5 de ago de 2006,22:54
SEGUNDA LEVA
La noche de los pobres, Diego Rivera




CICERONEANDO


O Diversos Afins descortina sua segunda empreitada. No intervalo entre uma Leva e outra, manifestações difusas permeiam os espaços na busca de um encaixe que melhor possam exprimi-las. Cada vez mais, delicio-me com a grande quantidade de vias abertas pela palavra. São imagens raras e belas. Uma delas refere-se à sensível conversa que tive, em Belém, com o grande escritor Vicente Franz Cecim, um construtor do caminho possível e, ao mesmo tempo, onírico que nos conduz à sua Andara – o lugar mítico, um templo ideal da palavra. Durante nosso papo, falamos de um tudo, mas o momento mais emocionante foi uma coincidência feliz de juntos relembrarmos os emblemas contidos no belíssimo filme “Nostalghia”, do cineasta russo Andrei Tarkovski. Então, veio até nós a memória marcante de uma grande cena do filme – a travessia da água com a vela acesa feita pelo protagonista. Deste êxtase contemplativo e coberto de signos, o iluminado Vicente nos presenteou com uma interpretação possível, o belo “Nostalgia da Aguardente”. Outras dignas epifanias também vêm de colaboradores de peso como a amiga e escritora Neuzamaria Kerner, em seu texto sobre A Moça Tecelã, conto de Marina Colasanti. Também por estas bandas, o poeta Bolívar Landi nos dimensiona um fluxo para o sentir. Através de sua aguçada crônica, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna desvela uma perspectiva de continuidade para o derradeiro de Sartre. Esta Leva é um mosaico onde se misturam fragmentos, crônicas (dentre as quais um diálogo imaginário com Caio Fernando Abreu), poesias, cinema, Peter Gast, Ed Motta e outros baratos afins. Obrigado, então, a todos aqueles que deitam seus olhos sobre estas linhas!

Fabrício Brandão






FRAG
MENTO



“Pensa num rio, denso e majestoso, que corre por milhas e milhas entre robustas barragens. Tu sabes onde está o rio, onde a barragem, onde a terra firme. A um certo ponto, o rio, por cansaço, porque correu por muito tempo e muito espaço, porque se aproxima o mar, que anula em si todos os rios, não sabe mais o que seja. Torna-se o próprio delta. Permanece talvez um braço maior, mas muitos se espalham em todas as direções, e alguns confluem novamente uns nos outros, e não sabes mais o que é origem de que, e às vezes não sabes o que é rio ainda, e o que já é mar...”

(Extraído do livro O Nome da Rosa, de Umberto Eco)






DOS
SENTIDOS



UM RIO QUE TRANSCENDE O MAR

por Fabrício Brandão


Cruzo as ruas desta escaldante cidade à procura de resgatar um fôlego que parece perdido. No caminho, estão multidões de seres a se espreitar em meio ao trânsito intolerante de pedestres e automóveis. Aliás, neste espraiado espaço de exercício forçado de convivências paralelas, todos parecem ensaiar os acordes nervosos para a apresentação de uma orquestra que dificilmente tocará num mesmo tom. Tem sido assim o passar pelas vias urbanas desta cidade que agora me abriga. Mas, o que fazer se as paisagens urbanas esboçam uma aparência de tensões a cada dia mais parecidas? Certamente, não serei o primeiro a dar importância a tais observações e depois interiorizá-las tacitamente como se fossem algo absolutamente normal. Assumo prontamente o meu exercício do deixar para lá, considerando que o mais importante é o destino pretendido do dia. Pois, sim. Nada mais interessa e, na tênue distinção entre o público e o privado, abstraio os ruídos para melhor seguir adiante.

Sou um homem comum, sei. Incapaz de ser notado por minha simples passagem pelas vias, abraço os sons difusos do turbilhão e neles escrevo melodias próprias. Diviso-me, agora, nesse trajeto entre pensamentos e ações que dançam a cadência descoberta em cada dobrar de esquinas. É muito curiosa esta sensação libertária advinda do anonimato. Ser em absoluto pela expressão pessoal e silenciosa, pela elaboração dos sentimentos despercebidos ao mundo, pelo algo que poderia ser dito e, no entanto, não o foi pelo pudor excessivo que reveste a alma contida. Mas o silêncio permanece nos arredores das vias atravessadas. Vejo-o no interior dos automóveis onde todos se conduzem reunidamente, mesmo que falem sobre as
mesmas coisas diárias. Ele existe no semblante daquele que esbraveja com alguém ao celular em plena calçada do dia. Está também presente naquela janela onde um professor ministra de forma verborrágica sua lição a uma classe de escola pública. E o que dizer daqueles que precisam implorar para serem ouvidos por alguém?

