30 de nov de 2010,23:00
QUINQUAGÉSIMA PRIMEIRA LEVA




Foto: Tchello d'Barros





PANFLETO

Ildásio Tavares

A praça é do povo
Como o céu é do condor (Castro Alves)


Se instaure a confusão neste reinado
E na rua tumultuem mil cabeças,
A Esperança também tem seus soldados
E cada um a sorte que mereça.

Tonitroe a revolta em todas bocas
E a palavra de ordem busque o vento,
Até que as consciências fiquem roucas
E o tumulto total irrompa o momento.

Abaixo as estruturas corrompidas,
A verdade destrua a hipocrisia.
A arrancada final atrás da Vida

Rasgue a Noite e do escuro faça o Dia.
Vai, massa, desenfreia, despedaçam.
É tua e sempre tua foi a praça.



Ildásio Tavares
(1940 - 2010)





CICERONEANDO


O quanto de nós é capaz de ficar efetivamente impresso nas páginas da vida? Talvez passemos a maior parte do tempo ignorando tal questão e, assim como se opera a sucessão automática dos dias, tudo vai passando à margem da memória. Somos responsáveis por fazermos de nossas sinas aquilo que melhor nos define do ponto de vista racional e emocional. Tudo o que inscrevemos, mesmo até que de modo oculto, é capaz de permanecer registrado sob a delgada e tenra camada da vida. Somos imortais, sim, quando legamos aos nossos e ao mundo olhares especiais sobre tudo o que nos abraça em existência. Após alguns dias da passagem do escritor baiano Ildásio Tavares, a literatura brasileira perde o homem, mas mira, em definitivo, a imortalidade de uma vasta e complexa obra. Um ser crítico, obstinado em extrair de si o melhor espectro possível da poesia, irônico, por vezes ácido, amante da vida e seus desafios: quiçá leituras possíveis para Ildásio. Multifacetado, foi letrista de música, professor, tradutor, ensaísta, dentre tantas outras feições mundanas. Quando o assunto era a busca incansável pelo melhor da poesia, dizia-se um Clínico Geral num tempo de especialistas, tal como nos apregoou numa entrevista concedida há alguns poucos meses. A Leva que agora surge rende uma singela homenagem ao poeta, grande incentivador do prosseguir da Diversos Afins. De modo muito especial, nossas janelas poéticas repartem versos de Brasil e Portugal, duas pátrias sobre as quais Ildásio Tavares moveu suas andanças. Da banda lusitana, os versos dedicados ao escritor partem de Casimiro de Brito, Inês Lourenço e Victor Oliveira Mateus. De nossas porções nacionais, ecoam os louvores líricos de Silvério Duque e Henrique Wagner. A escritora Maria da Conceição Paranhos discorre em detalhes sobre a densa trajetória deixada por ele entre nós. Noutro momento, estamos diante da emocionada crônica de Gil Vicente Tavares. Nossa edição traz também uma instigante conversa com o poeta argentino Luis Benítez. Continuando nossa missão de descortinar palavras, miramos os signos presentes nos contos de Marcus Vinícius Almeida e Cláudio Parreira. Há, ainda, a presença cinéfila de Larissa Mendes e um significado para o mais novo disco de Milton Nascimento. Que a arte seja sempre a mais pura inscrição do bem. Evoé, Ildásio Tavares!


*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.





Foto: Tchello d'Barros





Fábula de Vida Inteira: o Cordeiro e o Lobo

Plus de vingtpasau-dessous d'Elle,

Et que par conséquent, enaucunefaçon,

Je ne puis troubler sa boisson.

“Le Loup et l'Agneau”. Jean de La Fontaine (1621-1695)

Maria da Conceição Paranhos


Você tem tanta necessidade de parecer o lobo mau, Dau, mas é cordeiro com pele de lobo.

Riso alegre, bom, inocente.

E você? Lobo com pele de cordeiro?

Assim sucedia a fábula em uma amizade de vida inteira.

Ildásio Tavares, meu amigo, meu irmão, meu pai. Falávamo-nos, diariamente ou quase, ao telefone. Longas conversas, muita poesia. E aqui já despeço a falsa modéstia quando me referir a algumas observações do Poeta que me deixou tão só.

Uma criança, alma limpa, ingênuo. A aparência de homem forte, o vozeirão, voz linda por sinal - voz, pés e mãos muito belos. Eu lhe dizia é o que lhe salva, brincando.

Tínhamos laços de consanguinidade, que ele muito prezava, ele, que pouco antes de me abandonar aqui neste deserto se declarou “Presidente do meu Fã Clube”. Ele, Marques do lado da mãe; eu, Pedreira Brandão do lado do pai. Os Marques eram os donos da região hoje denominada Anguera, município situado à margem da BA-052, distante 146 km da capital, a 40 minutos de Feira de Santana. Os Brandão compraram as terras nas mãos dos Marques. Ildásio era descendente lateral do avô Marques, que perfilhara a avó dele, negra. Fatos que ele mesmo me contou, e meu também saudoso pai sabia, já que era natural de Anguera, antiga Almas. Houve alguns casamentos entre as famílias, e uma minha tia, Ana Marques (mulher extraordinária), casou-se com um meu tio do lado paterno, Antenor Pedreira Brandão.

Ildásio nasceu filho de Hilda e Eduardo Santos Tavares, adotado por Enoe Dórea Marques e o marido, Josias Marques. Filho queridíssimo tanto dos pais biológicos como dos adotivos. Não se tratara de nenhum tipo de rejeição, bem pelo contrário, generosidade do casal de muitos filhos, pois Enoe não tivera filhos e, por outro lado, ele seria mais bem educado, filho único. Ildásio foi pensado ser Hildázio, registrado Ildázio. Ele se horrorizava com o nome que lhe deram. Foi, como dizia, melhorando a aparência desse nome, escolheu grafá-lo “Ildásio”.



Ildásio Tavares
Foto: acervo de Irisdalva Mota


Rico pelos pais (cacau), nunca se interessou por dinheiro ou pelas fazendas. Enoe, logo viúva, adorava o filho, porém se queixava do descaso dele pelas terras, que, afinal, seriam herança para ele, filho único. Mais adiante, os filhos de Ildásio, principalmente o mais velho, assumiram o comando, para alívio do Poeta.

