31 de ago de 2011,19:15
SEXAGÉSIMA LEVA



Foto: Paulo Neves








CICERONEANDO


Números podem ser apenas números quando a vontade das coisas resume-se a meras estatísticas quantificadoras. À frente da Diversos Afins, nunca pensamos racionalmente em indicadores alcançados. O desejo de descobrir mais e mais sempre moveu todos os nossos objetivos. O presente aponta para o alcance de 60 edições, fato que nos chama muito mais atenção pelo acúmulo de experiências vividas. Cada vez que um novo autor ou artista se nos afigurou possível e, portanto, presente em nosso convívio, abriu-se ali uma perspectiva de transformação sublime pela arte. Então, nada melhor do que ler o outro com todo um conjunto de ferramentas que se mostram ilimitadas. No jogo abstrato das interpretações, os signos dançam a melodia misteriosa da vida. Aqui, como não referenciar o poeta Edson Cruz na intensidade dos seus versos, quando ele nos diz que aquilo que já foi nosso um dia transmuta-se em matéria-prima da poesia?  Outros tantos poetas vêm se juntar ao desejo perene de agarrar a vida com palavras. Isto é o que Sylvia Beirute, Jorge Elias Neto, Ana Guillot, Henrique Pimenta, Basilina Pereira, Rui Almeida e Líria Porto fazem com voracidade tão necessária. Entre tantas letras, o ofício da fotografia presume-se em estado de puro encantamento no olhar marcante do paraense Paulo Neves. Na entrevista com a escritora Márcia Denser, está o registro de como é recompensador poder ouvir o outro naquilo que ele realmente nos acrescenta em termos de aprendizado. E eis, também, que a prosa dos nossos tão desacostumados dias percorre densamente as linhas de Maurício de Almeida, Márcia Denser, Rodrigo Melo e Ana Peluso. A percepção madura de W. J. Solha ousa promover uma leitura possível ao livro “Rescaldo”, do poeta José Bezerra Cavalcante. A escolha cinéfila de Larissa Mendes nos convida a degustar a película argentina Um Conto Chinês. Não há como chegar até aqui sem reconhecer quão valiosa aos nossos propósitos foi a arte do encontro. A todos os leitores e colaboradores, devotamos nossos mais efusivos agradecimentos por nos incentivarem a perpetuarmos os caminhos.



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.  





JANELA POÉTICA (I)


SALSUGEM

Edson Cruz


seu corpo
encontrado boiando
inchado de Jonas
baleia sem contorno

o que já foi
meu um dia
hoje
é alimento
da poesia



(Edson Cruz nasceu em Ilhéus, Bahia, e mora em São Paulo há uma eternidade. É poeta, editor e revisor publicitário. Lançou, em 2007, “Sortilégio” (Poesia – Demônio Negro/Annablume); “O que é poesia?”, como organizador, pela Confraria do Vento/Calibán; e uma adaptação do épico indiano, “Mahâbhârata”, pela Paulinas Editora)




 


Foto: Paulo Neves




 


DIÁRIO SENTIMENTAL

Maurício de Almeida

Fevereiro, 2007.


Na seção V, capítulo III, artigo 97 da Lei Orgânica do Município de Campinas (i.e. entreposto cafeeiro que mantém a ferro e fogo o ranço provinciano e, passados duzentos e trinta e cinco anos, ostenta cheio de pompa otários que empinam o queixo para arrotarem peru do frango que comeram) está redigido que

fica assegurado, na forma da lei, espaço para uma tribuna de livre expressão do pensamento popular, através das entidades representativas

no entanto, nesta recém manhã de segunda-feira, somos abordados pela guarda civil pedindo gentilmente que nos retirássemos da escadaria da prefeitura

– por favor, senhores

escadaria onde perdemos a noite e esta manhã entre garrafas e, apesar dos guardas, continuamos absortos, Hemingway cofia sua barba imensa e, descrente da minha afetação ao comentar os maltes e lúpulos da cerveja que bebemos, vira num só gole socando o copo vazio num degrau, e então, quando somos impelidos a nos retirar

– saiam!

uma gritaria no pátio, velhas e guardas e punks de meia tigela assustados com Zolá correndo enlouquecidamente pelos corredores feios da prefeitura municipal gritando

j’accuse! j’accuse!

um escândalo que Dave Ghrol & eu comentamos e brindamos no ônibus com o Jägermeifter que nos pesará na cabeça amanhã, mas que, por enquanto, apenas nos atiça a quebrarmos as garrafas vazias frente à minúscula boca do túnel Joá Penteado repetindo

labore virtute civitas floret

e rindo e duvidando de que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.



(Maurício de Almeida é autor de Beijando Dentes (Ed. Record))






Foto: Paulo Neves






 JANELA POÉTICA (II)


PONTO FINAL E CÍRCULO

Sylvia Beirute


há algures um ponto final no meio disto tudo.
um ponto final que estica e se enrola
na frase.
a frase é um ponto final
e depois outras frases seguem a oração primitiva
e todas se cumulam e são uma só.
tudo aparece como que ao redor de tudo.
nada se isola natural e benignamente.
pouco ou nada se respira aqui.
nada é belo em si mesmo. qualquer coisa
é diversamente sentida consoante se esteja
a um ou a dois centímetros de distância.
há algures um aperto bem forte
e pensar que é da linguagem
é apenas um pretexto para se continuar a acreditar.
há algures um círculo que nos engole
e esmaga. há algures um amor que não é amor.



