24 de jan de 2009,14:20
VIGÉSIMA NONA LEVA




Foto: Natália Nunes







"Há em minha paisagem o traço tenso de minha miragem sonora; ganho a vida vertebrando nuvens, dando estrutura de rio ao vento, pronunciando, em hebraico, o corpo da amada, a morte, e outras coisas arredias ao veio das palavras. Arqueologia, talvez. O vento me constitui as vértebras e as nuas naus do meu olhar revestido de ninguém. Tudo o que não falo me sabe."


(Trecho de Casa entre vértebras (Record), Romance de Wesley Peres)










CICERONEANDO




Janeiro descortina os primeiros relances de mais uma nova jornada. Para nós, é bastante recompensador atravessar os instantes movidos pelas surpresas engendradas nos encontros humanos. Nem sempre uma Leva que organizamos representa rigorosamente uma unidade temática, traçada de modo a seguir religiosamente um mero impulso de vontades. Curioso é saber que, mesmo onde tudo parecia seguir uma rota pré-definida, a nossa jornada cultural intuiu naturalmente seus próprios percursos e desaguou rumo a sentidos inusitados. No ofício prazeroso de editar a Diversos Afins, as cores são outras quando cada edição é construída com a adesão frequente e espontânea de novos espíritos criativos. Diante do agregar de expressões que agora são mostradas, um lugar em especial demarcou o ambiente: o recorte sensível e pungente do universo feminino nas lentes de Natália Nunes. Guiados por esses densos registros que flagram verdadeiros enigmas do corpo e da alma, confluímos pelas veredas das linhas de Vivianne Pontes, Adelaide Amorim e Bruna Mitrano. Pelas searas poéticas de Inês Lourenço, Héber Sales, Jorge Vicente, Samantha Abreu, Ronaldo Braga, Luiz Otávio Oliani e Jorge Elias Neto inscrevemos nossos outros ecos. Numa entrevista com o escritor Wesley Peres, somos conduzidos aos impulsos de uma veia literária que prima pelos seus mais íntimos matizes existenciais. O texto de Marcos Pasche rememora o legado valioso do autor José Paulo Paes. Cinema, música e outros tons afinados em torno da arte também integram as contínuas manifestações desse nosso sarau eletrônico. O novo ano reafirma um desejo que está presente em nós desde o início: o de seguir sempre adiante. Seja muito bem-vindo, caro leitor, a uma outra degustação de signos!





*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.











Foto: Natália Nunes









Martírio

Adelaide Amorim



Era vizinho de nossa família nos tempos de minha infância. Estudou com meu irmão na escola municipal do bairro, e cursavam direito juntos quando resolveu ser padre. Ingressou no seminário, concluiu o curso, e ao fim de uns anos lá estava ele, um missionário radiante de felicidade. Meu irmão, ateu convicto, e eu, meio desligada de tudo que não fosse jornalismo e literatura, não deixamos no entanto de amá-lo, cada qual a seu jeito. Ele correspondia com a doçura que era só dele.

Um dia, os dois na varanda depois de um almoço lá em casa, eu disse a ele que o martírio era uma bobagem sem tamanho. Ele me olhou com um misto de surpresa e repreensão – a repreensão suave de que seria capaz:

— Mas como... O que é que você está dizendo? Já se deu conta? Nem falo só do martírio religioso, há outros...

Eu nem pestanejei. Achava aquilo mesmo. Sentia muito se o decepcionava, mas não via vantagem em morrer por uma causa. Mesmo a vantagem política me parecia questionável. O que seria mais importante: a força moral ou a força do braço que trabalha para mudar as coisas? Não é morrendo que...

Ele tocou meu braço e o apertou um pouco mais do que seria de esperar.

— Peraí, peraí. Você está delirando. Então você acha que vale mais quebrar pedra do que inaugurar um monumento?

— Se ninguém quebrar a pedra, o monumento não sai.

Ele refletiu por uns segundos, sem soltar meu braço. Acho que o olhei de um modo diferente, porque pareceu se dar conta do que estava fazendo.

— Ah, disse, como quem se apercebe, largando meu braço, desculpe, eu... Mas você dizia – e se ajeitou na cadeira.

— Nada, respondi. Nada, não disse nada. Foi só um impulso.

Ele sorriu. O mundo estava em paz outra vez. Levantou a mão e fez um sinal de absolvição diante de mim. Naquele momento percebi: nunca seria meu.



(Adelaide Amorim confessa: A vida é parecida com férias na praia - você passa uns dias impecáveis, perfeitos, de sol e céu azul, águas mansas e noites estreladas, e logo chegam vento e chuva, a temperatura cai e você tem que correr pra comprar os agasalhos que nem pensou em pôr na mala. O que salva as férias é nunca ter agasalhos na mala)










Foto: Natália Nunes









JANELA POÉTICA (I)



SÁBADO*


Inês Lourenço



1.


É o nosso corpo mortal

que os imortais invejam. Este prazo

que nos defende da cansada

luz eterna. Estremecemos

em sangue e veias no relevo

imperfeito da noite. Perseguimos

um ser que nos excede

decomposto na margem

do tempo, diluído no

precário poder do amor.


2.


Nesta clareira não sabemos

que angústia nos descreve. Passamos

tantas vezes de predadores a

presas. Soletramos labirintos e textos

apócrifos, inventamos profetas, oráculos

serpentes, que trouxeram a peste

num sopro de três sílabas,

nas línguas nativas do pecado.



*Poema integrante do livro Logros Consentidos (&etc, Lisboa, 2005).