Pai excepcionalmente amoroso e zeloso. Filhos bebês, ele era do tipo dedicação total: vigília à noite para dar mamada, trocar fraldas, embevecer-se com suas amadas crias - que são seis, três meninos e três meninas, três uniões formais e uma das filhas de um affaire amoroso. Crítico, sim, principalmente com os meninos, exigente, queria os filhos afiados como lâmina de barbeiro... Eles foram descobrindo o porquê das críticas com o tempo, ah, esse amado pai, esse preocupante pai, tão diferente dos pais dos amigos! Apenas en passant vou fazer referência a uma observação de minha filha caçula. Por volta dos 12 anos, certo dia, ela me disse: “Mãe, não se zangue com o que vou lhe dizer, mas eu queria ter pais normais”... Perguntei a ela, normais como ao que ela retrucou que só normais, mãe, normais, sabe como é?

Ao telefone, como já antecipei, era poesia, poesia e memória. Poesia para afiar a linguagem, a forma, obsessivamente. Falei a ele certa feita do ostinato rigore de Da Vinci. O rigor obstinado, a busca do dizer o mais próximo possível da percepção poética, sem desfeiteá-la, deixá-la emergir, fazê-la brilhar, espargir essa luz, à semelhança da transformação do diamante em brilhante.*

“Escrevemos” livros inteiros por telefone, cartas, mais tarde, por e-mail. Eu sempre fui mais resistente, tentava contra-argumentar (embora pensasse depois e, o mais das vezes, acatava sua opinião ou buscava outra solução); ele, ao contrário, de contínuo se detinha a cada observação e me dizia não consigo viver sem você. Nem eu conseguia. Sua mãozinha quente nas minhas costas está nas Odes Brasileiras, lembra? Como todo grande artista, ele tinha o dom da humildade. E da generosidade. Abria todas as comportas do seu saber imenso e doava, doava, disseminava sua luz sem reservas.

Ultimamente, eu vinha lhe dizendo que ele chegara ao máximo da depuração. Sua poesia se tornou de uma beleza, de uma perfeição, de um quilate dificilmente encontráveis em língua portuguesa. Em toda a História da Literatura Portuguesa e Brasileira, podem-se contar nos dedos os grandes poetas, os que chegaram ao difícil porto, os que, afinal, ancoraram sua nau ali, ao lado das outras raras já chegadas. No entanto, desde o seu primeiro livro, Somente um Canto (Salvador: Mensageiros da Fé, 1968.) estava patente o poeta que era e o que viria a ser.

Sua versatilidade, seu trânsito por vários discursos, da poesia à ficção, à tradução, à letra de música, ao desenho, ao teatro, e assim sucessivamente, corriam paralelos e com espantoso poder de criação. Conhecedor profundo de História, de Filosofia, de ciências exatas de modo geral, de várias áreas do Direito (era formado em Direito e em Letras com todos os títulos acadêmicos), sua leitura e sua prática plurilíngues assombravam os menos formados. Conhecimentos nas áreas de Linguagem e Literatura, Retórica e Poética, meu Deus, um caudal.

E a rapidez verbal? Assombrosa. Repentista, de imediato vinham-lhe a frase, os versos, o ditto, a boutade - com seu senso de humor aguçado. Mais que senso de humor, em uma das suas diversas faces, o epigramista genial. Parece que o dom da sátira corrosiva, cáustica lhe era congênito, de tão célere e espontâneo.

Um homem ético, arraigadamente ético. Preferiu não publicar seus epigramas em vida, como me disse e a outras pessoas. Não por medo de qualquer represália, pois não era homem de ter “papas na língua”. Por sabedoria. Disse-me uma vez a respeito, que o tempo apaga os rostos e as vaidades e só fica o (bem) feito. Perguntei-lhe várias vezes qual era o meu epigrama. Ele costumeiramente respondia. “Não é possível falar nada contra você, Maria da Conceição Paranhos,/ com seus encantos tamanhos...”, e mais dois versos que sei estropiados, embora estejam em um dos e-mails que ele me enviou que agora não consigo localizar.

Briguento, era sua fama? Irascível? Pornográfico?

Amigo de seus amigos, isto sim. Fácil de perdoar, com certeza, com sua ternura imensa e seu imenso coração. Brincalhão, com certeza, pegava como se diz “pesado” aqui e ali, todavia sempre com seu humor contagiante.

A maioria das pessoas o amava, admirava, prestigiava. Uma minoria não gostava dele. As razões? Que estes as busquem no fundo de suas consciências.

Um erudito. Um esteta. Um puro. Tanto mais.

Poeta Ildásio Tavares.


* Para quem não sabe ainda, o brilhante não é propriamente uma pedra, mas o resultado de uma lapidação. O diamante é a única pedra formada de um único elemento, o carbono.


(Maria da Conceição Paranhos Pedreira Brandão nasceu em Salvador, Bahia. Poeta com vários livros publicados, de modo geral, devido a prêmios. Exercita outros gêneros: Ficção, Crítica de literatura e outras linguagens, Teatro, Vídeo, Tradução. É Doutorada em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia. O mais recente livro de poesia é Delírio do Ver (Rio; Salvador: Imago Editora, 2002). A maioria de sua obra, poética e em outros gêneros, é inédita (nove livros prontos))





Foto: Tchello d'Barros





JANELA POÉTICA (I)


DESÍGNIO

Inês Lourenço

- Ildásio Tavares


Mesmo com pássaros ao desabrigo

as árvores ainda cumprem

um desígnio vertical. O tronco cingido
de líquenes e ervas tardias

é a promessa do crepitar

da fogueira oculta que move

o ofício dos poetas

mesmo que a boca se fecha, a lenha

das palavras habita o poema

ardendo contra o tempo.


(A poeta portuguesa Inês Lourenço nasceu no Porto. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Universidade do Porto). Entre os livros de sua autoria, estão: A Enganosa Respiração da Manhã (Asa editores, Porto, 2002) e Logros Consentidos (&etc, Lisboa, 2005).