(Sylvia Beirute (Porto, 1984) vive no Algarve, sul de Portugal. Publicou em 2011 o livro de poesia "Uma Prática para Desconserto" (4Águas editora))




DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes



Um Conto Chinês (Un Cuento Chino). Argentina/Espanha. 2011.



 


Se a vida é um grande absurdo, o acaso deveria representar um mínimo de coerência. Caso contrário, não haveria explicação para o inusitado encontro entre um jovem asiático e um sul-americano de meia idade – que apesar das diferenças culturais óbvias –, nada mais são do que dois homens que, com bom ou mau humor, recolhem seus pedaços e cicatrizam suas perdas, como quem junta os cacos de um vaso que acabou de ser quebrado. E como este mesmo vaso (chinês ou não), numa tentativa de ser colado, jamais serão os mesmos.

Depois de uma enigmática sequência inicial em Fucheng, envolvendo uma vaca que cai do céu, somos introduzidos ao universo de Roberto de Cesare (Ricardo Darín), dono de uma pequena loja de ferramentas em Buenos Aires. Ranzinza e metódico, é do tipo que dorme sempre no mesmo horário e repete diariamente o mesmo cardápio em seu café da manhã. Honra sua fama de sistemático, contando um a um pregos e parafusos, e blasfemando contra a diferença do número de peças enviadas pelos fornecedores. Solitário convicto, reluta às investidas da doce Mari (Muriel Santa Ana), que mora no interior, porém visita a capital com frequência.

Como se não bastassem todas suas esquisitices, Roberto possui mais um estranho hábito: colecionar notícias absurdas de jornais. Mal poderia imaginar que se depararia pessoalmente com uma das reportagens de seu bizarro clipping quando vê Jun Hio (Ignacio Huang) ser roubado e arremessado de um táxi próximo ao aeroporto. Ainda que contrariado – e mesmo sem entender uma única palavra do que o turista diz – Roberto acaba solidarizando-se à situação e hospedando Jun em sua casa durante as tentativas frustradas de encontrar seu tapuo (tio) Fu Quian. Não sem hilariantes ataques de arrependimento por ter sua rotina e isolamento devastados.

Escrito e dirigido por Sebastián Borensztein, esta comédia dramática apropria-se da torre de babel entre oriente e ocidente para tecer uma história sobre o acaso, com todas suas surpresas, amarguras e (des)esperanças. A conotação política – bastante presente no cinema portenho – aparece nas entrelinhas, não poupando críticas aos ingleses e à Guerra das Malvinas. Baseado em fatos reais, Um Conto Chinês é favorecido pelo carisma e eloquência (repleta de palavrões) de Darín e pela expressividade quase silenciosa de Huang (nenhum diálogo em chinês é traduzido). Equivalente a nossa “história de pescador”, a expressão que dá título ao longa é utilizada na Argentina para fazer alusão ao que se considera uma grande farsa. E isso é tudo o que a película não representa. 




video




(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)

 






Foto: Paulo Neves
 





JANELA POÉTICA (III)


CHAMADOS

Basilina Pereira


E nossos passos, contrafeitos,
deixam-se ir em direções opostas.
Em nossas lembranças,
chamados latentes
de um tempo contrário
onde um brilho que cintilava em nosso olhar
pulsava em forma de encanto.
Hoje, seguem lentos,
como se o peso dos anos
estivesse amarrado em nossas vestes
e não em nossos corações.
Em pequenos lapsos,
ressurgem pegadas outras
que convergem ávidas
para o toque das mãos,
mas como miragem,
o passado voa
e nós seguimos a pé.



(Basilina Pereira nasceu em Ituiutaba-MG. É professora aposentada, advogada e poeta. É autora de “Quase Poesia” (LGE Editora – 2009), “Janelas” (Verbis Editora – 2010) e “Tempo Contrário” (Verbis Editora – 2011).





 


Foto: Paulo Neves






UM MINICONTO DE ANA PELUSO


Eu bebo sempre que eu posso. Tequila, rum, champanhe, vinho tinto, doce, seco, água, chá, charuto diluído em álcool. Eu bebo sempre que eu posso só pra ter coragem de encarar o mar à noite. Por ser noite. Porque o mar é sem sentidos. Porque eu não sei o que é um mar sem sentidos, sem anestesia. E um cais pode me lançar. Até que você me esqueça. Até você me esquecer, eu bebo em um mar sem sentidos sempre, que eu posso. Eu bebo pra fugir de você. E se eu coloco os pés na água, e ela é feita de você, indomável, é como o seu olhar naquele dia. No fundo do fundo, naquele dia. Em uma outra dimensão, eu não existia. Tudo tão surrado, tão, como era mesmo? Esquece, esquece, bebe. Eu também aprendi a desamar.



(Ana Peluso, São Paulo, escritora, poeta, ilustradora, participou de algumas antologias, e não sabe quando lançará livro. Tuíta como  @anapeluso, e agrega feeds aqui)







Foto: Paulo Neves




 


JANELA POÉTICA (IV)


SEDUTOR

Jorge Elias Neto


O convite espreita o ouvinte ausente.

No olfato extinto
encontrei razões para justificar
tua chegada.

Não tardei por sibilar-te: boa noite.

Pendurei no vértice de teus seios
Um raro broche de flandre,
para que o passeio dos gatos
interrompa o descanso noturno
do teu peito
(e para que te excitem os miados do cio).