Depois de fluir o trajeto necessário, chego próximo ao ponto que desejei. Ando nas alamedas retocadas pelo aroma do moderno à procura de um espaço, um abrigo para depositar as bagagens que carrego comigo. Reconheço-me nestas paragens. Percorro o solo que me conduz à margem a qual meus olhos imaginavam mirar. Há um espetáculo de águas à minha frente em cuja cor não é possível vislumbrar a essência dos elementos que flutuam correntemente. Confesso que isso não tem importância. Naveguei até aqui para retomar, renovar os impulsos contidos em toda uma existência que tomou emprestado todos os lugares do sonho. Percebo agora um imenso rio e seus matizes. Dele, fiz mais que uma simples veia que conduz ao mundo maior, ao mar das infinitudes. Entendo o vaivém necessário e obstinado de suas dinâmicas águas e, assim como elas, sou aquele que segue. Estou na Estação. Estou em Belém. Estou no eterno ponto de partida e chegada de um tudo ou de um nada.







EPIFANIA DA IMAGEM





A travessia da água com a vela acesa em Nostalghia




NOSTALGIA DA AGUARDENTE

Por Vicente Franz Cecim


A nossa Nostalgia do futuro do humano com mais Asa e menos densidade de terra consiste, co-insiste em eliminar do nosso horizonte ontológico as Dualidades e - sim, Sim - já sem inconsoláveis divergências, realizar a travessia da Água com a vela acesa - o Milagre como nos pré-monizou o nosso permanente Andrei Tarkovski na Imagem sagrada que encerra - abrindo - o seu encantamento deslumbrante: 'Nostalghia'. Nostalgia de uma Origem Una? Thales de Mileto? Empédocles de Agrigento? Água e Fogo? Então, mesmo ainda aprisionados no Fundo deste estágio e ainda em nosso atual Tempo Imaturo da Espécie Onírica que desde sempre fomos, já sonharmos a futura Aguardente.


(Vicente Franz Cecim nasceu na Amazônia e cria, desde 1979, Viagem a Andara, o livro invisível: sua única obra, que, não sendo escrita, é puramente imaginária: um não-livro, escrito com tinta invisível, de onde emerge, através dos livros visíveis que o autor escreve, o universo onírico de Andara: a Amazônia transfigurada em região-metáfora da vida. Os mais recentes livros de Andara, ainda inéditos no Brasil, foram editados em Portugal: Ó Serdespanto (Íman, 2001) e K O escuro da semente (Ver o Verso, 2005). Para dialogar com o autor:
andara@nautilus.com.br ).







JANELA
POÉTICA (I)



QUERIA ALGUÉM QUE LESSE PARA MIM

Fabrício Brandão


Queria alguém que lesse para mim
Os versos que ainda não fiz.
Estes, de agora, estando a brotar,
Refazendo o plantio do jardim que deve crescer.

Queria alguém que lesse para mim
As falas alheias e suas nuances de vidas secretas.
E num curto espaço-tempo
Reter o urgente da existência.

Queria alguém que lesse para mim
Pois estas paredes agora me comprimem
Exigindo o preço dos instantes em demora,
Enquanto o resto da estrada é um desfoque ao infinito.

Queria alguém que lesse para mim
Justo agora que emprestei minhas visões à cura,
Creditando no outro, limitado como eu,
O poder que vem de um Deus.

Queria alguém que lesse para mim
Mas é cruel implantar olhos noutros corpos.
E na mais difícil de todas as leituras
Há apenas um rosto no fundo do espelho.







MEANDROS LITERÁRIOS




A VIOLÊNCIA ENTRE AS LINHAS EM A MOÇA TECELÃ

Por Neuzamaria Kerner



Os textos de Marina Colasanti caracterizam-se por serem habitados por príncipes, princesas, reinos distantes. Suas personagens pertencem a um mundo mágico que ela consegue associar ao mundo real de seus leitores com suas angústias, alegrias, tristezas, ironias, amores, sonhos, desejos e decepções, consciência crítica, enfim mostrando um pouco do que vai na alma de cada um de nós, mas sem perder a expressão da fantasia contida nos contos de fadas (ditos infantis).

Nesse universo sedutor a autora revela, através de símbolos, os mais profundos sentimentos humanos, pessoas sem nome - na maioria dos seus textos - o que faz com que cada leitor se sinta personagem perplexo no meio das metáforas bem construídas que levam a reflexões profundas, principalmente no que diz respeito ao viver feminino.

Assim pode-se tentar compreender a solitária tecelã que tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer de fazer, até que o tear lhe permite o encontro com o homem idealizado, mas a moça, à maneira das Moiras, conduz o fio do destino do companheiro “tecido”.

Tendo lido A Moça Tecelã por diversas vezes e para alunos em diferentes idades e graus de escolaridade, observei o quanto esses ouvintes ficavam encantados com a beleza do conto.

Após a leitura, havia sempre comentários sobre a interpretação do texto, mas toda ela era direcionada para o comportamento do personagem masculino que, por causa da solidão da moça – sem nome – foi por ela tecido, fisicamente, de acordo com seus critérios de beleza. Ele também não tem nome, mas essa questão, para este texto, não é relevante.