Foto: Tchello d'Barros





DOMINGO ENCARNADO

Marcos Vinícius Almeida


O nome do sujeito é Domingo. Nunca dei muita atenção para o nome. Muito menos para as roupas desgrenhadas, barba que poeira só, os pés cascudos. Domingo é motorista, zanza pela cidade com um volante nas mãos como se guiasse um veículo imaginário.

O volante, segundo consta, era de uma rural velha, estacionada no almoxarifado da prefeitura há anos. Ao investigar as origens desse hábito e do volante, numa noite no Bar do Tatá, soube que o homem tinha conseguido de um dos mecânicos; e como não houve protesto por perda de patrimônio público, Domingo guiava sua quimera com tranquilidade. Sobre a origem do hábito, no entanto, pouco se sabia. Havia quem dissesse que tinha nascido assim, outros que foi pé na bunda, uma mulher que ninguém sabia o nome. Eram tantas hipóteses isoladamente verdadeiras que, em conjunto, nada daquilo fazia sentido.

Sábado passado, saí logo pela manhã movido por um convite inconveniente de pescaria do acolhedor Josué, então, topei de frente com o motorista daquele veículo abstrato. Quase me atropela. Trocou marchas, tascou a mão na buzina sem piedade, ameaçou fazer uma baliza ao redor da praça, entre o uno do Padre e gol de um taxista, talvez, suponho, para tirar satisfação com esse pedestre que já batia queixo e tremia na base; calcule meu desespero, já sentia as volantadas na cabeça, nas costas, uma desgraça; mas, para meu alívio, desistiu da baliza. Deve ter achado a vaga pequena; acelerou avenida afora, debreou, engatou à quarta marcha. Sumiu. Tamanha habilidade me deixou embasbacado, eu que nunca aprendi a guiar essas coisas, nunca memorizei a função dos pedais. A destreza do sujeito me distraiu tanto, que me fez esquecer o grande absurdo, na verdade, que era dar de cara com o Domingo, em pessoa, no sábado.


(Marcos Vinícius Almeida nasceu em 1982, na grande São Paulo. Viveu desde sempre em Luminárias-MG, com breves passagens por São João del Rei-MG e Porto Alegre-RS, onde frequentou a Oficina de Criação Literária da PUC. Publicou contos em antologias, diversos sites e revistas, como Suplemento Literário de Minas Gerais, Revista Cult, Cronópios, Germina, Histórias Possíveis. Foi um dos vencedores do Prêmio UFES de Literatura 2010. Em 2009, publicou o romance Inércia (Ed. Multifoco). Edita o Selo Terceira Margem)





Foto: Tchello d'Barros




JANELA POÉTICA (II)


[OFÉLIA]

Silvério Duque

ao mestre, amigo e poeta Ildásio Tavares... este bastardo


Meu coração é um cabedal de sonho
de dores que antecedem cada instante

e a noite há de chegar, assim suponho

como a pisada brusca de um gigante.


De ausência e de desejo, em vão, componho

uma canção cafona e dissonante

e, ao ver tal despautério, então suponho:

sou talentosa como um elefante!


Ah, andai meus pés, andai que o rio espera

nossas cruéis lembranças, nossos corpos...

pois quem jamais amou melhor viveu.

Se eu vejo outro nascer? A Nova Era...?!
Eu vejo o que eu vivi; vejo os meus mortos;

quem dá valor a vida é quem morreu.



(Eu, Silvério Duque, sou poeta, nasci em Feira de Santana, aos 31 de março 1978. Sou licenciado em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Além da poesia, assumo as atividades de músico, clarinetista, já coordenei a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense; sou professor, crítico literário, escrevi e escrevo para vários jornais e revistas e sou autor de dois livros de poesia: O crânio dos Peixes, (Ed MAC, 2002) e Baladas e outros aportes de viagem, (Edições Pirapuama, 2006). Meu próximo livro, Ciranda de Sombras, está no prelo)




OUVIDOS ABERTOS

Por Fabrício Brandão


MILTON NASCIMENTO – ... E A GENTE SONHANDO



Em muitos momentos da vasta estrada musical de Milton Nascimento, uma espécie de força sublime da vida sempre se fez presente. Sua obra está impregnada de um especial sentimento de mundo, duma sensação que percorre interiores de lugares e pessoas buscando externar valiosas expressões de simplicidade. Não seria diferente com seu novo disco. E a gente sonhando, título inclusive da faixa carro-chefe, é um álbum sonora e esteticamente belo, palco onde coisas simples da vida acontecem de modo intenso e poético.

Milton, em cada uma das canções, promove uma verdadeira exaltação dos valores humanos. Diante de tempos tão acelerados, aos quais executamos nossas travessias de maneira por vezes impessoal, o sonho proposto no álbum não se revela algo impossível de ser alcançado. Gente, ao mesmo tempo em que é feita de contradições, desvios e equívocos, aqui é evocada de forma a embalar uma união das diferenças. Talvez por esta razão não seja em vão a utilização de coros em meio a algumas canções, como é o caso de Estrela, estrela, O Ateneu, Espelho de nós e Amor do céu, amor do mar, momentos de intenso e especial lirismo que mais parecem representar um desejo de unidade implícito no mundo.

Com um olhar que também visita paisagens interioranas de nossa continental nação, Milton empresta seu romântico canto a Flor de ingazeira, composição de João Bosco e Francisco Bosco. Revisita, de modo muito especial, músicas como O Sol (composta por Antonio Julio Nastácia e que ficou marcada pelos mineiros do Jota Quest), Resposta ao tempo (Aldir Blanc/Cristóvão Bastos) e Advinha o quê (Lulu Santos). Outra marca importante do disco está na aparição de novos compositores, a exemplo de gente como Marco Elizeo, Heitor Branquinho, Clayton Prosperi, Haroldo Jr, Ismael Tiso Jr, Tutuca, dentre outros.

De fato, vivemos sonhando com tons ideais, muitas vezes tidos como delírios e fantasias. Ouvindo o Milton Nascimento de agora e sempre fica a sensação de que as coisas essenciais sempre estiveram muito perto de nós. Basta-nos, pouco, muito pouco mesmo: cantar os pequenos milagres da existência e repartir o dom da vida sempre.





Foto: Tchello d'Barros




CANÇÃO DA MENINA DA CLÍNICA BOTAFOGO

Ildásio Tavares


Há uma menina de pé,
lá em cima na sacada
da Clínica Botafogo;
fita a distância, parada,
sem saber o que fitar.

