31 de out de 2009,23:00
TRIGÉSIMA OITAVA LEVA


Desenho: Sandra Lagua





CICERONEANDO




Além da pluralidade de signos contidos na vastidão das palavras abraçadas a um texto, nosso pensamento vagueia em busca de outras fontes, ora autônomas, ora dependentes de aspectos que o complementem, sem os quais certas leituras ficariam até mesmo impraticáveis. Ademais, também nos é possível vislumbrar o mundo como um imenso painel semiótico e, em razão disso, percebermos sentido para todas as coisas, até mesmo as mais banais. Ao mesmo tempo grandiosa e sedutora, a habilidade de poetas para enxergar através do mistério das coisas invariavelmente nos traz o desafio de atribuir valores a tal feito. Se a estética é gratuita, nem titubeamos em atirar a primeira pedra. Por outro lado, se o caos interior ordena nossos sentimentos contraditórios e é capaz de se materializar em formas convincentes, apaziguamos a desconfiança sem deixar a prontidão de lado. Mais do que visões particularizadas, o mundo nos oferta uma complexa democracia do olhar. E tudo isso, por exemplo, pode se iniciar pelos ritos básicos da linguagem do corpo, tal como apreendemos nos desenhos da artista plástica Sandra Lagua. Seus trabalhos aqui agora expostos congelam instantes demonstrando que o corpo não apenas fala, é contumaz transcendente. Versos como os de Carlos Couto, Kátia Borges, Natália Nunes, Fernando Fábio Fiorese, Lucia Fonseca e Ana Peluso são capazes de atravessar resolutos o deserto indefinido da escuridão que nos provoca. Ao sabatinarmos o artista plástico paulista Maurício Takiguthi, não estamos distantes de entender porque o exercício cuidadoso do olhar é peça-chave para a consolidação de qualquer processo criativo em matéria de arte. Pelos desvãos da alma, escorrem as linhas dos contos de Eliana Mara, Wesley Peres e Tekka Whitman. Ao lado disso tudo, somos, também, cinéfilos e musicais em Larissa Mendes. Bem perto de completar quarenta jornadas culturais, a Diversos Afins ruma adiante, agregando novas expressões e reafirmando sentimentos que traduzem fielmente a sua missão.





*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.










JOGO


Eliana Mara Chiossi



Ao reunir as peças, notei a ausência da quarta parede. Isso fez todo o desequilíbrio e naufrágio do quarto. Cada rajada de vento que a janela convidava, fazia desmoronar nossas memórias. O relógio de areia tem um modo justo de observar seus equívocos. Nada se altera. Enquanto isso, distraído, você comete o assassinato de formigas. Suas dores, seus dias de nuvem e todos os objetos que você traz na mala. Síntese desconexa da sua passagem pelo mundo. A máscara colada ao corpo criou uma segunda pele. Você me pede para cantar, antes que tenha início a perseguição do sono. Deito ao seu lado e observo os gestos das pedras. Dentro do quarto, os lírios estão acesos.




(Eliana Mara Chiossi é paulistana. Atualmente, mora pertinho do mar, em Salvador. Fez parte do MPA – Movimento Popular de Arte, na zona leste de São Paulo, onde descobriu a paixão pela literatura e outras artes. É professora doutora (Universidade Federal da Bahia – UFBA e Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS) na área de Estudos Literários. Seu livro de contos, Mil Folhas e uma, ainda inédito, ficou entre os selecionados do concurso nacional SESC/Record (2006). Escreve em revistas eletrônicas e sites de literatura e cultura)





Desenho: Sandra Lagua










JANELA POÉTICA (I)



COLHEITA DO SILÊNCIO


Carlos Couto



aqui morrem as palavras

e é parido o tempo

de jejuar com o silêncio


exposto à mesa

o fruto do entendimento

sabê-lo é alimentar-se

e parti-lo é abrir uma fome

que não pode ser saciada





(Carlos Couto, escritor, poeta e ensaísta. Engenheiro civil de formação, nascido em Rio Grande/RS. Publicou 03 livros, "Denúncia Vadia" (pensamentos e reflexões de cultura rasa), "Sangue Novo na Anemia" (coletânea de poesias da Confraria Terra dos Poetas) e "A Paisagem de Dentro" (poesias e haicais). Foi colaborador da coluna "O Impopular" no jornal Correio do Paraná e fundou "Confraria Terra dos Poetas", entidade cultural com objetivos de promover, apoiar e desenvolver atividades de cunho literário)








OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



LUCAS SANTTANA – SEM NOSTALGIA






De quantos modos podemos nos apropriar das cordas de um violão? Certamente, soluções não irão faltar. Então, pensamos no peso valioso de nossas tradições brasilianas ao relembrarmos verdadeiros artífices do instrumento, tais como Baden Powell e João Gilberto, para depois indagarmos o que mais nos falta ver e sentir através de acordes e melodias variados. Sem esquecer dos cânones, base de muitas motivações presentes, arranque-se de um bom violão perspectivas outras, dispersas num ambiente disposto a buscar novas escutas. Aí, então, estaremos tratando da atmosfera experimentalista engajada no trabalho do cantor e compositor baiano Lucas Santtana. Quarto álbum do artista, Sem Nostalgia mostra um Lucas muito disposto a fundir espectros poéticos em meio àquilo que poderíamos atribuir como um sadio emaranhado de transgressões sonoras. Nada parece ser em vão por aqui. Ao contrário, cada recanto do disco embute suas virtudes em meio a recursos dotados de apelos orgânicos, tudo devidamente disposto a se firmar como linguagem autônoma.


