19 de out de 2007,23:32
DÉCIMA QUARTA LEVA
Poeta Zé Arcanjo de Caruaru, Zona do Mangue, RJ, 1979
Foto: Evandro Teixeira



Quando a escuridão
Invade o tempo de alguns,
A pedra da ausência atravessa os ossos
E a beleza corta uma linha indecifrável
No silêncio: som de poço sem fundo

Mas a minha vida seria um espanto
Se o sol misturasse todas as cores
Nestas imprescindíveis e doces
ilusões cotidianas.

(LIÇÕES COTIDIANAS, Leila Lopes)






CICERONEANDO

Nosso novo caminho das palavras contempla a grata missão de poder reunir, ao mesmo tempo, felicidade e trabalho. Com a chegada de novos e interessados leitores, alguns deles atingindo a condição de colaboradores, passamos a conhecer também outras fronteiras sobre as quais se debruça a cultura. Toda essa rede de antigos, novos e valiosos incentivadores é que impulsiona a confecção desta Leva que agora brota. Entre nossos textos de então, há um captar sensível e poético de momentos expressivos da memória histórica brasileira através das lentes do fotojornalista Evandro Teixeira. A poesia não cabe em si e, atravessando as linhas de Floriano Martins, Carlos Besen, Diovvani Mendonça e Augusto da Maya, aporta nos apelos imagéticos de Constança Lucas. Em nossa conversa com o palhaço do Cirque du Soleil, o brasileiro Rodrigo Robleño, percebemos a importância de voltarmos os olhos para a secular arte circense. Os sentimentos da redescoberta de um mundo pulsam nas linhas de Vital Péricles. O Senhor dos Palcos, Paulo Autran, exala sua perenidade no texto do dramaturgo Paulo Atto. O Aperitivo da Palavra traz a indicação do novo livro da cronista Thelma Oliveira. Por aqui, também contamos com o humor preciso da tirinha de Bruno Grossi e Diane Mazzoni. Está aberta a temporada de leituras da Décima Quarta Leva. Aos nossos leitores, boas-vindas!

*Comentários podem ser feitos através do link EXPRESSARAM AFINIDADES no final da Leva.





Carlos Drummond de Andrade, RJ, 1988
Foto: Evandro Teixeira







ESCONDERIJOS DE INTIMIDADE

Fabrício Brandão


Ele a reteve atrás da velha porta por alguns demorados instantes. Os lances vinham todos assim de soslaio, espécie de vigília involuntária dos movimentos alheios. Ela acabara de chegar de mais uma conferência dos achados livrescos, tempos de verborragia com justo conhecimento de causa. Os passos dela eram firmes, decididos e sabiam, mesmo no cansaço de certas horas, definir condutas exageradamente objetivas de vida. Ele, confinado num gabinete biblioteca, pensava as linhas decisivas para mais uma crônica onde relações humanas escassas faziam a pauta da vez.

Mantiveram-se assim, os dois, cada um na sua redoma construída pelos imperativos de uma vida regada a caprichos intelectuais. Entre muitas viagens e compromissos, o tempo da delicadeza diluía-se em conversas de aeroporto e debates sobre a inenarrável epopéia do amor e do ser, assuntos prediletos daqueles que, mesmo vivendo sob tetos de vidro, atinam para o cosmos da generalidade analítica da vida de terceiros seres. E então, quando voltamos o olhar para o homem em sua sala de livros, percebemos a imensa curiosidade que apenas sua sombra é capaz de perfilar. Repetidas vezes pensou nas décadas todas de matrimônio aparente, na cegueira de ambos traduzida numa sensação de mesmice tolerada. Ela, a mulher que caminha sonoramente pelo amplo apartamento dividido em dois, agora incomoda um tanto pelas lembranças que traz. Em ritmo silencioso, ele finge a si mesmo que de hoje em diante está devotado ao jogo das mudanças inevitáveis.

Mas esse princípio de madrugada serve também para mastigar projeções. Enquanto se perde em letras, o homem maduro confia suas esperanças no seu velho costume de sedução pretensamente inteligente. Quando os primeiros raios do dia despontarem, incensará uma prece aos deuses eloqüentes de sua razão. Quem sabe assim poderá reinventar a pintura íntima daquela que dorme no leito ao lado. Ele sabe que é possível tentar esquecer de que gosto são feitos os medos todos. Vive sem cortinas para não amenizar excessos da luz que vem de fora. Talvez outras palavras escalem as paredes todas e rompam o antigo pacto de se engessar a vida na ficção. O livro empoeirado da realidade ainda é estante intocada, carece de efeitos, novos prazeres e algum outro final.




Dona Cotinha, Canudos, BA
Foto: Evandro Teixeira





JANELA POÉTICA (I)


CARNAVAL

(ao povo brasileiro)

Neuzamaria Kerner


Quando falta de pão sentirdes,
de graça a vós, circo darei
porque se da vida querei o gozo,
folia, pois para vós farei.

Não vos preocupeis no momento...
se quero matar o pensar vosso,
pensai somente no circo
porque circo vos dar sempre posso.

A mim não culpeis, entretanto,
se refletir no viver não sabeis;
mas temo se aprenderdes, confesso,
e a cabeça, por fim, levanteis.

Cachaça e folia, portanto,
enquanto pensar não podeis...
por vós, penso eu e decido:
que só pão e circo tereis.

