29 de mai de 2010,11:00
QUADRAGÉSIMA QUINTA LEVA




Foto: Thereza Coelho




CICERONEANDO



O que poderia significar o enigma que cada um de nós carrega por todas as direções de nossa sina? Talvez a resposta a tal indagação venha sendo buscada incessantemente a todo o tempo. No terreno literário, por exemplo, o chamado eu lírico pode representar muito mais do que um alguém a se refugiar sob os auspícios do manto das licenças criativas. Também poderia representar uma tentativa de se escamotear a realidade, reinventado, assim, aquilo que é considerado como uma atmosfera ideal de sobrevivência das nossas tenras existências. Quiçá pudéssemos afirmar que um poeta fosse uma espécie de ficcionista postiço dos instantes que poucos conseguem vislumbrar, mesmo quando se acercasse de todas as doses evidentes de aguda lucidez. E quanto aos críticos? Será que estes, mais do que os autores, poderiam enxergar na escuridão? De qualquer modo, a equação não fecha e, por mais que nos debatamos à procura de luz, os clarões parecem apontar em direções opostas e talvez longínquas. Acostumemo-nos, pois, a crer dos nossos instantes uma infindável sucessão de mistérios. Ao artista, resta o curioso regozijo de se deparar com o incompreensível, farta matéria-prima a expelir suas imagens. Numa nova Leva que agora desponta, há o traço marcante dos recitais líricos de Henrique Pimenta, Valéria Tarelho, Antônio Araújo Jr., Juliana Amato, Tanussi Cardoso, Márcia Cardeal e Inês Lourenço. Os registros fotográficos de Thereza Coelho flagram aquilo que pulsa nos recônditos humanos. A atmosfera insone da memória povoa os contos de Regina M. A. Machado, Juliana Gola e Lílian Maial. Numa entrevista, o poeta e idealizador do projeto Pão e Poesia, Diovvani Mendonça, fala conosco sobre a sua trajetória como militante ativo dos feitos culturais. Os sentidos se abrem para as musicalidades de Antonio Loureiro e Cibelle. Nas linhas cinéfilas de Larissa Mendes, repousam outros olhares sobre a metrópole japonesa. A cada leitor, a liberdade de partilhar seus próprios signos com as expressões de então!




*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.






JANELA POÉTICA (I)



ESPARSA II


Henrique Pimenta



Erra a serpente em seus guizos

à falta de encantador

e periculosamente

faz da música juízo,

faz do juízo estertor,

porque em estar encantando

a si mesma é mais um imo –

aos muitos, logram a dor,

essa dor que, revidando,

dá à luz descendências. Fim.



(Henrique Pimenta é um brasileiro que lê e escreve textos. Boa parte de sua produção escrita atual é publicada no blogue Bar do Bardo. Professor de português e literatura há uns vinte anos. Aluno de poesia há trinta. Mais alguma coisa? Não)










Foto: Thereza Coelho














OUVI DIZER


Juliana Gola



ouvi dizer que o amor faz cócegas na rotina. a rotina é isso de andar pelo mesmo lado da rua, acordar com o mesmo horário despertando no celular, lavar primeiro o cabelo, passar sabonete enquanto o condicionador age das pontas para cima, nos fios todos. acordo com minutos trocados, cada dia um minuto depois, dois dias depois, três minutos antes. finjo uma finta na rotina criando outra rotina. ouvi dizer que o amor sobe escadas de dois em dois degraus. falta o ar e reaparece a cada nova pisada, parada, pisada, parada. o nariz respira com a ajuda da boca. a água é para quando se sentar em frente à geladeira. não tomo água, misturo o suco em pó ou espremo laranjas. ouvi dizer que o amor assobia um blues quando volta pra casa, sozinho. é a voz da negona aos berros ou o grandão que parece descosturar os pontos colocados sobre a ferida que faz o coração se reconhecer um pouco mais do que bolsa de sangue fervendo. solto por aí, chutando latas vazias, olhando para o chão, lembrando do céu imenso, solto por aí, cutucando a solidão imperativa.




(Formada em jornalismo, no sentido burocrático da coisa. A formação, que comanda mesmo, a que está sempre em movimento, me veio, e ainda vem, pela literatura, com respingos do cinema, da música e das mais inusitadas formas de expressão. A não-expressão corre junto. Escrever foi só um jeito que eu descobri de não sufocar, o resto é cotidiano.)









Foto: Thereza Coelho









JANELA POÉTICA (II)



FECHADO PARA BALANÇO


Valéria Tarelho



não conto tudo
às paredes do meu quarto
que me dão tanto crédito
nem dou desconto
ao criado-mudo
que compra meus segredos
(os mais absurdos)

acho um preço justo:
o que peço
e que pago
por um silêncio
trocado

há portas
que por importância alguma
abro




(Valéria Tarelho, natural de Santos/SP (1962), residente em São José dos Campos/SP, separou-se da advocacia devido a um caso com a poesia. Seus primeiros escritos datam de abril de 2002. Está também no Proseares com Sidnei Olívio)







Foto: Thereza Coelho









OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



ANTONIO LOUREIRO






Uma das perspectivas mais tocantes da música é, sem dúvida, a capacidade que a construção dos arranjos tem de cativar a quem os escuta detidamente. Quando nos deparamos com um trabalho que prima pelo uso intenso das possibilidades emanadas pelos instrumentos, resta a conclusão de que a canção encerra um universo infindo. Chega a ser tocante o modo como o multi-instrumentista mineiro Antonio Loureiro aplica tal vertente em seu primeiro disco autoral. O álbum vem recheado de um arrebatador explorar de sentimentos sonoros, promovendo um diálogo vigoroso entre letras, vozes e instrumentos. Por trás da conjunção de trombones, piano, flautas, clarinetes, bateria, vibrafone, sanfona e outros tantos recursos percussivos, cada canção sugere uma vastidão de imagens nas quais uma sensação sublime e serena revela seus espectros.