(A poeta portuguesa Inês Lourenço nasceu no Porto. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Universidade do Porto). Entre os livros de sua autoria, estão: Um Quarto com Cidades ao Fundo: poesia reunida (1980-2000), incluindo mais vinte inéditos (Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2000), A Enganosa Respiração da Manhã (Asa editores, Porto, 2002) e Logros Consentidos (&etc, Lisboa, 2005)













Foto: Natália Nunes


















AS GAVETAS DO TEMPO

Vivianne Pontes

O tempo, em seu trabalho intestino

comete os vestígios de Deus.

Héber Sales


Era ainda a fase hieróglifa da linguagem. Mirante era o colo de Maria. Mais das vezes via tudo era de embaixo, altura de seus quadris. Viver era um ludo.

Lembro o cheiro amarelo forte: o apuro da árvore era a fruta. Serigüela tem muito bicho, dizia minha avó. E eu pensava nas vidinhas emboladas ramerrando naqueles orbes. O quintal era o universo. Galáxias de limões, pitangas, jabuticabas. O todo meu.

Eu bem achava que quem mandava florescer era eu. Quem pedia mais de um isso, mais de um aquilo, era eu. Verdade é que sempre dava muito e Maria ralhava. "É seu poder não, menina, vem de Deus." E eu perguntava quem era Deus. E ela maravilhava os olhos, mas falava coisas que eu não entendia, ilustrava com palavras o que eu não conhecia. Na metade eu não ouvia, ficava olhando a cara dela brilhar, mais um orbe.

O tempo, esse senhor saturno, não tem dois caminhos, ele corre só pra frente. E vó mudou de estrada pra mais longe, na Bahia. Eu peguei estrada pro mais aqui, nos distantes. (Eu peguei estrada tantas vezes antes de aqui, tantos escambos de certo por duvidoso. Anjo me disse: "vai, ser forasteira na vida". E eu vim.)

Vezes no tempo, o oco da solidão força a gente pro chão: as raízes. Em conversas com Anaké - que disse que eu fosse, que me esperava - resolvi ir ter com a minha avó. E D. Ivany me deu um presente de tempo - porque um bordado não é um bordado, é o tempo. E disse assim, vem comigo. E eu a segui.

Passamos pela sala da entrada, passamos pelo portão de saída, ganhamos a rua de pedra e poeira branca, e ela tirou uma chavezinha da mão, como um melquíades tira flor do bolso, o sorriso colorindo, olho de vó fecha quando se ri. Abriu o portão preto, que rangeu choroso, e disse: É sua, a árvore. Serigüelas.

E foi como o princípio. As orbes maduras, o vento rodopiando o cheiro. E maravilhei meus olhos, lembrados de Maria. E compreendi seus desenhos de verbo. Pela primeira vez eu compreendi.

E pensei em Deus e seus brinquedos. E pensei no tempo, que no seu caminhar deixa gavetas que só se abrem com a chave da lembrança. E pensei que Um é o outro.

O senhor veja, minha avó comprou uma casa pra me dar uma árvore. E decifro que me devolveu foi a meninice, à meninice. E me ofereceu - assim como quem dá um doce besta, uma mariola - uma sabedoria: o entendimento de que nas gavetas do tempo é preciso guardar o feliz dos gostos.

E eu disse: amém.






(Vivianne Pontes é alquimista de formação, mas não de profissão. Morou aqui e ali, ao todo em 13 lugares. Hoje, mora no Rio, com vista para o sovaco à gauche do Cristo. Escolhe suas superstições pela qualidade literária e nem sempre separa o real do imaginário)
















Foto: Natália Nunes















JANELA POÉTICA (II)



VESTÍGIOS DE DEUS


Héber Sales




Só o Tempo é fiel para sempre.
Sombra que não teme a noite
as gentes não abandona
nem nos túmulos. Antes cuida
dos seus ossos para gorjeios.

O Tempo, em seu trabalho intestino
comete os vestígios de Deus.





(Héber Sales é de coisas para fazer com palavras)













OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão




DANI GURGEL – NOSSO







De tudo um pouco: energia, ritmo, pluralidade de sentimentos e acordes diversos. O Brasil é feito de tudo isso, bem sabemos. Então, nada melhor do que sermos abraçados pela amplitude de veias sonoras que aqui explodem com vigor e qualidade. Por agora, o disco em questão é literalmente Nosso, e com toda a propriedade na qual se encerra o pronome. A moça da bela voz, Dani Gurgel, canta, compõe e traz em seu segundo trabalho retalhos sensíveis de nossa melhor música. Diria que, a despeito da canção Samba do Jazz, cuja letra reflete um verdadeiro percurso pelas raízes da música brasileira, há na mistura da qual somos feitos um encantamento deveras bom. Melhor ainda, os tons da alma passeiam sem amarras por entre as alamedas carregadas de personalidade do álbum.


É impressionante o cuidado presente nos arranjos, aspecto que bebe diretamente nas fontes de gêneros como o jazz e o samba. O disco cativa pela atmosfera suave e lírica que atravessa os sons. Ao mesmo tempo, chama atenção a precisa escolha do repertório, reunindo composições de jovens letristas ainda desconhecidos do grande público. Por essas e outras razões, Nosso tem cara própria, prima por uma originalidade capaz de se impor nos tempos de então. Eleger canções é tarefa complicada quando a qualidade impera. No entanto, vale a pena mencionar faixas como Festa de Santo, Essa não..., Da pá virada, Laço na Lua, Neneca e Santuário do Pau de Aroeira. Com seu canto devidamente afinado, Dani Gurgel desfila macia por entre as canções, deixando nítidas as intenções de sua permanência. Música de verdade ganha corpo quando sabe falar de si e ousa instalar seus próprios caminhos. Apreciadores do que é bom, achegai-vos, a audição por aqui merece abraçar instantes valiosos de vida!