Sabendo-se que interpretação não foi algo inventado pelos teóricos da literatura, houve tempos em que só poderia haver uma interpretação única e correta de cada texto, o que gerou algumas confusões no presente entre os estudiosos, mesmo entendendo que não existe sequer uma interpretação para a Bíblia, o que tem justificado o aparecimento de tantas religiões.

A importância que os estudantes davam, nas tentativas de compreender e interpretar o comportamento do personagem tecido pela moça tecelã, era a sua ganância desmedida quando descobre o poder mágico do tear: ele poderia realizar todos os seus sonhos de consumo. Outro fato que acalorava as discussões era a passividade e submissão da moça aos caprichos do homem.

Nos debates em sala de aula era tentado, pela mediadora, levantar para os participantes algumas questões sobre valores e violência. Tentava-se fazer um balanço das atitudes dos dois personagens, entretanto se a violência era percebida, ocorria para a “condenação” do moço tecido. Ele era violento na medida em que exigia, sem parar, a realização de projetos cada vez mais ambiciosos. Ele desejava. Ela cumpria. Ficava, então, a pergunta no ar: o que é violência? Quem praticava a violência no conto e por quê?

O objetivo aqui, portanto, é realçar alguns momentos da história com a aparente inocência de um “conto de fadas”, mas que, com grande sutileza, a autora deixa um incômodo no leitor. Quem observa o mundo e o funcionamento das relações humanas, não pode deixar de notar o quanto há de violência nas atitudes mais banais das pessoas no cotidiano – tanto na ficção quanto na realidade.

O ato de interpretar não é trabalho muito fácil por uma série de contingências, inclusive de questões sócio-culturais, horizonte de expectativa de cada leitor, histórias pessoais, faixa etária, quantidade de obras lidas. É complexo porque, concordando com Umberto Eco “dizer que a interpretação é potencialmente ilimitada não significa que a interpretação não tenha objeto e que corra por conta própria”. Dizer também que qualquer interpretação dada pelo leitor está sempre correta é muito perigoso, mesmo sabendo que o autor lança suas palavras e idéias num texto e o leitor produza o sentido ao bel prazer. Se assim fosse, o conflito entre opiniões seria maior, tendo em vista os diversos fatores que levam uma pessoa a ler e interpretar um texto e impor o seu entendimento a outros como verdade única porque tudo depende de um contexto, tanto por parte do produtor como por parte do receptor da mensagem.

O exemplo mais comum que pode servir como argumento para provar as diferenças entre as interpretações é a Bíblia. Vejamos: entre os períodos do Antigo e do Novo Testamento, mais ou menos 300 a.C. até Roma destruir Jerusalém no ano 70 do calendário cristão, os judeus escreveram muitos livros considerados úteis e cheios de inspiração. Eram textos antigos cheios de dramaticidades históricas dos israelitas, romances, mistérios, milagres, sábios dizeres, orações e músicas.

Apesar de os judeus terem decidido, por causa de interpretações discordantes, excluir esses livros da bíblia hebraica, os cristãos, também por causa de entendimentos diferentes das leituras, preservaram a maioria deles em segredo por mais de mil anos, até que os protestantes romperam com a Igreja Católica Romana e começaram a eliminar tais textos das novas edições bíblicas. Chegou-se ao ponto em que, por interpretações diferentes, católicos questionaram a fidedignidade de alguns livros do Antigo Testamento e os protestantes resolveram dividir os livros (os ditos apócrifos) em duas categorias: livros úteis e livros perigosos. Até entre os próprios judeus houve muitos textos contestados e tiveram que entrar num acordo, estabelecendo, assim, quais os textos e versões seriam autorizados. Aconteceu, porém, que as divergências não ocorreram num clima de diálogo pacífico porque, até hoje a humanidade não aprendeu que discordar de uma idéia é diferente de discordar da pessoa. Nesse momento, então a violência entra em cena. Por isso Gustavo Bernardo (professor e escritor) diz que
a interpretação pressupõe discrepância entre significado do texto e as exigências dos leitores (posteriores); ela teria começado quando um texto antigo, por alguma razão, se tornara inaceitável mas não pôde ser desprezado. Precisa ser inserido na tradição por meio de uma tradução: o intérprete, sem pretender apagar ou reescrever o texto, termina por alterá-lo, sem contudo admiti-lo. A tarefa da interpretação equivale, portanto, à da tradução (que, por sua vez, equivale, em certo nível etimológico, tanto à tradição quanto à traição).

Aproveitando a palavra “traição” podemos pensar na violência que vem nela embutida. A moça tecelã traiu o companheiro e traição é, inegavelmente, um ato de violência. Houve um assassinato no texto, simbolizado pelo ato de destecer as lãs do tear e o que nele estava bordado, ou tecido.