É um tanto difícil enumerar com quantas virtudes se faz um trabalho de altíssima qualidade. No entanto, algumas delas merecem especial destaque. A começar pelo compasso intermitente de Voo a Dois, as impressões já soam as melhores possíveis. Emocionante é o escutar do canto e dos arranjos da poética Câmara Escura, cuja beleza reside, sobretudo, na letra de Makely ka. Como deixar de mencionar a voz firme de Leonora Weissmann em A Partir? Noutro momento, Antonio Loureiro despeja um desabafo contra os nossos desvarios contemporâneos em Roda Gigante. Pode até soar curioso, mas parece haver um elo íntimo entre os tons contemplativos de Nova e a atmosfera espiritualizada de Meditação, canção composta por Gilberto Gil para o seu Refazenda, de 1975. Dono de uma pluralidade incontestável, esse jovem artista deixa clara a sua face de pesquisador musical, um alguém capaz de beber nas fontes da tradição, trazendo-as vivas a um diálogo primoroso com elementos modernos. Com todas as apreensões desse grandioso percurso musical, pareceu menos importante a Antonio Loureiro batizar o seu disco primogênito com algum nome. Escolha certa. O imensurável não se define.



Clique aqui e abra os ouvidos para o disco










Foto: Thereza Coelho









janela poética (III)



depois da conversa sobre mãos

Juliana Amato



me agarro a sua mão
como me agarro ao presente
e impermaneço, e digo mais

eu nem pisco

nuvem de poeira entre
meus e os seus olhos
dissipa-se


fala, agora, carne. caminhamos por
estúpidos palpites, a visão necessária de mundo,
o mundo esse revés, a perda. me diz que
me excedo mas apenas inspiro-e-expiro,
me nego e afirmo: serei vítima até o último
suspiro




(Juliana Amato nasceu em São Paulo e está terminando o curso de Letras na Universidade de São Paulo. Participou da antologia Ávida espingarda, do Selo E, Editora Annablume. Desde 2007, mantém o blog Medeia veut de la cachaça)






DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Larissa Mendes



Mapa dos Sons de Tóquio (Mapa de Los Sonidos de Tokyo). Espanha. 2009.






Eu tento não pensar em como as coisas poderiam ser diferentes entre eles.

Porque agora é tarde demais. Talvez fosse tarde demais desde o início.

(Narrador)



Esqueça o frenesi dos karaokês (pelo menos até os 15 minutos finais do filme), fliperamas e de todo o néon de Tóquio, retratados na última década por jovens cineastas. Os sons e imagens aqui são minimalistas e pouco convencionais: o barulho ao se tomar sopa e o corte da faca dividindo um peixe ao meio juntam-se aos sons da natureza. Um chuvoso Japão que poucos enxergam e quase ninguém ouve.


Ryu (Rinko Kikuchi, indicada ao Oscar 2007 na categoria de Atriz Coadjuvante por Babel) é uma garota misteriosa e solitária, cujo único contato com o exterior, além de seu iPod, parece ser o narrador da história. Ela leva uma vida dupla: à noite trabalha no mercado público de peixes e, nas horas vagas, é uma assassina de aluguel. O mote do filme se dá quando Ryu é contratada por um poderoso empresário para vingar o suicídio da filha e apaixona-se por sua vítima, o espanhol David (Sergi López, de O Labirinto do Fauno).


Não é de hoje que Isabel Coixet explora o isolamento de seus personagens seja no Oriente ou Ocidente (“os homens são como casulos em todos os países”, diz um diálogo), e, por que não, as aflições universais de todos nós, vide seus belos Minha Vida Sem Mim e A Vida Secreta das Palavras. A morte é outro assunto recorrente, não do ponto de vista fúnebre e sim como redenção existencial. Roteirista e diretora extremamente sensorial, Mapa dos Sons de Tóquio talvez seja seu filme mais sensual e ousado: tem sua abertura em um sushi erótico e possui tórridas cenas de sexo em um quarto em forma de vagão de trem (alusão ao filme chinês 2046) do Hotel Bastille.


Além dos ruídos silenciosos dos protagonistas, o poético longa-metragem dá-nos um itinerário completo de cores e aromas do lado invisível da metrópole japonesa. Como um GPS, a vida sempre indica as coordenadas para um recomeço, seja do outro lado do mundo, da rua ou da própria vida.



(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)










Foto: Thereza Coelho










JANELA POÉTICA (IV)



VINCOS


Inês Lourenço



A luva no bolso
do antigo casaco de Inverno
atravessou inerte
todas as estações. Tantas
vezes entrou pela janela
o som da água molhando o passeio
enquanto nos vincos
do forro de lã reteve
a memória íntima das mãos.



(A poeta portuguesa Inês Lourenço nasceu no Porto. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Universidade do Porto). Entre os livros de sua autoria, estão: A Enganosa Respiração da Manhã (Asa editores, Porto, 2002) e Logros Consentidos (&etc, Lisboa, 2005).









Foto: Thereza Coelho










PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Com a roupa encharcada/ E a alma repleta de chão/ Todo artista tem de ir aonde o povo está, diz a emblemática canção composta por Milton Nascimento. Tal sentimento evocado na letra de Nos bailes da vida resume bem a missão de inúmeras pessoas que dedicam uma significativa parte de suas vidas difundindo manifestações artísticas e culturais. Neste terreno, muitas iniciativas brotam do sonho de se levar às pessoas, sobretudo àquelas que não têm acesso direto a certos produtos culturais, outras leituras possíveis para o mundo em que vivem. Não falemos, pois, de atitudes que subestimam a capacidade de apreensão das gentes dispostas por todos os lugares de uma nação continental como o Brasil, mas de ações capazes de realizar a boa provocação. De um lado, a exposição de determinados conteúdos. Do outro, a recepção particular de cada indivíduo e as repercussões que podem eclodir na sua visão sobre um todo circundante.


