustado. Mas – como? – enquanto dentro das moitas até bichos noturnos orquestram suas vidinhas. Antigamente eles eram parte de um concerto glorioso, fundo musical sem maiores implicações. Depois que descobri o que sou, só amanhã vou saber como ficam os bichos da noite e os do dia, os de perto e os de longe em sua natureza de bichos. Há uma diferença entre fruir as vozes da noite e se fundir com elas. Me percebi em diluição.

Amanhã começa outra vida. Uma vida que rói as vísceras, uma ansiedade florindo em redoma. A noite veloz só anuncia: coisas novas chegam amanhã. Como será te deixar para trás? Como será deixar de doer assim caladamente e passar a doer em liberdade rasgada, e colocar-me no meio da noite como quem tem um lugar escolhido? Como será estar onde se deseja? Será que se consome alguma porção de desejo por isso? Será que brota desejo em terra mais fértil? A vida se adianta como miragem e renasce sempre mais adiante. Talvez descubra que chegou o fim e não haja mais nada a desejar, e poderei enfim viver de minha própria carne. Mil vezes já passou esta noite. Mil vezes ela foi ensaiada em desespero e paciência e agora irrompe diante de mim e me deixa calada de saciedade. Um pouco de temor do desconhecido, é verdade. Uma felicidade corrosiva e difícil. Como será recomeçar o que nem se conheceu? Minha vida é uma trama oriental de muitos tapetes e você me ajudou a tecer esses fios de tantos tons, tantas agonias como grandes estofados bizantinos num palazzo veneziano alagado de medo. Não me apresento bobamente para tua aprovação, não fujo como em outro tempo e também não suspiro por você. Não te consulto – eis a grande novidade. Estou em outra dimensão da vida, uma dimensão que você não conhece e não está autorizado a frequentar. Agora preparo mosaicos em imensos painéis que podem se animar a qualquer momento e preencher o céu com seus desenhos sem utilidade prática. Posso me dar ao luxo. Não faço mais o que você quer: faço e pronto, faço o que faço sem razão nenhuma que não venha de meu próprio desejo. A glória que você podia me oferecer é uma grande morte com que não conto. Vou voar em outra direção, talvez na direção do capim que se alonga, e minha imagem vai renascer disso. Ainda não conheço todas as imagens de meus painéis. O resto se abre como um céu desconhecido, inequívoco céu porque você não está nele.

Estradas esquecidas que o carro desperta, luzes caladas que se realizam, estados casuais, verdadeiros, sem nenhum esforço ou discussão. Vive-se bem assim. Estados lassos, sonolentos que passam velozes, quase sem tempo. Apercepções, quero experimentar isso, ter tempo para experimentar. Pressentimentos noturnos como flores invisíveis de copas muito altas. Como você é fútil. Pensa que sabe tudo. Pensa que já decidiu o destino do mundo e não tem sequer os diagnósticos porque o espaço é pouco para o mundo e você. Mesmo que tudo volte sempre incontavelmente, terá havido o toque, a mudança primordial do nascimento.

Alguém vigia, há vida lá fora: um cão de guarda está prestes a atacar. Sua cólera se adiou até o limite. Um golpe traiçoeiro derrubou o dono da noite. Amanhã é mesmo outro dia. “Tá com enxaqueca outra vez?” Meu riso explode, escapa escandaloso. Pequeno gesto de reprovação: “que boba”, você diz. “Que que você tem na cabeça?”


(Adelaide Amorim confessa: A vida é parecida com férias na praia - você passa uns dias impecáveis, perfeitos, de sol e céu azul, águas mansas e noites estreladas, e logo chegam vento e chuva, a temperatura cai e você tem que correr pra comprar os agasalhos que nem pensou em pôr na mala. O que salva as férias é nunca ter agasalhos na mala)






Nu Feminino no Lilás
Pintura: Ana Luisa Kaminski





JANELA POÉTICA (II)


MÓBILE

Marcilio Medeiros


areias seguem calcanhares
nômades anônimos

ampulheta fraturada

pela direção dos ventos
levados refazendo-se


é dia pela claridade

grãos que caminham

retirando os passos



(Marcilio Medeiros nasceu em Caicó, ficou trinta anos no Recife e atualmente mora em Aracaju. É bacharel em direito e letras, com especialização e mestrado em administração, área em que atua. É poeta, ator e produtor cultural. Tem publicado A Pulsação Repleta (Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 1998))






DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Fabrício Brandão


José e Pilar. Espanha/Portugal/Brasil. 2010.