(Do livro Fragmentos de Cristal – Salvador, BA, 1992)





Dona Júlia de João Miguel, Canudos, BA, 2000
Foto: Evandro Teixeira









ENCONTROS E DESENCONTROS OU FUGAZ ANOITECER

Vital Péricles


Olá, como vai?... Eu vou indo, e você?

A verdade era apenas levemente perceptível ao visitante de poucas palavras, ávido por descortinar no mínimo esgar do visitado, um átimo de sua existência, cujos pormenores desconhecia e considerava ainda envolta em mistérios.

Como resíduo microscópico no fundo do copo cujo conteúdo fora sorvido com deleite, mas sem pressa, a poeira dos anos vividos era o que se acumulava para o anfitrião, que havia já aprendido que tudo o que vale é mesmo pouca coisa, gestos e coisas quase imperceptíveis, minimalistas. Sabia também como era difícil separar apenas o essencial, para não se ter peso em excesso na bagagem!

Às vezes, a ficção se aproximava da realidade (ou vice-versa?) e a vida do outro parecia inverossímil ou sem nexo aparente, quando olhada pelo ângulo ditado pela própria vivência do visitante, por seus acertos e desacertos, sem aparentemente conseguir desvencilhar-se dos obstáculos da restrita educação recebida, sem rebelar-se, ainda que pacificamente, contra uma ordem político-religiosa autoritária que lhe toldava de certa forma a autonomia, limitando-lhe os vôos mais amplos de que era capaz.

Ali estavam eles juntos e distantes, cada qual dialogando com sua própria solidão. Um, afeito àquela condição e apaziguado pelo tempo de aprendizado; o outro, sem a clara percepção de que todos nós somos e estamos, desde o nascimento, irremediavelmente condenados à solidão. Compreensão que só vem, quando vem, com a maturidade.

Despediram-se, ainda desconhecidos, ambos com o sentimento de que faltara algo, talvez uma centelha, um lampejo, uma palavra mais direta, mais confiada, lamentando não terem compartilhado, quem sabe, uma bebida, um vinho ou uma cerveja, quente que fosse.


(Vital Péricles é um alguém que preza amigos de muitos anos, desde que o papo seja sempre elevado, mas descontraído e sem pernosticismo. Aprecia países e povos diferentes e mulheres inteligentes. É Mestre em Urbanismo e design de móveis e natureza, além de se enveredar pelas artes plásticas. Não passa uma semana sem que a música esteja presente em sua vida)






Tomada do Forte de Copacabana, Golpe Militar, RJ, 1964
Foto: Evandro Teixeira








JANELA POÉTICA (II)


ELUCIDÁRIO DA LUZ*

Carlos Besen


Algo
se devasta
em mim,

alga
a bordo da
espuma:

ser minha
breve epidemia,

luzir aquosa

minha luz própria,
fugitiva.


*Poema integrante do livro Uma Luz no Aquário.

(Carlos Besen (Porto Alegre, RS, 1980) é formado em filosofia, mas não encontrou nela uma profissão. Desde 2006, vende livros usados, tendo fundado o Balaio Digital. É autor de Uma luz no aquário (Nova Prova, 2006)).








Xuxa, Jogos Pan-americanos de Winnipeg, Canadá, 1999
Foto: Evandro Teixeira








O TEATRO E A FINITUDE DA VIDA

Por Paulo Atto


No já longínquo ano de 1987, formei com um grupo de atores a Companhia de Teatro Avatar. Nossa primeira montagem foi o espetáculo “A Confissão”, um texto meu sobre as relações do homem com o Poder. Não foi a minha primeira experiência em dirigir um texto de minha autoria, mas foi um processo, para utilizar uma palavra em voga, de uma riqueza quase mística. Foi o encontro de artistas de distintas gerações e trajetórias cheios de desejos, medos, sonhos, traumas e vontades. Havia pouco público para ver o espetáculo em toda a sua temporada, mas as críticas foram maravilhosas. Sobretudo pela força do texto e das imagens que os atores Hamilton Lima, Paulo Pereira, Andréa Elia e Lucio Tranchesi souberam construir.

No entanto, uma das minhas maiores lembranças de todo o processo de “A Confissão” veio de fora da montagem. Foi a oportunidade de conhecer e manter contatos por anos com o grande ator Paulo Autran. À época, em cartaz em Salvador, ele levou o texto de um jovem e desconhecido autor para São Paulo e escreveu-me uma belíssima e generosa carta. Foram palavras de um mestre das artes cênicas para um jovem que se movia numa estranha alquimia entre a escola politécnica da UFBA, onde cursava Engenharia Química, e as úmidas e sombrias salas do antigo Teatro Castro Alves, antes da reforma, em intermináveis ensaios.

Mantivemos, por alguns anos, uma correspondência e um contato extremamente enriquecedor, pautado por vários encontros na Bahia e em São Paulo. Ver Paulo atuar era uma aula e um prazer, mas ouvi-lo fora de cena era absolutamente surpreendente. Paulo era um grande contador de histórias. O tom era sempre confessional: um avô teatral que nos contava suas vivências recheadas de bom humor. Um ator em toda a sua plenitude, um ser humano de extrema delicadeza que sabia atender aos inúmeros pedidos de fotos e autógrafos por onde passávamos.