Foto: Natália Nunes









JANELA POÉTICA (III)



SORRISO DE ALUGUEL

Ronaldo Braga



como em um possesso jogo desesperado
almas sofridas desfilam
poses
em um interminável carnaval de derrotados.

E os poetas da paz
beijam os anjos em noites de lua preta
e
assassinam a vida em seus belos versos corrompidos.

É um tempo de mentiras,
de vidas interditas,
e de poetas que soluçam sorrisos de aluguel
e insistem
nos fluxos invernosos que extrapolam os verões e
calam os beijos.

E é um tempo de verdades,
pois sei,
no olhar dos amantes a palavra recorta o murmurar
e desafia o cantar surdo
numa canção aos corações soturnos e delicados.





(Hoje escrevo para acalmar as minhas inquietudes e encontrar um lugar nas invisibilidades para as minhas incertezas. Acredito que a arte tenha o papel não de transformar, mas antes o de consolidar encontros e, exatamente como o Deus Grego Dionisius, trazer a desmedida para o confronto e para que o homem possa desfrutar do prazer e viver no dia-a-dia as delícias do mundo dos sonhos e, ao mesmo tempo, se acreditar infindo, pois nada é mais eterno que os momentos de prazer. Faço teatro, leciono e vou acordando noites nos jardins bêbados e beijando os ratos nos esgotos da vida)












Foto: Natália Nunes









RELATO


Bruna Mitrano




Foi assim, doutor, vou contar desde o início.


Depois de duas semanas sem dar notícia, o infeliz manda um torpedo pedindo p’ra eu ficar em casa, em modo de espera, só de saia (a que ele mais gostava, nem tão curta e soltinha) e White Horse na mão.


Era quinta à noite e eu não tinha conseguido companhia para ir ao baile de máscaras. Ele jamais iria comigo. Não era sensível o suficiente p’ra compreender o posso-não-posso (me leve a mal, hoje não é carnaval) estilo amor cortês made in cantigas medievais, resgatado nesses eventos retrôs. Guardei os dois convites como lembrança de algo que não fiz.


Tirei a roupa, sandálias, deixei mesmo só a maquiagem. Emplastei corpo inteiro com o primeiro Victoria’s Secret que vi na pia do banheiro; até que ele chegasse, poros teriam sugado o néctar importado e devolvido suor aroma vanilla.


Deixei tocar Dèjá Vu pela quarta vez naquele dia e fui à cozinha pegar uma maçã, sabia que ele demoraria.


Não gosto de casca de maçã. Tenho pouquíssimos talheres, evitei perder tempo procurando a única faca, que poderia estar em qualquer canto improvável da casa. Peguei o estilete na gaveta da escrivaninha do quarto, sentei na cama com as pernas em flor de lótus e descasquei a fruta como se fosse esse meu principal objetivo, quase um ritual. A maçã nua parecia feita de nuvem, cercada por minhas unhas cor café, urubus indicando chuva. Desprotegida, a tenra carne, aos poucos, escurecia (também eu era assim).


Depois de comer, cascas e estilete no colchão, vesti a saia. Esperei, não sei se muito, esperei até que dormi.


Sonhei com uma pessoa sem rosto e sem sexo, mão melada de creme de baunilha, acariciando o bico rijo de um dos meus seios.


Ainda sentia a mão desconhecida quando ouvi “me chupa”. Acordei com a cabeça do pau dele deslizando, um batom desorientado, nos meus lábios frouxos.


Esse detalhe é importante, doutor. Veja bem, ele não me beijou ou deu “olá” ou se desculpou ou lambeu minha nuca. Não me acordou com café da manhã. Nem sequer disse meu nome.


Obedeci. Pertenço a ele, doutor.


Mal viu meus olhos inchados, e borrados, de quem acabara de acordar. Puxava e empurrava minha cabeça usando meu cabelo como alça. Vez ou outra, eu engasgava, mas isso não o comovia. Minha bochecha estava prestes a ficar dormente quando ele finalmente gozou.


Não engoli.


Tirei a saia e com ela, carinhosamente, o limpei. Com a boca cheia, olhei de perto aquele rosto de pele bem cuidada, alisei a barba rala com as costas da mão; não pude sorrir. Cuspi a porra bem nos olhos dele. Não viu mais nada. Tateei o colchão até encontrar o estilete sob as cascas. Aí, doutor, o ensinei a dar o devido valor ao que ele tem.




(Desde criança, Bruna Mitrano é viciada em recordar situações que nunca existiram; por isso (e por outros motivos mais relevantes, que não saberia explicar) escreve, para torná-las reais, de alguma forma. Não tem nenhum livro publicado)













Foto: Natália Nunes











JANELA POÉTICA (IV)



Miss Mulherzinha


Samantha Abreu



Percebo que, afinal,

sou apenas uma mulherzinha

cheia de pequenos

detalhes.


Uma Miss Dalloway

simulando uma festa de vida,

mas amando o desejo de morte.

Mulherzinha do tipo que não se nota.


E você procura tanto

pelas ruas

a desgraça de um bom drama,

que não me suporto mais ser.


Arreganho, pois, a alma, depois

das pernas,

e te mostro como um bom drama

se traveste de hábitos.