Nalguns momentos, talvez esteja na plateia de um cinema aquilo que José Saramago mais detestava nos seus últimos dias aqui na Terra: doses descabidas de tietagem. Na sala de projeção onde pude assistir ao documentário sobre a intimidade do célebre autor lusitano e sua companheira, Pilar Del Rio, tal sensação pairava por entre as reações do público. Aos poucos, risos descontrolados mostravam sinais exagerados de aprovação a toda e qualquer frase ou tirada exprimida pelos personagens. Se há, por óbvio, admiração aos ideais pregados pelo escritor em seu tom apocalíptico e por vezes cético, nada justifica tamanho fanatismo a exalar aprovações pretensamente intelectuais, como se tudo fosse divino e maravilhoso.

Mas qual a razão de mexer nesses lugares? Justamente a provocação maior contida na película, qual seja a de pensar de modo incisivo o papel do público face à importância de seus ícones. Diga-se de passagem, José e Pilar retrata o vigor especial de uma relação homem/mulher que enaltece o resultado das complementaridades. Ele, autor consagrado e prêmio Nobel de Literatura, habitante do mundo das ideias. Ela, jornalista, ativista política, dotada de um pragmatismo eficaz. Ambos mostrados numa sucessão de dias que sabem a rotinas familiares, viagens internacionais extenuantes para compromissos literários e uma dose intensa de reflexão filosófica sobre a existência. A figura de Saramago, apartada do domínio secular do sagrado, constrói a representação de um alguém profundamente crente no homem e no papel que este possui de transformar as coisas ao seu redor. E talvez aí esteja o ponto importante contido no filme e que consolida a base do pensamento do escritor. Mesmo com todo pessimismo peculiar a ele, nos é mostrado um Saramago repleto de tiradas irônicas e espirituosas.

Aos poucos, mais do que exibir o que está impregnado no cotidiano do casal, o diretor português Miguel Gonçalves Mendes consegue fazer com que a sua câmera testemunhe a tudo sem interferir na ordem natural das coisas. Foram cerca de 4 anos de filmagens e o trunfo de tudo isso é podermos ver a gênese e publicação do livro “A viagem do elefante”, em cujo processo de escrita percebemos um Saramago “obcecado” por sua conclusão, sobretudo em face de complicações de saúde.

A residência do casal, situada na pequena ilha de Lanzarote, é pano de fundo de um filme que se revela grandioso por sua delicadeza, sua capacidade de nos mostrar quão terna pode ser a forma como encaramos nossas sinas. Aqui, chega a ser impressionante a maneira como o diretor conquista a cumplicidade de Pilar Del Rio e José Saramago, sem extraviar-lhes a original condução de sua rotina. Talvez por isso o filme transcorra num tom sereno, revelando-nos pequenos, porém valiosos, detalhes de duas vidas apaixonadas. Por trás do mito, fundem-se carne e osso, e tudo pode, de fato, ser contado de um modo diferente.





Mulheres Musicais
Pintura: Ana Luisa Kaminski








JANELA POÉTICA (III)



MERGULHO

Adrianna Coelho



na hora esquiva
das águas apurando
dias em ilhas alheias
ao sal me conservo

dentro dos ossos

experimentando

o nascimento de asas
translúcidas
e voo pássaro


o bico aponta

meu peito

e ronda meu corpo

mergulhado

em acasos

de peixes e sargaços


e eu

raramente em mim

concha adversa

me fecho

nessa mudez

que pesca o verso



(Adrianna Coelho, nasci em 1969, no Rio de Janeiro. Escrevo para recriar meus olhares e modos de ser, pensar e interpretar o mundo e a vida, encontrar as palavras possíveis e aquecê-las por dentro. Revelo isso no poema Desiderato: Tenho a urgência dos incêndios / em meus poemas / Amo os versos que não posso / e ardem. A poesia traduz a minha busca incessante pela Metáfora)