Paulo Autran em O Avarento
Foto: Priscila Prade


A notícia de sua morte não é a razão da minha escrita hoje, senão o testemunho de sua vida, tomada pelo ofício do teatro como um exemplo para todos nós. Acredito que ensinar pelo exemplo, como vaticinou o velho Brecht, tenha sido algo que Paulo soube magnificamente realizar em sua longa e profícua existência.

Como dizia a personagem “A Morta” no texto de A Confissão: “provei do fruto do amor até dar com os dentes num caroço duro, aí descobri que o amor traz dentro de si a semente da morte: não adiantou nada! Estava no limite da congestão”.

O ator morre a cada dia que atua, deslinda sua vida a serviço dos personagens que são eternos, empresta sua voz e seu efêmero corpo a alguém que jamais encontrará abrigo a não ser em sua carne, através da qual o verbo se faz ato e existência. O teatro também traz dentro de si a semente da sua finitude, é um espelho da vida em sua irrepetibilidade, em sua unicidade. Quando constatamos a fugacidade do fenômeno teatral, estamos simultaneamente sentindo o quão profundo, frágil e complexo é o ato de existir.

Paulo uma vez me disse, quando eu estava em dúvida sobre a carreira de engenheiro químico ou o teatro, que na verdade nós não abandonamos o teatro, é o teatro mesmo que nos abandona quando não o abraçamos verdadeiramente. O teatro não abandonou Paulo Autran até que a cortina fechou-se e, naquele mesmo ano de 1987, a escola politécnica de engenharia perdeu um de seus alunos.

(Paulo Atto é dramaturgo, diretor teatral e produtor cultural baiano. Coordena o Programa ArtEducAção Bahia e o Programa TIM ArtEducAção Sergipe. Reconhecido por espetáculos como Morangos Mofados, Viva o Povo Brasileiro, A Herança de Macbeth e Terra de Caliban, o autor dirigiu montagens na Europa e EUA, além de ter representado o Brasil em festivais de teatro e eventos em mais de 15 países)





DESCONTRAINDO O VERBO

Por Bruno Grossi e Diane Mazzoni






Para conhecer as tirinhas, estórias em quadrinhos e ilustrações da dupla, visite o Turadinhas








OUVIDOS ABERTOS (I)

Por Fabrício Brandão


PEDRO AZNAR – AZNAR CANTA BRASIL

Revelando uma intensa apreciação pela MPB, o argentino Pedro Aznar expõe toda a sua qualidade nesse grande trabalho. Composições de gente como Milton Nascimento, Chico Buarque, Lenine, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim, Egberto Gismonti, Vinícius de Moraes, dentre outros nomes expressivos de nosso cancioneiro, ganham interpretações castelhanas de peso. Aznar Canta Brasil, gravado ao vivo e também registrado em DVD, preocupa-se com a qualidade dos arranjos, revelando sensibilidade apurada a cada faixa. A demonstração vigorosa do cuidado do artista com a sua obra pode ser ouvida em canções como Invento el mar (Cais), Chiquillo (Menino), Milagre de los peces (Milagre dos Peixes), Balada Triste, Lindeza e Continuidad de los parques (Continuidade dos Parques). Pedro Aznar não apenas canta letras marcantes de nossa música, ele as projeta num lugar diferenciado de sentimentos, ambiente onde paira um lirismo bem dosado aos apelos tão inerentes do repertório selecionado. Uma íntima homenagem à música brasileira, eis a definição que o próprio artista vislumbra ao seu disco.




JANELA POÉTICA (III)


Imagem: Floriano Martins



MAGIA INCOMPLETA

Floriano Martins


Teu incêndio forma uma cadeia de labirintos,
despojos aflitos com seus rios queimados.
Meu corpo remando contra os delitos
prolongados numa margem e outra, ritos
carregados de súplicas e negras portas.
Um alfabeto de pedras recolhe seus espectros,
estoque de dores em armários suspensos.
Tudo parece queimar em modos distintos.
Furor de salmos com passos descontrolados.
Cinzas maltratadas sem saber onde cair.
Não vi passar por aqui senão espelhos cegos.
Teu incêndio funda uma reserva de tumultos,
com suas forças desfeitas em mil nomes,
cada um abrindo as covas de seu testemunho.

(Floriano Martins é cearense e já publicou alguns livros, entre poemas, ensaios, traduções e preparação de antologias alheias. Edita uma revista virtualíssima, a Agulha. Tem uma incorrigível inclinação para envolver outras pessoas em tudo que faz, em decorrência do que certamente estejam em curso projetos dentro e fora do país, envolvendo a publicação de livros e a organização de eventos)





O Papa e mão misteriosa, Belém, PA, 1991
Foto: Evandro Teixeira









APERITIVO DA PALAVRA

Por Fabrício Brandão



OLHO DO TEMPO – THELMA B. OLIVEIRA (TEKKA WHITMAN)



O cronista é, acima de tudo, um observador atento a um complexo universo de acontecimentos. Em Olho do Tempo (Editora Viena), a escritora Thelma Oliveira, que também é pediatra em Brasília, assinala em registros sensíveis certas porções cotidianas, sobre as quais pulsam uma infinidade de traços tão nossos. Pela obra, a qual reúne textos, em sua maioria publicados no site Focando, vemos as faces variadas de um contingente rico em expressões. As opiniões e pensamentos tratados no livro atravessam questões cruciais de nossa desvairada e contraditória pós-modernidade. Sem deixar o leitor caminhar desavisado, Tekka Whitman, apelido adotado pela autora em homenagem ao escritor Walt Whitman, desfila os argumentos numa conformidade precisa entre memória e história.


