30 de nov de 2008,12:40
VIGÉSIMA SÉTIMA LEVA



Foto: Luís Américo Bonfim











CICERONEANDO




Tudo aquilo que habita em livros e outros tantos escritos tem um quê de perenidade capaz de surpreender e arrebatar até mesmo os seres mais desavisados. A despeito disso, há quem acredite que essa noção de permanência está associada a certa falta de novidade presente no mundo. No entanto, há de ser uma sublime virtude o fato de crermos no poder transformador daquilo que já existe bem de frente aos nossos narizes. A máxima “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” nem de longe representa qualquer sinal de indolência dos nossos espíritos criadores. Ela é, antes de tudo, o endosso de que somos movidos pelo constante desafio de nos mantermos bem vivos face aos signos do tempo. Por tudo isso, é deveras fabuloso se perceber quão pertinente e atemporal pode ser o significado da arte. Reafirmando essa magnífica qualidade, a Leva de agora rende um singelo tributo a Machado de Assis, escritor capaz de dialogar mais do que nunca com nossas mais íntimas e complexas questões. Os valiosos e sólidos impulsos machadianos por aqui aparecem nas linhas arrebatadoras do conto de Nilto Maciel. Noutro momento, o texto de Marcos Pasche reverbera o tênue fio que atravessa a essência da obra daquele agigantado literata. Nessa roda-viva de imagens líricas, estão os versos de Lucia Fonseca, Paula Cajaty, Eric Ponty, Wilton Cardoso, Mariana Botelho, Anne Ventura e Wesley Peres. Um tempo da delicadeza paira sobre as nossas construções amorosas no texto de Maurício Pinheiro. Em nossa pequena sabatina com o escritor Carlos Trigueiro, exalada está a busca pelos sentidos espantados de nós mesmos. Algum sentimento onírico e profético ronda a coexistência de homens e mulheres na prosa de Daniela dos Santos. O historiador Bolívar Landi desvela seus olhares no terreno multifacetado da sétima arte. As lentes do fotógrafo Luís Américo Bonfim conjugam signos feitos de silêncio, sombras e vazio que habitam nossas paisagens urbanas. Outra aurora cultural se anuncia. A Vigésima Sétima Leva oferta seus caminhos.




*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.








JANELA POÉTICA (I)




LIRA CÉTICA E REALISTA


Wilton Cardoso



depois que os homens estão mortos

revira-se a correspondência

à procura de um afeto

um fato um feito um pensamento

que feche o círculo sempre aberto

da precária existência

depois que os homens morrem

fuçam-lhe os escritos guardados

no baú a sete chaves

em busca de uma chaga a gritar

algo além do silêncio inaudito

do que foi dito

ou então

depois que um homem morre

ninguém se lembrará de suas falas

e seus escritos eventuais

quedam calados numa gaveta qualquer

engolida pelo tempo

que diferença faz

se estamos todos perdidos na dobra

de uma gaveta esquecida enfiada num rincão longínquo

de uma galáxia espiral?




(Wilton Cardoso apareceu em Morrinhos/GO – 1971. Compulsão crônicaguda por escrever: poemas, ensaios… Leitor obcecado. E obsessivo. Mas preguiçoso. E indisciplinado. Mora em Goiânia. Caipira, caipora, funcionário público. Vive ao léu, como todo mundo)









Foto: Luís Américo Bonfim









O TEMPO DA DELICADEZA


Maurício Pinheiro




Ele partiu muitas vezes, na última eu fechei a porta. A ação de bater o trinco em mim me acalmou, foi diferente daquela vez. Tinha comigo o prazer de não desejar coisa alguma que me impedisse de estar só, portanto no centro. O que pensei ser o vazio daquela hora era somente eu de volta a mim. Depois de um tempo, a gente se estranha ao ver que não estando em si o silêncio não fala. Há muito não conversava ou me ouvia cantar. Se for verdade que não há saber que não modifique o sujeito, quem ama só ama enquanto não sabe. Nem isso de si, nem aquilo no outro.


Quando acabou “a levíssima embriaguez de andarem juntos”, como bem disse a Clarice, “restaram os esbarrões das coisas desencontradas”. O sonho, quando rompe com o conjunto, esfarela o dia e esfarela a noite da pessoa. Com o tempo, tornamo-nos arquipélago pensando-nos continente. Certeza não assumida de que dormindo juntos sonhamos separados. Certeza subornada pela comodidade insólita de permanecer ali, mesmo sem estar.


Mas aquela carne também me mostrou a sede. E por longo tempo tudo o que bebíamos no outro tirávamos do corpo. Ao contrário de todo o silêncio descrito antes, aqui nos falávamos muito. Aspas, vírgulas e reticências mastigavam-se silenciosamente em torno de nós, famintos não sei do que, mas devorando sempre a fome que não passava. Queríamos a alma do outro, ou melhor, queríamos roubá-la enquanto o outro assistia. Como se pudéssemos nos introduzir no fórceps amoroso da hora. Numa guerra onde teu gozo era a minha vitória. Num lugar onde você se escondia, eu te achava e eu me perdia. Assim fomos enquanto nos instalávamos nas contradições mudas dos dias que se seguiam em nós. Esse era o tempo em que nos servíamos em banquete ao outro, variando molhos que regavam coxas, quase sempre assadas em nossas próprias brasas.