Borboleta Azul Musical
Pintura: Ana Luisa Kaminski




tem um martelo martelando a cabeça por dentro


Juliana Gola



o rosto vai envelhecendo sem idade, a pele deixando nascerem marcas e vermelhões. tanto desgaste recai sobre as características físicas. também. correndo não se chega, parado não se anda, andando não se aguenta. o cabelo cai, as unhas doem, a barriga amolece. não é uma questão de idade, é a auto explosão refletindo. e somando. é também a explosão que vem de fora. quadrada. as pernas vão cansando, os olhos caindo, os lábios tampando o que nem os dedos mais escrevem. não se arreganham mais as palavras. não se soltam mais os sentimentos. mal nascem. definhar é também isso: deslocar as belezas pra bem longe. em todos os sentidos. de todos os sentidos. o vidro nem sempre quebra por inteiro. vai deixando os cacos pelo caminho. parecendo poesia. imitando drama. querendo ser apenas ficção.



(Formada em jornalismo, no sentido burocrático da coisa. A formação, que comanda mesmo, a que está sempre em movimento, me veio, e ainda vem, pela literatura, com respingos do cinema, da música e das mais inusitadas formas de expressão. A não-expressão corre junto. Escrever foi só um jeito que eu descobri de não sufocar, o resto é cotidiano)







Borboleta Tempo
Pintura: Ana Luisa Kaminski





JANELA POÉTICA (IV)


CONCEPÇÃO

Piligra

Para Graciene, Bárbara e Elisandra


eu já concebo o verso assim metrificado

como arquiteto que planeja um edifício

na exatidão do prumo reto e equilibrado

sem perguntar se isto é fácil ou é difícil!


eu já concebo a rima assim – intercalada,

numa urdidura trabalhosa e singular –
puxando o fio de cada sílaba marcada
pelo tecido de uma métrica “sem par”!


eu já concebo o meu soneto alexandrino

(como a matriz de uma equação vetorial)

fazendo cálculo semântico e verbal,

com meu compasso atrapalhado de menino!

eu já concebo o poema ornamental

como operário que dá forma ao que é divino!


(Lourival Pereira Piligra Júnior nasceu em Itabuna – BA. É professor universitário com Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. Publicou “Fractais” (1996). Venceu o prêmio Bahia de Todas as Letras (edição 2009), na categoria Literatura de Cordel)





Violoncelista Alizarim
Pintura: Ana Luisa Kaminski





PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Um olhar sobre a existência requer, acima de tudo, coerência de propósitos, fazendo com que seres e lugares sejam representados em toda sua genuinidade. No trato com pessoas, a missão de um fotógrafo leva em conta a permanência dos dias alheios, seu ciclo constante de ações e epifanias particulares. Sob este convívio, opera-se o que há de mais belo e valioso no trabalho daquele profissional: o estabelecer de um pacto que respeita culturas e visões de mundo, deixando-lhes mostrar toda a tez de sua naturalidade. A expressão contida no trabalho do fotógrafo baiano Ricardo Sena comunga desse mecanismo delicado de observações. Seus registros chamam bastante atenção pelo tom marcantemente documental que atravessa as imagens. Neles, somos convidados a perceber que os personagens captados, mais do que meros atores de uma composição cênica viva e real, inscrevem na luz dos dias o teor de suas sinas pessoais.

Com uma trajetória profissional que compreende 13 anos, Ricardo traz à tona como mote de seu trabalho a temática da interação do homem com o meio circundante. Adepto de uma perspectiva antropológica e que culmina numa fotografia de bases humanistas, seus olhares revelam traços do cotidiano de populações ribeirinhas, comunidades sertanejas, garimpos de diamante, pequenos vilarejos e outros tantos recantos populares brasileiros. Tais registros exprimem de maneira especial uma poesia que se abriga em gestos e modos desconhecidos por nossas apressadas e metropolitanas visões. Nessa entrevista, Ricardo Sena nos fala um pouco sobre sua vivência com a fotografia, sobretudo dentro da perspectiva honesta e preciosa de retratar certas paisagens humanas.