Utopia talvez não seja a melhor definição para tentar entender o que move idealizadores a inscreverem nas suas sinas uma orientação voltada para as trocas humanas. E parece ocorrer um pouco de tudo o que foi dito acima quando nos deparamos com gente como o poeta mineiro Diovvani Mendonça. Do recanto fincado em pedras de sua pequena chácara no interior das Minas Gerais, o moço ousou mais do que apenas vivenciar a sua relação com a poesia de modo restrito e abstrato. Atento às perspectivas que o seu amor às letras poderia gerar, Diovvani entregou-se de corpo e alma à difusão dos versos. De uma valiosa aposta pessoal, surgia o Pão e Poesia, projeto que, inusitadamente, levaria saberes e sabores aos lares de inúmeras pessoas. Tecendo um trocadilho com a máxima de Glauber Rocha, o momento significava uma ideia na cabeça e poesia sobre as mesas. Hoje, mais do que trazer versos dos mais variados autores nas embalagens de pão, a iniciativa tem se prestado, também, a atingir de modo efetivo estudantes em pleno curso de sua formação. Nessa entrevista, Diovvani nos relata um pouco da sua experiência com o nobre ofício de difundir a literatura e as artes, além de deixar expressas opiniões sobre a formação de leitores no Brasil e a respeito da conduta da crítica literária em nosso meio.




Diovvani Mendonça
Foto: Cris Teixeira



DA - Suas origens estão impregnadas dos matizes que remontam às paisagens interioranas das Minas Gerais, algo que empresta ao seu ofício poético muito mais do que um olhar bucólico sobre todas as coisas, quiçá uma transcendência de sentidos. De que modo isso se reflete em seu processo criativo?


DIOVVANI MENDONÇA - “... Esqueça os manuais de sobrevivência / Seja cobaia de sua própria experiência...”. Estes versos pertencem a uma das músicas do meu 1º CD, intitulado Mandala Sonora: quando um pássaro de fogo te traz no sol da meia-noite uma lembrança. Eu os escrevi impactado pela leitura do livro O andarilho das estrelas, de Jack London (Ficção/Ed. Axis Brasil).


Do nascimento até a morte, acho natural que nossas vivências se manifestem em todas as nossas realizações. O artista também não escapa dessa “lei”, pois, mesmo de forma inconsciente, ao executar sua obra, esta se desenhará como uma tentativa autoral de processar, de maneira inventiva, experiências reais e/ou imaginárias. Acho que o combustível do ser humano é a emoção. Constantemente, buscamos e somos movidos para o experimento de diferentes sensações. Para mim, o que interessa é a emoção e os arrepios que ela me oferta, diante de qualquer expressão artística ou em qualquer situação da vida. A razão nos serve para tentar explicar o que às vezes é inexplicável. Nesse sentido, querer explicar tudo pode nos levar à fragmentação da indizível graça das emoções vividas, que constituem a poeticidade da existência.



DA - A sua ideia da Árvore dos Poemas tem a ver com uma necessidade de dar vazão a uma memória afetiva literária?


DIOVVANI MENDONÇA - Diferente do aprendizado formal e da obrigação escolar, acordei para a leitura e para a arte, movido por uma curiosidade manifestada empiricamente pela arte em geral, com destaque para as letras das canções dos anos 1970 e 1980. Mais tarde é que fui ter contato e admirar as obras de vários poetas. Portanto, foram as letras embaladas em melodias que me conduziram à descoberta da poesia. Na adolescência, tive a mania de copiar, em especial, as letras das canções da turma do Clube da Esquina em folhas de caderno, para presentear os amigos da escola. Queria que se arrepiassem como eu me arrepiava com as letras das canções.


Em outubro de 1999, comprei um terreno que, segundo o corretor, ninguém queria comprar porque nele havia muitas pedras, como ainda tem (costumo dizer que apenas as harmonizei). Disse para o corretor Geraldo, quando fechei o negócio: “A casa vai ser aqui”. Ele, meio espantado com meu entusiasmo, argumentou: “Você está doido! Ninguém quer essa chácara porque ela tem pedras demais. Não está vendo? Só tem pedra...”. Finalizei: “Engraçado, eu a quero justamente por causa das pedras”. Logo após ter cercado a chácara, que batizei de Ninho das Pedras, pensei em espalhar folhas com poemas e letras de música em alguns pontos estratégicos de forma que, em qualquer lugar que eu estivesse dentro do terreno, pudesse ter disponível algum escrito para ler ou mostrar aos amigos. A princípio, a ideia pareceu-me inviável, porque sol e chuva, enfim, as intempéries do tempo, naturalmente danificariam as folhas. Mas, eis que um dia, no escritório, após imprimir o poema “Eu escapo”, do poeta André Carneiro, cuja obra conheci através de um artigo publicado na Internet pelo escritor e poeta Paulo Urban, fiquei brincando com a folha nas mãos. Em seguida, sem perceber, acabei fazendo um canudo com ela e, como tinha ao meu lado uma garrafa pet vazia de Coca-Cola, acabei por introduzir o canudo que fiz com a folha dentro da garrafa. Ela meio que se abriu já no interior da garrafa, dei uma ajeitada e percebi que dava perfeitamente para ler o poema. Eureka! Assim nasceu o que chamo de fruto-poema: uma garrafa pet transparente e uma folha A4 no formato de um canudo com poemas impressos. Daí, faça sol ou faça chuva, as folhas ficam protegidas dentro das garrafas e qualquer um pode saborear, sob a sombra da árvore, poemas de vários autores. Então, esse lance de cultivar a Árvore dos Poemas foi motivado pelo puro afeto pela poesia e por gostar de compartilhar com outros as infinitas possibilidades e descobertas que podem nos transmitir as letras.