Do halo de Sol que me inquietou o dia
fiz um perfume.

Revirei a angústia de tua língua.
Em nome da perfeição,
não desmenti, no fim da noite,
o que te pareceu verdade.



(Jorge Elias Neto é capixaba de Vitória, médico cardiologista e poeta. Envolvido na tarefa de conciliar o tempo entre o palpável e o intangível. Sempre tentando descobrir a quanto dista o zelo do cientista, do abuso apaixonado do poeta com a palavra. Publicou Verdes versos (2007 – Flor&cultura) e Rascunhos do Absurdo (2010 – Flor&cultura)







Foto: Paulo Neves




 

PEQUENA SABATINA COM MÁRCIA DENSER

Por Fabrício Brandão


Há o gosto especial de se ler o mundo perscrutando as mentes de leitores e escritores. Talvez resida aí o trunfo especial da literatura. Afora o poder sedutor da fantasia, muitas vezes apoiada por instigantes recursos de sugestão, atrai saber que uma boa dose de lucidez também se faz necessária e, como tal, é capaz de proporcionar outros ambientes de reflexão.  Mas o deitar de olhos lúcidos sobre um universo de coisas possíveis está longe de se concretizar quando se faz a mera crítica pela crítica, via inócua de observações. O criador que pretende debruçar-se sobre a realidade de seu tempo com propriedade não foge ao flerte com aspectos históricos, sociais e políticos, e faz destes elementos incisivos de sua argumentação. É instigante, por exemplo, perceber nas letras de gente como Márcia Denser a noção apurada de que um autor não negligencia questões atinentes à sua época. Tudo amalgamado num sentimento amplo de percepção de si e do outro. E é nesse ambiente que a autora parece flutuar por sobre densidades da alma e do corpo humano. Sua veia contista revela um domínio preciso da construção narrativa, transportando-nos a uma esfera, na qual personagens e suas sinas são habilmente retratados em meio à complexidade de seus recortes psicológicos.

Não são poucos os ofícios assumidos em toda a trajetória percorrida pela autora. Além de se dedicar à literatura como escritora e pesquisadora, Márcia também é jornalista e possui mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. Dentre seus livros, figuram Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global, 1986, Ateliê, 2003, 2010, 2ª edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006) e Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). Tem obras traduzidas em diversos países e dois de seus contos fazem parte do livro Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi. Sua coluna no site Congresso em Foco, além de voltar as atenções para o panorama político brasileiro, revela-nos um olhar aguçado sobre a realidade de nossa continental nação. Entre uma atividade e outra, Márcia Denser recebeu a Diversos Afins para uma breve conversa, na qual estão demarcados aspectos cruciais de sua condição criativa e outros pontos do desafiador e complexo mundo das palavras.




Márcia Denser
Foto: Marcos Issa








DA - Chama atenção na construção narrativa de alguns de seus contos a precisa articulação entre o clássico e o moderno. Em que medida a fusão desses dois eixos demarcam o seu fazer literário?

MÁRCIA DENSER - A narrativa só se constitui literária - isto é,  em grande arte - quando opera a junção (ou articulação) dos paradoxos: clássico e moderno, sagrado e profano, sublime e ridículo, etc. É isto que causa impacto, espanto, estranhamento e resulta na originalidade do texto literário. A medida ou dosagem desta fusão eu não sei, digamos, quantificar racionalmente. Este breque eu não premedito. Este pequeno "milagre" simplesmente acontece enquanto escrevo a partir da memória das mãos.


DA - Acredita que escrever aponta para um sentido de redenção?

MÁRCIA DENSER - Como a literatura incomoda, perturba, diz aquilo que "você tem horror de ouvir”, ela está mais pra Danação! Quanto à redenção - no sentido de sublimação, purgação de paixões - deixo pro teatro grego, Hollywood e os livros de auto-ajuda.


DA - Seu conto Cometa Austin, além de ser um marco pessoal, pois rememora a sua primeira oficina literária, revela muito mais do que perspectivas de construção textual. Há ali um duelo de palavras, verdadeiro jogo de tensões entre a mestra e seus orientados. O que dizer da angústia da criação?

MÁRCIA DENSER - Bom, escrevi este conto em 40 minutos (o tempo do exercício). Ele já saiu praticamente pronto (esta a diferença do escritor experiente do novato: ele incorpora a técnica ao conteúdo). Então, sob pressão (de tempo) e intensa emoção (estava interessada no cara que descrevia, muito interessada), talvez isso reflita a tal "angústia da criação". E a coisa "transcendeu" até meus propósitos conscientes e virou literatura! Como dizia Mae West: quando sou boa, sou ótima, mas quando sou má, fico melhor ainda!


DA - É cada vez maior o número de pessoas que se atiram ao ato de escrever, ainda mais com o advento das perspectivas digitais. No entanto, parecemos distantes de poder atestar a presença de uma nova geração de criadores consolidada literariamente e que, por esta razão, venha se tornar referência algum dia. O que você pensa sobre isso?

MÁRCIA DENSER - Sim, há muita gente escrevendo, a escrita digital e a internet abriram muito espaço para isso. Mas o espaço é ilusório, porque se trata de tempo. Senão, vejamos: de acordo com a teoria literária geracional, gerações novas de escritores acontecem a cada 30/40 anos, a última, portanto, foi a de 90/2000: Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, André Santanna, entre os melhores. E onde também surge Marcelo Mirisola, distanciado já como escritor genial. Desde, então, nada é compasso de espera. É preciso que as pessoas amadureçam, se revelem como escritores incontestáveis, com uma produção continuada e representativa, única entre os demais. 