Ricardo Sena
Autorretrato


DA - Seu olhar fotográfico confere um lugar bastante especial ao caráter documental dos registros. Como foi que tal perspectiva ganhou corpo em seu trabalho?

RICARDO SENA - Não tenho restrições às expressões que a fotografia pode assumir, contudo reconheço que as que me trazem maior realização são os trabalhos que focam o elemento humano e a sua relação com o seu mundo. Nesse sentido, o documental se encaixa bem, mas deixo claro que isso é apenas o resultado não o propósito da fotografia que realizo, que é o de buscar a interação com as pessoas nas suas culturas e expressões variadas, tal qual como se apresentam. De modo geral, busco sempre a realização da fotografia documental, pois permite contar uma história, um aprofundamento. Você analisa um todo e não apenas um fragmento isoladamente. Nesse contexto, acho que ganha mais valor o conjunto da obra.

A Fotografia me levou a isso (como se ela tivesse vida, acho que tem). Comecei na fotografia de natureza. Depois percebi que nessa mesma natureza existia o homem exercendo uma simbiose com o meio e, portanto, para um trabalho mais completo e rico, não poderíamos concebê-la de forma desassociada – natureza de um lado e o homem de outro. Percebi o quão interessantes e ricas eram as pessoas que habitam esses lugares, os seus costumes e o que elas teriam para nos ensinar.


DA - Há um viés antropológico bastante intenso em suas imagens, sobretudo quando podemos perceber o retratar sensível da interação do homem com o seu meio. O que é mais importante nesse tipo de observação?

RICARDO SENA - Sempre busco estudar aonde vou, quais os costumes do grupo que vou fotografar, como se relacionam e interagem com o meio. Embora, apesar de ir com um “pacote de informações”, entendo que o mais importante é o exercício de despir-se dos conceitos pré-estabelecidos e observar com um olhar de aprendiz. Para isso, é importante entrar no ritmo deles, se possível vivenciar a sua rotina, sempre de forma respeitosa e dando atenção aos seus costumes e de como veem o mundo. Isso não é nada fácil, mas quando desenvolvemos esse método, o resultado fica mais verdadeiro. Sem dúvida, podemos realizar um trabalho já partindo de um conceito formado, mas creio que, quando estamos com a mente aberta, o olhar vai junto, o trabalho fica mais isento e a satisfação pelo resultado é maior.

Busco sempre retratar as pessoas com a máxima dignidade possível, por mais simples que seja o lugar, ou por mais limitada ou restrita a vida de um grupo ou quão divergentes sejam as suas convicções em relação às minhas. Não vejo nenhum problema, pois sempre coloco o respeito em primeiro plano.


DA - Você tem promovido verdadeiras incursões pelo interior do país, algo que chama atenção pela riqueza de expressões captadas. O fotógrafo, enquanto elemento estranho a uma determinada cultura, acaba desenvolvendo um pacto com as pessoas dos lugares por onde passa. Como fazer para que as interferências e convicções pessoais não causem uma ruptura na ordem natural das coisas?

RICARDO SENA - Interessante essa questão! Quanto mais viajo em busca de novos lugares e comunidades, mais volto a mim mesmo. Conhecer as relações humanas de pequenos grupos e comunidades possibilita uma crítica constante dos nossos valores e visões que fazemos do mundo. No processo da documentação fotográfica, a melhor forma de não interferir na “ordem natural das coisas” ou na dinâmica delas é fantasiar-se de invisível e para isso é preciso ser mais um deles, literalmente é mergulhar nesses mundos. Não olhar com olhar de estrangeiro, mas com olhar inserido no contexto, nunca impondo, mas absorvendo, ouvindo mais que falando, portanto, praticar o poder da “escutatória”. A capacidade de emocionar-se é tão ou mais importante que o sentido da própria visão.

Quando fotografo as pessoas, busco, sempre que possível, retornar com o material produzido e presenteá-los, mesmo que isso seja 1 mês, 1 ano , 5 ou 10 anos depois de ter feito a fotografia, não importa. Entendo que esse retorno e essa entrega são um gesto de atenção, reconhecimento e desapego (meu). Nesse momento, o ciclo se fecha e quase sempre é a etapa que me traz mais realização. E, obviamente, é onde surgem sempre novas possibilidades de registros.