BEIJOS NOS PÉS

Tekka Whitman


Tem gente que gostaria de ter sido Maria Madalena em vidas passadas. Essa inesquecível figura era bela e resolvida - uma mistura de Simone de Beauvoir com Juliana Paes. Na época, uma mulher descolada - da cabeça aos pés. Com perfeita noção de sua futura importância histórica, não economizava em perfumes, cujo destinatário seria ninguém menos que o Filho do Homem, o Rei dos Reis. Filho esse que não padeceu da maldição de Édipo, saindo de casa ainda menino, para viver de bico.

O primeiro encontro dos dois se deu em praça pública, quando ela escapou de ser apedrejada. Na moral, Ele desafiou seus acusadores a lançarem a primeira pedra, mas somente os que não tivessem pecado. Não sobrou um, meu irmão! Segundo certo escritor português, eles “ficavam” juntos na residência dela, num acordo em que ela teria habeas-corpus amplo, geral e irrestrito. Tal relacionamento jamais existiu, apesar de filme recente insistir no rumoroso ‘gossip’. Não só o negam as Escrituras, como podemos ler, em Machado de Assis, que “tão puro exemplo de castidade não viram os séculos nem antes nem depois que Ele desceu à terra…”

Marguerite Yourcenar em ‘Maria Madalena ou da Salvação’ relata seu lamento de abandonada: ‘Deus não amou senão as minhas lágrimas. Como eu, aceitava o destino de pertencer a todos’. Mas acompanhou-O até o fim, até vê-lo ‘deitar-se sobre o leito vertical de suas núpcias eternas’. Teve todos os pecados perdoados e foi elevada aos céus, ‘porque muito amou’.

Ela sabia que, antes, haveria seu gran finale e se preparou deliberadamente para isso. Quebrou o cofrinho, tirou as moedinhas (ou dracmas) e comprou o famoso nardo em vaso de alabastro. Coisa impensável para uma mulher pobre e marginal. De menos ela, que era dotada não só do físico para o papel mas também de incrível senso de oportunidade. Deixou o cabelo crescer até abaixo da cintura, fez um cursinho de reflexologia e bolou seu próprio epitáfio: “Honni soît qui mal y pense” (depois copiado pela Rainha da Inglaterra). Tudo para a cena magnífica em casa de Zaqueu: dirigir-se ao Mestre, lavar-lhe os pés, beijá-los e perfumá-los para a morte iminente.

Resumo da ópera:

1) Ela não tinha dote, Ele não tinha onde cair morto. Nenhum dos dois se casou, pelo que puderam ser felizes por toda a eternidade celestial. Amigos para siempre, mas cada um em seu castelo de nuvens.

2) Nem Ele nem ela tiveram filhos, como também se propala, o que lhes poupou, a ambos, dores de cabeça sem fim.

3) Emblematicamente, como se diz, foi a primeira mulher pública a entrar no céu, tornando-se a primeiríssima santa de todos os tempos.

4) Foi declarada padroeira dos vendedores de calçados, por Vinícius de Moraes; e dos podólogos, pelo Dr. Scholl. Seu Mestre, Jesus, tornou-se o ícone dos cabeludos.

5) Após sua morte, tiveram fim os espetáculos de apedrejamento, que eram a principal diversão e BBB do populacho.

6) Em sua homenagem, foram criados livros, contos e marchinhas de carnaval. Ivan Lins a evocou em música com seu nome, que Elis gravou com sucesso.

7) No século XXI D.C., Maria Madalena foi tomada como inspiração por uma comunidade de mulheres urbanas, que se mimavam entre si com delicados ‘beijos nos pés’ …








Pés calejados, Nova Canaã, BA, 1998
Foto: Evandro Teixeira








JANELA POÉTICA (IV)


UMBRELA

Héber Sales

(Tradução: Shirley Tejeda*)


sobre el cielo
atrevida
para aguas
para sol

a la tierra
sin embargo
confiessa

no hago más
que una sombrilla


*Shirley Tejeda, nascida em Catende, Pernambuco, e atualmente perdida em Maryland, USA, costuma se reencontrar lendo, traduzindo e escrevendo para as gavetas.




João de Régis, Canudos, BA
Foto: Evandro Teixeira







PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Valéria Freitas e Fabrício Brandão


1.500 a.C. - Na Índia, há milhares de anos, números de contorção e saltos faziam parte de espetáculos sagrados.

300 a.C. - Na Grécia, as paradas e os números de força eram modalidades olímpicas e os sátiros, os primeiros palhaços, já faziam o povo gargalhar.

Século 18 - O Circo como o conhecemos - um espetáculo pago, em volta de um picadeiro onde se apresentam artistas com diversas habilidades - é uma invenção recente. Foi criado por Philip Astley, um jovem suboficial inglês, perito cavaleiro, na Londres de 1770. Ele descobriu que, se ficasse de pé sobre seu cavalo enquanto o animal galopava em círculos, a força centrífuga o ajudaria a manter o equilíbrio. Estava criado o picadeiro.