Entre meus artigos, eu falo da minha geração (anterior às de 90/2000) de 70/80 onde, dos quatrocentos e tantos autores inéditos que publicaram em livro (isto é fato, de acordo com pesquisa), só restaram 27 - incluindo os mortos, que são 7, portanto, 20 escritores vivos, a saber: Antonio Torres, Caio Fernando Abreu (+), Deonísio da Silva,  Hilda Hilst (+), Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo, João Antonio (+), João Ubaldo Ribeiro, João Gilberto Nöll, João Silvério Trevisan, Luiz Vilela, Luís Fernando Veríssimo, Márcia Denser, Marcio Souza, Moacyr Scliar (+), Nélida Pinõn, Paulo Leminsky (+), Roberto Drummond (+), Rubem Fonseca, Raduan Nassar, Reinaldo Moraes, Roniwalter Jatobá, Sonia Coutinho, Silvio Fiorani, Sérgio Sant’Anna, Silviano Santiago,  Wander Piroli (+).

Bem, eis os fatos. Não existe "achismo" nessa questão. E a universidade está de olho, pois é ela, em primeira e última instância, que determina pela pesquisa quem vai e quem fica.


DA - Mas eis que há quem conteste veementemente o papel das universidades tanto no quesito formação de autores quanto numa possível via de aproximação com o público em geral. A questão aqui não seria um tanto sistêmica?

MÁRCIA DENSER - Não é função da pesquisa acadêmica nem a formação do autor (exceção talvez dos EUA que têm uma tradição anglo-saxã) nem a difusão para o público, salvo como consequência da pesquisa acadêmica. Mas a avaliação, reconhecimento e a consagração do autor para a posteridade - um trabalho de longuíssimo prazo. Isto não é sistêmico, é real, a universidade brasileira existe precisamente para isso. Aliás, ela precisa dum tempo de avaliação do mesmo, inclusive para ir acumulando documentação ao processo, etc. Só dando um exemplo: autores reabilitados no presente (caso do Sousândrade, etc.) podem "desalojar" elementos consagrados no passado, mudando assim todo o cânone. O passado modifica o futuro e vice-versa. Pode parecer complexo, mas é isso aí. "Faculdade de escritor" é algo que me parece piada. E ruim. Tipo pega-trouxa.

Ainda sobre a Universidade que Formaria Escritores (com título de que – Bacharel? Mestre? Doutor?): ela não o faria de graça, certo? Aliás, cobraria uma nota e para o quê? Para o que ela não pode ensinar, nem você pode aprender? Mais um péssimo sinal desses tempos puramente mercantilistas. Talento, originalidade, um ofício que se abraça por não ter opção, por vocação para a infelicidade (como bem definiu Simenon), menos para ganhar dinheiro, porque neste caso Literatura como Arte já terá fracassado. O dinheiro vem, é claro, com a profissionalização, mais tarde. Mas isto é outra história.  


DA - O autodidata é um tipo perigoso para a literatura?

MÁRCIA DENSER - Para a literatura, o autodidatismo não é necessariamente perigoso. Posto que facilmente desmascarado, só é perigoso para o próprio autoliterato. Em geral, com a difusão das disciplinas acadêmicas, a internet, a necessidade da aquisição duma educação cada vez mais especializada em função da própria sobrevivência, tudo isso mandou o "autodidatismo" para o espaço.



Foto: Marcos Issa


DA - Podemos afirmar que temos uma crítica literária cumprindo efetivamente seu papel no Brasil?

MÁRCIA DENSER - A rigor, em tempos mercantilistas como os nossos, a função crítica recua em nome dos interesses do mercado editorial; confunde-se pato com jumento, ocorre a consagração de mediocridades inacreditáveis, como os casos extremos de Merval Pereira na ABL, Bruna Surfistinha e o nunca demais lembrado Paulo Coelho, donde layres ribeiros, maitês proenças da vida, os picaretas todos da auto-ajuda e da auto-exposição, as fórmulas para vencer na vida, para trocar o modess mais rápido, para ficar rapidinho milionário, para dar o cu sem culpa.

Crítica e criação são os dois lados da mesma moeda - até porque a alta literatura é sempre crítica e a crítica, quando de alta qualidade, cria a exegese de autores e obras. Temos, sim, grandes escritores e grandes críticos, mas estes se diluem em meio à mediocridade massiva, corrosiva, letal. Contudo, ainda que diluídos, a comunidade literária (escritores, leitores, críticos, editores) sempre sabe, em qualquer tempo, quem é quem, independente do mercado. Pode apostar.

A coisa reside naquela polêmica de "O Silêncio dos Intelectuais", debates e livro organizados por Adauto Novaes da USP - que questiona a própria existência, hoje, do chamado "intelectual engajado e eclético" - a exemplo de Sartre de 40 a 60, que, na imprensa, era chamado a opinar sobre tudo, quando agora o que se impõe, pelo menos nos jornalões, muito filhadaputamente, é o chamado "especialista" - bem na linha do pensamento da ultra-direita dominante. Os neocon argumentam que se o sujeito não é especializado, não tem competência para opinar. A polêmica, no fundo, é entre "universais" e "nominalistas". Os primeiros defendem que existem "ideias universais" na cultura, que são patrimônio de toda a humanidade, os segundos (a direita) dizem, “grosso modo", que tudo o que existe é o nome que se dá às coisas.