DA - Certa feita, o fotojornalista Evandro Teixeira revelou-nos que, no processo de conquista das personagens, é preciso saber o momento exato de se chegar às pessoas. No seu caso, como essa aproximação ocorre?

RICARDO SENA - Além do Evandro, cito outros grandes mestres que souberam realizar essa aproximação e tiveram os seus trabalhos reconhecidos na fotografia humanista, como o Sebastião Salgado, o próprio Pierre Verger (que percorreram diversos países registrando aspectos humanos). Há o Araquém Alcântara, reconhecido como o maior fotógrafo de Natureza do Brasil e que também possui um trabalho fabuloso registrando o homem.

No meu caso, essa aproximação foi um processo que aprendi fazendo e errando. Costumo dizer que a máquina fotográfica tem a capacidade de atrair ou repelir as pessoas. Isso depende muito de como você está se portando atrás dela. Há todo um preparativo, uma busca de uma intimidade mínima. Por mais curto que seja, o “pré-contato” é fundamental, pode ser o tempo de alguns dias que já esteja em um determinado lugar ou alguns poucos segundos de entreolhares trocados, mas que foram suficientes para um diálogo (ainda que sem palavras) e uma “aprovação” para a fotografia que acontece logo em seguida.

Certa feita, fui cortar cabelo na feira de São Joaquim (Salvador), apenas para fotografar uma barbearia, pois a mesma faz parte da feira e não podia deixá-la de fora dessa documentação – o corte foi mais ou menos, mas fiquei satisfeito com o resultado da fotografia. Também já dormi em banco de praça, junto com romeiros, para registrar uma festa no sertão da Bahia e saí para pescar junto com uma comunidade ribeirinha, para garantir a refeição de mais tarde. Tudo isso é importante, demanda tempo, mas permite quebrar barreiras que distanciam o mundo do fotógrafo e dos fotografados.


DA - Nos últimos tempos, você tem se lançado ao desafio de reunir registros sobre o homem nordestino. Qual o propósito central desses trabalhos?

RICARDO SENA - Simplesmente identificação com essa temática. Nasci na capital baiana, já morei ou passei temporadas em outros grandes centros (Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro), mas a minha essência é rural, diria até que sertaneja, do chão rachado, espinho no pé e sol forte durante o dia e friagem à noite. O universo do homem nordestino e nortista é riquíssimo e ainda há muito pouco trabalho e informação frente à magnitude e riqueza desse tema. Portanto, o meu interesse em voltar as minhas lentes para eles. Quanto mais direto esses temas são apresentados, aumentamos a possibilidade de serem analisados com a atenção que merecem e de serem preservados.

Também há o propósito de buscar um engajamento cada vez maior, seja através da própria fotografia, potencializando-a, seja através de uma ONG com um propósito que convirja com o meu. O importante é que qual seja a forma, que venha com transparência e no tempo certo.


DA – Até que ponto os amplos recursos da fotografia digital são capazes de alterar significativamente nosso conceito de realidade?

RICARDO SENA - A alteração da realidade pode ser obtida tanto com o analógico quanto com o digital. No caso do analógico (filme), pode haver manipulações no laboratório e se conseguir mais dramaticidade na imagem, trabalhar com recortes, sobreposição de negativos. É bem verdade que com a digital a possibilidade de “manipulação” ficou mais rápida, barata e muito mais massificada. Qualquer um tem acesso a programas de edição de imagens e, teoricamente, não há limites para manipulação, mas aí a fotografia deixa de ser um “fim”, passando a ser outro produto, como arte digital, onde está explícito que houve a alteração da realidade e, nesse sentido, vez por outra, vemos alguns excessos.

Particularmente, minha fotografia, como qualquer fotografia documental, pressupõe a isenção de manipulação. Basicamente, nesse tipo de trabalho são permitidos apenas pequenos ajustes, que chamamos de retoques (correção de cor, contraste e tom), mas nada que altere a fotografia como foi concebida. Fotografo nos dois processos (digital e analógico), mas primo pela originalidade.