Não há lua, não há nada,
nem o mar em reflexão,
sozinha em pé, no silêncio,
não tem pressa, não tem rumo,
somente fita o vazio
da distância que não vê.

Que serão seus pensamentos?
Eu não sei, mas sei dos meus,
quando olho para a moça,
tão bonita, tão parada,
de pé ali na escada,
fitando o longe vazio.

Eu penso. Daqui de baixo,
não posso chamar por ela.
Ela é jovem, é bonita,
mas não possui a cabeça
- que a tem bem possuída
por um médico qualquer.

Passo, pensando na rua,
a emoção de ver a moça,
de saber que, longe dela,
está seu tempo e memória
e que a sacada é seu mundo
o seu pequeno universo.
Me sinto isolado e triste
passando lá pela rua,
e levando nos meus olhos
à fixidez de seus olhos,
perdidos, mortos, vazios
como os olhos arredios
das mulheres de Del Vaux.

Às vezes chego a pensar
que sou eu e não é ela
que está na minha janela,
imaginando seu vulto –
eu, no meu apartamento,
ela no meu pensamento;
os dois no mesmo tumulto.






Foto: Tchello d'Barros





PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Sem dúvida alguma, uma das mais significativas perspectivas trazidas pela nova era da informação está pautada no crescente intercâmbio entre nações e recantos de todo o mundo. O papel das mídias eletrônicas ganhou corpo vigoroso e nos permitiu ter acesso a modos de pensar e a manifestações das mais diversas possíveis. Hoje, fazemos parte de uma mesma e grande aldeia global e lidamos de perto com os impactos trazidos pela compressão das distâncias e do tempo. Mesmo cada país carregando em si suas peculiaridades e tons próprios, é possível perceber que todos falamos uma só língua, a humana, sobretudo no que tange ao universo das realizações culturais. No campo literário, o resultado imediato desse estreitamento de laços está no imenso acervo de obras e autores disponíveis através da grande rede.

A partir desse amplo ambiente de pesquisa e leitura, vislumbramos um imenso caminho eletrônico acessível na Internet, onde nos é possível a observação atenta como também o contato mais aproximado com os autores. Dessa experiência, foi que podemos descobrir e conhecer um pouco mais a fundo o trabalho do escritor argentino Luis Benítez, hoje um forte adepto da literatura digital. Nascido e vivendo atualmente em Buenos Aires, Benítez publicou 24 livros de poesia, dentre os quais podemos destacar um e-book intitulado Poemas Completos (1980-2006) e Manhattan Song, recentemente editado em meio digital, e que é resultado de algum tempo de vida do autor nos Estados Unidos. O poeta possui grande parte de sua obra publicada em países como a Argentina, México, Uruguai, Chile, Espanha, Estados Unidos e Venezuela, além de ter recebido diversas premiações na América Latina e na Europa. Nesta entrevista, Luis Benítez revela, dentre outros aspectos, ideias sobre suas concepções criativas, os efeitos da leitura eletrônica, olhares sobre a literatura argentina contemporânea e lança expectativas sobre o papel cultural da América Latina. Definitivamente, estamos diante de um escritor cujas atenções estão notadamente voltadas para uma visão sensível sobre o homem e suas intervenções no tempo e no espaço.



Luis Benítez
Foto:Sofía Fernández Farquharson

DA - Seus poemas possuem uma forte via humanista e, por vezes, também penetram um ambiente metafísico. Em que medida a complexa teia de transformação do homem contemporâneo motiva a criação poética?

LUIS BENÍTEZ – Essa complexa rede a que você alude é o motor principal de minha poética. Não tenho intenção de tentar resolvê-la, coisa que considero impossível, mas sim dar minha visão sobre alguma de suas partes. O Humanismo herdado do Renascimento impregna toda nossa cultura; o homem, suas paixões, seus defeitos e virtudes nos são, todavia, hoje apresentados como representou William Shakespeare, no longínquo Renascimento inglês, no século XV. No entanto, cremos que somos assim e nossos valores provêm dessa representação, a qual, desde sempre, sofreu transformações ao longo do tempo, mas basicamente seguem possuindo os mesmos princípios e mantendo as mesmas ilusões. Metafisicamente, também temos tido transformações, uma vez que, com o Renascimento, deixamos para trás a visão mágica, sobrenatural, própria do cristianismo medieval, e colocamos o homem no centro do universo: Carl Marx, Sigmund Freud e Charles Darwin trataram logo de fazer a sua transformação com essa posição renascentista, despojando-nos da ideia de um reino sobre o cosmos como se fôssemos uma substituição de Deus, mas as contradições entre o desejo desse reino e a evidência de que o mesmo não existe têm gerado um conflito que não existia na Idade Média nem no Renascimento, uma força poderosa, contraditória e que continuamente tem nos transformado. Essa força anima minha poesia: o que somos ante o correr do tempo, o que somos ante a natureza, o que somos ante os demais e a nós mesmos. Jamais irei solucionar este conjunto de conflitos, mas tentar compreender algumas de suas partes fará com que eu escreva poesia por toda a minha vida, algo que, de imediato, não é nada mal.


DA - Manhattan Song, publicado recentemente em meio digital, revela um pouco de sua vivência nos Estados Unidos. O que você assinala como sendo mais importante nesse seu olhar sobre a cultura ocidental?

LUIS BENÍTEZ – Manhattan Song tem uma edição eletrônica e outra em papel, ambas disponíveis para o leitor em espanhol. Meu olhar sobre a cultura ocidental, presente ali, recorre ao caos e ao desejo de ordená-lo que nós, ocidentais, temos buscado há milhares de anos, do qual resulta nosso mundo atual, com todas as contradições, conflitos e paradoxos estabelecidos entre ordem e caos, ambos aspectos tão unidos em nossa cultura que é difícil separá-los ou até mesmo distinguir onde termina um e começa o outro. Nosso mundo é uma mescla destes aspectos, uma mistura de caos e ordem, e então há caos na ordem e uma certa ordem no caos. Sinteticamente, disso se trata Manhattan Song.