(Samantha Abreu é de Londrina, PR. Escreve os blogues Alta Intimidade’ e a série Mulheres sob Descontrole’. Tem textos publicados em revistas, sites e antologias, mas escreve mesmo para se fazer de outras, para fingir, fantasiar e, no final das contas, poder sair da festa sem ser vista)













Foto: Natália Nunes













PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão




Tudo sempre esteve no mundo. Mais do que uma constatação um tanto óbvia, tal entendimento nem sempre se mostrou tão aparente como muita gente poderia imaginar. Basta olharmos para todas as direções e logo notaremos vestígios da repetida mania de atribuir à criação artística um obcecado status de novidade. Mas nada disso importa, pois até mesmo os cânones muitas vezes se curvaram à beira de algum rio e beberam suas invenções em meio às águas que vão e vêm. É muito provável que nossa existência ganhe mais impulso quando nos damos conta de que abraçamos, mesmo sem imaginar, essa sutil abstração que mora na unidade das coisas. No entanto, apostar nesse uno não significa sedimentarmos as expressões num fosso comum e banalizado. Muito pelo contrário, há uma feição particular que, por habitar misteriosamente as visões de cada criador, é capaz de nos arrebatar pela sua veia mais sugestiva possível, deixando-nos libertos para varrermos a vida com nossos signos próprios. É por essa e outras razões que percorrer as letras de gente como o escritor goiano Wesley Peres nos deixa assim, espantados com aquilo que encontramos pelo caminho das reinvenções de nós mesmos.


O autor de Palimpsestos (poemas - vencedor da Coleção Vertentes Editora da UFG, 2007), Rio Revoando (poemas - USP/COM-ARTE 2003), Água Anônima (poemas - vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL) concilia o seu ofício de exalar sentimentos em palavras com as observações colhidas do exercício da profissão de psicanalista. Em Casa entre vértebras (Record), seu primeiro romance e obra que lhe rendeu o Prêmio Sesc de Literatura 2006, Wesley constrói uma narrativa cuja densidade prima pela coexistência de sensações que mesclam memória, corpo, alma, morte, o tudo, o nada, a um ambiente gestado pela matriz indecifrável do silêncio. Embalados pelos apelos presentes na obra e nas ideias desse hábil artesão das palavras, aqui estamos numa conversa na qual Wesley Peres divide conosco um pouco da luz que sua retina converteu nessas imagens que ousam se agarrar ao papel.







Wesley Peres

Foto: Estadão





DA - Perceber a sua escrita é, sobretudo, adentrar num mergulho em águas profundas dos recortes psicológicos humanos. Em que medida seus textos se alimentam das vivências obtidas através da sua lida com a psicanálise?


WESLEY PERES - Sabe, Fabrício, tenho uma certa implicância com o termo “profundo”. Por conta desse termo, foi difundida uma noção metafísica do inconsciente freudiano. Freud cometeu erros, mas não o de espalhar metafísicas por aí. O inconsciente freudiano é linguagem e corpo. O personagem do Casa é um ser doente, adentrado e, o esforço durante o livro, nas suas cartas fracassadas é o de constituir-se como exterioridade, quanto mais fora de si, mais próximo de experimentar a tal alteridade, sem a qual nos transformamos numa esfera de espelho.


O exercício clínico da psicanálise certamente afeta minha escrita, uma vez que presencio todos os dias esse esforço descomunal das pessoas a fim de construírem algo que possam chamar de eu — algo que possam chamar de eu, mas que não se fossilize.


DA - Sua poesia é hábil em construir signos imagéticos que recompõem ecos interiores e, portanto, capazes de dialogar com certas densidades tão nossas. Expelir tais sentidos deixa sua alma mais serena?


WESLEY PERES - Sinceramente não sei. Não sei muito bem. Isso tem a ver com os motivos por que se escreve. Houve um tempo em que achava quase ridículo a conversa do tipo “escrevo por necessidade” “não poderia não escrever”. Hoje, acho que passa por aí, não sei se a alma fica mais serena, porém, sei que escrever me torna, como diria Bataille, uma pessoa possível.


DA - Acredita que esse viés acentuadamente introspectivo da poesia atenua certos efeitos mais imediatos de nossas contradições?


WESLEY PERES - Tento fazer uma poesia de investigação de um eu que se confunde com as coisas do mundo. Um eu, por exemplo, que se constitui na experiência com a mulher que se ama, um eu que, sem as paisagens do mundo, perderia sua configuração mínima.


DA – Casa entre vértebras”, seu romance de estréia, devota olhares especiais aos intervalos que atravessam a existência. Entre um acontecimento e outro, a vida de alguém tanto pode significar um tudo como um nada. Somos um tanto obstinados quando o assunto é ter que dar um necessário sentido à vida?


WESLEY PERES - Penso que sim. Somos doentes com essa coisa de dar sentido à vida. Deveríamos, acho, passar do sentido aos sentidos, ou seja, abandonar um pouco o conceito e ser mais corpo. Mesmo com toda essa exposição do corpo-imagem (coisa que não acho maléfica, como se costuma dizer), continuamos afastados da coisa-corpo, continuamos fazendo da palavra algo que mineraliza o corpo, quando, penso eu, a palavra é densa de inervações, a palavra é pulsional.


DA - Numa de suas canções, Arnaldo Antunes exaltava o silêncio como a nossa gênese mais plausível. É possível perceber tal sensação pulsando ali entre as linhas de Casa entre vértebras, algo que demarca uma espécie de primeiro sentimento das coisas. Quanto desse silêncio habita sua criação?