O percurso por cada faixa do disco nos garante atestar a invenção de novos ambientes para as possibilidades musicais. De cara, temos o universo viajante de Super Violão Mashup, Who Can Say Wich Way e da reflexiva Night Time in The Backyard (parceria com Arto Lindsay). Dividindo seus espaços com canções em inglês e português, Sem Nostalgia pode ser classificado como um trabalho conceitual, cujos conteúdos nem de longe se revestem de signos herméticos. Chama atenção o jeito como os caminhos são explorados, com direito a samples, programações, corpo de violão e até mesmo o uso de insetos. Outro ponto alto do disco está em Amor em Jacumã, canção cuja virtude maior é exalar o suingue bem brasileiro, algo com um bom sotaque de Jorge Benjor. Em Ripple Of The Water, os sons noturnos do Jardim Botânico do Rio servem como uma orquestra que denota serenidade. Por se utilizar dessas esferas diversificadas de experimentação, Lucas Santtana constrói um álbum que abre outras leituras possíveis diante de um mundo que deságua imenso e incontrolável em nós. Parafraseando uma das canções, não é possível viver longe da música. Mais ainda, não é possível se negar a escutar tudo aquilo que vai além do óbvio.







Desenho: Sandra Lagua








JANELA POÉTICA (II)



O CORAÇÃO NA CHUVA


Kátia Borges




Você apenas finge que sente.
Mas que tarde cinza
É essa que traz nos olhos?

Perita em perguntas-disfarce
deixo a outra entretida
em desarmar armadilhas,
organizar as cores do cubo
mágico, montar o móbile.

Ah, sou poeta, sabe?
Por isso é que sei criar
esses efeitos sentimentais
a partir do ridículo. Não diz
nada, apenas finge que sente,
que esqueceu de escrever
a carta de despedida,
perdeu as chaves e chove.

Ah, eu sei que não chove.
Agora deixa que eu finjo.



(Kátia Borges é poeta e jornalista. Formada pela Ufba, trabalha desde 1995 no jornal A TARDE, em Salvador. Atualmente, faz parte do grupo editorial da revista “Muito”, daquele jornal. Em 2002, publicou seu primeiro livro de poesia, “De volta à caixa de abelhas,” pela editora As Letras da Bahia. Em novembro, lançará seu novo livro, “Uma balada para Janis”)







Desenho: Sandra Lagua








Laudas da manhã de uma Ana

Wesley Peres


Galáxia empoeirada nas laudas, nos olhos, Ana senta-se no lugar mais escuro da casa; ela, Ana, clara como qualquer mulher sonhando acordada o que sonhará dormindo. Deus está calado hoje, pensa Ana. O marido, na cama, ronrona azul nos pensamentos de Ana, que se levanta e prepara um café a fim de recuperar o sono. Ana tem emprego, levantará cedo, o beijo no marido que trabalha, só que um pouco mais tarde. Os filhos, ela disse não, resolveu que eles continuem ressoando em galáxias empoeiradas, ou que vivam nos sonhos onde a fugacidade ainda mais extrema empresta arenosidade às palavras. O marido diz que tenta entrar na cabeça de Ana, mas o seu crânio é à prova até dela mesma. Ana é de antepassados sem nome, é refinada e triste, é magra e anda vestida em tons pastéis, não porque adora pastel (apesar do não refinamento disso) e sim porque quase tudo na vida é tom pastel. Vejam só, diz às amigas “vejam se os dias não se parecem com um interminável domingo”. Ana vai trabalhar, liga o carro, a álcool, pois detesta o cheiro da gasolina que acrescenta ao pastel da vida o verde-não-verde da sensação de náusea. Noite, Ana sem sono, funciona sempre o negócio do café, o psiquiatra dela nem acredita que café lhe dá sono, o psicanalista não diz nada, e o marido diz que ela é louca, a irmã dela também falava e fala isso, porque por exemplo Ana acha muito belo as cidades sujas, com o cheiro insuportável de gasolina: em estado alérgico, Ana diz raciocinar melhor. Ana chega ao trabalho misturada de olhos e laudas e marido roncando azul e Deus que anda calado. Ana sorri e finge, para os colegas, que precisa urgente de um café para espantar o sono que não há.