Respeitável público!!! É com imenso prazer que a Diversos Afins, em sua Décima Quarta Leva, convida Rodrigo Robleño, artista circense brasileiro, made in Minas, atualmente em temporada com o Cirque du Soleil na Austrália, no espetáculo Varekai, onde interpreta o personagem “La Vigie”, para uma conversa sob nossa lona!

Divirtam-se!



Rodrigo Robleño


DA - E o palhaço, o que é? Conte-nos sobre esse seu caso de amor (é amor?) com o Circo.

RODRIGO ROBLEÑO - Eu comecei fazendo teatro bem jovem, aos 12 anos. Aos poucos, fui me direcionando à profissionalização. No curso profissionalizante de teatro, conheci a técnica de palhaço e, pouco a pouco, fui me apaixonando. Descobri que tinha afinidade com esse tipo de trabalho e descobriram isso também. Assim, cada vez mais, me contratavam para ser palhaço. Se falarmos de amor, acho que meu amor pelo circo nasceu pelas coisas que ele me ofereceu e, assim, conhecendo-o cada dia mais, não tive como não amá-lo, carregando toda a responsabilidade que isso nos traz. Muitas vezes, quis a separação (risos), mas o amor falou mais alto.

DA - O que muda para um artista circense brasileiro, apresentar-se sob a majestade de uma Big Top (a famosa grande lona do Cirque du Soleil), com relação ao velho picadeiro?

RODRIGO ROBLEÑO - Meu espaço preferido de apresentação sempre foi a rua. Minha vinda para o Soleil acarretou grandes mudanças tanto na minha vida pessoal quanto na relação com o público: eu estava acostumado a improvisar, atuar na rua, junto ao público, um público de todas as idades, raças, classes sócio-culturais, bêbados e doutores. Atuava quase sempre sozinho e sem infra-estrutura. Começava meu espetáculo do zero. No CDS o público é, de certa maneira, selecionado. Temos pouco espaço para improvisação, trabalho com mais de 50 pessoas em cena, inúmeros técnicos, luzes, equipamento de primeira. E o público já entra debaixo da lona sabendo que vai ver um grande show. Sinceramente, aqui fica tudo mais fácil.

DA - Todo artista de circo, sabemos, tem a sua porção atleta. Mas no caso do Cirque du Soleil, todo atleta tem a sua porção artista? Como são trabalhadas as diferenças, quando existem, para que todos - artistas e atletas - se encontrem e dêem o melhor de si em suas performances?

RODRIGO ROBLEÑO - Uma das coisas que me incomoda no CDS é o fato de que os atletas têm bem poucas referências artísticas. Poderíamos dizer que o CDS é formado basicamente por três categorias: atletas, circenses e atores. Essa mistura, ainda que não homogênea, faz com que os espetáculos funcionem. Eu, por exemplo, não executo proezas atléticas, e os atletas não têm muita expressividade em cena. De qualquer maneira, existem ensaios e o conjunto funciona com grande harmonia.

DA - Em seu blog, Vida de Viralata, você confidencia aos leitores sobre sua emoção durante apresentação de parte do elenco de Varekai pelas ruas de Melbourne, na Austrália. Nela, você reconhece que o brasileiro não tem a oportunidade de presenciar “algo tão belo”. O que se pode fazer para consertar esta relação do brasileiro com o circo made in Brasil?

RODRIGO ROBLEÑO - Quando eu falo que é uma pena que o brasileiro não possa apreciar algo tão belo, me refiro a que os shows do Soleil são caríssimos, mas eu sei e vi as coisas belas que um brasileiro pode presenciar, como todas as formas de cultura popular, os circos de periferia, os grupos musicais e teatrais, cada um em sua dimensão e importância. Ainda, se o governo der suporte e importância, como faz em algumas ações isoladas, o brasileiro poderá desfrutar de mais belezas culturais e, com certeza, quando uma pessoa vê algo belo, se torna um pouco mais belo também. Acho que as atividades artístico-culturais são um bom caminho para transformar a sociedade.

DA - E o circo no Brasil, vive ou sobrevive?

RODRIGO ROBLEÑO - Acho que vive, mas entre tapas e beijos. Ainda falta ao circense a consciência de que o mundo mudou e que é preciso profissionalizar-se como empresário, adaptar-se aos tempos modernos não em relação a sua arte, mas em relação à visão do circo também como uma empresa. O bom é que tem muita gente boa, competente, contribuindo para a revitalização do circo. Gente que vem de gerações e gerações do circo e gente que acaba de chegar.

DA - “Foi a partir dos anos 80, que também o circo começou a mudar, através de companhias inovadoras como o Cirque du Soleil, assimilando justamente as técnicas e a tecnologia originária dos grandes shows multimídia. Assim, o circo está voltando a ser um espetáculo vigoroso, dinâmico, grandioso e antenado com seu tempo.” (fonte: Funarte, História do Circo) Você concorda, há algo mais a acrescentar, ou exageraram?

RODRIGO ROBLEÑO - Esse comentário, para mim, é apenas parte do que aconteceu com a arte circense ao longo dos séculos. O circo sempre esteve em constante transformação e, mesmo antes dele, as artes circenses se transformavam e se adaptavam à sua contemporaneidade. O circo moderno nasce como espetáculo de cavalos, logo inclui outras atrações. Num tempo sem TV, animais exóticos eram um grande atrativo, logo, atrações bizarras, depois, o circo-teatro, as motos em cena. Etc e etc.