WESLEY PERES - Você é um ótimo leitor, pegou bem as coisas. Costumo dizer que o Casa é uma construção de um silêncio, um silêncio-distância-de-si-mesmo, silêncio ponte para o outro, para o corpo. Mas veja bem, penso o silêncio como pontos de opacidade dentro da própria linguagem, algo que, como escreveu Eliot, possa gerar no leitor uma compreensão que anteceda a cognição (e não que prescinda da cognição).


DA - A matéria dos dias de então parece também ser feita de um misto de superficialidade e apatia. Até que ponto temos o direito de idealizar alguma redenção frente a tais sintomas?


WESLEY PERES – Sabe, Fabrício, gosto da matéria dos dias, gosto de ir ao mercado, comprar refrigerante, fazer café, colocar meu cachorro no colo, assistir a um filme com a Renata (qualquer que seja o filme). A literatura é um terreno em que me encontro com o que há de mais áspero, por exemplo, a certeza onipresente da morte. Meus personagens sofrem da onipresença da certeza da morte. Eu, não, aprendi a gostar da matéria dos dias, das superfícies, porque antes eu era só buraco-negro e estilhaços.


DA - "O auto-conhecimento é sempre uma má notícia". Essa sua, digamos assim, "frase de estimação" lembra muito a ideia de não passarmos impunes pela vida. Sem as devidas doses de espanto não há existência, não é?


WESLEY PERES - Essa frase, gostaria que fosse minha (risos), mas é do John Barth, um dos maiores escritores dos EUA. Gosto da sua sugestão, a má notícia é má no sentido que o que encontramos em nós é sempre muito melhor e muito pior do que imaginávamos. Não acho que o ser humano seja uma coisa bonita, não acho que temos uma tendência destrutiva, mesmo (e, às vezes, sobretudo) quando amamos. Somos incuráveis, mas é melhor saber disso do que não saber, acho.

DA - Vanguarda parece ser uma daquelas palavras cada vez mais raras de se encontrar. Em meio à produção literária atual, considera que algo efetivamente novo está sendo construído?

WESLEY PERES - As vanguardas, eu não poderia ter escrito um livro como o Casa, não seria possível. Mas, agora, essa “superstição do novo” (a expressão é de Compagnon), tão marcante no modernismo, parece ter se esvaziado nestes tempos em que vivemos e aos quais não sabemos ainda que nome dar, se é que ainda é preciso dar nome aos tempos. Não consigo ver nada que se possa chamar de ‘novo’, mas não sei se ‘novo’ é uma virtude necessária à literatura. De um certo modo, talvez, a literatura sempre tenha sido um motor incessante de reconfigurações (e o que havia na origem de tudo, quais são as configurações originárias que os escritores foram reconfigurando? Desisti de me perguntar sobre origens, não me interessa, porque não há resposta possível, porque é uma pergunta que não me interessa também).

DA - Você costuma acompanhar de perto a repercussão de sua obra? Essa observação impulsiona os seus novos caminhos?


WESLEY PERES - Acompanho tudo porque não escrevo pro meu umbigo. Mas penso que o que mais me impulsiona é a leitura, é ela que me dá matéria para reconfigurações da minha própria obra. Agora, a repercussão... Com os outros aprendo coisas sobre minha própria escrita que havia me escapado e que, talvez, eu jamais viesse a formular sozinho. Com os leitores aprendo o que escrevi. Aliás, já se disse por aí que o que não foi lido não foi escrito.


Muitíssimo obrigado, Fabrício, estava nuns dias de pasmaceira, meio morto, e responder as suas perguntas me colocou mais vivo.











Foto: Natália Nunes












JANELA POÉTICA (V)


Jorge Vicente





X



que aguarde, a flor silenciosa
o seu lento murmúrio de
folhas,

a voz transparente,
acalentada pelo desejo
de seguir a rota do
verso

a flor de esteva amanhece
e rompe os passos do
anjo em ascensão





(Jorge Vicente, jovem poeta português do Algueirão, desde sempre se interessou por poesia, escrevendo desde os 10 anos de idade. Contudo, foi só em 2002 que se iniciou na publicação de livros através da antologia “http://3poetasemleiria.weblog.com.pt/”, conjuntamente com Constantino Alves e o ator José Gil. Desde então, tem publicado em mais antologias e participa ativamente na Lista de Discussão Encontro de Escritas.)













DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Fabrício Brandão




Vicky Cristina Barcelona. Espanha/EUA. 2008.






O gênio inquieto e um tanto neurótico de Woody Allen parece ser uma ferramenta indispensável quando o assunto é primar pelo diferencial. Diante do intenso marasmo que persegue as muitas comédias românticas que nossos olhos já flagraram por aí, o diretor consegue em Vicky Cristina Barcelona fazer o que a maioria não faz – construir uma narrativa que mescla a sutileza dos encontros amorosos com um texto equilibradamente bem-humorado e entrecortado por diálogos inteligentes. Não se vê sinal algum de piadinhas clichês nem de pieguices que supostamente possam servir de apelo às desventuras amorosas a que estamos tão mal-acostumados.


Escrito e dirigido por Woody Allen, o filme chama atenção pelos olhares de leveza com os quais o diretor tece sua trama. A história gira em torno das amigas Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) que, numa viagem a Barcelona, se deparam com uma espécie de busca por um sentido novo para suas existências. A cidade aqui não aparece como um mero cartão-postal como muitos poderiam imaginar. Pelo contrário, seus recantos e paisagens exóticas emprestam ares suaves à odisséia amorosa vivida pelas duas amigas norte-americanas. E é durante essas incursões pelas bandas catalãs que elas conhecem o sedutor artista plástico Juan Antonio, personagem de Javier Bardem. A partir daí, uma ciranda de emoções aflora em torno dos três protagonistas, algo capaz de pôr em xeque sentimentos e convicções em torno do amor e da vida. Em meio a esse triângulo de afluxos passionais, merece destaque a atuação brilhante de Penélope Cruz, na pele de Maria Elena, a conturbada e neurótica ex-mulher de Juan Antonio.