A Árvore dos Poemas transformou-se também numa pequena editora voltada para a publicação de novos poetas. O primeiro investimento foi no poeta Lecy Pereira Sousa, com o livro PRIMEIRAPESSOAPLURAL, lançado em setembro de 2008, no projeto Terças Poéticas. Em abril de 2009, foi a vez do poeta pernambucano Múcio L Góes, com o livro Grãos ao Alto!. Para 2010, está no prelo o livro DESLOKADO, do poeta Marcos Fabrício Lopes da Silva.



DA - Seu ímpeto em prol da palavra fez surgir o projeto Pão e Poesia, movimento que democratiza o acesso a conteúdos poéticos num simples gesto de penetrar, de modo nada invasivo, o cotidiano das pessoas. Como foi que você percebeu que essa estratégia poderia funcionar de verdade?


DIOVVANI MENDONÇA - Foi tudo no entusiasmo e ao acaso. Nada planejado. Como quase tudo que acontece comigo. Não sabia, por antecedência, que funcionaria e tanta gente seria simpática ao projeto, como tem sido até o momento. Acredito que sempre tive a sorte de encontrar pessoas generosas pela vida. Uma dessas pessoas é meu amigo Renan, que tem uma distribuidora de produtos para padarias. Em 2007, o encontrei por acaso num boteco em Caracóis, bairro de Esmeraldas, cidade onde moro. “Olha o Didio, meu amigo poeta...”. Ele disse isso quando me viu. Eu estava no balcão de costas para ele, que veio alegre em minha direção, logo me abraçando e com um dos braços no meu ombro me apresentou aos amigos dele, que estavam na mesa tomando cerveja. Ele pediu um copo pra mim e entre uma conversa e outra, ele me instigava a falar poemas de minha autoria para eles – não me fiz de rogado, soltei o verbo para aquela plateia de não poetas. Foi um bate-papo animado. Temperado com poesia durante quase toda uma tarde de sábado. À certa altura da conversa, falei para o Renan sobre a ideia de imprimir poemas nas embalagens de pão. Ele pegou na minha mão como quem diz “negócio fechado” e se dispôs no ato a confeccionar entre duzentas e trezentas mil embalagens com meus poemas.


Como julguei, acertadamente, que seria muita tortura para o povo esse tanto de embalagens só com poemas de minha lavra, resolvi convocar democraticamente todos os interessados em participar da 1ª edição do projeto. Claro, não sem antes ligar para o Renan na segunda-feira e perguntar “Bicho, aquele papo lá em Caracóis é pra valer mesmo?”. Ele: “Didio, senta o pau. Quando você estiver com tudo certo para imprimir, me fala.”. Não perdi tempo, postei no blog a convocação e o Pão e Poesia se alastrou como um vírus na rede. Recebemos inscrições de poetas de quase todo o Brasil, além de algumas participações de Portugal e Itália, num total de quase dois mil poemas inscritos. Apresentamos o projeto para a Rita e o Alexandre da empresa que produz as embalagens. Novamente, tive a sorte de encontrar neles a generosidade como característica. Eles logo se dispuseram em doar a mão-de-obra. E não ficaram só nisso, ainda convidaram seus fornecedores a doarem a tinta, os clichês e o papel. Aí, o Renan, que a princípio comercializaria as embalagens, me ligou dizendo que doaríamos todas as embalagens às padarias da periferia da Região Metropolitana de Belo Horizonte. E assim foi feito.


Além do Pão e Poesia, realizo e participo de outras iniciativas que têm o objetivo de democratizar e facilitar o acesso do público a conteúdos poéticos, pois acredito que as amostras grátis ofertadas por esses projetos são “pílulas de leitura” (quiçá, viciem) que “pescam” o não leitor para o universo da leitura.



DA - Sem dúvida alguma, um dos pontos fortes do Pão e Poesia é o fato dele ofertar aos leitores a descoberta de autores dos mais variados estilos, além de expor obras de artistas plásticos. Como é que é feito esse diálogo com os potenciais colaboradores e quais critérios norteiam fundamentalmente a seleção dos trabalhos?


DIOVVANI MENDONÇA - No projeto, temos poetas e artistas plásticos homenageados, poetas convidados e selecionados. Os homenageados têm seus trabalhos publicados na frente colorida das embalagens. Já os poetas convidados e selecionados têm os poemas impressos no verso das embalagens em p&b. Os homenageados e convidados não precisam fazer inscrições, eles recebem um convite. Se aceitam, peço que me enviem uma autorização para publicar suas respectivas obras. Aliás, não publicamos nada no projeto que não tenha a devida autorização. Às vezes, por causa da distância, como faço a maioria dos convites por e-mail, também recebo algumas autorizações por correio eletrônico e as mantenho gravadas em pastas identificadas pelo nome do autor. Além do aspecto legal, é importante ter a autorização, até mesmo pelo respeito às obras e seus autores.


Nas duas edições do projeto, os poemas inscritos foram selecionados por um júri formado por poetas, críticos e escritores que, de alguma forma, possuem afinidade com a poesia. Uma curiosidade: não conhecia o Guido Boletti (hoje, meu amigo), nosso primeiro artista plástico a participar do Pão e Poesia. Ele se inscreveu como poeta e acabou sendo o primeiro artista plástico homenageado. Na inscrição, ele enviou o endereço do seu site, fui conferir, arrepiei e deu no que deu.





Foto: Cris Teixeira



DA - A questão da formação de leitores é um dos focos centrais do projeto e as discussões em torno disso, sobretudo no Brasil, por vezes ensejam posições um tanto demagógicas, sendo que a prática revela um desafio muito maior e complexo a quem se propõe empunhar tal bandeira. Com base em sua experiência, que conclusões você pode tirar?