DA – Acredita ser o fotógrafo um alguém que nos revela pequenos milagres da alma humana em meio à rotina dos dias?

RICARDO SENA - Sem dúvida. Isso é a grande magia da fotografia, conseguir fotografar o invisível, capturá-lo e depois mostrá-lo. É muito comum comentários do tipo “já fui nesse lugar ou já participei desse festejo, mas não conseguia ver coisas tão interessantes ou significativas como as coisas como você registrou nas fotos...” Como qualquer arte, que age como veículo para expressão de aspectos individuais, a fotografia também assume esse caráter, consegue atingir uma subjetividade no objetivo (pois é um processo físico/químico). Contudo, nada mais é que uma leitura de uma realidade, ou seja, um ponto de vista de quem está atrás da câmara.





Azul Musical I
Pintura: Ana Luisa Kaminski





JANELA POÉTICA (V)


OUTONO

Luís Serra


Saltam metálicas
as folhas da figueira,


o clube de dança está

encerrado temporariamente.


A solidão, revista e aumentada.



(Luís Serra nasceu em Portugal (Évora,1970). Publicou, em 2009, um pequeno livro de poemas, “brinquedos de latão e sarampo” (Ed. Apenas Livros))




OUVIDOS ABERTOS

Por Larissa Mendes


MARCELO JENECI – FEITO PRA ACABAR



Depois de um sem fim de cantoras-revelação da MPB, encabeçadas por nomes como Maria Gadú e Tulipa Ruiz, finalmente uma voz masculina desponta como a grande surpresa do final da década. Trata-se do paulistano de Guaianases, Marcelo Jeneci, que, na contramão de artistas contemporâneos, orgulha-se de sua formação estritamente popular, fundamentada nas canções que tocavam no rádio e nas telenovelas. Aliando a natureza popular com a sonoridade universal adquirida durante seus dez anos como músico integrante das bandas de Chico César, Vanessa da Mata (é de sua autoria o hit Amado) e Arnaldo Antunes, Jeneci parece imprimir um trabalho bastante autoral logo em sua estreia como compositor e cantor solo. Rimas simples e diretas amparadas por belos arranjos líricos jamais soariam simplistas nas vozes doces de Jeneci e de Laura Lavieri, cantora que divide praticamente todos os vocais das 13 canções de Feito Pra Acabar.

A quase cantiga otimista Felicidade abre o álbum como o prefácio de um livro de auto-ajuda (tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar/nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar). Jardim do Éden segue a mesma linha melódica, como se a felicidade prometida na primeira canção fosse afinal encontrada na segunda. Copo D’Água, Leite de Rosas e Pense Duas Vezes Antes de Esquecer todas em parceria com Arnaldo Antunes, que, aliás, é co-autor de um total de seis canções flertam com um pop rock moderninho, semelhante a um Pato Fu no melhor de sua forma. Quarto de Dormir e Longe (a única canção conhecida do disco, que já foi interpretada pelo sertanejo Leonardo) revelam sua porção brega-romântica que relembram Odair José, Amado Batista e Roberto & Erasmo. Com letras consistentes, Pra Sonhar conta minuciosamente a história de um amor que deu certo, enquanto Dar-te-ei aborda a efemeridade das coisas e a eternidade dos sentimentos. Por que Nós? (sempre tem gente pra chamar de nós/sejam milhares, centenas ou dois) e Tempestade Emocional (a letra diz que vai chover desilusão, dor e tudo o que for) dão a tônica mais intimista do disco. O refrão quase infantil de Show de Estrelas (todos nós a brilhar/somos seis milhões de faróis a girar), como o próprio nome sugere, poderia ser coreografada por seu filho no show de talentos da escola e deveria ter sido substituída por Borboleta, executada nas apresentações ao vivo e que ficou de fora do cd. Por fim, a canção-título Feito Pra Acabar encerra o álbum num misto de contenção e catarse.