(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance CASA ENTRE VÉRTEBRAS, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: PALIMPSESTOS (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, RIO REVOANDO (poemas) USP/COM-ARTE 2003; ÁGUA ANÔNIMA (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL)







Desenho: Sandra Lagua








JANELA POÉTICA (III)


Natália Nunes



naquela hora em que o sol desanima e apodrece,
levantei-me do pó que se acumulava na mesa
na porcelana, levantei-me do que não li
do que não falei, do que pensei há séculos.
ficara ali, dez minutos dentro da eternidade, talvez
amando a palma da sua mão, as suas penas invisíveis,
a fumaça decantando, amando os giros dos seus metros
dos seus alcances, usurpando espaço na distância
que ignoro dentro dos meus olhos espelhados.
meus ombros ainda guardam a medida dos seus dedos.




(Natália Nunes autocria-se na palavra, mãe que é do mundo. Não que escreva: bate asas, vive, e, se ri ou se lágrima, sobram letras – que precisam sair, entrar em queda livre, ser coisa no mundo, precisam. É de Belo Horizonte por nascença, e é mulher que assim se exerce)










Desenho: Sandra Lagua









PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Antes de tudo ser firmado em concretude, a sombra inconteste dos hiatos parece permear a fonte inalienável de nossas existências. Qual seria então o significado mais adequado para a definição crucial dos verdadeiros intervalos a que estamos submetidos? Se falamos em arte nas suas mais variadas acepções, invariavelmente miramos a vastidão de um deserto que separa pensamento e materialidade encerrados numa obra. O lapso das criações pode representar muito mais do que uma mera atitude reflexiva ou contemplativa. Há algo indo além de terapêuticas doses de subjetividade. Ao olhar sensível do criador vem se somar a propriedade emanada dos subsídios da pesquisa e do aprendizado constante, tudo a serviço de uma varredura permanente da alma humana, pedra fundamental da criação.


Certamente, apazigua espíritos mais céticos o fato de poder testemunhar a presença vigorosa de um artista como Maurício Takiguthi. Engajado numa trajetória que privilegia técnica, estudo e apreensões intimistas de nossas humanas idades, Maurício mergulha fundo rumo à captura minuciosa de um realismo que não assume a perversa condição de ser gratuitamente idêntico ao tudo que se vê no banquete ofertado pelo mundo. Mostrando que é possível retirar singularidades de cada gesto expressado, o artista nos conduz com maestria pelos labirintos do ser. Sob a forma de telas ou desenhos, somos arrebatados para uma espécie de clamor inerente à sina do homem. Dono de uma carreira que agrega exposições e prêmios nacionais e internacionais, Maurício expõe algumas de suas opiniões num lúcido diálogo conosco, revelando suas posições em torno do seu processo criativo e das perspectivas conceituais da arte.





Maurício Takiguthi

Foto: arquivo pessoal



DA - Você é um daqueles que não concebe o artista como um ser divinizado, afeito, portanto, a lampejos meramente derivados de inspirações casuais. O que deve conduzir um processo criativo para que ele ganhe essencial sentido e possa construir uma obra sólida?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Creio que o domínio no mais alto nível do processo criativo vem com o estabelecimento de uma sistemática que permita a análise compreensiva da prática, que conecte o pensar ao fazer artístico. Isso implica a necessidade de dissociar a visão do leigo como base da atividade que em tese reivindicaria o olhar do especialista, do técnico.


Infelizmente, predomina, nos dias atuais, a conduta de senso comum, bem diletante, caracterizada basicamente por dois tipos de concepção: do artista como portador na terra do dom divino (e da mensagem de Deus nos casos mais extremos) ou do artista como aquele transgressor excêntrico que entretém a platéia. No primeiro caso, o artista, objeto da ação divina, expressa uma verdade que se encontra pronta e que lhe cabe apenas revelá-la. Contra ela nada pode fazer. No segundo, a teoria é a de que o caminho para a arte profunda e expressiva brota naturalmente do espírito humano e qualquer influência de fora (também conhecida como conhecimento) iria, de alguma forma, contaminar a pureza do processo interior.


Em ambos os casos, a criação torna-se fruto e revelação de um processo místico (instintivo ou divino), inexplicável, acidental. O artista é situado como objeto, à mercê de limites predeterminados, que aceitou esse lugar socialmente convencionado, e que mal consegue perceber. Implicitamente o que se defende é que todo o corpo de conhecimento, constituído no passado, de natureza prática como sistemas de construção, e de natureza conceitual, como os princípios técnicos, deve ser desprezado. Não há lugar para estudo, treino, formação. Não há escolha nem entendimento. Foram extirpados o conhecimento de causa, excelência e domínio técnico, adquiridos através da prática árdua, como valores intrínsecos da prática artística. Parece absurdo, mas o que por fim se instaurou dentro da arte foi a aversão ao aprendizado ou qualquer tentativa de compreender o processo, numa situação parecida com a do poeta que não quer saber das regras fundamentais da língua. Mas como criar sem saber o que se está fazendo?