Tentar compreender a violência é uma tarefa que nos coloca diante da própria essência do ser humano. O agir implica realização de uma escolha – destruir ou preservar (não-destruir), mas nunca é demais lembrar que há sempre duas opções e apenas uma escolha e algumas pessoas podem querer ferir outras, mas, com base na sua cultura ou crença, talvez não percebam seus atos como violentos. Não tenho a intenção de discutir a intenção da autora do conto, no entanto o leitor tem o direito de interpretar o que foi escrito desde que haja alguma coerência na situação comunicativa textual.

O que seria, então, violência? Tentando uma definição clara, a palavra violência vem do latim violentia , que significa “veemência, “impetuosidade” , e deriva da raiz latina vis , “força”. Certamente deve ter havido alguma interação, ao longo da história das palavras, entre “violência” e “violação”, a quebra de algum costume ou dignidade. Isso é parte da complexidade do termo. Aparentemente com um significado tão banal, a violência tende a ser uma palavra complicada, porque, em princípio, pensa-se logo em agressão física (com o uso da força), aí incluindo armas de todas as qualidades. A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que a violência
é o uso intencional da força física ou do poder, real ou potencial, contra si próprio, contra outras pessoas ou contra um grupo ou uma comunidade que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação.

Escrevi essas observações sobre A Moça Tecelã, como leitora que sou e por ter o direito adquirido de extrair alguma passagem de qualquer obra e comentá-la só pelo puro prazer de interagir com o que leio e dialogar, se não com o autor, mas comigo mesma. De repente, quem sabe, algum outro leitor se junta a mim para descobrir mais particularidades sobre a tecelã e seu modo de estar dentro da vida. Fica aí a proposta ou o convite, tanto faz...


(Neuzamaria Kerner, nascida em Salvador, é escritora e professora de Língua Portuguesa e Literatura. Publicou: Fragmentos de Cristal (poemas); Eu bebi a Lua (poemas); O mar na prosa brasileira de ficção (ensaios); Revista Anto - Portugal - Edição Primavera comemorativa dos 500 anos de Brasil (poemas junto com outros poetas da literatura brasileira).








Feios, Sujos e Malvados








JANELA
POÉTICA (II)



SIMPLES FLUXO

Bolívar Landi


Quando estou tenso
Não consigo falar nem pensar claramente
Não há tranqüilidade
Para que se forme um sentimento

Queria que tudo fosse
Como numa brincadeira de criança
Vivendo intensamente cada momento
E não levando nada assim tão a sério...
E que o simples fluxo direcionasse
Todas as coisas

Eu poderia ser o que sou
E mostrar verdadeiramente o que sinto
E aceitar calmamente o silêncio
E ouvir encantado os seus sonhos


Queria ser livre
Para libertar o seu mundo
E que também fosses
Para salvar-me do meu

E que não se desse tanta importância às palavras
E se pudesse desvendar os olhares
E que não deixássemos descuidadamente morrer
A felicidade de agora.



(Bolívar Landi é publicitário, estudante de História e, em seus textos, sobretudo os poemas, predominam formas marcantes do sentir)








VIGÍLIA DE UM DIÁLOGO SEM RESPOSTAS

Por Fabrício Brandão




É um mergulho o que vivo agora. Desfolhando em amor táctil e constatações ainda frescas na memória insone, reviro as páginas deste livro. É Caio contando-me revelações densas no desejo de complementaridade talvez jamais realizável. Será um anseio mesquinho esse de se pensar e de viver o outro? Não, não! Não há o ideal porque ele já morre mesmo antes de sequer nascer. Apenas passamos toda a sua gestação confeccionando os enredos para o delírio do sonho, para o desejoso dia em que a plástica das nossas flores nunca desbote. Faço silêncio, mas Caio grita no interior de meus olhos atentos pelo desfecho de suas trespassadas linhas. Passo as vistas, já tão cansadas pelo embate das palavras do dia, em redor de seus duros, porém precisos, arremates. Então, tento captar, atenta e quietamente, os enigmas, quando ele me diz: penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras, nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar mais à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui.

Basta! Agora fecho as páginas deste meu diálogo imaginário e as guardo involuntariamente em meu pensamento febril. Lá, bem dentro de mim, relembro as antigas propostas de uma via comum, um universo de coexistência onde deveria ser celebrado o amor em seu altar-mor. Caio não me disse para quem expeliu tais palavras em meio à projeção de seu ambiente de esperas sem rota definida. Tampouco me importa descobrir rostos possíveis nessa plástica inexata. Então, eu apenas caminhei pela areias de minhas lembranças próximas e distantes na esperança de ter deixado rastros que me socorreriam para o caminho de volta. E andando em derredor destas paredes que me acondicionam, revelo-me solto, mais uma vez, para buscar, em suspensão, aquilo que não consegui enxergar como sendo o que me acompanhava nos meus singelos feitos.