DA - Parte significativa de sua obra hoje está disponível no formato de livro digital. Foi muito difícil para você aceitar esta nova tendência? O que há de mais relevante nessa transição?

LUIS BENÍTEZ – Não foi difícil aceitar esta nova maneira de edição porque compreendi as vantagens que possui sobre o tradicional formato em papel. O e-book está disponível para todos, em todas as partes do mundo, graças à Internet. Permanece indefinidamente ali, pronto para ser lido. Buscá-lo e encontrá-lo é mais fácil do que ir a uma livraria, dependendo do que se tenha ali ou não, etc. Ademais, para o leitor, a leitura em muitos casos é gratuita ou bastante acessível. A título de exemplo, meus Poemas Completos, editados em três volumes eletrônicos, podem ser lidos gratuitamente em PublicaTusLibros.com; Manhattan Song, em El Fin de La Noche. Este último pode ser adquirido em papel ou e-book na Libreria Mapa Mundi.


DA - Desde os mais clássicos, reconhecidos pela sua importância no cenário literário mundial, a Argentina concentra um número considerável de escritores. Com relação ao atual panorama da literatura nacional, sua visão é otimista?

LUIS BENÍTEZ – Não é. Creio que atualmente não existe uma literatura nacional em nenhum país, pois a globalização nos leva a um espaço internacional que antes não existia. A literatura de qualquer país hoje rompe saudavelmente suas fronteiras, graças aos meios de comunicação eletrônicos, como a Internet, que possibilita o acesso e também o que chamo de uma salutar “contaminação”. Esta se produz entre literaturas antes isoladas, que se “contaminam” de elementos outrora desconhecidos ou reduzidos a uns poucos conhecedores. Com a pós-modernidade e a comunicação eletrônica, ideias, noções, conceitos, visões do mundo antes reservadas a uma região literária penetraram em outras; por sua vez, estas também foram invadidas por outras, de origem distante. O que se escreve nas grandes cidades, atualmente, tem semelhanças e elas tornam esta escrita mais assimilável por parte de autores e leitores de outras grandes cidades. A literatura argentina está enfrentando suas contradições com este processo irreversível, sem compreendê-lo totalmente. Não consegue se livrar de seu antigo isolamento, de seu narcisismo precedente, quando supõe a si mesma como “o melhor que se escreve em língua espanhola”, um conceito hoje “politicamente incorreto” que se esconde para não passar vergonha, mas que intimamente permanece ali, sem fundamento algum. Para dar apenas um exemplo, acredito que hoje se escreve melhor poesia no México que na Argentina, ao menos em linhas gerais. Isso é muito difícil de admitir para as Letras do meu país, para seu narcisismo ferido sair pelo mundo. Mas está aprendendo com outras culturas e sou otimista na medida em que, plástica e assimiladora como ela sempre foi, a literatura argentina, no processo de globalização do qual falei antes, superará seus complexos de superioridade/inferioridade e dará um bom salto no futuro. De fato, já o vem fazendo, com a saída ao mundo de vários de nossos escritores. Sem dúvida, é necessário que tal mudança se dê em larga escala. O mundo mudou e nós devemos mudar também, gostemos ou não.


DA - Acredita que o papel da crítica literária feita na argentina é coerente?

LUIS BENÍTEZ – Não é, como tampouco o será, afora algumas exceções, no resto do mundo. Não pode haver coerência, ao menos em medida suficiente para abordar honradamente qualquer fenômeno literário, quando sobre a crítica atuam tão descaradamente os interesses de lobbies editoriais, as pressões e interesses dos meios de comunicação de massa onde se publicam os textos críticos em formato jornalístico. Não pode haver coerência crítica quando o mundo acadêmico, a universidade, principal fonte desta crítica, está também atravessado por interesses, facções estéticas, em última instância, fome de poder. Nada, no mundo que temos criado, é definitivamente coerente, porque tais elementos que enumerei atravessam todas as nossas ações e a crítica não foge ao assunto. Em meu país, muito se exalta a tais e quais autores, a certos autores, porque há interesses criados por trás deles, provenientes de necessidades comerciais, sociais ou políticas. Pelas mesmas razões, são ignorados ou pouco são levados em conta os outros autores e autoras. Logo, você, que é leitor, busca o que têm escrito estas autoras e autores e encontra em seus textos um desenvolvimento desigual, algumas pobrezas evidentes, velhas retóricas mal disfarçadas, erros conceituais, evidências de forçar o que escrevem para se enquadrar no cânone acadêmico da moda, que, sem dúvida, será trocado por outro à medida que os “modismos literários” tenham acesso à novidade seguinte. Boa parte da crítica argentina, insisto, assim como acontece em toda parte, é prêt-à-porter: está pronta para levar e é produzida em série, com padrões que se repetem em função da demanda.


DA - A América Latina, por suas questões sobretudo políticas e sociais, sempre nos revelou uma literatura muito rica do ponto de vista histórico, disposta a alargar as fronteiras da consciência crítica. Em sua opinião, o que há de mais relevante nesses debates sugeridos?

LUIS BENÍTEZ – As propostas de contracultura, subculturas, os estudos pós-coloniais têm tido um grande espaço em nossa América Latina e vêm recebendo um forte apoio desde nossos países, que possuíam e possuem, todavia, seu próprio maisntream, cada vez mais similar ao internacional, pelas razões que expus anteriormente. Ampliando os conceitos à pergunta de agora, direi que a internacionalização da literatura não implica que esta não esteja constituída por matizes e particularidades nacionais características de cada região, que entram em conflito ou disputa com os conceitos gerais e, também, com as matizes e particularidades próprias de outros países. O choque de culturas sempre é enriquecedor para todas as partes conflitantes entre si, pois se produz a “contaminação” da qual falei antes e uma sorte de “mútua fertilização”. Neste sentido, o ponto de vista crítico que podemos brindar a partir da América Latina, os debates que somos capazes de instaurar, podem ser particularmente úteis para outros e a nós mesmos, ao confrontarmos com as posições e as imagens de mundo que há em outras regiões. Particularmente, o jogo de poder que se estabelece entre países periféricos, como os nossos, e centrais, como os outros, no presente, marcado pela crise econômica e, portanto, também cultural, dos países do Ocidente, é um fenômeno para se estudar e acompanhar bem de perto porque gira fundamentalmente em torno do papel que terão as nossas culturas latino-americanas na década seguinte, em todo o hemisfério. Economias e poder político maiores sempre implicam uma presença cultural maior no contexto geral. O mais relevante de todos os debates sugeridos pela América Latina até o momento será aquele que possa ser aplicado num futuro imediato. Muito provavelmente, tais discussões poderão “contaminar” o contexto ocidental.