Obras-primas resultam de grandes respostas para grandes problemas técnicos e estéticos, que expressam simultaneamente questões existenciais do artista. Grandes artistas possuem a capacidade de organizar mentalmente o processo prático, de pensar, ordenar o que vêem, de estabelecer uma interação sensível e intuitiva com o que fazem, sem perder o controle. A boa condução do processo criativo passa pela recuperação do artista como sujeito da ação, encarar a arte como construção, pela manipulação hábil da imagem até que ela possa traduzir com veracidade suas intenções, carregadas de valor e sentido. Controlar é saber o que se está fazendo, dentro de uma estrutura complexa, mental e prática, que comporte conhecimento, técnica e sensibilidade.


DA - Seu trabalho consegue aliar domínio técnico a precisos recortes que permeiam a condição humana. Como é que se deu a predileção pela via realista em seu ofício?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Aos 13 anos de idade, tive o meu primeiro contato com a pintura figurativa tradicional. O que me fascinou neste primeiro instante foi a mágica de transformar meus desenhos antes “chapados” em figuras que pareciam “vivas”, pela recriação das formas mais realísticas e da ilusão tridimensional numa superfície plana, através do sombreamento. Foi a fase da descoberta das belas artes, do desenho acadêmico, da técnica e de que era capaz de representar satisfatoriamente os elementos do real. Minha preocupação limitava-se à abordagem naturalista, mais literal, ou seja, ocupada com a imitação convincente das coisas como elas se apresentavam. Mas percebi, com o tempo, que o prazer de reproduzir o que via tornou-se um trabalho artesanal, repetitivo e vazio. Esgotada a fórmula, senti que precisava de algo mais, mas não sabia explicar.


O que mudou minha perspectiva foi o contato, anos mais tarde, com os mestres americanos realistas contemporâneos através de livros. Viam a pintura como forma de pensamento (ou “coisa mental”, nas palavras de Leonardo da Vinci) e de autoexpressão. De alguma forma, senti que aí existia uma pista que explicava aquela sensação de que o mundo era muito maior do que eu supunha. A partir desta constatação, dois modelos ficaram bem evidenciados: o do pintor que expressava exclusivamente as coisas e do artista que se expressava através das coisas.


Houve uma transição silenciosa importante: a pintura elevou-se àquela categoria de pensamento visual e forma de linguagem, em oposição à mera reprodução mecânica do que eu via, que, em última instância, prescindia de subjetividade, sem qualquer tipo de reflexão mais elaborada. A pintura realista foi se tornando, ao longo dos anos de treinamento, sem perceber, metáfora de mim mesmo, através da qual entendo, penso e me relaciono com o mundo. A figura humana configurou-se como veículo principal pelo qual consigo expressar minhas verdades. Passei a usar as pessoas retratadas como modelos que emprestavam seus corpos para expressar emoções, percepções e concepções que eram minhas. Mais tarde ficou claro que a vontade de explorar temas como intimismo, solidão, angústia, vivência, momentos de reflexão sobre antagonismos da vida cotidiana, revelava mais sobre mim do que conseguia expressar por palavras. O meu estranhamento diante das coisas e das pessoas servia de base para a exploração de novas possibilidades de olhar a pintura e a mim mesmo. A mágica está em tornar visível, “palpável”, essa interação sensível entre a realidade interna e externa. O realismo é o modo como consigo exteriorizar e materializar sensações ou estados de espírito.


DA - Falando das densidades e mistérios humanos, há em você uma busca obstinada por uma forma que melhor traduza tais sentimentos?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Sim, e essa forma resulta do encontro do sutil com o essencial. Na minha atual fase de pesquisa, quero explorar a desconfiança de que o essencial encontra-se nas camadas mais profundas e silenciosas da imagem e, para atingi-lo, quero ser capaz de ter acesso ao sutil, que implica ver grandes diferenças nas pequenas coisas.


O treino, nada fácil, é amplificar a sensibilidade intuitiva que consiste basicamente na tarefa de estar mais atento ao que acontece à minha frente, ou seja, tentar mais ouvir do que falar. Estar aberto, suscetível, manter a mente livre de pré-julgamentos visuais para poder ver com clareza as reconfigurações de acordo com as mais leves mudanças idiossincráticas e contextuais.


Extrair as formas mais sutis e essenciais é extrair as sensações indizíveis que se encontram na camada mais profunda e escondida nas especificidades do real. As sobreposições de camadas podem adquirir qualidades que aprofundam o olhar sobre aquilo que se vê – as camadas tornam-se camadas de acesso, de contemplação e de entendimento.

DA - Uma das características mais fascinantes da arte é a capacidade de transcendência que ela exerce sobre as coisas que ousamos transformar a partir do olhar. Seria essa uma via de cura para nossos equívocos?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Acredito, sim, que seja uma via possível de cura, dependendo muito de alguns fatores, principalmente para aqueles que conseguem perceber a analogia possível entre vida e arte. Para quem se coloca na arte como na vida, precisa estar predisposto a vencer um duplo desafio: a resistência individual (nem todos estão dispostos a assumir ou reconhecer os próprios enganos) e superar as forças contrárias do meio (afinal, os tempos pós-modernos não ajudam, seja pelo excesso de racionalização em detrimento dessa capacidade sensível de atentar para as coisas, seja pela possibilidade irresistível de substituir a ausência de domínio da prática pela retórica). Em ambos os casos, aceitar uma mudança radical de postura para levar adiante este desafio de transformação, exige disciplina, sinceridade, justeza no julgamento, humildade e maturidade.