DA - A passagem do Cirque du Soleil, nos próximos dez meses, por várias capitais brasileiras com o espetáculo Alegría, pode gerar algum incentivo à arte circense no Brasil?

RODRIGO ROBLEÑO - De certa maneira, acredito que sim, mas o maior incentivo ao circo virá do próprio público quando o brasileiro mudar a frase “eu vou ao Cirque du Soleil” para “eu vou ao circo”. Aí teremos um grande incentivo.

DA - O brasileiro faz gênero ou acredita mesmo em “luz no fim do túnel”? E pra nos despedirmos, o que dizer aos inúmeros artistas, circenses ou não, que continuam equilibrando suas vidas para não ficar na lona?

RODRIGO ROBLEÑO - Acredito que o brasileiro vê até luz demais no fim do túnel e acaba desistindo de achar sua própria lanterna. Esperança é um bom alimento, mas não é ferramenta. Ferramenta pra ver o dia claro e lindo é nosso compromisso e ação para um mundo melhor.





Enchente na rua Jardim Botânico, RJ, 1988
Foto: Evandro Teixeira






JANELA POÉTICA (V)


TRANSFUSÃO

Diovvani Mendonça



Quando me dói dentro
fervo a dor no sangue.

E de poros dilatados, dôo
misturada em meu suor

- toda dor:

vermelha-vaporizada,
transmutada em alimento

ao invisível corpo
do tempo.

Que é o melhor
espalhador do pó

de minhas dores
eternidade adentro.


(Diovvani Mendonça é natural de Belo Horizonte. É compositor e já venceu diversos festivais de música. Não se considera poeta, mas um "amador" da poesia. Está sempre envolvido em idéias que objetivam levar para o dia a dia das pessoas. Uma dessas idéias é o Pão & Poesia - em qualquer esquina, qualquer padaria)







Enterro do Anjinho, Aprazível, Ceará, 1992
Foto: Evandro Teixeira










POESIA QUE VEM DE LONGE

Affonso Romano de Sant'Anna


Um dia (creio que em 1964) estava dando uma aula sobre a evolução dos estilos literários desde a Idade Média e mencionei Dante. Para provocar os adolescentes daquela turma do científico do Colégio Estadual de Belo Horizonte, perguntei: "alguém aí já leu Dante?". Um rapaz de óculos na primeira fileira à esquerda ergueu a mão. Surpreso, meio ironicamente, indago: "- Em italiano ou português?". Ele, tranqüilo: "Em italiano".

O rapaz tinha uns 17 anos. Chamava-se Lauro Machado Coelho. Hoje, residente em São Paulo, é crítico musical do "Estado de São Paulo" e autor da monumental "História da Ópera". E não bastasse isso, é tradutor de poesia russa. Dele acabo de receber "Poesia soviética" (Algol Editora). São quase 700 páginas de poesia traduzida diretamente do russo nos dando um panorama novo e tocante do que foi a poesia naquele país no século passado.

Confesso que há muito não leio poesia com tanto prazer. E esse prazer é decorrente do prazer laborioso que Lauro sentiu ao fazer seu trabalho. Como revela na informativa introdução da obra, foi traduzindo, foi se aproximando dos poetas com os quais sentia afinidade até que o trabalho ganhou consistência maior. Ao contrário de certos tradutores que se apropriam de certos autores para defender teses marcadas, o seu radar era outro. E não apenas isto. Afastou-se de certos critérios usais, tanto da vanguarda oficial que só sabe, redundantemente, ver dois ou três nomes entre centenas de outros, mas afastou-se também dos representantes de outra estética oficial, a do Realismo Socialista. É, portanto, um trabalho inovador, uma arqueologia da poesia russa recente.





O ideal era aqui ir transcrevendo versos e poemas, para injetar um pouco de poesia na veia deste domingo. Mas teria que usar o jornal todo. E fico a pensar no mistério da palavra, no tremor poético que pateticamente estremecia a Rússia diabolicamente dominada por Stalin. Se como dizem a "poesia não serve para nada", então, porque o ditador se importunava com esses poetas, porque os torturava e os matava na Sibéria? Se "poesia não serve para nada" porque os leitores, ontem e hoje, entoam nesses versos a sua perplexidade diante do mistério da vida? Para mim que vim de São Petersburgo há algumas semanas e ouvi narrativas sobre a guerra e o terror stalinista; para mim que assisti em Moscou, em 1991, o fim do poder soviético e que estive com Ievtschenko quando de sua passagem pelo Rio, abrir esse livro é projetar-se na quarta dimensão, que a arte, antes da ciência, proporciona.

Pois numa segunda-feira peguei um avião para falar aos alunos da PUC-Minas, que estavam comemorando 55 anos do seu DCE. Queriam que eu lhes falasse sobre poesia e consciência política. Desço no aeroporto de Confins e vou constatando as largas pistas do progresso. Passando pelas ruas da cidade vou tentando ajustar meu olho adolescente de ontem ao olhar do homem maduro de hoje. Como essa cidade mudou! Como serão os seus estudantes daqui a 55 anos? Que perguntas se farão?