DIOVVANI MENDONÇA - Não participo e nem nunca fui convidado a participar dessas discussões, simplesmente coloco em prática aquilo que acredito. Não perco tempo em teorizar, parto direto para vivenciar a ação concreta. Tenho consciência que o trabalho a ser feito na formação de leitores é árduo e gigantesco, principalmente porque, no Brasil, vergonhosamente, aqueles que detêm o poder não parecem efetivamente preocupados em valorizar os profissionais da educação, que têm um papel importantíssimo no incentivo à leitura nas escolas. Acho, também, que todas as iniciativas da sociedade civil, neste aspecto, são válidas e merecem apoio, pois, na prática, a maioria de nossos políticos são apenas especialistas em ludibriar os cidadãos, e incompetentes no sentido de viabilizar um ensino básico de qualidade e com salários dignos aos professores. Isso deveria ser a prioridade das prioridades, em qualquer instância dos poderes no Brasil.



DA - Com relação aos desdobramentos do Pão e Poesia, como é que tem sido o retorno do público?


DIOVVANI MENDONÇA - Recebo contatos de pessoas parabenizando o projeto, de gente interessada em levá-lo para outras cidades, de consumidores surpresos ao receberem as embalagens com poemas embrulhando os pães, de outros dizendo que gostaram de determinados poemas. Enfim, manifestações positivas incentivando a continuidade do projeto. Mas o melhor é o retorno que tenho, ao vivo, com os alunos nas escolas. É impagável. Em 2008, aproveitando a diversidade das embalagens do projeto, criei a exposição itinerante Pão e Poesia, que tenho levado voluntariamente, desde então, às escolas da periferia. Vou a cada uma delas, apresento o projeto, leio poemas, conto histórias de minhas descobertas através da leitura, converso com professores, alunos, e deixo a exposição por 30 dias em cada escola. Assim, eles realizam trabalhos a partir dos poemas do projeto. Dessa simples iniciativa, já nasceram livros com poemas dos alunos. Sei que é um trabalho de formiguinha, o qual, na opinião de alguns entendidos, não deve fazer muita diferença. Porém, garanto a estes que faz toda a diferença, além de ser muito gratificante para quem o realiza de forma despretensiosa, mas sabendo que ainda há muito a ser feito. Só quem vive essa experiência utópica e quixotesca pode dar conta da emoção de estar com esses alunos e receber cartas deles escritas à mão, convidando para retornar com o projeto nas escolas.


Este ano, alunos das escolas municipais de Contagem estão fazendo visitas à nova exposição itinerante do projeto que entrou no V Circuito Literário de Contagem. A exposição já esteve na casa amarela do Centro Cultural. Neste momento, ela está no Cine Teatro e, em junho, se apresenta na Mostra Literária, no SESC Laces Betim/Contagem. A 2ª edição do projeto, em 2009, foi proporcionada graças ao 1º Prêmio Pontos de Mídia Livre do Ministério da Cultura.



DA - Face a um momento de intensa produção pelo qual atravessamos, sobretudo pela liberdade proporcionada pela internet, que cuidados devemos ter para separar o joio do trigo quando o assunto é a qualidade literária?


DIOVVANI MENDONÇA - Não há como unificar o conceito de beleza e o que sente cada criatura diante desta ou daquela manifestação artística. Particularmente, não gosto das discussões em torno da Estética, em torno do que é Poesia, o que é Literatura, enfim, o que é arte de qualidade ou não. Se refletirmos bem, tudo isso habita o campo das subjetividades e vivências de cada um. Acho que alguns críticos e literatos se equivocam basicamente em suas teorias, ao não respeitarem o direito sagrado que cada ser humano tem de não gostar daquilo que eles (literatos chatos) defendem com unhas, dentes e malabarismos linguísticos. Na opinião destes, sem demagogia de minha parte, das poucas certezas as quais tenho na vida, é que, na separação que eles costumam fazer entre joio e trigo, estou convicto de pertencer à turma do joio. Além disso, no meu íntimo, não sinto ter vocação para ser trigo neste campo às vezes espinhoso, de vaidades, de egos obesos que brigam com foice no escuro para conquistar um lugar ao sol, numa disputa cega para ser enxergado de qualquer jeito pelos seus pares. Não perco noites de sono nem queimo meus neurônios com coisas dessa natureza. Aceito, no máximo, ser um “joio-jóia” entre meus semelhantes, mas “desjoiado” do brilho de maiores pretensões no mundo das letras. Só quero, na verdade, continuar os projetos, além de poder publicar vez ou outra, no meu blog, uns poeminhas.


“Viver a poesia é muito mais necessário e importante do que escrevê-la”. Gosto dessa frase do Murilo Mendes e tenho procurado colocá-la em prática, não me preocupando simplesmente em aprisionar a poesia no corpo de um poema com o objetivo de impressionar outros poetas. Nesse sentido, prefiro o retorno dos leigos, do cidadão comum, dos não entendidos em literatura, como aconteceu recentemente quando o Fernando, estudante de Turismo, teve acesso ao meu poema Eclipsado, que está circulando nos ônibus e no metrô de Belo Horizonte, integrando um projeto muito bacana chamado Leitura para todos, da UFMG, que tem o objetivo de democratizar e incentivar o hábito da leitura entre as pessoas. O Fernando me enviou um e-mail querendo saber se eu tinha algum livro publicado e tal. Como não tenho, ele está usando o poema no perfil do Orkut dele. Esse tipo de retorno espontâneo nos justifica e nos faz crer que valeu o gasto da pena. Isso se dá quando o poeta consegue capturar e soprar o espírito da poesia para o corpo de um determinado poema, fazendo-o pulsar vivo ao encontrar significado diante do olhar de outra pessoa.



DA - Nessa sua relação com a produção cultural, principalmente no que se refere à sua vivência com o Pão e Poesia, quais aspectos poderia ressaltar como sendo os mais marcantes?