Um dos aspectos mais interessantes e, ao mesmo tempo, doloroso é a capacidade de se ver através do processo prático. Nele, os vícios, as faltas, as imperfeições ficam estancados na obra. A conta se contrabalança também pela presença das qualidades e dos indícios de que é possível melhorar. A natureza da atividade muda efetivamente quando se transforma em busca permanente de aperfeiçoamento, principalmente o da mente. O movimento consiste em tentar entender, aprofundar a visão do que acontece tanto pela leitura de si mesmo quanto da obra, pois ambos se explicam. Para poder evoluir - isso é o que aprendi com “muita chibatada da prática” (e depois de tentar muitas outras soluções que não deram certo) - é preciso humanizar-se e aceitar tudo o que vem no “pacote”: admitir os limites, os apegos, os vícios, as inseguranças e as incertezas da mesma forma como se aceitaria de bom grado as virtudes. A ambição de querer ser um bom pintor me obrigou a adotar certos valores como postura correta, flexibilidade e disciplina, mesmo quando sentia preguiça, raiva e vontade de rasgar as telas.


Por último, acho que um dos melhores ingredientes para lidar com os nossos equívocos sob o prisma do aperfeiçoamento é a prática da coerência, ou seja, tentativa de diminuir a distância entre o que se diz ou pensa e o que faz. Dessa forma, a Arte, pode transformar-se em busca de si mesmo e a expressão dessa busca. E isso não se esgota.




Foto: arquivo pessoal



DA- Como é que você avalia o atual panorama da arte brasileira?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Se estávamos falando da arte como campo possível de humanização, o panorama atual prima por essa ausência. Por mais que se diga ou se pregue a arte como campo de deleite estético, de criação, de interação sensível do público com a obra, isso já deixou de existir há muito tempo, desde a instituição da transgressão como critério de validade artística. Desenvolveu-se um sistema permissivo que tem a liberdade como possibilidade de fazer qualquer coisa, sem critério, que, em última instância, desembocou na anarquia (ou ditadura?). A transgressão no passado, que nasceu como fator de diferenciação e de identidade, foi assimilada e incorporada pela sociedade na forma de mercado. O grande atributo artístico passou a ser a novidade, o excêntrico, o bizarro e neste mundo ultra massificado são ouvidos os que gritam ou praticam o escândalo como estilo de vida. A arte virou entretenimento que nos distrai sedutoramente com argumentos racionais. Mas isso, ao longo de décadas, teve um efeito devastador, porque convenceu o espectador a abandonar, anestesiar sua própria intuição e sensibilidade para priorizar exclusivamente o seu intelecto e tornar assim a obra inteligível. O mundo artístico tornou-se um grande circo, circo da transgressão, dentro do qual, o artista para poder existir, passou a entreter o outro, com algo de preferência simpático, barulhento ou estranho, mas que definitivamente não toca ou mobiliza o espectador.


DA - Com a banalização de conteúdos trazida à tona em nosso tempo, muitas vezes atribuindo valores a trabalhos artísticos bastante questionáveis, parecemos adentrar numa era de vazio conceitual. Acredita que é possível haver uma retomada de sentidos verdadeiros?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Sinceramente, não sei se é possível retomar esses sentidos. Os processos de racionalização crescente na modernidade que representaram também um enrijecimento da sensibilidade; a desconstrução do sentido; incapacidade de julgamento do homem comum pelo excesso de informações; a transgressão como atributo de validação artística; a concentração de poder nas mãos dos curadores ao se transformarem nos tradutores das obras; a busca obsessiva da “novidade” transformada num valor em si mesmo e o distanciamento do público da arte contemporânea são fatores historicamente construídos que se consolidaram como valor, ideologia e relações de poder, o que torna ainda mais difícil qualquer mudança.


Há também que se resolverem outros problemas estruturais no âmbito prático. A arte contemporânea sustenta-se, direta ou indiretamente, com dinheiro público através das leis de incentivo fiscal, os defensores desse tipo de arte são também os formadores de opinião e como tais tem acesso à mídia e estão no controle das principais instituições de arte. Ditam quem deve entrar ou não na instituição, assim como ditam o rumo das coisas. O público, para o qual deveria em tese destinar as obras, embora peça chave no sistema, é excluído. Acredito que estes fatores são capazes de mudar um pouco esse panorama: o exercício por parte do público do que o Affonso Romano de Sant’Anna chama de cidadania estética, ou seja, o direito de dizer que pensa sobre esta arte que está aí; resgate da importância do público; fim do uso do dinheiro público para financiar a arte contemporânea e discussão dos critérios para uma arte válida (ao invés da eterna discussão sobre os caminhos da arte por parte de quem se beneficia com o sistema).