Definitivamente, o sanfoneiro-roqueiro-multinstrumentista (Jeneci é violonista, pianista, tecladista e acordeonista), fã de Katinguelê à Los Hermanos, de Luiz Gonzaga à Guilherme Arantes, parece transitar à vontade pelos diversos gêneros a que se propõe, provando que a diversidade é morada da genialidade. Até mesmo a capa de seu cd de estreia aparentemente de gosto duvidoso surpreende pelo encarte formatado em postais individuais para cada canção. No mínimo, Jeneci é feito pra acabar com os preconceitos musicais e estéticos, onde brega vira cult.


* Para abrir os ouvidos ao disco, clique aqui


(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila de ouvidos atentos e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)





Alma Azul
Pintura: Ana Luisa Kaminski




JANELA POÉTICA (VI)


REMITENTE

Rubén Vedovaldi


lápiz en mano dibujó unos signos
sobre la muda arena del desierto


pincel en diestra y

paleta en su siniestra

pintó la luz que se buscara el cuerpo

iluminando un fondo de poema

cincel en puño modeló el poema
cantaba laúd en mano cada verso


danzó el poema el himno la plegaria

representó en escena cada estrofa

se aplaudió solo,

criticóse solo

miró las palmas de sus manos muertas


no tenía con quien hacer historia


para llegar a humano

le faltaba estrechar fraternalmente

la mano de otro par en barro y sueño


lo demás era el tiempo y el espacio

xxxxx
del arte y del olvido

no hay destino

si no hay destinatarios



(O argentino Rubén Vedovaldi é autor de “Paralelo Protervia", novela em co-autoria com María Luisa Siciliani (1998), "Una langosta en la casa invisible", contos (1999), "Presagio de la reina ciega", poemas (2002), "Juego de abadesas", poemas (2005), dentre outros. Seus escritos integram diversas antologias e revistas nacionais e estrangeiras. Atualmente, prepara um livro com 50 minicontos)





Ninfa Musical e Piano
Pintura: Ana Luisa Kaminski






A FLOR O LODO

Nelson Alexandre


A noite é uma sedutora. Uma mulher de roupa curta que se oferece ao homem que está longe da luz da vida. Em Space City, ela usa maquiagem leve no rosto, e a sua voz faz promessas de felicidade nos ouvidos carentes de um pobre diabo que sente o peso do abandono. Ela levanta um pouco as roupas, a ponto de deixar que a pouca fé do indivíduo fique atônita, ao contemplar suas vergonhas numa mostra explícita. Um filme pornográfico sem a pornografia em si. Não há uma exposição geral de uma foda convencional, não há um regozijo latente diante das retinas. De tudo, acredito, é um palavreado ameaçador para a imagem que tenta nascer dentro do cérebro do atormentado. É uma poesia suja e sonora. Um cuspe pegajoso dentro do ouvido.

Kid, que na verdade chama-se Teodoro dos Santos, maneja o pedaço de papel cortado de um caderno de anotações, com a destreza de um operário que confecciona um torpedo de euforia passageira, que, na nulidade da noite, divide suas frustrações com a frustração encarnada num indivíduo aguardando com impaciência, uma tragada daquilo que ele acredita que seja uma válvula de escape contra aquela sedução perniciosa levantando as roupas na sua frente.

"Já tá pronto, Arnaldo”.

E a noite, a meu ver, faz com que você, que realmente acredita numa felicidade que não tenha o tempo mínimo de uma ampulheta, pense... pense... pense... ela é um martelo e você a bigorna que recebe todo instante uma pancada, duas pancadas, três pancadas, uma sequência inimaginável de avisos convertidos em abalos interiores, que, às vezes, podem se transformar em flores ou em estrume.

“Passa pra cá”.

O sublime não é aquilo que por um instante provoca no seu ser interior uma metamorfose, mas sim, a metamorfose indissolúvel sempre sublime no ser. Acho que essa parte pode ser caracterizada por um odor de flores ao invés do cheiro da merda.

“Que diabo você tá falando, Arnaldo?”

Tudo é um ciclo que devemos aguentar até o final. Uma fase ruim tem o seu ciclo de vida. Às vezes, esse ciclo demora tanto pra passar que o sujeito que sofre a ação acha que aquele tormento nunca vai findar, nunca mais sairá daquele invólucro de dor.