Lá fora, uma cidade respira o ajuntamento corriqueiro e solitário dos outros. Tudo se cruza, sem que percebamos onde começa o quê. Depois da noite atravessada, tudo torna ao reinício, pois somos impelidos a esse trânsito natural. Não consegui perceber, com exatidão, de qual lugar me chegaram as coisas que senti no dia passado. Aquela conversa ficou aonde mesmo? Curioso, pensei ter lhe visto na outra margem e de olhos postos em mim. Confuso, turvo, meus olhos não mais te enxergaram. E assim como essa névoa de um ar que agora sobe ao infinito, foram-se também os espectros, as imagens, um sentir preso ao instante. Sobre o outro lado do meu leito, repousa agora um aglomerado de palavras que somente voltarão à vida quando meu corpo nelas se atirar novamente.



(O que me é “dito”, na parte em itálico do texto, é uma transcrição de um trecho do sensível e pungente À Beira do Mar Aberto, texto de Caio Fernando de Abreu, pertencente ao livro Os dragões não conhecem o paraíso. Um sentimento onde, a meu ver, qualquer um de nós pode ser o protagonista.)






UMA CANÇÃO




PETER GAST

Caetano Veloso


Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto a guerras
E festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um

Ninguém é comum
E eu sou ninguém
No meio de tanta gente
De repente vem
Mesmo eu no meu automóvel
No trânsito vem
O profundo silêncio
Da música límpida de Peter Gast

Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Peter Gast, o hóspede do profeta sem morada
O menino bonito, Peter Gast
Rosa do crepúsculo de Veneza
Mesmo aqui no samba-canção do meu rock’n’roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast

Sou um homem comum

(Esta, que é uma das minhas canções prediletas do compositor, faz parte do álbum Uns)







Filmagens de Santo Forte








A TERCEIRA
MORTE DE SARTRE

Por Affonso Romano de Sant’Anna





Quantas vezes pode morrer uma pessoa?

Inúmeras, já se vê. Pode morrer psicologicamente em vida, morrer fisicamente um dia, morrer de novo na memória alheia, ou pode ir morrendo, mesmo pós-morte, quando alguém revê sua biografia arruinando sua imagem idealizada.

Sartre está morrendo pela terceira vez.

Em torno de 1982, morando na França, publiquei um artigo “A segunda morte de Sartre”. Tratava do livro de Oliver Todd - “O filho rebelde”, que acabara de sair em Paris, no qual o escritor anglo-francês, íntimo de Sartre, ressaltava criticamente algumas brechas na formação filosófica e literária do filósofo, e revelava que este lhe confessou que mentia para todas as mulheres inclusive para Simone. Oliver criticava a teoria dos “amores contingentes” e dos “amores necessários” que Sartre e Simone praticavam lembrando que isto tinha levado ao suicídio uma atriz que se apaixonara por Sartre.

Minha geração se deixou seduzir por essa teoria, sem saber que a prática deles era outra e que, a rigor, não eram um casal, não moravam juntos nem tinham filhos. Eram um homem e mulher com forte relação intelectual e que usavam antropofagicamente outras pessoas para suas experiências existenciais.

Para mim, Sartre já estava morrendo antes, não só por suas relações com o stalinismo e o maoismo, mas desde quando li uma entrevista sua com Simone onde dizia coisas desse tipo: que o homem era naturalmente superior à mulher e que gostava de falar com mulher, porque podia dirigir a conversa. Quer dizer, não conversava, dava aula, orientava. Na entrevista, aliás, Simone se saía bem melhor que ele. E apesar de hoje ela estar sendo também desconstruida, sempre achei que seu “O segundo sexo” é mais importante que a filosofia de Sartre.

Claro que era um sujeito com um
carisma incrível. Tinha aquela cara de sapo com óculos. Era feio, mas seduzia. Mas quando a fala se dissipa, fica a obra e aí começam as outras mortes. Aliás, Simone de Beauvoir anda morrendo muito atualmente. Quando contou em livro detalhes da relação com seu amante - o escritor americano Nelson Algren, e publicou as cartas entre os dois, morreu para muita gente parte do mito que ela construiu com Sartre. Na ocasião, o americano ficou fulo e disse: “Já estive em bordéis no mundo inteiro, e a mulher ali sempre fecha a porta, seja na Coréia seja na Índia. Mas essa mulher escancarou a porta e chamou o público e a imprensa”.

Agora surgiu outro livro – “Tête-à-Tête” - onde a inglesa Hazel Howley revela a relação de Sartre/Simone com a brasileira Cristina Tavares, que os acompanhou no Brasil nos anos 60 e que depois chegou a ser deputada. A coisa não fica muito bem para o casal francês.