Tinha eu levado comigo a antologia de poesia russa do Lauro e a fui lendo, nas nuvens. E foi a partir dela que comecei a narrar aos estudantes daquele belo campus da Católica, as experiências poéticas e políticas vividas nos anos 60 em BH. Passado quase meio século, aquele mundo dividido em esquerda e direita, entre capitalismo e comunismo, parece coisa muito antiga. As ideologias passam, deixando seus danos irreparáveis. No entanto, a poesia permanece. A poesia que fala sobre o pasmo diante do amor e da morte.

Como diz Robert Ivánovitch Rojdésdtienski: "é esse nosso destino... que os pássaros continuem a cantar na terra sem nós. E que as cerejeiras continuem a florescer na terra sem nós. E que as águas do rio continuem cristalinas e que as nuvens continuem a pairar sobre nós, sem nós".

Pois que a poesia é o que sobrevive a nós.

(Affonso Romano de Sant’Anna é colaborador ativo da Diversos Afins)








JANELA POÉTICA (VI)

Constança Lucas






(Constança Lucas é portuguesa e vive em São Paulo. Mestre em Poéticas Visuais, a autora tem muitos de seus desenhos publicados em diferentes periódicos, além de ter participado de exposições coletivas em diversos países. Na visão dela, os desenhos são responsáveis pela criação de leituras múltiplas)







DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Fabrício Brandão



Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme). França. 2007.



Existem notáveis diferenças entre a vida que se apresenta em estrelato e aquela que pulsa num íntimo cotidiano. Ao artista, cuja face nos parece irremediavelmente polida por uma aura de encantamento cativante, muitas vezes é imposta a condição de suprimir as verdadeiras nuances de sua existência, revelando-se outros seres em um, abafando sentimentos reais, vivos e que poderiam perfeitamente estar ali, à vista de todos como uma forma coerente de composição de sua própria arte. Para aqueles, como eu, que sabiam muito pouco sobre a vida do ícone da música francesa Edith Piaf, esse limiar de casas divididas entre vida e arte tem suas fronteiras reduzidas pelas revelações de uma existência devidamente escondida na canção. Piaf – Um Hino ao Amor, mais do que uma síntese biográfica dessa cantora de personalidade forte, expõe os propósitos daquela que, independentemente de suas vastas intempéries, tem como tarefa imperiosa manter o ofício de seguir adiante.

Protagonizando a estrela em questão, a atriz Marion Cotillard encarna intensamente uma vida marcada, desde o início, por tragédias pessoais. A sina de uma busca incessante é a marca essencial do filme. Infância, juventude e maturidade de Piaf são atravessadas por uma espécie de resignação (aqui, leia-se num sentido de inconformismo) em não sucumbir à torrente de fatos negativos. O roteiro bem construído caracteriza-se por um entrecortar de acontecimentos que firmam um diálogo simultâneo entre passado e presente, exalando apelos poéticos sem dar qualquer oportunidade ao perigoso terreno da pieguice sentimentalista. A bela e precisa interpretação de Marion rouba a cena e conduz as atenções para uma Piaf sofrida e, ao mesmo tempo, obstinada pela música. Como não poderia faltar a uma obra de cunho biográfico, a força das canções passeia por toda a narrativa e serve de confirmação especial a certas situações ali vividas. Dentre elas, emerge aquela que se alinha ao pensamento marcante de Piaf, Non Je Ne Regrette Rien, sucesso que exorta a recusa às lamentações. Talvez esteja aí a mensagem central do filme. Ante uma trajetória de vias trágicas, abolidos estão as mágoas, prazeres, alegrias fugazes, medos, equívocos e paixões. Não há razões para a culpa. Do nada, recomeça o amor, essa procura sempre escondida em nós.





Queda do estudante de Medicina na Cinelândia, Movimento Estudantil, RJ, 1968
Foto: Evandro Teixeira









JANELA POÉTICA (VII)


BORBOLETA-DE-PERNAS

- depois do Oratório de Natal*

Augusto da Maya


Esse transpassar de pernas
que com as tuas vai corpondo
é gesto com que desenhas
nos movimento de vagina-aberta
uma borboleta de pernas

Asalando seu corpornográfico-vôo-obsceno
na atmosfera do meu corpassivo.
Ela me aperta num abraço-de-pernas
copulatracando nossos corpegados
num enlaço de polvo, mulher de mil-lados

sinto o corpo dela se expandindo...
- primaveras de desejos, flor se abrindo,
e queimando no calor de seus infernos
ela se oferta a mim: corpo aberto

Ela é vulva-viva, vagina, o corpo todo
e eu ali, lambendo-a só com o olho
provando, antes da carne, no olfato, o que
transpiras: um aromaçã no suado da vagina

Como bicho que espera o cio. Aguardo.
quando ela, já babando – trans-irriga,
o rio-mel-melado escorrente de suas nascentes,
em bote, avanço: língua-lábio-dente, comendo-a

acariciando suas carnes nos dentes
vou ré-sentindo o aromaçã do suado,
agora, na língua salivado,
engulo o gosto dela transpirado

chupando nas carnagens seu sabor açucarado

Sigo corpolento escorrendo corpo-a-dentro
deixando que, gota-a-gota, adiem-se os espasmos
porque possuí-la assim: de tão-todo-tato
é mais que gozo, muito mais que orgasmo.