Só que "palavras" são só palavras, se prestam a tudo, não passam de moedinhas de troco, precisam possuir o peso do "sentimento" e das "ideias vivas", para possuir valor e substância, do contrário, não passam de ideias vazias, isto é, letra morta. Esta também é uma discussão colocada pela esquerda. 


DA – Seus artigos revelam um olhar extremamente incomodado com os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais do Brasil. Você crê na superação de algumas de nossas mazelas?

MÁRCIA DENSER - Corrigindo o verbo, diria que é "um olhar extremamente preocupado" com meu país, o Brasil. Não acha que é muito natural? Superação? Claro, desde que todos façam o mesmo - se preocupem e façam algo por seu país. Quer dizer, o nosso. Ou vamos cruzar os braços e esperar que outros façam?


DA - O que você não endossa nessa coisa toda a que chamam de pós-modernidade?

MÁRCIA DENSER - É difícil endossar qualquer coisa dentro do sistema teórico que embasa a pós-modernidade (e que "explica" a realidade), que é a lógica cultural do Capitalismo Tardio. Tudo nela se baseia no mercantilismo. Segundo Jameson, hoje, a imagem é a mercadoria e é por isso que é inútil esperar dela uma negação da lógica da produção de mercadorias. É por isso também que toda beleza (estética) hoje é meretrícia e que todo apelo a ela, no pseudo-esteticismo contemporâneo, é uma manobra ideológica, e não um recurso criativo.


DA- Essa noção de estética atrelada vigorosamente a ditames mercadológicos não nos atira ao jogo perverso dos determinismos? Onde vislumbrar uma criação verdadeiramente autônoma?

MÁRCIA DENSER - Sim, isto é o que consta nas formulações teóricas e na realidade do dia-a-dia, contudo há uma corrente universal subterrânea vinda do passado e orientada para o futuro que desconsidera as condições passageiras objetivas, características desta fase, deste momento histórico. Não basta que o ultra-neoliberalismo (leia-se Tea Party) tente destruir os ideais humanos, tampouco que os teóricos nos digam que é o "fim das meta-narrativas" (Lyotard), entre tantos finais "deterministas" (da História, da Arte, da Política) - tão convenientes para os ultra-ricos, senhores do mundo - até porque a ideologia dominante nada mais é do que "a ideologia das classes dominantes". Porque a idéia é exatamente petrificar "ab eternum"  as suas (deles) condições materiais e poder. Que não servem para a humanidade como um todo, tampouco para a civilização, ergo a literatura como grande arte. Quanto à cultura, esta é cumulativa e probabilística. NADA escapa à cultura. Contudo, sou pela tese do filósofo Ivan Bystrina, de que esta também é regida pelos Universais - leis imutáveis que existem desde sempre.


DA - Em seu ofício literário, há alguma temática específica que lhe persegue, nunca antes explorada, e sobre a qual gostaria de se debruçar?

MÁRCIA DENSER - Não existem temas (assuntos) não explorados em literatura, até porque ela é empresa de conquista verbal da realidade (vide Cortázar) que, aliás, se consumou já no século 19. Parafraseando Faulkner, os temas já foram esgotados por Homero e Shakespeare, então, a renovação é formal - é como se diz a coisa, e não o quê se diz - o estilo original e único do escritor. Se ele for de primeira, muda toda a literatura.


DA - Afinal, por que escrever?

MÁRCIA DENSER - Realmente, por quê?







Foto: Paulo Neves







COMETA AUSTIN

Márcia Denser



São dezessete pessoas a escrever nesta sala, dezesseis das quais me descrevem porque sou a professora-escritora-que-lhes-passou-o-exercício, enquanto eu descrevo Austin (claro que não se chama Austin, mas é que ele lembra aquele personagem alaudista de Cortázar, chamado Austin, e também o cometa Austin que a 25 de maio passou por São Paulo, cruzando o paralelo 23, latitude sul e passarão milênios até retornar) uma trinca cujas conexões lógicas me escapam, suspiro tragando sofregamente o 14º cigarro da noite pensando que este maço vai já e já para o brejo contando as pontas que restam (ou despontam) molemente do maço.

Por isso de uma forma que me é indizível (senão não estaria tentando dizê-lo) eu já sabia que o sortearia, que seria ele, mesmo antes de desdobrar o papel e abrir e ler o nome, que a mim caberia descrevê-lo, mesmo porque cartesianamente falando não posso descrever a mim mesma pelo lado de fora, sem contar que há muito passei da idade de imitar Clarice Lispector e dos mata-borrões.

Mas acontece que são quinze porque embora supostamente Austin também me descreva é o único a não observar o, digamos, objeto da composição como manda o bom senso e as regras elementares da redação.

Mas não. E não é o fato de saber-se observado com insistência por mim, a mestra, a escritora, porque sou a dona à sua frente e Austin sabe o suficiente sobre mulheres a ponto de não precisar vê-las, basta sorrir e pronto e chega.

Austin deve ter trinta anos – esta idade limite antes de ser o que se pretende e depois de ter sido o que se pressupõe, quando se supõe inatingível, num patamar de infinitas possibilidades gasosas que não mais se liqüefazem tampouco se solidificam como todo rabo de foguete, é sabido – está em qualquer putoroscópio.