DA - Há uma preocupação explícita em formar leitores na Argentina?

LUIS BENÍTEZ – Nem explícita nem implícita. É uma questão fundamental que vai sendo deixada de lado, tanto do ponto de vista oficial como do privado. Quando digo que se ignora, refiro-me a tomar iniciativas e pô-las em prática de maneira eficiente. Existem planos públicos, pequenos aportes privados, mas de nenhuma maneira há uma política coerente de Estado que conduza à real formação de leitores, comprovada pelos fatos, uma política que traga em si um aporte privado, com subsídios, bolsas de estudo, educação, etc. Por parte das editoras e autores tampouco se contempla este problema como capital, fundamental para o crescimento da literatura. Editores e autores estão satisfeitos com os leitores que já possuem, deixando de lado as enormes reservas de leitores “selvagens” com as quais podem contar, potencialmente. Com o termo “selvagem”, refiro-me ao leitor não cultivado, obviamente alfabetizado, mas cujo gosto e preferências não foram estimulados e desenvolvidos por uma inteligente e efetiva política cultural. Não implementar este tipo de políticas é suicídio para o Estado, as editoras, os autores e todas as atividades relacionadas, pois, cada vez que desaparece um leitor, há uma lacuna que não volta a ser ocupada. Culpa-se os meios audiovisuais pelo fato de mais gente preferir eles em detrimento da leitura, mas isto é uma falácia: é possível desfrutar dos meios audiovisuais e de muitos bons livros. Não somente o meio escrito e audiovisual não são antagônicos, como também podem complementar-se e apoiar-se mutuamente. O impulso à leitura a partir da televisão, do cinema e do mundo virtual informático colaboraria eficazmente, por exemplo, com esta necessidade de criar novos leitores, que é tanto social, política, cultural e econômica.


DA - Afinal, o que desejam os poetas?

LUIS BENÍTEZ – Mais poesia, sempre: dentro e fora deles, também.






Foto: Tchello d'Barros






JANELA POÉTICA (III)


PARA SEMPRE

Victor Oliveira Mateus

à memória de IldásioTavares


Nenhuma a distância para as clareiras da voz,
para a justeza do sentido

brilhando ávida nos alicerces

das casas. Nenhuma a ausência

no cadenciado rumor das águas,
na malha translúcida das palavras
a inscrever-se em tudo - com réstias
de pertença e brilhos para sempre.


(Victor Oliveira Mateus, natural de Lisboa, onde reside, é licenciado em Filosofia, abandonou recentemente o ensino dessa Disciplina para se dedicar apenas à escrita. Tem publicados: quatro livros de poesia, um romance, traduziu, prefaciou e anotou Safo, S. João da Cruz e Voltaire. A sua poesia e alguns textos de cunho ensaístico encontram-se dispersos em antologias e revistas de cultura de Portugal e do Brasil)






Foto: Tchello d'Barros






MEU PAI SUBIU NO TELHADO

Gil Vicente Tavares


Meu pai subiu no telhado. Sim, isso é uma paródia da famosa piada de português, povo que ele amava e que publicou seu último livro em vida. E parodio a piada porque a coisa que meu pai mais gostava no mundo era fazer piada e sei que ele riria muito (deve estar rindo, talvez) de um artigo sobre seu falecimento iniciado assim.

Meu pai subiu num telhado, mas num telhado bem alto de um palácio, de um zigurate, de uma sinagoga, de um barracão. Ele subiu em todos esses telhados e tantos outros da vasta cultura de um homem especial, talvez o único próximo a mim cujo título de gênio coubesse como a nenhum outro.

Ildásio Tavares nunca esteve nos holofotes como alguns de sua geração. Mas iluminou a cultura brasileira. Se eu fosse desfilar o currículo de meu pai, precisaria escrever uns dez artigos. Livros, jornais, revistas, TV e google dão conta do recado. Entrementes, falar um pouco do quanto meu pai iluminou minha vida talvez seja uma metonímia do homem que ele tentou ser e em muitos momentos foi pro mundo.

Desde pequeno, bastava eu aparecer entusiasmado com alguma música, algum escritor, que ele logo me mostrava os defeitos. Foi um crítico feroz de todas as obras, a começar pela minha e, principalmente, pela dele. Como todo grande intelectual, via os defeitos e rachaduras, as falhas e fraquezas que o senso comum aplaudia e ignorava. E sofreu muito por isso. A grandeza oprime e a verdade dói. E era um grande que defendia verdades. Nem sempre as verdades, mas as suas verdades, e era muito íntegro com elas.

Dificilmente temos o que merecemos. Muitos são louvados em demasia, outros sofrem pela escassez de reconhecimento. Mas meu pai foi um lutador e um vencedor porque, a despeito da mediocridade opressora que tentava lhe anular, ele conseguiu galgar degraus que, se não o levaram ao merecido altar de gênio que era, ao menos lhe trouxeram momentos de alegria, como ao desfilar homenageado pela Nenê da Vila Matilde, em São Paulo, ou na comemoração de seus 70 anos, com momentos lindos como o de Gerônimo e Vevé cantando É d’Oxum em francês, na versão dele, ou o belo discurso de Jorge Portugal na entrega da Medalha Zumbi dos Palmares, etc, etc...

Tive o prazer de cochilar a manhã inteira no colégio depois de virar a noite vendo meu pai compor com Baden Powell. Tive a honra de, já exaurido, ter um poema em redondilha todo refeito ao lado dele quando eu tinha 7 anos de idade. Aprendi a fazer poesia, a reconhecer a beleza de muita coisa no mundo graças a meu pai. E o que levamos da vida é a beleza das coisas, a poesia dos momentos, das palavras, das cores e melodias.