Mesmo não atuando no filme, é possível perceber os ecos de Woody Allen exalando das entranhas do texto. Diga-se de passagem, o diretor acaba imprimindo uma aura de pessoalidade a muitos de seus trabalhos, algo que acaba se confundindo com uma certa idéia de onipresença, como se os lampejos cerebrais do cineasta estivessem marcados nas entrelinhas de cada um de seus personagens. Recentemente agraciado com o Globo de Ouro de Melhor Comédia no Festival de Cannes 2009, Vicky Cristina Barcelona não vocifera presunções nem tampouco esbanja tiradas intelectualizadas. A quarta produção européia de Allen não propõe olhares renovados em torno do amor. A seu favor, sim, está o vigor irônico em se lidar com as incertezas, dissabores e os sempre insistentes caminhos voláteis pelos quais se atira a passionalidade humana.












Foto: Natália Nunes











JANELA POÉTICA (VI)




Leila Andrade



o que nos move diferentemente

em cada tenso instante

é o mesmo que nos mata em cada grão

resistente ao tempo:


uma angústia que fervilha

dos porões remexida

e desperta.


escrever também é essa cura

o desatar do nó

esse mesmo, o da garganta.













OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão




KIKO KLAUS – O VIVIDO E O INVENTADO








Talvez uma das missões mais complexas para um artista seja arrancar do fruto de seu trabalho aqueles bons ecos que vibram certeiros de lirismo. De fato, a mescla de conhecimento, vivência e vasta pesquisa musical põe os pratos sobre a mesa, mas nem sempre significa um resultado que aponte para certas densidades que povoam nossas inquietas almas. Nesse nosso tempo de brevidades regidas desvairadamente pela superficialidade, carecemos cada vez mais de conteúdo, de algo que dialogue um pouco com nossas lacunas. E essa perspectiva de encontros consistentes existe. Deparamo-nos com ela quando absorvemos as notas cortantes das melodias de gente como Kiko Klaus, artista multifacetado que divisa as atribuições de cantor, compositor e produtor musical. Original das searas férteis pernambucanas, Kiko apresenta em seu segundo CD tons autorais dotados de uma riqueza que une harmoniosamente texto e sonoridade.


O Vivivo e o Inventado é muito mais do que um batismo sugestivo nas águas agitadas de um pluralismo musical. É algo feito da matéria-prima essencial que habita vários cantos da existência. Suas letras abraçam aquela poesia que, clandestina, tenta se rebelar contra o vazio ao qual nos submetemos por completa miopia e indiferença nossas. Desatam-se os nós e, logo ali, somos impelidos aos ricos arranjos e contornos de canções como A Hora, O Samba Chora, A Caminho do Mar, Pra me Encontrar, Varanda e Paranóia. O que dizer, então, da força sensível e sublime que emana de Sua Vez e da atmosfera serena e lúdica de Altar? A resposta cabe a cada descoberta que as escutas são capazes de promover. Entre as 12 faixas do álbum, misturam-se alguns elementos como samba de roda, ciranda, maracatu, rock e até mesmo música flamenca. A pegada orgânica dos arranjos e uma utilização precisa dos recursos percussivos é outra virtude presente nesse trabalho. Diante desse menu de vastos horizontes, uma certeza resiste, a de que só rompemos tédio e alguns fantasmas do vazio com a mais íntima e reveladora reinvenção de nós mesmos. O resto são palavras vãs que desferimos para assassinar um ingrato tempo.













Foto: Natália Nunes













SHYAMALAN SEGUE FAZENDO A COISA CERTA


Por André de Leones




Todo e qualquer filme sobre o fim do mundo me anima e me interessa. Mas talvez não haja, neste quesito, filme algum melhor do que o belíssimo (sim, belíssimo) "Fim dos Tempos" ("The Happening"), de M. Night Shyamalan, lançado há poucos meses em DVD.


Ao contrário do que dizem os preguiçosos, o melhor filme de Shyamalan NÃO é "O Sexto Sentido". Na verdade, todos (e eu escrevi TODOS) os filmes posteriores dele são superiores a "O Sexto Sentido": o lindamente sombrio "Corpo Fechado" é o melhor filme com espírito de histórias em quadrinhos já feito; "Sinais", sua primeira obra-prima, muito além de ser apenas mais um filme sobre uma invasão alienígena, é a história de alguém recuperando a fé perdida por conta da trágica morte da esposa, com um final iluminado, epifânico, que quase (eu escrevi QUASE) me fez acreditar em Deus; "A Vila", outro filme irretocável, é a mais inteligente alegoria política sobre os paranóicos EUA pós-11 de setembro; e "A Dama na Água" nos envolveu em um emocionante conto de fadas em pleno início de século XXI e, mais do que isso, tornou esse conto de fadas perfeitamente possível, crível, verossímil.







Poucos filmam tão bem quanto Shyamalan. A maneira como posiciona a câmera e seus pontos de corte são irrepreensíveis. É um mestre, e um mestre infelizmente incompreendido por uma horda de críticos boçais que não se cansam de escrever que ele "ainda não superou 'O Sexto Sentido'". Coisa parecida acontece com Spike Lee, que dirigiu maravilhas como "Mais e Melhores Blues", "Febre da Selva", "Malcolm X", "Crooklyn", "Irmãos de Sangue" (meu favorito) e "O Verão de Sam", mas alguns críticos insistem que "Faça a Coisa Certa", filme que o revelou, ainda é o seu melhor. Na minha opinião, todos os que citei são superiores a "Faça a Coisa Certa".