Por isso tudo me leva a crer que Austin tenha trinta anos há muito tempo, tanto quanto as pernas cruzadas em elegante tensão e índigo blue; aquelas meias brancas de quem não tem problemas de lavanderia, e sapatos da moda que se trocam aos pares todos os sábados, a camisa de seda estampada e penso, é aí, mas engato a ré e acerco-me da barba (e o verbo é risível) porque uma barba cerrada embute a boca entre o queixo e o bigode, recolhendo as feições para o fundo da fisionomia (ia dizer galáxia, a coisa deve ser contagiosa) submerge o rosto na sombra, tão absorto este Austin, a escrever aplicadamente num caderno ginasiano em homenagem à professora/escritora, tão alheio, este Austin, à mulher à sua frente, ao que deveria, se é que está mesmo a descrever-me.

Os olhos são conjecturas por detrás de uns óculos com aros dourados e do ar intelectual e da barba e quantas máscaras oculta este rosto presumivelmente aos trinta anos? E o advérbio é outra rasteira, pois a razão de fixar-me nessa idade, os tais trinta anos, está no fato de ser a única coisa visível para mim que o observo com irritante insistência há quinze minutos e duas ou três perguntas sem resposta na alma.

Naturalmente escrever para Austin deve ser muito importante, ainda que devesse olhar o que descreve, mas obstina-se em ocultar-se por detrás de tanta concentração, fixando o vazio, sem olhar para frente, para fora, para mim. Súbito se detém, a caneta em suspenso, e retorna furiosamente à carga, perseguindo o papel.

E você a julgar-se inapreensível, Diana Marini, mas me faço de surda fingindo examinar as joaninhas estampadas na camisa de Austin, enormes Marias Joanas pernejando castanhamente sobre a seda branca – posso cheirá-la, apalpá-la, rasgá-la com os olhos. De longe. A anos-luz desse Austin.

E aí está você, Diana Marini, de frente para trinta pares de olhos, de repente mais sábia e mais triste do que eles, de que terá adiantado tanta previsão se afinal você está dançando a mesma música insensata? Que fazer, Austin? Além de incorrer numa derradeira frase de efeito, acender o último cigarro e deixar-se olhar – dar-lhes de frente todo o mapa da cara para que a aprendam de cor.







Foto: Paulo Neves







JANELA POÉTICA (V)

Ana Guillot


como una reverberación intacta
el himen lunar
acordonado
ha desligado las prendas
de la especie
y pasea su animalidad

hierven sus aguas

se desvanece
la nuca
desprejuiciando el grito

voraz en la intemperie
exuda
la noche umbilical

ha de lamer
los restos
ahora

ha de engullirlos
soberbio
soberano



(Ana Guillot nasceu em Buenos Aires. É professora de Letras e coordena a oficina literária Tangerina. Tem participado de seminários de literatura e mitologia em seu país e no exterior. Como poeta, publicou “Curva de mujer” (1994, Libros de Tierra Firme), “Abrir las puertas (para ir a jugar)” (1997, Libros de Tierra Firme), “Mientras duerme el inocente” (1999, Libros de Alejandría), “Los posibles espacios” (Nuevohacer, Grupo editor latinoamericano, 2004), y “La orilla familiar” (2009; Botella al mar; edición bilingüe castellano-catalán)





OUVIDOS ABERTOS

Por Fabrício Brandão


TONO – TONO





Ana Cláudia, Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha, nomes que reunidos formam uma profusão de sentidos sonoros renovados. Arriscar do dito uma noção de originalidade não seria, nem de longe, algo precipitado. O fato é que essa turma de cariocas parece ter encontrado uma valiosa saída para fazer música de considerável teor de qualidade. Vocais, guitarras, baixo e bateria estão a serviço de uma proposta que atrai pela propriedade de letras e arranjos. A julgar pelo visto, ou melhor, ouvido, o que a Tono faz é juntar uma vigorosa poesia cotidiana a uma sonoridade muito bem arquitetada. Eis a receita para o segundo disco dessa trupe de músicos jovens.

Ouvir cada uma das faixas implica logo na constatação de que, sobretudo, as letras não estão nem um pouco dispersas por entre acordes mil. O resultado estético desse equilíbrio entre verbos e sons é algo no mínimo sedutor. Nalguns momentos, uma atmosfera psicodélica parece rondar suavemente os percursos regados a lampejos de rock e pop. A forma como a banda privilegia os recursos vocais é ponto de destaque da maioria esmagadora das canções. O cenário melódico é bastante rico, a ponto de nos sugerir a todo tempo vastas imagens em torno de uma certa aura existencialista.

O disco deixa a impressão de que estamos diante de uma verdadeira viagem rumo ao centro de nós mesmos. Em meio ao caldeirão de sentimentos humanos hesitantes, envoltos em contradições, prazeres e algumas minicertezas, as canções desfilam seus signos de forma bastante precisa. Tudo sem exagerar na dose. E não é difícil imaginar porque faixas como Me Sara, Sem Falsas Esperanças, So In, Ele Me Lê, Da Terra Pro Sol e Distante Demais são tão caras ao álbum. Noutro instante, também há espaço para as fugidias e ferozes manias do cotidiano pós-moderno na bem humorada Samba Do Blackberry. Durante todas as escutas proporcionadas pela Tono, fica a ideia de que as coisas todas foram percebidas e sentidas sem a sombra desfiguradora do óbvio. Pode parecer algo não tão perceptível de imediato, mas o melhor aqui é poder enxergar o novo por trás de um conceito nada usual de singularidade.