DA - Ao longo de sua história enquanto artista que prima pelo aprendizado constante, quais experiências demarcaram especiais significados ao seu olhar?


MAURÍCIO TAKIGUTHI - Tive várias experiências interessantes, mas todas elas foram se dando de maneira cotidiana, como um tijolo colocado sobre o outro a cada dia. Por isso, isoladamente elas perdem a força. Posso falar da última, que passei no mês de julho, durante o workshop que fiz nos EUA com Burton Silverman, um dos maiores pintores realistas americanos da atualidade. Antes de viajar, me sentia realmente esgotado, desanimado com a arte aqui no Brasil. Conhecê-lo foi uma honra e a experiência, fantástica. Interessante constatar como, por trás do mestre, há sempre um grande ser humano, generoso, inteligente e sensível. Ver in loco o modo como pinta, sem esboço linear, esculpindo com sobreposição de massas (áreas de cor ou valor), revelou quão destemido e arrojado pode ser um artista. Pude constatar de certa forma, como é possível aliar visão em profundidade, domínio do pensamento, liberdade, sensibilidade e destreza. Foi marcante comprovar que algo deste nível existe e isso me fez sentir renovado no compromisso com o que eu faço.







Desenho: Sandra Lagua







JANELA POÉTICA (IV)


a mata não estava escura

Ana Peluso



a mata adensa o oculto


por trás de cada árvore

pode surgir o absoluto


um prédio

por exemplo

e pela lucidez insana


um homem

um carro

xxxxxxxxxxxxxx mais veloz

que o espírito das seivas


pode surgir um algoz

algum rabisco de marcas

xxxxxxxxxxxxxxxx atroz


qualquer

qualquer coisa farta

que não dobre à força

aquela imagem


o verde soprando pra fora

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx daquela enorme floresta




(Ana Peluso, 1966, paulistana, ilustradora, designer, poeta, bloga no La Escena de La Memoria)







DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Larissa Mendes



À Deriva. Brasil. 2009.






Que lance a primeira bóia ao mar quem nunca se sentiu à deriva diante da própria vida. O terceiro longa-metragem do diretor pernambucano Heitor Dhalia, explora com desenvoltura exatamente estes estados emocionais. Aliás, as cenas iniciais e finais do filme são belas metáforas do flutuar que é a própria existência e suas inconstâncias.


À Deriva retrata o desabrochar da lolita Filipa (a estreante Laura Neiva, descoberta no Orkut pelo casting da produção), num verão com a família em Búzios. Além de vivenciar suas primeiras experiências sexuais, a adolescente flagra o pai Mathias (o ator francês Vincent Cassel, num português pouco aplicado) com a turista Ângela (a hollywoodiana Camilla Belle). Sua mãe Clarice (Débora Bloch) tem problemas com o álcool e destila com sarcasmo toda sua infelicidade conjugal contra o marido escritor. Por falar em bebida, completa o elenco interpretando um barman, um insosso Cauã Reymond.


Situações trêmulas e emaranhadas como as listras do maiô de Filipa apontam para um conflito a certo ponto edipiano (ou Complexo de Electra, como preferirem) que a garota vive com o pai, tomando a traição realmente como uma afronta pessoal, capaz de desestruturar suas férias e antecipar suas escolhas. Porém, estas mesmas situações nos advertem que nada deve ser julgado de forma precipitada, o que, justamente, dá um tom de suspense ao filme.


Situado num cenário oitentista (o figurino é assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch), a narrativa é apoiada na beleza de Búzios e em uma fotografia nostálgica, como se uma Filipa adulta (assim como Kevin Arnold no seriado Anos Incríveis) relembrasse suas férias, sem para isso recorrer ao prosaico efeito flashback. Produzido por Fernando Meirelles, À Deriva representou o Brasil no Festival de Cannes de 2009 e é o primeiro roteiro autoral de Dhalia (com declarado tom autobiográfico), visto que os anteriores Nina e O Cheiro do Ralo foram, respectivamente, uma celebração à Crime e Castigo de Dostoiévski e uma adaptação ao livro homônimo de Lourenço Mutarelli.


Sob uma ótica adolescente, À Deriva pode ser considerada uma representação clássica da constante transição de sentimentos e suas sequelas. Uma simples onda carrega a infância e ‘quebra’ abruptamente na vida adulta, fazendo com que fatos e hormônios desmistifiquem que os pais são super-heróis ou que a vida é sempre um dia de praia.


Ainda muito mais leve e ensolarado – mesmo com demasiadas cenas aquáticas que parecem sempre anunciar uma tragédia – que suas produções anteriores, Dhalia mantém uma narrativa intimista para delinear seus personagens e construir diálogos consistentes. Definitivamente o cineasta está no rumo certo.




(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras)







Desenho: Sandra Lagua







JANELA POÉTICA (V)



LUZ


Lucia Fonseca



Pela janela,

o raio de sol.