Andei relendo o que os franceses dizem sobre Simone e Sartre. Meu Deus! Como têm necessidade de santificá-los! Júlia Kristeva, por exemplo, tão inteligente em outras circunstâncias, fica ali rezando no altar deles. Prefiro Annie Cohen Solal que diz logo que a França tem dificuldade de ver as limitações de Sartre. Concordo com Michel Foucault que Sartre é um pensador do século XIX. Funcionou mais como publicista, um competente agitador. O essencial de seu pensamento vem da filosofia alemã.

Quantas mortes pode sofrer uma pessoa?

Bom, vai ver que Sartre e Simone foram apenas rebaixados, apenas saíram do Paraíso para o Purgatório e dependendo das rezas e missas de seus adeptos, voltem a qualquer hora às delícias da celebridade.



(Affonso Romano de Sant’Anna escreve para os jornais Correio Braziliense e Estado de Minas. É autor de diversas obras, tais como A Mulher Madura (Editora Rocco, 1986) e Que fazer de Ezra Pound (Editora Imago, 2003))








UNIVERSO MUSICAL



EM MEIO À POEIRA, SONS

por Fabrício Brandão




Acho louvável toda e qualquer tentativa de se preservar nossos feitos culturais em sua ampla extensão. E é assim que se comporta o cantor e compositor Ed Motta quando o assunto é pesquisa musical. Dono de um estilo próprio que deriva principalmente de influências trazidas do jazz, soul e MPB, Ed Motta se revela também um interessado na busca constante pelo resgate de raridades musicais. Uma forte confirmação dessa virtude do artista pode ser encontrada em seu site. Nele, o cantor apresenta um programa de rádio, intitulado Empoeirado, onde disponibiliza e comenta músicas diversas que compõem um mix de coisas raras e conhecidas do grande público. Chama atenção a forma como o músico conduz seu programa, retratando detalhes referentes aos arranjos, compositores, intérpretes e, também, revelando curiosidades históricas das obras tocadas. A seleção aponta para um gosto apuradíssimo e bastante eclético.



Ed Motta



Essa atitude de ir a fundo na pesquisa musical também faz parte da iniciativa de outros artistas. Um exemplo dessa tendência é o do baterista dos Titãs, Charles Gavin. Eterno apreciador da música nos seus mais vastos horizontes, Gavin possui um imenso acervo pessoal de discos que englobam tanto vinis quanto cd’s. Não é apenas sua enorme coleção que o coloca no centro das atenções, mas seu interesse em pesquisar e recuperar antigas gravações e álbuns que já não estariam mais disponíveis atualmente. Um dos seus feitos mais acertados foi, através da série Dois Momentos, o relançamento dos dois discos do Secos & Molhados, que vendeu milhares de cópias. O próprio Titã possui um estúdio onde promove a recuperação e digitalização dessas raridades. Ao fim desse processo, as obras são relançadas e ficam acessíveis no mercado.



Charles Gavin


( O programa Empoeirado, de Ed Motta, está disponível através do site do cantor, que é: www.edmotta.com . É uma boa dica para quem gosta de percorrer os caminhos vastos do universo musical)








DROPS DA
SÉTIMA ARTE

por Fabrício Brandão



Feios, Sujos e Malvados (Brutti, Sporchi e Cattivi) Itália. 1976.


O diretor Ettore Scola nos lança rumo aos impulsos naturalistas que atravessam esta magnífica obra. Fazendo uso destes recursos, o filme traz à tona uma das formas de manifestação da miséria humana, apoiada nos apelos daquilo que pode ser qualificado como uma guerra de instintos travada pelos personagens em foco. Giacinto, personagem interpretado por Nino Manfredi, vive com a esposa, seus dez filhos e vários agregados numa favela dos arredores de Roma. Durante a trama, os moradores, que se aglomeram num minúsculo barraco, vivem às voltas com as tentativas de roubar o dinheiro do seguro que o patriarca(Giacinto) recebeu quando ficou cego de um olho. Como se não bastasse, o chefe dessa prole ainda resolve levar outra mulher para dentro de casa. A partir daí, vamos observando os meandros que acentuam a crítica social contida nesta ácida comédia. Scola exalta a condição humana num caldeirão que mistura sentimentos familiares distorcidos, decadência de valores morais, sexo, infidelidade, mesquinharias e uma profunda miséria social. Curioso é notar que, mesmo com toda a repulsa presente na convivência desta numerosa prole, ainda sim, parece haver o algo que os mantêm juntos: a provável loucura peculiar do ser humano.


Santo Forte. Brasil. 1999.