Voltando ao "Fim dos Tempos" (adorei isso), Shyamalan constrói seu filme apocalíptico com toda a sobriedade e toda a sutileza que faltam ao maniqueísta e pretensamente feio, sujo e malvado "Ensaio Sobre a Cegueira", de Fernando Meirelles. Ao contrário do que acontece no longa do brasileiro, não há heróis e vilões em "Fim dos Tempos", pelo menos não em termos habituais. No caso de Meirelles, faltou a "Cegueira" a inteligência, a emoção bruta e a paixão que ele colocou em seu melhor trabalho até aqui, "O Jardineiro Fiel".


A real inexplicabilidade do que acontece em "Fim dos Tempos" é essencial para o sucesso do filme. Se há uma coisa que eu odeio em (vá lá) "filmes-catástrofe" é aquela mania de mastigar tudo para o espectador, explicar, em todos os mínimos detalhes, o que causou o quê. Há uma teoria repetida várias vezes no longa de Shyamalan, às vezes corroborada por belíssimas tomadas de plantas ao vento "conversando", mas uma teoria é apenas isso: uma teoria. E o que realmente importa é o grande cinema que esse cineasta genial vem perpetrando filme após filme.





(André de Leones é escritor (“Hoje está um dia morto” e “Paz na Terra entre os monstros”, ambos pela Record) e não teme o fim dos tempos)













Foto: Natália Nunes













JANELA POÉTICA (VII)



Céu de bombas


Jorge Elias Neto




Por que choras por mim meu pai?


Cumpri com o que me coube

nessa Gaza de feras.


Em cada criança morta, sacrificada,

um objetivo insano.


Despeço-me do dia

sob flashs e bombas.


Uma fome doentia

molhou teu corpo com meu sangue.


Estrelas dos profetas cruzaram os céus

e pulverizaram os créditos de minha infância.


A ambição de poder comeu meu destino.

Com a força, roubaram-me o sorriso.


Meu pai, nem sei perguntar por quê.

Não tive tempo para me nutrir de ódio.


Pensando bem, pai,

que às lágrimas partam.


Transpareças a cor de teu rosto indignado

nas telas indiferentes do Mundo.


Sobretudo creia, pai,

creia no triunfo do olhar de tua filha,

fosco de morte,

voltado para esse lindo céu,

reluzente de bombas,

nessa noite de um domingo de fúria.





(Jorge Elias Neto é capixaba de Vitória, médico cardiologista e poeta. Envolvido na tarefa de conciliar o tempo entre o palpável e o intangível. Sempre tentando descobrir a quanto dista o zelo do cientista, do abuso apaixonado do poeta com a palavra. Publicou Verdes versos (2007 – Flor&cultura) e prepara “Rascunhos do absurdo”)













Foto: Natália Nunes











A POESIA ÍNTIMA DA VIDA



Lançamentos celebram a obra de José Paulo Paes na primeira década de sua morte


Por Marcos Pasche



Há dez anos José Paulo Paes nos deixava. Mas deixava para nós uma obra íntima da Vida, cujos principais ensinamentos são a quebra de dicotomias (restritas e restritivas) e a tentativa de ofertar acréscimos à formação do homem. É então muito oportuno o lançamento de Poesia completa, prefaciado por Rodrigo Naves (além da coleção de ensaios Armazém literário).


Apesar de seu multifacetado trabalho intelectual, a grandeza maior desse autêntico homem de letras é vista em sua vertente poética. Poesia completa mostra, pela primeira vez, o trabalho (ou melhor, a vocação, como ele preferia) de Paes para a criação estética de modo integral. Os raros estudos existentes a respeito de sua arte apontam-no, sobretudo, como o poeta da brevidade, e sua poesia como irônica e humorística. A isso deve ser somada a hipótese de José Paulo ter sido um poeta conciliador de fatores que, no geral, são vistos por nossa cultura como antagônicos, ou seja, a obra de Paes não se prendeu a dicotomias, mesmo durante os períodos em que elas foram praticamente exigências de grupos de poetas desejosos de “comandar” a literatura brasileira.


A estréia de Zé Paulo acontece em 1947, com O aluno. À época estava despontando a chamada Geração de 45, sabidamente opositora dos vanguardismos modernistas. Se o determinismo cronológico fosse válido, seria esperável de Paes um comportamento semelhante ao de seus contemporâneos, e, no entanto, ele se declara aluno de Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e de Oswald de Andrade (além de alguns estrangeiros): “São meus também, os líricos sapatos / De Rimbaud, e no fundo dos meus atos / Canta a doçura triste de Bandeira. // Drummond me empresta sempre o seu bigode, / Com Neruda, meu pobre verso explode / E as borboletas dançam na algibeira”. Deve-se observar que a homenagem não significa submissão, tendo em vista que o jovem poeta valeu-se de recursos formais – como a métrica – em quase todo o livro (inclusive encerrado com o soneto intitulador do opúsculo, parcialmente citado acima), e que seus mestres legaram à poesia nacional a consolidação do verso livre.