Meu pai subiu num telhado, mas diferentemente da piada, ele não morreu. Ele está ali, em cima do telhado, olhando pra mim e pro mundo com olhos críticos. Eu sei que ele está lá olhando e pensando o quanto o mundo perdeu ao não reconhecer sua poesia e seu pensamento, e, nós poucos, de cá, pensando o quanto parte do mundo e eu ganhamos ao reconhecer sua poesia e seu pensamento.

Alguns poucos olharão pro telhado, em busca de meu pai. Ele vai estar lá, como todo mestre. Pois um mestre só se torna mestre mesmo quando o que ele pode oferecer deixa de ser ele e passa a ser a gente. E meu pai está mais em mim do que em qualquer outro momento esteve.

Agora é o momento de começar a aprender quem eu sou. Aos poucos, por toda vida. Tentando buscar em mim a poesia e sabedoria do pai e do mestre. A tristeza aparece no momento em que não olhamos as coisas belas.

E não tem nada mais lindo, agora, do que ver meu pai de cima do telhado, olhando pra mim e torcendo pra eu seja um grande homem. Para que eu não deixe que a pobreza do mundo invada nossa alma.

Foi isso que ele me ensinou. E será isso que eu tentarei fazer minha vida inteira, porque agora a responsabilidade aumentou; meu pai subiu no telhado e estará de lá, olhando pra mim, e dizendo; “agora é com você. Já fiz minha parte e fiz muito bem”.


(Gil Vicente Tavares é graduado pela Escola de Teatro da UFBA. Sua peça de formatura, o Quarteto/Heiner Muller, rendeu-lhe o prêmio de diretor revelação. Após retornar de um intercâmbio com a Cena Lusófona, em Portugal, passa a encenar textos como Antes da reforma/Bernhard e O despertar da primavera/Wedekind, com grandes atores da Bahia. Colaborou no roteiro do filme Cidade Baixa, de Sérgio Machado, e foi co-autor da comédia musical Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia. É professor substituto na Escola de Teatro da UFBA, onde cursa também o doutorado com uma pesquisa voltada à dramaturgia e ao Absurdo)





Foto: Tchello d'Barros









JANELA POÉTICA (IV)



A VOLTA PARA CASA


Henrique Wagner


a Ildásio Tavares, in memorian



De costas para o mar, voltamos à terra,

com seus telefones, carros e postes em movimento.

O corpo se pondo, resolve, provisoriamente,

nossa elegante superfície. Voltamos estupidamente mais vivos,

os olhos cheios d’água, como se quiséssemos afogar,

com toda a segurança de um mar antigo, nossa vista

de sobre o precipício dos ombros de nossos desassossegos.

Voltamos. O corpo buliçoso e cansado dos que lamentam,

praguejam, resolvem. As lojas da cidade continuam abertas

e vendem cartões de aniversário e roupas de verão. As nuvens

destoam.

O trânsito é confuso porque obedece à lógica dos dias – não das

noites.

Há, no entanto, um silêncio que brota das coisas que têm odor,

feito o cheiro de um nariz envelhecido; e parece velar, contrito,

a imensidão dos pássaros de asas abertas.

Olho para o céu e vejo, sobre o azul de indústria dos seres humanos,

a imensa flor amarela cultivando a terra, agora cheirando

a cágado, folhas de outono e ventania.



(O baiano Henrique Wagner é poeta e contista, e faz jornalismo cultural, escrevendo sobre atividades várias, como cinema, música erudita, literatura, artes visuais. Publicou os livros de poemas O grande Pássaro (1996) e As horas do Mundo (2001), este pelo Selo Letras da Bahia. Em 2005 lançou o livreto A linguagem como estética do pensamento, ensaio sobre a filosofia da linguagem em Lacan, a partir de Wittgenstein (Edições Paideuma). Atualmente assina duas colunas sobre arte no site Expoart. Autodidata, diz que sua formação tem sido a leitura dos clássicos e a convivência com os anônimos personagens da vida cotidiana. Venceu, no ano de 2010, o premio estadual de crítica de cinema Walter da Silveira, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia)



DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes


Apenas o Fim. Brasil. 2008.



Anos 90, Antes do Amanhecer, de Richard Linklater. Jesse e Celine se conhecem e se apaixonam enquanto têm menos de 24 horas juntos para caminharem pelas ruas de Viena e para se reencontrarem em Antes do Pôr-do-Sol. 2008, Apenas o Fim, de Matheus Souza. Tom e a namorada (sem nome na trama) eternizam sua última hora de relacionamento – sem maiores explicações, ela argumenta que precisa ir embora e ali está para uma breve despedida – enquanto caminham pela PUC do Rio de Janeiro.

Mas o que de fato representa o fim, quando encarado como a suspensão entre um ponto final e um novo parágrafo? Por que associá-lo ao fracasso e não tomá-lo como o simples fechamento de um ciclo? Até porque, de concreto, ainda que pessimista, sabemos que amores sempre se acabam. Ou como diria Millôr Fernandes, “eterno”, em amor, tem o mesmo significado que "permanente" no cabelo.

Guardadas as devidas proporções, ambos os cineastas retrataram fielmente suas respectivas gerações. E sem que isso implique em falta de originalidade por parte do jovem roteirista e diretor brasileiro (Matheus concluiu o longa metragem com apenas 20 anos e com um orçamento na casa dos 8 mil reais). Enquanto Linklater propunha um universo mais cult e filosófico, típico da época, Matheus Souza desfilou pelo universo pop e nerd da última década. Assim como Ethan Hawke e Julie Delpy, Gregório Duvivier e Érika Mader tem química de sobra e conduzem com leveza e espontaneidade os longos diálogos.

Influenciado por Woody Allen, Kevin Smith, Domingos de Oliveira e tantos outros, Apenas o Fim em nenhum momento soa prepotente, exatamente por retratar aquilo que entende bem: o seu próprio tempo. Daí sua coletânea de citações e referências da cultura pop, de Britney Spears a Mario Bros., de Transformers a Cortázar.

O filme é simples, mas de uma profundidade ímpar. Emociona por sua delicadeza e graça. Sem estrondos e quase sem clichês, aqui não há final apoteótico ou rios de lágrimas. De modo doce, o que se vê é o passar a limpo de uma história de amor contemporânea que poderia ter sido vivida por você e por mim. E é apenas o começo da promissora carreira de Matheus Souza.