Considero Eduardo Coutinho o maior documentarista brasileiro da atualidade e o filme Santo Forte reforça bem esta qualificação. Aqui, não se trata apenas de um documentário sobre diferentes manifestações religiosas tendo como palco uma favela carioca, mas sim a delineação de novas perspectivas de representação daquilo que se pretende registrar. O forte de Coutinho reside na forma como privilegia os relatos de seus entrevistados num verdadeiro exercício de ouvir o que o outro tem a dizer, estabelecendo um pacto de aderir equilibradamente à causa alheia sem tecer julgamentos. Em Santo Forte, o diretor constrói o que considero um verdadeiro trunfo de representação do real: o reforço a certos depoimentos fidelizados através do recurso do vazio. Quando se trata de demonstrar, em imagens, aparições espirituais narradas por alguns de seus depoentes, Coutinho soluciona, o que para a linguagem documental tradicional poderia ser um grande dilema, através da filmagem dos ambientes vazios. Tais cenas, por si só, conseguem cobrir um lapso que, acredito, não pode ser composto pelo agora, pelo registro do instante imediato, justamente por conta do tempo decorrido nas ações contadas pelos personagens. Em lugar de ocupar os relatos com imagens reinventadas, o perceptivo diretor prefere dar vazão à retratação de uma lacuna que fala por si, ainda mais se tratando de um tema complexo como é o da espiritualidade. O espectador deste filme é bem servido e, por assim dizer, respeitado quando pode fazer uso dos recursos da sugestão e, desse modo, ser parte integrante das conversas. Em Eduardo Coutinho, vejo uma ruptura de paradigmas, uma nova perspectiva de discussão da velha e eterna questão do limiar da realidade no cinema documental. Para este grande realizador, o que existe, antes de tudo, é a palavra e é através dela que surge a vontade da imagem. Bravo!








BAÚ
DA PALAVRA



TUDO GIRA E NÃO CABE EM SI

por Fabrício Brandão



Lá pelos idos do final dos anos oitenta, me vem a recordação de um tempo que parece ter ficado impresso em mim. Era a época de uma certa despreocupação provisória com grandes e, por assim dizer, complexas questões da vida. A corrente de amizades tinha se tornado algo estupendamente fascinante, sobretudo pelo viés da descoberta de um terreno novo e sempre muito atraente: a troca com outras pessoas. Eu e mais alguns poucos éramos uma espécie de confraria. Andávamos sempre em bando fazendo pinturas divertidas sobre o tudo que nos cercava. Todos viviam na casa de todos, jogávamos futebol religiosamente aos feriados e fins de semana, conversávamos até bem tarde da noite nas casas e portas dos nossos anfitriões ocasionais, fazíamos projeções para o futuro, assistíamos muitos filmes e ouvíamos bastante música. Quão intenso então fora viver daquela forma e, agora, posso imaginar alguns trechos, sejam eles objetos ou sensações, que vez por outra servem de estopim das lembranças fortes. Mas aonde quero chegar com toda a força desse saudosismo?

Não quero me reportar exatamente a um lugar, mas sim a um tempo. E isso foi possível quando pude assistir há alguns dias ao filme Cazuza, O Tempo Não Pára, dirigido por Sandra Werneck(Pequeno Dicionário Amoroso) e pelo talentoso Walter Carvalho(também diretor de fotografia de pérolas como o fantástico Janela da Alma e Abril Despedaçado, dentre vários outros). O filme me acendeu algumas reminiscências bacanas, sendo que a principal delas era a existência do LP que registrava o último show de Cazuza (também intitulado O Tempo Não Pára), o qual fazia parte do acervo de um dos amigos daquela minha antiga trupe. É, com certeza, um disco emocionante e marcou uma parte da minha caminhada pela vida. O mais curioso de tudo era o fato de o dono do disco ser bastante religioso, um protestante da Primeira Igreja Batista da minha cidade natal. No entanto, ao que pudesse parecer, aquele amigo poderia sofrer algum tipo de conflito, desses bem típicos aos religiosos mais ferrenhos, principalmente dos que se deixam respirar pelo equívoco da culpa. Mas não. Nada disso ocorreu e aquele apanhado de músicas veio como um presente para a nossa diversão juntamente com uma frase do tipo “Olha o que eu comprei!”. O envolvimento foi tão grande que tínhamos até gravado em vídeo o show do referido disco, então transmitido pela já extinta TV Manchete. A força das canções de Cazuza estava em voga naquela época. Tratava-se da fase terminal de sua fatal doença e, talvez por esse motivo, notávamos que havia uma outra atmosfera muito mais voltada para o sentido existencial das composições do que a qualquer espécie de ressentimento sobre a constatação do derradeiro iminente.

Sinceramente nunca percebi em Cazuza qualquer indício de que a música produzida nos períodos mais difíceis de sua carreira viesse a representar uma revolta injustificada
perante o mundo. Havia sim uma crítica ácida às instituições formais, aos chamados caretas de plantão, tão preconizada em canções como Burguesia, Ideologia, Brasil e pela belíssima Blues da Piedade. Mesmo a contumaz Boas Novas, cuja atmosfera traduzia a percepção de um artista consciente do fim, não deixou de significar a inquietude projetada num porvir.