*Título do poema de Jemes Martins


(Augusto da Maya diz: De mim não arisco um risco. Rio de mim. E Riu. No mais, menos noves fora nada. "Viver é muito perigoso". E eu não tenho espelho em casa. Narciso às avessas. O lago que olho só vejo de venda nos olhos. Saravá. " Só sei q sou quem n sei ". De outra vez me acho e me trago. Prum maior dedo de prosa. Por enquanto só poema)






O alfaiate de Fidel Castro, Havana, 1987
Foto: Evandro Teixeira









OUVIDOS ABERTOS (II)

Por Fabrício Brandão



THALMA DE FREITAS – THALMA DE FREITAS



Dona de uma voz bela e suave, a cantora e também atriz, Thalma de Freitas, esbanja talento de sobra por aqui. Nesse, que é o seu primeiro disco solo, a artista flerta acertadamente com o samba e outros gêneros. Nascida em berço musical, Thalma, que desde os 17 anos fazia shows em barzinhos, se mostra uma intérprete muito bem firmada em sua musicalidade. Com um repertório diferenciado e mesclando uma linha que vai do clássico ao contemporâneo, a cantora passeia por compositores como Jacob do Bandolim (Doce de coco) e Kassin (Tranqüilo). Faixas como Cordeiro de Nanã, O Samba Taí e Beija-me abrilhantam ainda mais a grande interpretação da artista. Thalma e sua preciosa voz também fazem parte da Orquestra Imperial, grupo formado por integrantes de peso da nossa cena musical. Revelando muito bem os caminhos que pretendia alcançar, a própria cantora assina a direção artística do seu trabalho, além de ter escolhido sozinha todas as canções do disco. O álbum se traduz numa mistura de bom gosto e sensibilidade, equilibrando, na medida certa, o clássico e o moderno da MPB.







Ayrton Senna, no GP Brasil, RJ, 1989
Foto: Evandro Teixeira








A CASA DA LUZ

“Gloria patri et filio et spiritui sancto.”

Neuzamaria Kerner


Magia é uma palavra já muito comum para dizer daquele Domingo. Que palavra, então, usar? Não sei. Só sei que o Sábado já havia escrito o que estaria por vir. Os sábados-profetas tocam na testa dos abertos para o desconhecido encontro com a morte e o renascimento num mesmo instante... e meu coração desapercebido rendeu-se à profecia.

Não havia mais como lutar.

Não me foi dada a escolha.

Mil quilômetros mais tarde estava eu trilhando caminhos feitos de auroras, onde paisagens de luz eram tecidas para o deleite da minha alma. Onde o cheiro de mandrágoras era carícia para o meu sentir; onde menestréis sob tendas do passado preenchiam o espaço-tempo com poemas em forma de canções; onde em cada segundo do dia meu sangue era substituído por doses generosas de Amor e Paz...

Entro na Casa da Luz. Permaneço onde vive o Anjo manifesto a me provar que o escuro inexiste onde habita a luz, mesmo quando o universo tece a cor noturna do céu.

O Anjo me mostra como semear estrelas e com elas fazer um jardim perene. Aprendo a buscá-las com os olhos. Colho uma estrela-flor, a intrometida do Cruzeiro do Sul, e enfeito o agora colorido-perfumado- triunfante coração.

Meu troféu, essa flor acristalada e brilhante, não me deixará esquecer que o amor não cabe no físico.

Meu troféu não me permitirá o sofrer se minhas mãos nunca mais alcançarem flores astrais. Sobreviverei.

Não importa o futuro do verbo viver porque esse viver será sempre o presente retido no templo do meu corpo transmutante, mesmo quando a morte tentar apagar o vivido. O Anjo, Ghon, não deixará, pela graça do Senhor dos magos Domingos.

Seus ensinamentos permanecerão. Fui tocada pelo Divino.

Senhor, permita que Amar se inscreva na minha bandeira e permaneça “per ómnia saecula saeculorum. Amen!”





Guerra de Tóxicos, Favela Vila do João, RJ, 1988
Foto: Evandro Teixeira




Quis pensar que por um tempo
Eu apanharia com as mãos
Os sentidos apurados de minha desventura.
Depois das estocadas em pele viva,
Ainda soube esticar meus lábios
Ressecados de tanto sol
Nos varais de tola sorte.
O meu outro agora se esvai
E descansa,
Descansa
Por sobre a relva invisível
Da minha ingênua alegria.


(CONTRADIÇÕES, Fabrício Brandão)




*Mesclando sensibilidade e um olhar atento às transformações do tempo, o fotojornalista baiano Evandro Teixeira sabe registrar com maestria o humano em suas variadas nuances. Sua experiência profissional é vasta, tendo coberto, desde os anos 50, importantes fatos e eventos nacionais e mundiais. Nada disso é menos relevante do que a sua aguçada capacidade de percepção. Seja no resgate da memória de uma centenária Canudos, apoiado numa apreensão do homem nordestino, seja no reencontro de 68 destinos marcados pela repressão do Golpe Militar em terras brasilis, o traço essencial de seu ofício se encarrega de captar expressões marcantes e despercebidas da alma humana. Então, o próprio Evandro abre os sentidos e nos diz: “captar a aventura de cada um, desvendando, através da imagem, seus pequenos mistérios. Gosto de ter absoluta visão da rua, meu ambiente, lugar onde os homens lançam desejos e sofrem destinos”.

 
publicado por Fabrício Brandão
Permalink ¤ 31 EXPRESSARAM AFINIDADES

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