(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)





Foto: Tchello d'Barros




JANELA POÉTICA (V)


TODO O MUNDO*

Casimiro de Brito/Ildásio Tavares


Todo o mundo é ninguém

Casimiro de Brito


Todo o mundo sabe que vai ser assaltado
ao dobrar da esquina
sabe o peixe sabe a menina
o mestre de capoeira também sabe
mas ninguém fica na casca
ninguém contraria sua sina
todo o mundo se cordeira na boca do lobo
e nela se aloja como na hora
do nascimento
abrigado do vento e da maré
saiu para a vida abandonou o ovo
para ver como é
Todo o mundo sabe que vai ser vendido
por um escudo por um real
sabe a galinha sabe o funcionário
o manipulador de palavras também
mas ninguém regressa ao flutuante Hades
todo o mundo voa todo mundo caminha
de baixo para cima
e flameja e batalha e flutua
esta é minha aquela é tua
e subitamente o músculo bate na terra
a boca tateia na mãe que um dia disse
Vai de vento em vento de erro em erro
que à volta cá te espero.


Ninguém é todo mundo

Ildásio Tavares


Todo mundo sabe que vai ser condenado
só não sabe porquê -- e quando sabe
de nada adianta: quem advoga em
causa própria tem um tolo
por cliente; quem advoga por outrem
ao menos perde pouco. Todo o mundo
está em franca paranóia -- o julgamento
é aqui, na comarca primeira de si mesmo:
não há a menor chance, por isso
deixamos a esperança quando entramos;
penduramos o casaco num cabide
a atiramos nossos sonhos
na primeira cesta de lixo da esquina,
para maior realismo da realidade.
Todo o mundo sabe que vai morrer um dia
para as lágrimas de alguns e a
alegria de outros. Cada um que
prepare seu enterro -- viver é descobrir
o caminho da morte, e lá chegar sem
medo -- a morte não existe; o medo
sim, eis a questão. Monotonamente
continuamos a conversar, enquanto ela
não vem -- a música está soando, acordes lentos,
graves. A música está soando -- é música
instrumental, ó meu tesouro: prepara-te
nunca é cedo demais para morrer;
nunca é tarde demais para viver:
o amor é breve.


* Poema escrito a duas mãos


(Casimiro de Brito é poeta, romancista, contista, tradutor e ensaísta. Nasceu no Algarve, em 1938, onde estudou (depois em Londres) e viveu até 1968. Depois de uns anos na Alemanha, passou a viver em Lisboa. Teve várias profissões, mas atualmente dedica-se exclusivamente à literatura. Começou a publicar em 1957 (Poemas da Solidão Imperfeita) e, desde então, publicou mais de 40 títulos. Dirigiu várias revistas literárias e esteve ligado ao movimento "Poesia 61", um dos mais importantes da poesia portuguesa do século XX. Ganhou vários prémios literários, nacionais e internacionais, e teve textos traduzidos para diversos idiomas)





Foto: Tchello d'Barros





MARIANNA


Cláudio Parreira



Tudo acontece ao contrário em Marianna: os galos cantam ao cair da noite, os carros avançam de marcha-à-ré e sempre chove pra cima. Quando chove.


Apesar disso, a vida em Marianna é considerada normal por todo mundo. Os relojoeiros atrasam os relógios com naturalidade e as cenouras crescem todas com suas raízes voltadas para o sol, que no verão surge sempre à meia-noite.


Quando nascem, os velhos não dão trabalho algum: sabem todos que em breve chegarão à idade adulta, e que depois disso uma adolescência repleta de surpresas e delícias lhes está reservada. Este, aliás, é o maior orgulho da cidade: o fim da velhice só traz alegrias em Marianna.


O único problema da cidade são os descontentes. Sim, há descontentes em Marianna, aos milhares. Eles reclamam de tudo, não concordam com nada e acham que a vida de verdade está lá fora, além dos muros que cercam a cidade. Por conta disso, a cada ano, muitos partem. E não se dão conta do óbvio: partir de Marianna, por causa da própria natureza da cidade, significa voltar a ela.


(Claudio Parreira é escritor, chargista e vigarista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Teve contos incluídos nas antologias Contos de Algibeira, da Editora Casa Verde, Fiat Voluntas Tua, antologia editada pela Multifoco, e, também, Dimensões.BR, da Editora Andross. Mora em São Paulo, SP)




SONETO DA LUZ

Ildásio Tavares


Inforgravura: Sante Scaldaferri



Quando eu nasci, já recebi a cruz,

plantada no caminho à minha espera,
a projetar a sua sombra austera
onde eu busquei, sedento, paz e luz

Quando eu nasci, já recebi Jesus
como anúncio de dor e primavera.
Mas era uma outra luz; uma outra esfera -
meu caminho, não sei onde conduz.

Resta-me a cruz e a dura provação
dos espinhos da vida, triste dança
de enganos, dissabores, ilusão.

que penetram-me o peito feito lança
e afastam a luz que a vista não alcança -
numa só chaga pulsa o coração.








Foto: Tchello d'Barros




* As fotografias do catarinense Tchello d’Barros, exibidas nesta Leva, fazem parte de uma série intitulada Um Mundo Fenomênico, recortes do cotidiano frutos de sua passagem pelo Brasil e exterior. Nela, o artista explora a riqueza de detalhes que, muitas vezes, nos escapam quando deitamos olhos apressados ao universo circundante. Através destas imagens, o fotógrafo explora com delicadeza formas, cores e, sobretudo, texturas presentes nos traços da vida. Em seu olhar, predomina um vigoroso contraste de tons, conceito que emprega sentido aos mais inusitados objetos.

Com uma trajetória que reúne mais de 70 exposições, Tchello também é artista plástico, escritor e viajante. Seu trabalho fotográfico deriva das referências advindas da pintura, cujas temáticas procuram sempre dialogar com a sua produção em poesia visual. Sua obra é marcantemente influenciada por elementos da Pop Art, pelas cores de Almodóvar, e pelos olhares de Henry Cartier Bresson, Robert Doisneau e David La Chapelle. Atualmente, vive na Amazônia, mais precisamente em Belém (PA), onde trabalha intensamente seus textos e imagens.

 
publicado por Fabrício Brandão
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