Até o tempo em que os beijos foram rareando. Até que o peito, antes recheado de prazer e mel, cedeu lugar ao picadinho nosso de cada dia. E dentre todas as toalhas de brocado que ornavam o que comíamos, restou o xadrez do pano que limpava as migalhas do que deixávamos cair de nós. O nosso gasto amoroso, aquele sobre o qual não fazíamos conta, faliu. E o silêncio tornou-se o nosso prato preferido. Era um silêncio tão delicado com o outro e ao mesmo tempo tão intransigente comigo, que me obrigou a tornar-me amiga das palavras suprimidas. Aí abri os meus porões e vi que minhas quimeras dormiam. Algo havia me roubado o medo. E vi que os medos não me paralisam, a falta deles, sim. O medo sempre foi pra mim um desejo que não se tornou íntimo, algo que fala de mim e ainda que, contrariadamente, eu escuto. Um cafajeste que mexe comigo num flerte vulgar e eu aceito. Uma querela minha comigo mesmo. Não sabendo por onde andavam os meus medos, portanto sem me ocupar dos cuidados de mim, deixei o torpor tornar-se o meu guia, enquanto os meus dias de tão iguais pareciam não passar. Na verdade, dei por apagada no outro a luz que deveria estar acesa em mim.


Ao olhar para o lado, vi o amigo deitado em lugar do amante e estranhei a falta de uma ameaça qualquer que me revigorasse o desejo. Faltava a astúcia carnívora do sexo jovem e em seu lugar sobrava a calma de quem aprendeu a me abraçar os pensamentos. Por isso ali, deitado a meu lado, permanecia a leveza silenciosa de quem suporta o peso de desejar e ter, ao tempo em que se mantém certo de poder contar com o que eu nem sei que me falta. É a ingenuidade que dorme comigo e não habita mais em mim. É o outro esbanjando a criança do amor que adormeceu na aridez dos meus dias. Cansada de ser a que busca fora de si, enquanto permanece imune à música do seu próprio silêncio, creditei ao outro a propriedade da escuta velha, enquanto me negava a ausência de um discurso novo, aquele, que terminei por calar. Na verdade, tudo permanecia intacto, com exceção do meu olhar, para nós, que havia envelhecido.


Ainda em silêncio ele acordou, espreguiçou-se, beijou-me a nuca e convidou-se para aninhar-se em mim. Estava inaugurado o tempo da delicadeza em nós. O tempo em que cabe um sonho comum, a esses que são dois. O tempo em que se ver é o mesmo que enxergar o outro. Deitei, gozei e dormi. Certa de que era com aquele homem que eu queria andar de mãos dadas até o fim dos meus dias, depois que me levantasse dali. Afinal, o que sabe sobre o amor, quem nada sabe sobre amar em paz?





(Maurício Pinheiro é ex-agitador cultural, ex-ativista do “grand monde”, ex-espectador do amor. Atualmente, exilado no campo, está em pleno exercício do Braille de si)














Foto: Luís Américo Bonfim







JANELA POÉTICA (II)



NOTURNO*


Lucia Fonseca



O ranger das redes,

o ranger das portas,

os faróis noturnos

pelas horas mortas.


Vestido na noite,

o mel do meu sono,

correndo em meu corpo

um sangue sem dono.


o ranger das portas,

o ranger das redes,

a hera subindo

rasteira às paredes.


Aberta em meu rosto

a flor do abandono

atravessa a noite

em prismas de sono.


Ferindo-me os olhos

tua carne nua,

ferindo-me a carne

a dor de ser tua.


E a dor se infiltrando

em dores antigas

como o óleo da lua

por sobre ruínas.


E a mosca da tarde

tecendo silenciosos,

o rádio distante

sublinhando o sono,

o imenso vazio

de um domingo imenso.


E minha tristeza

de coisa parada,

nas casas caídas

e nas poças d’água.


E os barcos sem dono

em rotas de medo,

as horas sem rumo,

o interno degredo.


O ranger das redes,

o ranger das portas,

os faróis noturnos

pulsando certeiros

pelas horas mortas.


O ranger das portas,

o ranger das redes,

a hera rasteira,

o tédio furtivo

cobrindo as paredes.



*Poema integrante do livro O Paraíso era antes – Editora da Palavra




(Sempre tive fascinação pela natureza (animais, vegetais e minerais), em sua inesgotável diversidade. Menina, catava conchas, pedras, sementes e cascas de cigarras. Na verdade, até hoje. Também o gosto pela leitura me acompanhou vida afora. Comecei a escrever poesia quase aos trinta anos, depois de já ter feito o curso de História Natural. Em 1980, publiquei o primeiro livro (Invenções do Silêncio) e ganhei o Prêmio Emílio Moura com Rede Fluvial. De lá para cá, outros livros e, com “O Paraíso era antes”, essa experiência nova de juntar poemas e imagens, que não sei se se repetirá)








OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



TOM ZÉ – ESTUDANDO A BOSSA







Em meio ao cinqüentenário tão já anunciado da Bossa Nova, um arauto musical diferenciado rende seus esforços artísticos em torno de seu novo trabalho. É Tom Zé que vem de lá e anuncia todos os seus versos e construções inteligentes possíveis para percorrer o seu Estudando a Bossa. Quem está acostumado a ver aquela sonoridade eivada de múltiplos efeitos rítmicos tão característica dos últimos discos do artista, agora se apercebe conduzido num lugar no qual reinam doses adequadas de lirismo. O cérebro inquieto e brilhante de Tom Zé revela-se aqui na sugestão de uma verdadeira pesquisa musical em torno de momentos e personagens que ajudaram a definir a cara do gênero bossanovista. Sem medo de arriscar, poderia dizer que serve como uma leitura lúcida e bem humorada de aspectos íntimos daquele movimento que se consolidaria até hoje dentro e fora do país. Até parece uma aula de história musical muito bem ministrada pela tão inseparável irreverência do cantor e compositor baiano.