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Foto: Paulo Neves






JANELA POÉTICA (VI)

Rui Almeida


A flor que nasce escondida
Desenrola o fio e limpa a pele
De certos rostos que aparecem por dentro

Das pausas iluminadas, sempre
Diante de um segredo, de um rascunho
De pedras segurando a folha

Onde se levantam as preces
Destinadas ao mais profundo sonho,
Que o princípio de um gesto segura.



(Rui Almeida nasceu em Lisboa. Publicou em 2009 o livro de poemas Lábio Cortado (Editora Livrododia). Está incluído na “Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa” (Exodus, 2008) e em “Os Dias do Amor – Um poema para cada dia do ano” (Ministério dos Livros, 2009). Tem textos publicados nas revistas “Saudade, Big Ode” e “Callema” e, ainda, na revista online “Minguante”)







Foto: Paulo Neves






INTEMPÉRIES

Rodrigo Melo


Ed traga o cigarro e olha para Mitzuplik caminhando ao seu lado. Vê as marcas no rosto magro, tão profundas. Vê também as olheiras, as rugas e os cabelos rareados. Constata então, quase ao acaso, que Mitzuplik envelheceu e não é mais o mesmo cara de antes, uma espécie de playboy atlético e galanteador. Os excessos com a nicotina, com o conhaque, ou a vodka, e as vagabundas acabaram com ele. Hoje, era pra imaginar, apenas aquele sorriso amarelo, um sorriso fora de moda, envergonhado e meio gasto. Ed suspira, ele que nunca foi de suspirar. Porque o tempo passa. E Mitzuplik deve ter hoje uns 44, 45. Por coincidência, a mesma idade sua. Andaram na mesma turma, o mesmo colégio. Lembra, entre a tragada na ponta do cigarro e o peteleco que dá nela, em tanta gente que se perdeu no emaranhado de situações que a vida nos faz viver e então sumiu, morreu, ficou louco, foi preso ou se deu bem. Calculou, ele mesmo, que existir seria mais fácil e que teria as chances sempre na mão. Mas ali do lado vai ele, Mitzuplik – os dentes com cáries, a gengiva inflamada, os rins e o pulmão em petição de miséria. Completamente estragado, coitado. Tão confiante quando menino. O problema de tudo, desconfia, está em acordar enquanto é tempo. Entender ou acordar, tanto faz. Mitzuplik não entendeu. Ele também não. Passa a mão pelos cabelos grisalhos, mais crespos que antes. Na vitrine de uma loja vê seu reflexo. O rosto não é estranho, mas também não o reconhece por inteiro, como se houvesse algo fora do lugar. A orelha, quem sabe. Ou o nariz. Na sua frente, repentinamente, os segundos se transformam em anos, décadas. Olha para Mitzuplik outra vez. Talvez pudesse abraçá-lo, dizer que o mundo é bom e justo, que a partida ainda não começou. Mas Mitzuplik não entenderia: por detrás da armadura, há ferrugem demais. Ferrugem e um tipo de esvaziamento. E Ed desiste do abraço e coloca as mãos nos bolsos da calça, enquanto um dente ameaça doer e ele pensa em parar de fumar.



(Rodrigo Melo é contista, mora no Rio de Janeiro, e já foi editado por inúmeras revistas. Seu livro, "gambiarra", deverá ser lançado em 2011)






Foto: Paulo Neves







JANELA POÉTICA (VII)


PLATÔNICOS

Líria Porto


o mar não para
vai e vem - irrequieto
chega à praia passo à frente
depois acho se arrepende
arreda o pé

a serra por sua vez
permanece embasbacada
a olhar o mar de longe
tem desejos de tocá-lo
o corpo não lhe obedece



(Líria Porto é mineira de Araguari e mora em Belo Horizonte. Autora dos livros “Borboleta Desfolhada” e de lua”, publicados em Portugal, participou de algumas antologias, entre elas Dedo de Moça Mulheres Emergentes).




 


Foto: Paulo Neves

  



APERITIVO DA PALAVRA


GÊNESIS E EXIT DE JOSÉ BEZERRA CAVALCANTE

Por W. J. Solha


Primeiro:

Assisti, no Festival de Cinema de Brasília de 2002, a um filme de intensa beleza – “Desmundo”, de Alain Fresnot, fotografia de Pedro Farkas – no qual conheci o Brasil recém-descoberto, dotado de um idioma que exigiu legendas pra tornar o diálogo inteligível.  Bem. Os bons poemas de José Bezerra Cavalcante, superpopulados de expressões datadas por Joaquim Osório Duque Estrada e José Pedro Xavier Pinheiro - como fúlvido, incunábulo, paramento, fulgor, cimalha, cincerro, ganga, cítara – remetem-me a uma época bem mais recente que a do Descobrimento, mas ainda não nossa: a da criação do Hino Nacional e da primeira tradução brasileira de “A Divina Comédia”. 

Segundo:

Parece-me que há sempre uma parte maior que o todo em toda obra de arte. Por isso todo mundo conhece a abertura – ou “protofonia” – não a ópera “O Guarani” do Carlos Gomes, o “Aleluia”, mas não o “Oratório Messias” de Haendel, a “Ária na Corda Sol”, mas não a “Suíte no. 3” de Bach; e por isso poucos se lembram do que há no teto da Sistina, além da Criação do Homem; e por isso poucos sabem o que Euclides da Cunha fez, além de “Os Sertões”; e por isso o Youtube está cheio de cenas que ganharam vida própria fora dos filmes de que fazem parte, como a corrida de quadrigas do “Ben-Hur”, o duelo de banjo e violão de “Amargo Pesadelo”, o monólogo de Corisco em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o ensopado de botinas de Carlitos, em “Corrida do Ouro”, etc, etc.