DIOVVANI MENDONÇA - Muitas experiências para levar pela vida inteira. Porém, as mais fortes são as dos alunos das escolas por onde levei a exposição itinerante do Pão e Poesia. Estas, sim, são inesquecíveis e, de tão positivas, me servem como uma espécie de borracha para apagar e superar algumas poucas experiências negativas – o que é normal durante a realização de qualquer projeto como o Pão e Poesia.










Foto: Thereza Coelho









JANELA POÉTICA (V)



24 MEMÓRIAS II



Antônio Araújo Jr.



sempre existiu em mim um eu-lírico

de lira não, de lírio

personificado na figura de gente imaginária

ele tem coragem de recitar os meus versos

tão, tanta,

que recita ofegante

quase gago

dá até a impressão de que é inseguro

e é



(Antônio Araújo Jr. é brasiliense. Anda no mundo disfarçado de gente, mas é, na verdade, poeta. Nunca escreveu certo por linhas retas. Um de seus disfarces mais discretos é o de biólogo pela Universidade de Brasília. Descobriu cedo que o “bio” vem antes do “logia” e se esforça para não se esquecer disso no trabalho de educador pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, onde dá aulas para adultos, entrelaçando biologia e narrativas de vida)









Foto: Thereza Coelho











A SOBRINHA DO BISPO


Regina M. A. Machado



Na porta da catedral, os fiéis saindo, ele sorrindo, circulando o olhar, grande, suave e imponente, dando o anel a beijar, vestido de púrpura, cambraia e renda, o solidéu redondo e a mão adequada ao gesto e ao beijo.


- E você, beijava o anel?


- Não, eu virava as costas, mas não por convicção. Seria por pudor, por não me enquadrar na cena? Má atriz, desde então, incapaz de participar da encenação geral. Estou na saída da missa na catedral nova que se via de longe, toda branca com ângulos atenuados por uma espécie de moldura amarela que lhe traçava linhas levemente barrocas. Mas quando o povo entrou e descobriu as figuras e as paredes verde sujo, foi um escândalo, que alguns resolveram caçoando, “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, outros se refugiaram naquelas igrejas que a gente entendia, como a matriz velha, ou a capela do colégio, que nos envolvia os retiros e as bênçãos da tarde do mês de maio em tons desmaiados, e onde um anjo branco e dourado balançava a cabeça quando se punha esmola no cofrinho da entrada.


Foi realmente um susto, aquele verde oleoso nas paredes, a feiúra esquisita das figuras, que lembravam a caipirada que vinha das fazendas nos sábados fazer compras nas lojas. A mesma cor de pele, as mesmas caras enfezadas. Não eram nem brancos nem pretos, nem mulatos nem nada, eram cor de terra. Cor de sol com poeira. Bom, o pintor era comunista, e isso apesar de ser irmão do bispo. Enfim, de repente ficou tudo muito desencontrado para os fiéis e até para os infiéis. Comunista. Só a palavra retumbava como um trovão sinistro, naqueles anos 50 da guerra fria, dos filmes no cine Éden ensinando como era o mundo e como julgar cada figura conforme fosse mais ou menos como os cavalos brancos dos mocinhos de nariz arrebitado, com a crina loira voando com o vento toda para um lado, as mocinhas de cabelo pagem e vestidos claros, rodados e esvoaçantes. Naquele tempo, os mexicanos tinham chapéus enormes e dormiam barrigudos e bigodudos em calçadas empoeiradas; os japoneses eram cruéis e perigosos; os franceses indignos de confiança, com bigodinho e boina, carregando uma eterna baguete sem papel debaixo do braço. Não que confundíssemos a realidade com os filmes, mas havia tipos assim, que não se podia admirar nem ter confiança. Então, de repente, a catedral virava o contrário do cinema e em volta do altar apareciam aquelas caras que a gente não gostava. Para qualquer lado que se olhasse, enquanto se rezava, era aquela caboclada em vez dos anjos e santos de sempre, branqueados como a cidade. Não que se falasse nisso no footing da praça, mas pensava. E as famílias comentavam. E a gente perdia um pouco o pé no nosso chão aglutinante, garantia e exclusão das coroações de maio, reservadas aos anjos loiros de olhos azuis que eu não tinha, como não tinha certezas, embora achasse que tinha fé, já que era impossível não ter.


Junto com as pinturas, veio também a sobrinha do bispo, que tinha tudo isso, só que não era nenhum anjo de procissão. Ela ficou logo amiga da moça mais exibida de todas, começou a se pintar do mesmo jeito e a se vestir igual. As duas eram altas, magras, se vestiam com cores chamativas, uma loira de olhos azuis, mas não de mocinha de filme, eram olhos fuçadores e desconfiados, a outra, morena, olhos verdes de feiticeira, boca grande. Nós da cidade só clarinha e limpinha olhávamos descontentes aquele andar ondulando naquelas cores todas que elas esbanjavam. Mas a primeira sessão de cinema de domingo à noite, nem pensar que começasse sem as duas terem entrado, requebrando, rindo alto, provocando nossos vestidos que ficavam com cara de reformados da primeira-comunhão e indo até lá na frente e depois voltando. Pelo meio da plateia, com o cinema inteiro olhando e ouvindo. No final, acho que até na missa ela vinha com a amiga, e a missa também só começava de verdade depois que acontecia a chegada das duas. Só que ela tirava notas boas, as melhores da classe, no nosso colégio Imaculada Conceição. A professora de história leu alto uma prova dela, que me foi um desafio, quase tão esquisita e difícil quanto as pinturas da catedral. Além disso, tinha vindo do Rio de Janeiro, tinha aquele sotaque chiado, meio chique meio enjoado, que não soava natural, mas que talvez permitisse dizer coisas que a gente nem sonhava. Sempre caçoando, acho que até do tio bispo ela caçoava.