Letras e arranjos aqui estão a serviço de um nível de qualidade e sensibilidade altos. Tom Zé sabe se aproveitar das possibilidades vocais, aliando textos inteligentes a performances vocais femininas precisas. As expressões ricas das vozes de Fernanda Takai, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, Jussara Silveira, Fabiana Cozza, Marina de La Riva, Zélia Duncan, Anellis Assumpção e Badi Assad vêm se juntar às intervenções de Tom Zé, algo que promove uma sensação teatralizada de diálogos que cortam as músicas. Através desse trabalho dotado de apuros e virtudes abundantes, é que podemos perceber porque o compositor talvez seja um dos raros ícones de nossa música capaz de ser visto com os olhos adequados da originalidade.


Toda uma fervilhante inventividade é exibida em canções como João nos tribunais, O céu desabou, Síncope Jãobim, Outra insensatez, Poe! (com David Byrne), Mulher de música e Brazil, capital Buenos Aires. Do início ao fim, Estudando a Bossa se revela um álbum impecável, sem, no entanto, carregar a pretensão de servir como um tributo à Bossa. Ante o engrossar do coro daqueles que rendem adoração ao gênero, o mais importante aqui é sentir a música pulsando pelas reflexões alternativas de uma mente insistentemente criativa. O resto é pura sonoridade elevada ao belo e alguma boa desconfiança do que poderia ter acontecido se esse baiano da pequena Irará tivesse inventado aquele movimento.











Foto: Luís Américo Bonfim











JANELA POÉTICA (III)



RESSACA


a Paulo Roberto Sodré


Anne Ventura



o que virá após o verso pronto

enquanto o poeta descansa o corpo

exausto de tanto ser monstro

falido e perdido feito louco


o que virá após a boca etérea

sobre o silêncio a seguir o gozo

na falta de mais que matéria

ausência de adornos pelo fosso


o que virá não há de dobrar um sino

nem há de causar engano


o que virá será tão pequenino

que vai morrer humano




(Anne Ventura nasceu na ilha de Vitória, Espírito Santo, em 1981. É professora e escritora. Além de participações em algumas coletâneas, é autora de “Enquantamento” (2006), livro de contos premiado pela SECULT)











Foto: Luís Américo Bonfim







DEZ LIBRAS ESTERLINAS


Nilto Maciel



Enterraram minha alma na Rua de Matacavalos e na praia da Glória, cercanias de meus sonhos, arredores da infância. Meu corpo descerá à cova funda em algum cantão, para lá de meus olhares. Com ele desaparecerão os idílios de menina, os olhos de ressaca, desvãos de ser. Entregaram-me às frias suíças do senhor abandono, eu sonhadora de ruas infinitas, alamedas de ipês, jardins de nunca mais. Tudo por dez libras esterlinas. Ou porque Ezequiel, o ausente, o renegado, tem os olhos voltados para si mesmo, como Escobar. Ou o mesmo modo de voltar a cabeça e os mesmos gestos das mãos e pés de Escobar.


Aqui nestas paisagens antes vistas somente em livros, revejo o quintal de Matacavalos, o muro em que desenhei meu nome e o de Bentinho, aquela paixão, aquele amor brotado do chão, de nossos pés inquietos, de nossos olhos que viam até o invisível. E por onde andas, meu filho? Por que queres tanto o desconhecido, o insondável, o inatingível, o fim de mundo? Por que não voltamos às praias de nossa cidade? Em teus olhos vejo tempestades que, longe, se aproximam. Vejo fagulhas no horizonte. E lavas de lágrimas nos meus campos.

Tudo vão em mim. Os sonhos de ser mãe, de viver um amor eterno, de ser conduzida em carruagens de ouro – nenhum deles se concretizou. Porque Ezequiel é incompleto para mim. Nasceu, existe, mas é como se tivesse nascido depois de tudo ou existisse além de mim.

Juntei moeda após moeda e as guardei como quem guarda segredos. Sobras do que me dava Bentinho para despesas mensais. Escondi-as com cuidado e medo, como quem oculta pedaços de solidão debaixo do travesseiro. Moedas que nunca se transformaram em riqueza, em ouro, em potes de ouro. Pois elas rolaram num repente, como se vivas fossem, rodaram no rumo do mar, do abismo. Giraram diante de nossos olhos e nada pudemos fazer, nem eu, nem Bento. Rolaram e atrás delas fomos. Primeiro Escobar, em braçadas de náufrago. Entanto, as moedas desciam ao fundo, pelo peso delas, pelo fulgor do sol, pelo calor dos dias. Corremos também eu e Bento, separados, desunidos, como se fosse possível reavê-las, impedir o seu sumiço, em sua inexorável descida ao fundo de nós mesmos. Descaímos para o abismo, atrás daquelas libras esterlinas, e nele afundamos. E tudo se deu aos poucos. Minha queda teve início no dia em que confidenciei a Escobar a vontade de juntar dinheiro e transformá-lo em ouro. Não, minha queda vem de muito antes. Vem do tempo do seminário. Bentinho me falava do novo amigo Escobar. Realçava suas qualidades, como a de saber calcular depressa e bem. Os anos passavam e mais Bento se afeiçoava a Escobar. Quando este se fez negociante de café, Bentinho passou dias e dias a prever riquezas para o amigo. Quando se conheceram, pareceu-me encantado. Falou-me dos olhos, das mãos, dos pés, da fala do outro. Não senti ciúmes, porque estes ele os tinha em profusão. Mais do que apólices no cofre. Além disso, não bastassem os ciúmes, José Dias vivia a lhe encher o espírito de maledicências de mim.