Bem: do mesmo modo ressaltam-me, no “Rescaldo” de José Bezerra Cavalcante, suas duas partes finais, na verdade uma só – “Origem” e “Fim” - justamente porque aí há o encontro do épico mais a linguagem do autor.

Sequência

Claro que JB Cavalcante domina o ofício e também conhece o dístico de Delfos – “Conhece-te a ti mesmo”. Começa o poema “Sala de Espelhos” com este verso:

Vejo em volta. Não me encontro.

Em “Crepúsculo”:

Os horizontes me limitam
e tumulam.

E o que é ele? Seus sonhos, como declara em “Voos caem”:

Os sou retroagindo
às funduras do tempo.

Lembro-me de que, há anos, um colega do Banco do Brasil, ao cruzar por mim na calçada da Bica, disse ao filho pequeno, mostrando-me:

- Eis um animal em extinção.

Acho que também é como JB se sente. Por que? Um trecho de sua biografia responde:

- Representou a UNE no Comitê Preparatório do VIII Festival Mundial da Juventude e dos estudantes em Helsinque, e assessorou a UIE (União Internacional dos Estudantes) em Praga.  

Há um ideal tipo Doze Pares de França, Cavaleiros do Rei Arthur e de Templários resistindo, nele, suponho.

Antepassados mouros e cruzados
somam os meus caminhos e pedaços.

Lembra-me o encanto que envolveu o momento em que, na entrada da adolescência, deparei-me, pela primeira vez, com A Lenda de Sir Parsifal, Percival ou Perlesvaus, aquele que partiria em demanda do Cálice Sagrado. Chego a ouvir os versos de “Ascendência”, de JB, com o coro da “Carmina Burana” de Carl Orff em bg:

Fulgem, celestes, suas armas brancas.
Turgem os campos lanças, estandartes.
Corcéis inquietam-se preparados
e galonados para a guerra santa.
Zás! Sacam-se os terçados das bainhas.

Vêm-me, à memória, também, “Os Cantos” de Pound, de certo modo irmãos dos de JB, nos feitios de Homero.

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados

Uma série anterior de poemas do “Rescaldo” – “Onirografia” – prenuncia o clima final com seus bestiários, incunábulos, armoriais. Sinta o ritmo de galope e a majestade de epopéia quando JB diz, em “Alegorias”

Corcéis me ofuscam cintilantes
e se interpõem nas minhas rotas cegas
com seus paramentos cravejados.
Cilhas e rabichos lantejoulantes
testeiras enlaçadas por fitas multicores,
peitorais encouraçados e espelhados,
selas apetrechadas com lanças
e adagas cromáticas,
estribos ataviados com vilões fulgores,
narinas espirrando forças incontidas,
baba escorrendo por vazadas bocas,
freios arriados e bridas volantes,
soltas, vibrando resplandecentes,

Aí ressoa “A Pedra do Reino, de Suassuna, e o texto imponente de Euclides da Cunha, aquele que viu guerreiros medievais em nossos vaqueiros encourados. O poeta se desespera:

Sou os caminhos percorridos, céus e fossos,
Impura pira, insacro fogo, chama inglória.

E o resto?

Compreensão:

Amanheceu,
por fim.
Mas anoiteceu,
em mim.

E
ventre primal (...) e, fora, lousa.



(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal)





 

Foto: Paulo Neves







JANELA POÉTICA (VIII)


DE PRATELEIRAS E LAGARTIXAS

Henrique Pimenta


As prateleiras...
dar-lhes uso,
permanecê-las vazias, ou quase, apenas vazias
ao pó. Às vezes, não. Passarela, banho de sol,
uma nesga de luz que escapa das persianas
intermitentes, dentro, imanência para insetos. Dormida para
aranholas, lagartixas e quem de
humano não se apercebe como tal.
O desempenho das prateleiras,
ausentes de pratos ou atos de fé,
é o estado sólido da dispersão.



(Henrique Pimenta é um brasileiro que lê e escreve textos. Boa parte de sua produção escrita atual é publicada no blogue Bar do Bardo.  Professor de português e literatura há uns vinte anos. Aluno de poesia há trinta.  Mais alguma coisa? Não)



 



Foto: Paulo Neves


  



* Entre os recortes dos homens e seus lugares, o olhar do fotógrafo Paulo Neves redescobre a poesia íntima das coisas.  Uma a uma, suas imagens captam detalhes de um mundo frequentemente despercebido em complexidade. Memória, tradição, fé e todo um ritual de feitos humanos agregam-se num conjunto que sabe a matizes delicados da existência. Nada passa impune a suas observações e até mesmo o retratar de objetos confere uma noção singular de representação de mundo, algo que remonta a um sentido impregnado de vida e mistério.

Nascido em Santarém, no Pará, Paulo vive em Manaus há alguns anos. Confessa-se um fotógrafo amador, na acepção mais romântica da palavra, e, dentro de sua feição autodidata, ressalta o nome de Sebastião Salgado como principal influência. Dentre seus registros, tem admiração especial pela Expedição África - Senegal, verdadeiro marco em sua trajetória.

 
publicado por Fabrício Brandão
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