Qual rede no alto suspensa,

um raio curvo de sol,

um berço de luz,

uma barca,

um ninho, uma nave.


O sol parado no meio do céu.

a tarde presa num canto da sala,

o raio oblíquo

colhendo na hora

plumas de poeira

e poças de luz

- luxo desse silêncio.

Açude.

Infância.

Paraíso.




(Sempre tive fascinação pela natureza (animais, vegetais e minerais), em sua inesgotável diversidade. Menina, catava conchas, pedras, sementes e cascas de cigarras. Na verdade, até hoje. Também o gosto pela leitura me acompanhou vida afora. Comecei a escrever poesia quase aos trinta anos, depois de já ter feito o curso de História Natural. Em 1980, publiquei o primeiro livro (Invenções do Silêncio) e ganhei o Prêmio Emílio Moura com Rede Fluvial. De lá para cá, outros livros e, com “O Paraíso era antes”, essa experiência nova de juntar poemas e imagens, que não sei se se repetirá)






Desenho: Sandra Lagua







ÚLTIMA QUIMERA


Tekka Whitman



No poema famoso de Augusto dos Anjos - “Versos Íntimos” - sempre me impressionou o “formidável enterro de minha última quimera”. Quimera, Chimera, sonho, fantasia, ilusão. Achava essa palavra fascinante e misteriosa. Estudei tudo que encontrava sobre sua procedência, hábitos alimentares, preferências musicais. Acabei encomendando um filhote, uma quimerazinha, um pet. Não foi fácil encontrar um espécime ainda pequeno. Finalmente localizei-a pelo Google, num mercado persa. Quando chegou, mimei-a com afagos e carinhos sem fim. Achei-a dócil e amável, a companhia que me faltava para alegrar meus dias e minhas noites solitárias. Ela era fofinha e sempre me saudava com gritinhos de alegria.


Algumas semanas depois, notei que lhe brotava nas espáduas um par de asas, leves, de cetim e arminho. As asas cresciam a olhos vistos e a pequena quimera também ganhava porte. Em pouco tempo, não cabia mais na caixinha de sapato e cedi-lhe o quarto de hóspedes. Por via das dúvidas, aparei-lhe as asas, que voltaram a crescer em poucos dias. Ela não mais cabia no quarto; derrubei a parede do escritório e comprei-lhe uma cama kingsize.


Passou a desprezar a ração de cada dia e a exigir finas delicatessen: trufas, licor de chocolate, vinhos raros, sorvete de pistache verdadeiro, tâmaras e outras frutas importadas. Eu me desdobrava em atenções, procurando adivinhar suas vontades e caprichos. A mim bastava um leve olhar de reconhecimento; sentia-me recompensada dos esforços e despesas.


Um dia ela resolveu viajar - de navio, claro. Avião era banal e rápido demais. Comprei nossas passagens e ela escolheu o melhor camarote. Fez novas amizades rapidamente. Quando voltamos, passava horas e horas teclando no msn. De vez em quando me enviava emails, cada vez mais sucintos, que sempre terminavam com “kisses da Khymera” (sua nova assinatura). Ela ocupava todos os meus pensamentos e todas as minhas energias, pois se tornara minha razão de viver.


Até que ela invadiu a casa inteira, com seus tentáculos octópodes. Passei a dormir em hotéis, pois a casa não me comportava mais. Um dia, caí em mim: a quimera se mostrava um bem muito acima de minhas posses. Mas, antes tarde do que nunca. Como diria certo escritor fluminense: ‘melhor despencar das nuvens que do terceiro andar’. Resolvi deixá-la morrer de inanição e passei a tratá-la a pão e água. Finalmente, como recurso extremo, acabei doando-a ao zoológico. Não sem antes entregar ao tratador uma placa de identificação com o aviso: FAVOR NÃO ALIMENTAR ESTA QUIMERA!



(Tekka é escritora bissexta, de natureza bipolar, mas não morde. Mora em Brasilia, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais. Não quer ser imortal, posto que é chama. Mas quer viver, enquanto dure)








Desenho: Sandra Lagua








JANELA POÉTICA (VI)



LINHAS RIVAIS


Fernando Fábio Fiorese Furtado



Trem é texto quando encontra desvio

ou nos surpreende em meio ao pontilhão,

e da origem as pernas se desdão

para o mundo acomodar neste livro.

Mas texto é menos trem que o enguiço

de saber que no verso desembarca

apenas a prosa dessas coisas arcas

com que o menino se salva do olvido.


Seja a prosa como dormir num trem

e a poesia quando a aduana sobrevém:

naquela, até o sonho encontra sua reta,

enquanto nesta, nos sacode e esperta

uma voz de si mesma estrangeira

- e como fosse toda ela suspeita,

a bagagem uma outra mão desfaz,

mão que vacila entre linhas rivais.