Para que queres ouro, Capitu? Eu me calei. Eu queria muito ouro, como o dos tesouros antigos. Ouro em barras, em jóias. Mas como fazer isto sem que Bentinho desconfiasse? Numa das nossas visitas a Escobar e Sanchinha, em Andaraí, aproveitei uma distração de Bento e me refugiei no jardim. Escobar me seguiu. Postei-me atrás de uma árvore. Ele se aproximou, a passo lento, e parou às minhas costas. Senti a sua presença. Não seria a de Bentinho. O cheiro de um e de outro não se confundia. Virei-me. Ele enfiou os olhos nos meus, sorriu. O que eu escondia? Em um instante, disse-lhe tudo. E onde estão as libras, cunhadinha? Ele assim me chamava quase sempre. De Capitu não queria me chamar. Por quê? Marquei encontro em minha casa. Fosse numa hora em que meu marido estivesse ausente. Eu não imaginava outra coisa, senão ouro.


Tive um sonho enigmático há poucos dias. Éramos crianças e brincávamos os três: eu, Bentinho e Escobar. Mas como isto se deu, se não conheci o finado ainda menino? Talvez fosse Ezequiel. Andávamos por um quintal vasto e tenebroso. Havia árvores aqui e ali. Muros não se viam. Eu propunha: vocês ficam aqui e eu irei me esconder. Quem me achar primeiro ganhará um beijo. E dez libras esterlinas. De onde você tirará essas libras? Ora, bobinhos, cada um de vocês me dará cinco libras de faz-de-conta. E corria entre as árvores. Os passarinhos voavam pelos galhos, cantavam, pousavam numa e noutra árvore. Eu parava, não me deixava ver, ouvia passos e novamente corria. Mais adiante me ocultava atrás de uma pedra. E ouvia passos vindos do lado oposto àquele por onde andavam os meninos. Quem estaria ali, além de nós? Súbito via diante de mim enorme serpente: Queres provar o fruto do amor? Ou o da riqueza? Que queres mais, menina? Assustada, eu corria de volta e me deparava com Escobar, que me abraçava e beijava. E atrás dele os olhos de Bentinho me chamavam de pérfida. Empalidecida, eu recuava. Bento, irado, empurrava o outro para as águas do lago. Escobar caía n’água, afogava-se, debatia-se, afundava. Eu gritava: vamos socorrê-lo, ele está se afogando. Bento parecia possesso. Não, não irei salvá-lo. No entanto, Escobar emergia e caminhava até nós. Eu não disse que ele se salvaria? Veja os músculos dele. E apertava o braço de Escobar.


Sonhos como este se repetem com freqüência. Estou sempre acusada, acuada, perseguida, humilhada. Fora dos sonhos, vivo de solidão e saudade. Principalmente de Matacavalos e da praia da Glória. O primeiro beijo, o calor que me envolveu durante dias e dias, a sensação de estar a me queimar, como se minha alma se abrasasse.


No último sonho, o de hoje, Bentinho se sentava à beira da cama. Eu agonizava. Ele me confortava: vou te curar. Mas terás de engolir estas dez libras. Escobar se aproximava: o que estás fazendo? Verás. Ao ingerir a primeira, Ezequiel, o filho de vocês, desaparecerá, como se não tivesse nascido. Não será sequer lembrança. Não terá passado de desígnio. Mas tu a matarás com isso. Não, eu não a matarei. Extinguirei, sim, a minha dor. A segunda pílula libertará Capitu do exílio, como se a Suíça não houvesse, como se o vapor que a trouxe até aqui nunca tivesse atracado em porto brasileiro. Devorada a terceira libra, estarás em Catumbi. Não continues, Bentinho, isto é loucura. Loucura é te ver aqui. Vai, assenta-te na tua sege de luxúria, vai passear com as tuas bailarinas, enfeitar de ouro o pescoço delas. Vai, meu comborço. Pois ao deglutir Capitu a quarta libra, tu te matarás no mar. Darás braçadas e mais braçadas, como se buscasses o inacessível, e, cansado, sucumbirás e serás conduzido sem vida à areia. Na quinta dose, estarás no seminário e falarás a mim tuas iniqüidades. Consumida a sexta, viveremos, Capitu e eu, dias e noites sem fim e sem princípio. Na sétima falarei de estrelas para Capitu, que olhará para mim como se eu fosse o céu. Ao ingerir a oitava libra, estarei rapaz, serei bonito e Capitu me adorará. Chegada a nona, deixarei o seminário e, livre, buscarei Capitu. Ao introduzir na boca a décima poção, estaremos em Matacavalos, seremos crianças, tu não existirás para nós, eu a beijarei, farei suas tranças, estarei em seus olhos, tragado por eles – mar em que desde sempre estive afogado e para sempre estarei. E seremos como deveríamos ser: eternos.





(Nilto Maciel: Venho da serra, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antonio Conselheiro (Antonio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances)







Foto: Luís Américo Bonfim






JANELA POÉTICA (IV)



ABSTRATO


Mariana Botelho



eu nunca beijei um poema.


no entanto ele está aqui

roçando leve minha

boca


nas horas dos

mais

doídos

silêncios




(Sou Mariana Botelho, do Vale do Jequitinhonha, de uma cidade que se chama Padre Paraíso, em Minas Gerais. Escrevo desde os doze anos e não havia pensado nisso como ofício, até pouco tempo. Professora de Educação Física, minha paixão são as palavras. Tenho uma timidez que não me permitia assumir a poesia em público, embora sempre quisesse ser lida. Desde que venci a timidez, escrevo meu blog, o Suave Coisa, que é o mais próximo que tive de contato com o “mundo leitor”. Gosto do sossego das cidades pequenas. Gosto do bucolismo. Sou da roça)