O terceiro livro de Paes (subseqüente a Cúmplices, de 1951) também atestará a escolha de seu caminho independente. As Novas cartas chilenas são uma reconstituição crítica de vários episódios da História do Brasil, dos quais são afastadas todas as idealizações e ocultações que marcam os discursos tradicionais feitos sob a perspectiva dos dominadores, o que dará ao livro uma tensão entre história e historiografia. No poema “A mão de obra”, a respeito dos índios a serem escravizados pelos portugueses, lê-se irônica recriação da famosa carta de Pero Vaz de Caminha: “São bons de porte e finos de feição / E logo sabem o que se lhes ensina, / Mas têm o grave defeito de ser livres”. Este diálogo direto com as Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, não torna José Paulo reacionário ou conservador. Ele soube, como só sabem os grandes artistas, colher os prós e os contras de cada tendência ou estilo, sem se filiar àquilo que eles podem ter de pior: a crença de se afigurarem possibilidades únicas ou melhores de relação com a existência. Prova disso são os livros que vêm em seguida: Epigramas (1958), Anatomias (1967), Meia palavra (1973) e Resíduo (1980) são obras repletas de poemas concretistas e de temática social, de um José Paulo experimentador e não experimentalista, fato acentuador de sua originalidade.


As obras seguintes, publicadas entre 1983 e 1988, consolidarão o espírito irônico e a forma epigramática da lírica de Paes, e em 1992, com Prosas seguidas de odes mínimas, ele alcançará definitivamente o seu lugar entre os grandes poetas brasileiros. Com uma ambientação memorialística, são evocados os atores e os espaços da infância e da juventude do poeta, desde Taquaritinga, sua cidade natal, até Curitiba, onde tornou-se escritor de fato. Além das peças autobiográficas, há poemas dignos de observatórios sociais:



AO SHOPPING CENTER


Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.


De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.


Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus


nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.


Passados alguns anos e livros (A meu esmo, de 1995, e De ontem para hoje, de 1996), José Paulo Paes aproximava-se da morte. Mesmo assim escreveu Socráticas, obra só publicada em 2001, postumamente. As referências gregas aparecem por todo o livro, cujas partes divisórias chamam-se “Alpha”, “Beta” e “Gamma”. Os poemas deste aumentam a diferenciação de José Paulo Paes no cenário artístico brasileiro e (por que não?) ocidental, como exemplifica “Os filhos de Nietzsche”: “Deus está morto, tudo é permitido! / Mas que chatice!”. Fazendo jus ao título do livro, outros poemas nos servem encantadoras lições filosóficas, profundamente humanas.



FENOMENOLOGIA DA HUMILDADE


Se queres te sentir gigante, fica perto de um anão.

Se queres te sentir anão, fica perto de um gigante.

Se queres te sentir alguém, fica perto de ninguém.

Se queres te sentir ninguém, fica perto de ti mesmo.



O livro, muito lucidamente, termina com uma interrogação, o que é próprio dos sábios, sempre desconfiados das verdades a nós apresentadas ao longo de nossa jornada pelo planeta. “Dúvida”, o derradeiro poema escrito por José Paulo (na última página há a indicação do dia 8 de outubro de 1998, portanto véspera de seu falecimento), registra um homem tão apaixonado pelo seu ofício que dele só foi separado pela morte.



Não há nada mais triste

do que um cão em guarda

ao cadáver do seu dono.

Eu não tenho cão.

Será que ainda estou vivo?


Se a pergunta for direcionada a nós, leitores dos tempos pós-modernos, meio contrariados e um tanto carentes por conta do modismo que tomou a prosa e a poesia contemporâneas, hoje feitas, com raras exceções, para especialistas, poderemos pensar que José Paulo Paes foi, acima de tudo, um Poeta, e como tal, sem nenhum romantismo, procurou manter-se fiel ao propósito maior da arte: tocar o homem. A partir daí, poderemos responder que sim, que ele está vivo, como vivíssima foi, é e será a sua Obra.





(Nasci em fevereiro de 1981, no bairro Cascadura, em plenos carnaval e subúrbio cariocas. Cursei Literaturas na UFRJ, onde hoje faço mestrado em Literatura Brasileira. Trabalho como professor e em 2008 publiquei meu primeiro livro de poemas: "Acostamento" (Oficina Raquel))













Foto: Natália Nunes













JANELA POÉTICA (VIII)



RAÍZES*


Luiz Otávio Oliani



amanheço seco

caule

ceifado pelo vento


nunca fui esteio

nem sequer sombra

a encobrir o mundo


ignoro a vastidão

que me cinge


de mim próprio

permaneço seiva




*Poema integrante do livro Fora de Órbita (Editora da palavra, Rio de Janeiro, 2007)




(Luiz Otávio Oliani é natural do Rio de Janeiro, graduado em Letras e Direito. Participou de diversas antologias e tem poemas publicados em jornais do País e do exterior. Com incursões no teatro e no jornalismo, freqüentou oficinas e atua no movimento literário da cidade carioca desde 1990, período em que obteve mais de 40 premiações. Publicou “Fora de órbita”, Editora da Palavra, poesia, 2007)








Foto: Natália Nunes





*A mineira Natália Nunes tem os olhos voltados para os detalhes: cores, luzes, gestos e concretos. Para ela, o desafio de fotografar o humano é uma forma de crescimento, porque um corpo vivo não é puramente expressivo, se inibido, se não aceito, se não entregue. O importante é deixar o corpo ser: “não procuro retratar necessariamente a sensualidade, mas um corpo-em-si, uma presença que se afirma, pele que se aceita, se adentra, se auto-conquista e auto-conhece. Nesse caminho, aparece muito, nas expressões, a angústia da carne que não se sente tão à vontade em si mesma, surge a sensualidade de quem se possui, e sabe que se possui, antes de qualquer outro”.



 
publicado por Fabrício Brandão
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