(Fernando Fábio Fiorese Furtado é mineiro e reside em Juiz de Fora. Dentre outros livros, publicou “Corpo portátil: 1986-2000” (reunião poética, 2002), Murilo na cidade: os horizontes portáteis do mito (ensaio, 2003) e "Um Dia, O Trem" (Poemas - Nankin Editorial, 2008). Contos e ensaios de sua autoria figuram em jornais, revistas, coletâneas e antologias publicadas no Brasil e no exterior)







OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Larissa Mendes



ADRIANA PARTIMPIM - DOIS






Outubro já se despede de nós, mas é inegável o tom lúdico que cadenciou o mês por conta do Dia da Criança. É em meio a este universo que Adriana Partimpim alterego de Adriana Calcanhotto retoma seu aclamado projeto infantil com mais uma agradável surpresa para pais e filhos (não necessariamente nessa ordem).


Aos ouvidos famintos, Dois parece soar como um grande prato de salada em contraponto à sobremesa de seu antecessor Adriana Partimpim (2004). Natural, visto que as crianças que acompanharam o primeiro álbum, já estão crescidinhas o suficiente para saber o que de fato alimenta seus ouvidos. Mesmo tratando-se de uma “salada mista”, em virtude da variedade sonora, é preciso digeri-lo aos poucos, sobretudo quando acostumado ao junk-food musical destinado ao público infanto-juvenil.


Partimpim Dois começa em ritmo de matinê de carnaval com o frevo eletrônico Baile Particundum, parceria da cantora com o músico e produtor Dé Palmeira. Na sequência, é a vez de Ringtone de Amor, uma bossa – novíssima – visto que aborda a temática tecnológica e foi criado para ser baixado na web. Fechando as canções autorais, o baião Menina, Menino traz em seus versos a pureza do amor (Menina, menino, não deixe de amar/O amor é o que há/Começa quentinho e pode queimar/O amor amplifica, o amor simplifica/O amor modifica, o amor pode ficar).


Dos compositores que admira, Adriana revigora a canção didaticamente épica Alexandre, de Caetano Veloso e Gatinha Manhosa, de Roberto e Erasmo – eternizada na voz de Léo Jaime nos anos 80, trazendo aqui nostalgia a inúmeros pais. Já a originalmente delicada Bim Bom, de João Gilberto ganha vivacidade... nos tambores do Olodum! Dos contemporâneos Arnaldo Antunes e Davi Moraes, destaque para um longo jogo de palavras (quase um trava-línguas) de Na Massa, indiscutivelmente uma das melhores canções do álbum. Representando suas preferências internacionais, surge uma versão de Bob Dylan e sua gospel Man Gave Name to All the Animals ou O Homem Deu Nome a Todos os Animais (tradução de Zé Ramalho, gravada em 2008), com direito a coral de uma verdadeira Arca de Noé mirim.


Os clássicos e a erudição ficam por conta do vapor extra de O Trenzinho do Caipira (composta em 1930 por Villa-Lobos, que mais tarde ganharia letra de Ferreira Gullar); Alface, versão de Augusto de Campos para o poema de Edward Lear, em uma divertida brincadeira com a sonoridade da palavra (Alface! Ó alface! Faça-se, ó faça-se, ó alface, afinal, faça-se o nosso almoço, face a face, ó alface!) e As Borboletas, poesia de Vinicius de Moraes musicada por Cid Campos, que parece gravada no frescor de uma manhã no campo.


Tal como um complexo vitamínico, as 11 faixas selecionadas compõem um álbum infinitamente rico, onde letras atemporais de autores consagrados servem como suplemento para melodias da ‘medicina’ musical moderna. Agora “faça-se o nosso almoço”: Dois está na mesa. É um prato cheio para ouvidos de todas as idades.




(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila de ouvidos atentos e turista no mundo das palavras)







Desenho: Sandra Lagua







JANELA POÉTICA (VII)



NO FINAL DE TODAS AS COISAS


Leila Andrade



A matéria que sobrevive ao tempo

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx– areia

possui a soma dos delírios

e dos desterros.


O amor esconde-se tão facilmente

e se esvai

xcomo sopro

xxxxxxxxxx – voz.


...


Os meus pedaços todos

souberam

desse mesmo amor.








Aquarela: Sandra Lagua





A paulistana Sandra Lagua é empresária, designer, professora, artista plástica e ceramista. Desde muito cedo, frequenta cursos de desenho de observação. Seu traço original nos traz o humano em suas nuances várias, o que há de simplicidade e, ao mesmo tempo, de grandeza no gesto. Chama-nos atenção a expressividade presente nessa linguagem serena e conflituosa dos sinais do corpo.


Cursou artes plásticas na FAAP, graduando-se em Desenho Industrial pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie. Cursou mestrado na área de Ciências da Informação na ECA/USP, desenvolvendo pesquisa em Semiótica do Discurso Objetual.


Atualmente, frequenta aulas de design e confecção de jóias, sob a orientação da arquiteta e designer de jóias Nao Yuasa e participa do Grupo Iandê, juntamente com o renomado ceramista e escultor Megumi Yuasa.


 
publicado por Fabrício Brandão
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