Foto: Luís Américo Bonfim










PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


O ofício de escrever guarda muito mais do que apuros técnicos e aparatos de conteúdo meramente visíveis em olhares mais superficiais. Se formos um tanto mais curiosos e, portanto, verdadeiros desbravadores de signos, conseguiremos adentrar as searas mais profundas que certas leituras propõem. Insistir nesse caminho significa assumir uma espécie de provocação diante do que se vê de imediato, rechaçando fórmulas prontas e estabelecendo possibilidades outras de interação com o texto. No entanto, para que se operem os efeitos dessa varredura íntima do olhar, é preciso certa dose de estranhamento e talvez até algum sentimento cético a pulsar entre os complexos vãos de nossas consciências. Munidos dessas e de outras valiosas características estão os escritos de gente como Carlos Trigueiro, autor que se destaca pela construção lúcida e pungente de suas linhas.

Nascido nas terras manauenses, Trigueiro se utiliza das palavras como instrumento daquilo que poderíamos chamar de uma observação desnudada da realidade. E esse olhar despido não se curva a concessões sem propósito nem tampouco a uma busca por imagens quaisquer. Pelo contrário, o autor se mostra hábil na articulação entre os válidos recursos da linguagem, situando com precisão aonde quer chegar. Desde as reflexões presentes em Memórias da Liberdade (1985), O clube dos feios e outras histórias extraordinárias (1994), O livro dos ciúmes (1999), O livro dos desmandamentos (2004), até chegar ao atualíssimo Confissões de um anjo da guarda (2008), Trigueiro empresta densidade e consistência ao seu nobre ofício de ficcionista. Chama atenção em muitos de seus contos a capacidade de lidar com leveza e bom humor em torno de temas que assolam insistentemente as nossas questões mais urgentes de ética e moral. Ante a revelações sobre sua obra, de sua visão crítica do Brasil e das motivações impulsionadoras de sua literatura, o escritor conversa com a Diversos Afins e, mais do que expor pontos de vista, deixa claras as sensíveis nuances que fazem da sua arte um amplo olhar sobre nós mesmos.



Carlos Trigueiro

Foto: arquivo pessoal



DA- Seu primeiro livro, “Memórias da Liberdade”, remonta as reminiscências do menino-homem amazonense em meio aos contrastes sociais percebidos na região natal e noutros lugares vividos. Aqui algo parece deslocar os olhares pueris da infância sob perspectivas menos sonhadoras. Achar-se livre não é algo paradoxal?

CARLOS TRIGUEIRO - Sem ar de presunção, julgo um privilégio ter vivido metade da infância sob a grandiloqüência das águas e floresta amazônicas, próximo ao imaginário dos ribeirinhos (curupira, cobra-grande, matintaperera, botos encantados, dentre outras lendas), e metade no solo cearense, ouvindo assobios do vento nas dunas ou mergulhando no mar de esmeralda fizesse sol ou luar, enlevado com o imaginário de repentistas, pescadores e sertanejos, e com as sagas dos cangaceiros, majores e coronéis do sertão. Em Memórias da Liberdade, o olhar pueril sobre as disparidades sociais está contaminado pela aculturação adquirida mais tarde nas metrópoles urbanas, daí o abatimento do escritor ao comparar a realidade com as perspectivas dos sonhos infantis. Quanto à condição de “achar-se livre”, percebo nas fantasias infantis a liberdade natural, já que a liberdade no mundo adulto tem limites institucionais sendo, portanto, apenas liberdade conceitual. A epígrafe Uma gaiola saiu em busca de um pássaro (Franz Kafka), que abre o livro, sugere esse paradoxo, ou seja, a civilidade evolui o homem, mas também o encarcera.

DA- Em meio aos escritos memorialistas daquela sua obra de estréia, está o tão emblemático poema-lamento “Peregrinação”, feito quando você andava pelos 15 anos de idade. Àquela altura você já percebia que certo sentimento cético seria companhia inseparável do seu fazer literário?

CARLOS TRIGUEIRO - Na verdade, Peregrinação brotou na minha adolescência, mas só iria refiná-lo anos depois (não sei se consegui), embora a carga de ceticismo permaneça até hoje. Dependendo de como o escritor lavra sua escritura, valendo-se da experiência de vida, índole observadora e inquietações que o instigam, o ceticismo não é necessariamente pessimista, e pode até ser saudável caso provoque reflexão. Em linhas gerais, todo escritor tem sua carga maior ou menor de ceticismo. O ato de isolar-se para escrever não deixa de ser um sentimento cético sobre o mundo ao redor.

DA - Muitos de seus contos equacionam doses de ironia e sarcasmo sem perder a veia lírica que atravessa as narrativas. Como é que essas sensações se conciliam no seu olhar criativo?

CARLOS TRIGUEIRO - Acho que essa conciliação é intuitiva, porque o olhar criativo é também uma forma de potencializar a leitura que se faz do mundo. Por outro lado, se doses certas de ironia e sarcasmo acentuam efeitos da narrativa sem redução do lirismo, isso significa que o escritor nem sempre se satisfaz só com o achado da palavra. Às vezes, é imprescindível dar alma à palavra achada. Então, aí entra a veia lírica do escritor que espedaça a própria alma em fragmentos para com eles ungir e sagrar as palavras.

DA- Relembrando o que está presente no seu “Livro dos Desmandamentos”, diria que a sua visão do Brasil é um tanto apocalíptica?