Cazuza, O Tempo Não Pára, consegue agradar sem forçar a barra, sem pieguices que possam exprimir qualquer ambiente gratuito de melodrama. Trata-se de um filme objetivo, bem conduzido, cujo roteiro é entrecortado por pontos fundamentais da trajetória do tão irreverente poeta do rock brasileiro. Agenor Miranda de Araújo Neto - esse era o verdadeiro nome de Cazuza – veio às telas através da atuação do jovem global Daniel de Oliveira que, conforme o produtor e também global Daniel Filho, entregou-se com muita disposição e alegria ao papel. Chega a ser impressionante os cuidados do filme com relação aos trejeitos pessoais de Cazuza, tais como a sua dicção, seus gestos e, para quem se lembra, a sua presença de palco. A direção de arte foi bastante feliz no que se refere à reprodução do cenário do Rio de Janeiro dos anos oitenta, incluindo o figurino e alguns outros detalhes importantes de cena. Vale a pena também ressaltar a presença do Circo Voador, um grande celeiro de formação dos artistas cariocas de época e onde Cazuza teria embalado as suas primeiras aparições em público.



Cazuza e a mãe, Lucinha Araújo



Quem leu Só As Mães São Felizes, organizado pela escritora e jornalista Regina Echeverria e que é, na verdade, uma reunião de depoimentos da mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, sobre a vida do filho, consegue situar-se melhor em meio ao contexto do filme. O livro traz minúcias da vida pessoal e da obra do compositor, antes desconhecidos do grande público. Existe na obra uma reflexão de Lucinha sobre o seu papel de mãe, suas virtudes e suas falhas, sobretudo em lidar com o gênio junkie, explosivo e inquieto do filho.

A atriz Marieta Severo, que protagonizou a mãe do cantor no filme, conta que o próprio Cazuza quando a encontrava, achava ambas muito parecidas. A própria Lucinha Araújo aparece integrando a platéia na cena do show do disco O Tempo Não Pára, onde flores brancas marcam a atmosfera do ambiente. Em outra passagem, o produtor, parceiro musical e grande amigo de Cazuza, Ezequiel Neves, também faz uma pontinha em meio ao público de uma das apresentações do Barão Vermelho.

O envolvimento de Cazuza com as drogas e a sua condição bissexual aparecem fortemente pontuados no filme. No cinema onde assisti à película, pude perceber a presença maciça de adolescentes que pareciam vibrar com aquelas cenas. No entanto, mesmo com a aparição freqüente das drogas, por exemplo, não vejo nesta produção a tentativa de velar uma apologia a tal comportamento. Seria por demais hipócrita repetir o vazio discurso de que mostrar o proibido acaba incitando uma suposta adesão. Nada disso vale como desculpa e, nestes tempos de desacordo, intolerância e excesso de informações, subestimar a inteligência das mentes jovens seria um grave equívoco. A principal mensagem da obra não está no furor atraente da personalidade de Cazuza, mas sim na demonstração de sua sensibilidade criativa.

O nosso poeta do rock, segundo nos conta Lucinha Araújo numa das passagens de Só as Mães São Felizes, era um alguém extremamente devotado ao cultivo das palavras, tanto que chegava simultaneamente a ler três ou mais livros. O filme ressalta essa veia literária do artista quando nos oferece cenas de um Cazuza a recitar poemas em meio a amantes e amigos. Mas, o que poderia destacar como sendo um momento acertado de Cazuza, O Tempo Não Pára é a cena na qual o ensaio do Barão é interrompido por uma espécie de falta de concentração da banda e, então, é aí que Cazuza começa a cantarolar a tão maravilhosa canção de Cartola, O Mundo é um moinho, na tentativa de fazer com que um repertório mais eclético fizesse parte do grupo. Para além de um simples capricho particular ao artista, aquela atitude significava a amplitude de sua percepção do universo musical, uma das razões que o levaria, mais tarde, a alçar vôos próprios.

É realmente curioso como as coisas se comportam. Muitos daqueles que estavam ali naquela mesma sala de projeção que eu, talvez não tivessem nem sequer nascido para testemunharem um pouco da trajetória de Cazuza. No entanto, após o término da sessão, todos se mantiveram simplesmente petrificados em função da avalanche de emoções que acabara de ser descarregada. Procurei, então, identificar naqueles rostos diversos o desenho mais aparente possível de suas impressões. Tudo parece que ficou misturado juntamente com a força das canções marcantes, do findar de um aparato cênico, da sucessão de imagens intimistas do poeta registradas em Super 8. A sala compartimentada de um cinema parece roubar-nos a noção exata da explosão de um mundo real. Enquanto ali estamos, pouco percebemos do que gira de verdade lá fora e a tela nos sugere interpretações e vivências paralelas. Mas, aos poucos, tudo são instantes que convergem e se distanciam, lembranças, coisas que, se não ficam, continuam sendo empurradas para frente.




Um Exagerado Cazuza



(Crônica escrita em junho de 2004.)


 
publicado por Fabrício Brandão
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