O pintor irmão do bispo tinha coberto as partes baixas das paredes com frisas verde escuro sobre fundo verde mais claro, não sei por que tanto verde, aliás, já que, segundo diziam, a pintura dele queria retratar a realidade e por ali em volta era tudo marrom. As abóbadas, sim, tinham paisagens iguais às das fazendas dos arredores, com arbustos e caras conhecidas. Algumas a gente até sabia o nome, era muito esquisito aquilo, além da terra ressecada, desertada de árvores, sofrida, uns pés de café que bem se via serem da época da colheita, com os frutos vermelhos, mas o mais eram galhos caídos pelo chão, numa terra desolada. O pior mesmo eram os caboclos, gente de pé no chão, espingarda na mão, lá em cima, em volta do altar das capelas laterais. No altar-mor, devia ser o Juízo Final, uma multidão, que em vez de palmas trazia galhos de café e outras plantas conhecidas, mas era muito grande e muito alto, não dava para ver direito. Só os anjos da coroação do mês de maio, que subiam no altar para coroar Nossa Senhora, é que podiam ver de perto aquela gente e saber quem era.


Pelo menos as estátuas eram lindas, isso ninguém negava. Embora diferente da Nossa Senhora das Graças azul e branca da capela do colégio, a imagem da virgem de madeira ondulada, rosada, cheia, drapeada e quase macia de pele, essa a gente entendia, ou tinha vontade. Havia outros santos, havia um Cristo também de madeira, acho, mas só me lembro bem dessa. Vindo da Itália, a gente esperava que pelo menos o escultor, sendo do país do papa, fosse bom católico. O que é certo, é que as esculturas que ele fazia enchiam os olhos e a alma, se bem que não como os filmes; até ajudavam a rezar, melhor do que na capela do colégio. Acho que me afeiçoei à madeira por causa delas; muito mais tarde, quando pude por minha vez pegar no cinzel, nunca pus cores na madeira que trabalhava. As cores, foi a sobrinha do bispo que resguardou, as que ela trouxe, no rosto e nas roupas, e as das paredes pintadas pelo pai, pois soube que mais tarde ela abriu uma galeria de pintura.


Na década seguinte, com o país e o mundo em plena reviravolta, falou-se muito nesse bispo, líder de uma direita ultra-conservadora, defensor de um direito inalienável de propriedade sobre extensões de terra sacralizadas pelas grilagens históricas que construíram a riqueza colonial e nacional. Nessa época, em que ele catalisou o ódio dos estudantes de uma esquerda na qual me situava, eu ficava à parte. Talvez por uma imprecisa gratidão, por causa das pinturas da catedral, da sobrinha adolescente colorida, do alargamento dos horizontes que isso tudo trouxe à cidade de terra branca, obrigada a se perceber rodeada da terra vermelha e exausta de todo o café que nos criara.


Muito mais tarde, voltei e andei por ali tudo, reconhecendo quase todas as casas do centro que, vistas da rua, não tinham mudado tanto. O jardim de São Benedito estava um pouco mais esburacado, mas os tijolos tinham uma velhice quebrada e fincada na terra escura que me tranquilizou, mas espantou também. Nunca soube que dentro da cidade houvesse terra vermelha, fiquei imaginando que só no jardim de São Benedito, santo preto e meio pobre é que ela podia ter aflorado. De noite, saímos para dar uma volta e entramos pelo portão aberto do colégio velho, meio demolido, onde só conseguimos avançar graças à luz da lua, até chegar ao pátio da capela. A ingênua gruta de Lourdes onde se tirava fotografia de primeira comunhão tinha sido arrasada; as paredes da capela não tinham mais pintura, as cores douradas e azuis tinham desaparecido. Havia um grupo que cantava perto do altar, no meio de andaimes e que nos fez sentir indesejáveis. Na manhã seguinte, visita rápida à catedral, que revelou novas cores à minha memória enganosa, muito cinza nas paredes e, lá em cima, abóbodas que ressoaram como cânticos emocionados a meus olhos surpreendidos. Um tanto maltratada também, ameaçada, disseram, por cristãos fundamentalistas que não queriam mais saber de pinturas nem de imagens. Me fez pensar nas estátuas explodidas dos Budas; fiquei imaginando se falariam da catedral da cidade pequena como se falou das estátuas milenares. E me lembrei do bispo conservador intratável, que fora capaz de fazer uma igreja que nos obrigava a enxergar as rachaduras do nosso mundinho, estranhamente o mesmo que ele teimava em preservar.


Desconcerto do mundo...!



(Regina M. A. Machado é uma brasileira expatriada que em geral trata dos escritos dos outros, mas que de tanto engolir crias alheias, acaba pondo para fora alguma criatura nascida do medo e da escuridão, como tantas outras. Fez um doutorado tardio em 2007, na Sorbonne, sobre literatura brasileira. Atualmente anima oficinas de francês para imigrantes em Bonneuil-sur-Marne, onde mora. Quando tem oportunidade, traduz autores brasileiros para o francês e, em se tratando de ficção ou teatro, sempre em colaboração com algum francês de raiz)










Foto: Thereza Coelho







JANELA POÉTICA (VI)



OS OLHOS NOS DESVÃOS


Tanussi Cardoso



o pijama despido do corpo

dorme seus sonhos


o rosto no retrato

estampa uma febre antiga


o piano dedilha

memória e descompasso


o fantasma de um gato

descansa no sofá


a escada suspira

os passos dos homens


no escuro as coisas brilham seus nomes



(Tanussi Cardoso é carioca, formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica/RJ, e Bacharel em Direito pela Bennett/RJ. Dedica-se em tempo integral à literatura, em especial à poesia, além de ser crítico, contista e letrista de MPB)






OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



CIBELLE – LAS VÊNUS RESORT PALACE HOTEL






Senhora de desígnios cósmicos e viajante confessa de odisseias particulares da alma, eis que surge à nossa frente Sonja Khalecallon. Seu nome é exótico, sim, como também as incursões sonoras que ela nos propõe escutar. O fato é que a moça tem algo a nos contar, falar de quão despretensiosa pode ser a vida se, de fato, nos permitirmos olhar sobre as coisas como se tudo surgisse com novo sopro a cada instante. Alguns podem chamar de psicodelia, estágio que nos atira a um plano da existência cercado de visões até certo ponto inexplicáveis e fantasiosas. Outros podem contestar e dizer que tudo não passa de um delírio sem propósito. Mas o bom mesmo é estar além de todas as tentativas de rótulo. Sonja é uma espécie de heterônimo da talentosa Cibelle Cavalli, uma personagem que nos convida a uma jornada imagética que vai do tom caricatural até o denso e fundo poço da existência. Las Vênus Resort Palace Hotel é o terceiro disco de uma múltipla Cibelle e, diferente do que se pôde sentir em seus discos anteriores, a artista preferiu subverter posições, deixar de lado a face cool da cantora de voz doce e límpida de outrora para apostar em algo mais ousado.


A grande marca do disco é o fato de estarmos diante da construção de um conceito. Na faixa abre-alas, Welcome, somos devidamente preparados em abrir os sentidos para a viagem que se inicia a partir dali. Ao fim, em Bye Bye, a atmosfera fica por conta das apresentações de Sonja e seus fiéis escudeiros, os Los Stroboscopious Luminous, nada mais nada menos do que o nome de batismo sideral dado à banda que acompanha Cibelle. Ao longo das canções, a cantora atravessa inúmeras galáxias sonoras e tudo ruma para um ambiente onde o surgimento de imagens é algo inerente à proposta do álbum. As paisagens sugeridas no disco formam uma espécie de ópera cósmica, na qual o alter ego de Cibelle passeia ao largo da seriedade que tanto aprisiona a alma humana. No jogo cênico de músicas como Man From Mars, Lightworks e da serena Sad Piano, sentimos o teor de um imaginário que não se limita a um único tom. Pelo contrário, como na vida de qualquer ser, quietudes e intensidades se alternam na construção dos enredos. Se a vida é pura dinâmica, Escute Bem nos lembra que as coisas efetivamente acontecem para aqueles que rompem a inércia, evocando ser o amor mais do que uma questão de atitude. Las Vênus Resort Palace Hotel é uma provocação das boas aos que não conseguem vislumbrar além do óbvio. Sob o manto de aparentes devaneios, pulsa insistente uma controvertida, porém atraente, lucidez.








JANELA POÉTICA (VII)


Márcia Cardeal




Ilustração: Márcia Cardeal




Se o céu se abrisse em dois

e varresse tudo, então sim

não precisaria mais.

Insetos mortos presos aos galhos

zumbidos de verão.

Aguaceiros. Não precisaria mais.

Nem de si mesma

porque o corpo não cairia.

Desaparecido, apenas.

Nem palavras, nem esperas,

cores, deslumbramentos da luz

atravessada pelas fibras do bambuzal.

Se o céu se abrisse em dois

não precisaria mais carregar o peso

do verbo acabar

sempre no futuro.



(Márcia Cardeal finge-se de ilustradora, mas arrasta uma asa pela poesia. Caiu do bico da cegonha, acidentalmente, em Santa Catarina – de onde vive escapulindo. Ultimamente, sobrevoa assuntos tão insólitos quanto a ilustração tátil em livros para crianças cegas)









Foto: Thereza Coelho








ANAMNESE


Lílian Maial


Era uma dor muito estranha. Aguda e lancinante, que fazia suar e ter vertigem, por vezes, uma lágrima.


Durava o tempo que se a sentisse.


Rastreados os órgãos, fígado, baço, rins, tudo em ordem. Pele, músculos, nervos e tendões sem avarias. E a dor lá, doendo.


Tomava todos os analgésicos inventados, tinha conta na farmácia. E a dor não passava.


Dentista, homeopata, clínico geral e, mesmo geriatra, não detectavam a origem.


Chegou a consultar mãe de santo. Fez trabalho no mato, jogou búzios, procurou cartomante, bebeu poções.

Não adiantava.


Toda vez que olhava o espelho, lá estava a dor.



(A carioca Lílian Maial é médica, escritora e poeta. Publicou “Enfim, renasci”, seu primeiro livro de poemas, em 2000, e tem participação em dezenas de antologias desde 1999. Integra ativamente o MIP - Movimento Internacional Poetrix e é Consulesa do Rio de Janeiro para o movimento Poetas Del Mundo. Tem seus trabalhos divulgados em inúmeros sítios nacionais e internacionais, além de colaborar com revistas eletrônicas brasileiras, portuguesas e espanholas)









Foto: Thereza Coelho






* Por trás de gestos, lugares e recortes habitantes de um complexo mundo, as lentes da baiana Thereza Coelho inauguram um espaço especial de contemplação. Seu olhar autônomo capta traços que, muitas vezes, podem passar despercebidos ante as nossas visões. A ruptura das obviedades constitui trunfo certeiro em seu trabalho, revelando que o ofício de fotografar vai muito além de meros flagrantes cotidianos. Pouco a pouco, os homens, seus ritos e sua sina vão sendo expostos de modo denso e poético.


Com uma extensa participação em exposições coletivas, salões de arte, concursos e instalações, as imagens de Thereza também lhe renderam significativas premiações. Desde o seu olhar voltado a expor manifestações culturais baianas e, passando pela representação das nuances humanas, a artista denota toda a sua versatilidade de temáticas. Seu mais recente registro, intitulado Imagens do Cárcere, propõe uma leitura diferenciada e íntima do espaço prisional, da inalienável relação que o homem é capaz de estabelecer com o seu meio.


 
publicado por Fabrício Brandão
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