CARLOS TRIGUEIRO - Totalmente apocalíptica. Individualmente temos uma cultura de gente boa praça, de bons sujeitos, mas em termos de vida coletiva, sociedade e civilização, tecemos uma cultura hipócrita e anárquica, de desmandos, conchavos e impunidade, avessa à ordem, regra e disciplina, moralmente mais fraudadora que honesta, mais permissiva que casta, mais espoliativa que distributiva, mais predadora que construtiva, desprovida de consciência crítica sobre o passado, indiferente aos desafios do presente e incapaz de projetar o futuro. Perfilhando o pensamento de Ernesto Sábato, de que o escritor é testemunha e mártir da sua época, a alegoria contida no Livro dos Desmandamentos tenta dar um testemunho de como se arruína o que seria um paraíso.



Foto: Constance Farias


DA - O escritor W.J. Solha enfatizou, numa de suas crônicas, o papel da técnica da enumeração presente em “Confissões de um Anjo da Guarda”, seu mais recente livro. De que modo esses impulsos imagéticos auxiliaram na construção daqueles contos?

CARLOS TRIGUEIRO - De fato, para adensar imagens da narrativa não raro me valho da repetição ou sinonímia (como nesta frase) tomando-a como sestro, cacoete, mania, tendência, jeito, manha, predicado, fado, sina e por aí vai. O crítico e escritor W.J. Solha foi generoso ao qualificar de “machadiana” tal característica. Acho que esses impulsos têm mais intuição do que técnica, algo assim como o pintor que embebe o pincel na paleta muitas vezes até encontrar o que julga ser o melhor colorido para a imagem na tela.

DA - O contista é uma espécie de reinventor de imagens. Em sua opinião, o quanto se pode ousar nesse terreno?

CARLOS TRIGUEIRO - Prefiro responder com a famosa frase de Einstein: “A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original”.

DA - Percorrer suas obras é visitar lugares e sensações que permeiam a nossa realidade, mesmo que se atribua a eles um status ficcional. Criar exige de você olhares obstinados em torno do mundo?

CARLOS TRIGUEIRO - Mais que tudo, acho que a índole observadora é a principal ferramenta de que se vale o escritor para ampliar o seu olhar sobre o mundo. De resto, a obstinação no ato de criar depende da inquietação, da ansiedade, do inconformismo, da necessidade de testemunhar, de denunciar, de reagir e até mesmo do desejo de encontrar no mundo feito de palavras um poder mágico e catártico que o liberte dos seus fantasmas e demônios interiores.

DA - Entre misérias e virtudes que teimam em fazer par constante na alma humana, o ato de escrever exige contorcionismos, desejo de redenção e alguma ternura?

CARLOS TRIGUEIRO - Exige tudo isso e muito mais. Porém, acho que a primeira condição para entrar na Literatura maiúscula e exercer o ato de escrever está bem clara na frase do poeta e escritor português José Gomes Ferreira: “Proibida a entrada a quem não esteja espantado de existir”.












Foto: Luís Américo Bonfim









JANELA POÉTICA (V)


Wesley Peres



Gradientes, eixos, vetores, circulação de sons falam o vazio denso, intenso silêncio, cada órgão. A ideogramática constelação dos ossos suporte do que é minério e sangra, do que é elétrico e carne, do que é dente e lambe a língua e ao esgar qualquer sentido torna a pele o único e possível papiro.




(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance CASA ENTRE VÉRTEBRAS, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: PALIMPSESTOS (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, RIO REVOANDO (poemas) USP/COM-ARTE 2003; ÁGUA ANÔNIMA (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL)










DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Bolívar Landi



Meu Melhor Amigo (Mon Meilleur Ami). França. 2006.








A amizade é um dos mais elevados sentimentos do Homem. Os antigos gregos davam a ela uma importância quase mística. Aristóteles, por exemplo, afirmava que existem três tipos de amizade. Aquela que é movida por interesse, a que nasce da busca pelo prazer e aquela que brota da bondade pela bondade. É redundante dizer o quão raro nos deparamos com este terceiro tipo.


O diretor francês Patrice Leconte constrói em sua obra “Meu Melhor Amigo” uma alegoria sobre este precioso sentimento. Para isto ele coloca frente a frente dois personagens contraditórios. Um deles amável e com grande facilidade de conhecer pessoas e fazer amigos, interpretado pelo ator Dany Boon. O outro, por sua vez, alheio, incapaz de interagir com quem o cerca, protagonizado pelo competente Daniel Auteuil. Tudo começa com uma esdrúxula aposta em que este último é desafiado a apresentar em um período de dez dias o seu “melhor amigo".


O filme, a partir daí, exibe cenas hilárias, evidenciando como as regras mais básicas do envolvimento afetivo podem ser, para alguns, completamente desconhecidas. É evidente que os dois em algum momento irão se conhecer e, o mais hábil tentará ajudar o outro a alcançar o seu objetivo. O roteiro, assinado pelo próprio diretor, embora repleto de situações risíveis, algumas vezes até patéticas, consegue se aprofundar na singularidade e nos dramas de cada um dos personagens e exibe, sem apelar para o sentimentalismo barato, a complexidade que permeia as relações humanas.

A película levou mais de um milhão de franceses aos cinemas e arrecadou US$ 1,5 milhão nos EUA. O diretor Wes Anderson, de "Os excêntricos Tenenbauns" e "Viagem a Darjeeling", está atualmente rodando uma versão americana para a obra.


“Meu Melhor Amigo” é um filme sem grandes pretensões, que apresenta uma história linear, porém, eficiente. Ele nos faz refletir, contudo, sobre o cuidado que devemos ter com o outro e com o bem que isto pode promover em nosso espírito. E de quebra nos garante ainda algumas boas risadas.