“Droga, queimei o dedo”.

Quando acontecia isso, eu olhava pra mim e depois olhava pra cara feiosa do Kid. Olhava o movimento que ele fazia ao tragar a fumaça tóxica, e, naquele momento congelado, pensava que talvez ainda estivesse no começo do ciclo, só isso. Pois o sentimento de abandono é caracterizado, em primeira instância, por uma fadiga “intraexterior”. Você é invadido por fortes agentes de combate.

“Arnaldo, pelo menos liga essa porra dessa televisão”.

O lar, sem aquela que um dia escolhemos pra ser a nossa companheira, aos poucos, vai perdendo a coloração. Vai se transformando numa imagem altamente disforme da criação original. Com isso, sentimentos menores, mas de alta periculosidade, vão invadindo o espaço sadio que chamamos simplesmente de sanidade.

“Acho que vou comprar um revólver, Kid”.

“Legal, aí você pega e dá um tiro no rabo”.

Complacência é uma palavra que vem até a minha cabeça e não quer sair mais. Ela abre minha cabeça com uma faca e senta sobre meu cérebro à procura da minha poesia. Porque tudo nessa vida é ou não é poesia. É uma regra bem simples. A gente vai evoluindo degrau por degrau, pois as coisas caminham sempre pra frente. O “pra trás” é como uma fotografia de uma pessoa morta, ela está ali, linda, com o rosto mais encantador que qualquer coisa feita por Deus, mas, ao mesmo tempo, é apenas um espectro de boa aparência em seu micro-universo.

“Tá queimando o sofá, idiota!”

Mas o que a gente faz com o amor?

Cagadas... Cusparadas... coisas que a gente não devia dizer, mas diz. Eu falo em retroceder no tempo. Voltar ao ponto do início do fim das coisas pra retornar ao início do começo. Penso num buraco negro engolindo minha cabeça, ficando tudo escuro por um tempo, e depois da passagem por esse buraco, tudo ficar claro novamente. Não há espaço e nem cena invertida. Primeiro nasce a flor, não o lodo.

“Você pirou de vez”.


(Nelson Alexandre nasceu em Maringá - PR. Atualmente é frentista em um posto de gasolina na mesma cidade em que nasceu. Está para se formar no curso de Letras da UEM. Já disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e até mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ninguém)





Nu Feminino no Azul
Pintura: Ana Luisa Kaminski





JANELA POÉTICA (VII)


DURMO

Lílian Maial


Concede este negrume
com sede de mato cerrado
de barba crescida
para caber carícias
e dependurar lembranças.

Enrolada em teias de lua,
a noite salpica sorrisos,
e sua uma claridade
que deságua estrelas.

Assim também a manhã,
de canários ariscos,
rolinhas oportunistas
e flores voluntariosas,
contemplando o cio
de sol nascente.


(A carioca Lílian Maial é médica, escritora e poeta. Publicou “Enfim, renasci”, seu primeiro livro de poemas, em 2000, e tem participação em dezenas de antologias desde 1999. Integra ativamente o MIP - Movimento Internacional Poetrix e é Consulesa do Rio de Janeiro para o movimento Poetas Del Mundo. Tem seus trabalhos divulgados em inúmeros sítios nacionais e internacionais, além de colaborar com revistas eletrônicas brasileiras, portuguesas e espanholas)








Ninfa Azul
Pintura: Ana Luisa Kaminski





* No âmago das telas da catarinense Ana Luisa Kaminski, pulsam vivas imagens que divisam um paralelo plano de cores, contornos e sonhos. Seus recursos, ao mesmo tempo em que se valem de uma atmosfera fincada nos desejos humanos, sabem trazer à tona narrativas de um mundo místico e não tão distante da nossa condição mortal. A artista explora com serenidade todo o universo múltiplo no qual operam os apelos dos sentidos. Uma espécie de elo entre o sagrado e o profano nos conduz à percepção de que ao homem cabe bem mais do que resignar-se com seu destino de ser imperfeito.

 
publicado por Fabrício Brandão
Permalink ¤ 16 EXPRESSARAM AFINIDADES

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