(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História e encontra nos filmes uma forma de conhecer realidades distintas e experimentar novas sensibilidades)












JANELA POÉTICA (VI)





Foto: Leila Andrade






linhas e desejos


Leila Andrade



os meninos brincam de vida

brincam de sombras imaginárias

navegam cedo em um céu de solidão


jornadas imaginadas em linhas

suspensas em desejos

apontam para o indecifrável caminho

guardado no ontem


equilibrado nas cores intensas

desse possível horizonte infinito












Foto: Luís Américo Bonfim










O FIO DO MACHADO


Por Marcos Pasche



Quem leu alguns trabalhos sobre a obra de Machado de Assis já deve ter se deparado com algum comentário, confirmador ou contestador, fundamentado na idéia de que ele foi um literato alienado, típico intelectual elitista insensível aos problemas comuns de sua época, em especial ao sistema escravocrata, vigente durante a maior parte de sua vida.


Observando todo o prestígio de que goza a obra de Machado atualmente, tanto dentro quanto fora das universidades (e também dentro e fora do Brasil), pode-se supor que a hipótese de ter sido ele um escritor refratário às dores humanas está ultrapassada.


Mas tal suposição cai por terra quando lemos (dentre tantas outras possibilidades, visto que nada parece ser consensual entre os humanos) o artigo “Dom Casmurro, obra-prima de um gênio? Não e não!”, do escritor paranaense Domingos Pellegrini, publicado no jornal Rascunho, em outubro de 2005. Nele, o autor faz um apelo: “ Professores, pais e cidadãos de bom senso: vossos filhos não perdem nada se não lerem Dom Casmurro e [Memórias póstumas de] Brás Cubas”. A justificativa é baseada pela hipótese de serem as obras recheadas de falta de ética, sendo seu autor um homem frustrado por não se assemelhar aos seus personagens, visto ter nascido mulato e pobre.


Impulsionados pela esperança de que nossas reflexões possam acrescentar algo de positivo para a compreensão da Literatura e, especificamente, da prosa ficcional de Machado de Assis, cremos haver outra hipótese de interpretação dessa obra em relação aos aspectos ligados à reflexão de âmbito social, precisamente os derivados mais diretamente das diferenças de classe.


O conto “Pai contra mãe”, do livro Relíquias da casa velha, de 1905, narra a estória de Cândido Neves, homem de trinta anos, pobre e sem qualquer marca de notabilização coletiva, vulnerável em suas ocupações por não conseguir adaptar-se confortavelmente a elas, até que passa a viver de capturar escravos fugidos, trabalho esporádico e satisfatório às suas necessidades. O grande drama deste personagem terá desenlace quando sua esposa, a moça Clara, igualmente pobre e biscateira, engravida. Notadamente sem condições financeiras para sustentar a criança que se anunciava, Cândido é aconselhado pela tia de Clara, a tia Mônica, para que o filho, tão logo nasça, seja entregue à Roda dos enjeitados, o que é peremptoriamente negado pelo pai, ainda que a razão e a extremidade de sua pobreza conduzam-no intimamente a aceitar os alvitres.


É em meio ao drama que Machado de Assis atestará a sua capacidade polivalente de analisar a escravidão, vista no conto de maneira destacada pelo viés institucional e político, e, noutra dimensão, o seu viés existencial, brotado no coração dos homens.

Adiante, tudo assumirá uma atmosfera aflitiva por conta da chegada do rebento, cada vez mais iminente. Seja pelas costuras incessantes que Clara faz para arcar com as despesas avolumadas, seja na surra que Cândido recebe por haver abordado um preto livre como fugitivo, a urgência de prover meios para que a criança não fosse enjeitada traça o panorama preciso da vida de um chefe de família sem trabalho. E tudo sendo piorado porque o desemprego era crescente, o que aumentou a concorrência entre os prestadores de serviços aos senhores escravocratas: “Um dia os lucros entraram a escassear (...). A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos aluguéis”. Sem alternativas, Cândido Neves aceitou entregar o filho já nascido ao desconhecido.

No entanto, quando se dirigia à Roda, Cândido Neves viu Arminda, uma negra fugida sobre a qual ele tivera notícia num anúncio, cujo senhor pagava uma alta recompensa pela captura, o suficiente para que ele pudesse manter o filho sob sua guarda. É então que, deixando a criança com um farmacêutico, ele vai atrás da escrava e a captura para entregá-la ao proprietário.

A mulher desespera-se por saber que será fortemente castigada. E como estava grávida, tentou de variadas maneiras convencer aquele que a capturava para desistir de sua empreitada, suplicando-lhe: “Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei sua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser”. O pedido pode suscitar no leitor uma grande expectativa, afinal, Arminda parecia saber que tocaria diretamente no ponto mais delicado da sensibilidade daquele homem, e espera-se, por todos os infortúnios que suportou para manter ao menos a idéia de poder cuidar de sua cria, que ele de fato se apiede da fugitiva. Só que a pobreza quase sempre nos iguala, mas quase nunca nos irmana, e a sua fala não poderia ser mais precisa – “Siga!” –, e humana – “Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?”.

Após uma turbulenta ida até à casa do senhor, Arminda, no corredor da mesma, abortou a criança que esperava, enquanto Cândido Neves, ali, ignorando a catástrofe, recebeu sua recompensa. Depois foi à farmácia para pegar seu filho, e de lá partiu para a casa, onde foram recebidos com alegria ele, o filho e o dinheiro.

O personagem é manifestação direta da herança do capitão-do-mato, o negro que servia ao senhor para capturar os outros negros que buscavam se libertar. Cândido Neves foi, num único lance, de dominado a dominador, e não consta que teve qualquer tipo de dúvida ou remorso pela conseqüência de sua ação e de sua inércia. Cioso de cuidar de seus interesses, contribuiu para a desgraça de Arminda, que perdeu o filho, foi surrada com chibata e com palavras, e com sua desdita formou a base do reconforto da família do pegador de escravos, que assim conclui a narrativa: “Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração”.

É este o fio do Machado, mais cortante, justamente por ser mais fino.


(Nasci em fevereiro de 1981, no bairro Cascadura, em plenos carnaval e subúrbio cariocas. Cursei Literaturas na UFRJ, onde hoje faço mestrado em Literatura Brasileira. Trabalho como professor e em 2008 publiquei meu primeiro livro de poemas: "Acostamento" (Oficina Raquel))










Foto: Luís Américo Bonfim








JANELA POÉTICA (VII)



PEGANDO NO SONO


Paula Cajaty



ela queria gemer

mas não conseguia respirar

queria dormir

mas nem sempre se deixava largar

na noite

nas sombras da cama


ah, mas ela ainda ia contar

que antes de dormir

geme macio, baixinho

embalando o sono na mão

só grita forte

quando o fogo lambe

a brasa chama

a acha queima...

e que tinha vezes,

muito às vezes,

que ela chorava um pouco

quando terminava

quando fazia as pazes

com o escuro

depois que o corpo encrespava todo.




(Paula Cajaty, poeta carioca nascida em 1975, iniciou a carreira no Direito, mas é na literatura que encontra o caminho para seus sonhos e prazeres. Em 2008, lançou o primeiro livro "Afrodite in verso", que tem como principais componentes a sensualidade, o romantismo e a poesia. O livro ganhou orelha do poeta Fabrício Carpinejar e elogios de escritores já consagrados por crítica e público)











OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



ANNA LUISA – GIRANDO






Uma mescla harmônica de sonoridades que vão desde o regional até o pop, eis a marca essencial do segundo disco da carioca Anna Luisa, trabalho que ganha corpo pela bonita e doce voz da cantora. Aliado a um repertório que exala brasilidade, Girando, tal como o título sugere, traz em si ritmos característicos do Nordeste, como o baião e o xote, além de um pequeno percurso pelo rock. Na bela faixa Bailarina do mar, por exemplo, a interpretação intensa de Anna vem se somar a um arranjo muito bem regado ao som de um afoxé, cuja letra evoca crenças que permeiam a cultura popular. Mais à frente, estamos diante de Folguedo, canção que rememora ritos folclóricos e vem ricamente adornada com requintes de rabeca e percussão.


O álbum prima por uma cuidadosa pesquisa musical em torno dos ritmos que são verdadeiro emblema de nossa plural nação. Durante todo o disco, predomina uma atmosfera de suavidade, algo que consegue aliar certa modernidade em meio a gêneros já tão firmados de nosso cancioneiro popular. Em Cachaça mecânica, fica visível o vigor com que a artista empresta significado ao seu sublime canto. Outro ponto forte do cd está na faixa Baião digital, música que desfila melodias bem dignas de um verdadeiro maracatu eletrônico somada a uma letra exuberante. Anna Luisa ainda visita Gilberto Gil em Parabolicamará e conta com a presença valiosa de Edu Lobo em No cordão da saideira, marchinha de autoria daquele compositor e na qual o nobre espírito do frevo pede passagem. Girando coroa com mérito o talento de Anna Luísa. Os sentimentos aqui parecem ser despretensiosos e apontam para um mesmo lugar: a leveza traduzida em música.










Foto: Luís Américo Bonfim









JANELA POÉTICA (VIII)



A FLOR DO ACASO


Eric Ponty



A vida anseia o mar batendo na porta
a flor nascida do acaso sempre diz
ao ser que esvai na dor sempre reporta
da manhã abrolha luz do chafariz.

Acaso vida não falava lágrimas,
passar os poentes vãos latas montanhas,
que passa brisa larga desse mar,
laicas cantigas ágrafas desse ar.

O sonho solar toca coração
do que medita dias e do meio dias
sofrido homem carpe sua bênção.

A vida anseia a lua batendo na porta
ao ser que se decai nessa flor morta
a noite abrolha voz da mansidão.




(Eric Ponty nasceu em Minas Gerais ao som dos sinos quatro dias antes das barricadas de Paris. Ama a introspecção das artes, a comunicação que as permeia. A poesia chegou como um pássaro. Lançou “O Menino Retirante Vai ao Circo de Brodoswi (Musa)” na esperança de cativar meninos pintores. Escreveu alguns outros, ainda adormecidos aos olhos)













Foto: Luís Américo Bonfim









THEMYSCERA


Daniela dos Santos



As mulheres mortas por homens serão todas revividas pelas Deusas. Suas almas serão resgatadas no fundo do Hades e, com sua graça, as Deusas as elevarão a uma lagoa no meio do mundo, entre uma mata e uma montanha, e um mar e um deserto e um vale e um rio e outra mata.


A lagoa irá borbulhar com a vida das mulheres mortas que retornam à vida. As mulheres vão nadar do fundo do Hades até a superfície da lagoa. Verão a luz e o céu e as outras mulheres, que reconhecerão como irmãs (na adolescência, dividirão, a contragosto, roupas, sapatos e o quarto). Verão seus corpos, mais belos e fortes e resistentes que quando mortas.


As mulheres mortas renascidas na lagoa nadarão até a margem, sujarão seus pés na lama da margem, pisarão com seus pés enlameados a grama da margem, se abraçarão e se sentarão ao sol, para secar seus belos corpos renascidos.

Do céu descerão as Deusas, mais belas e fortes que as mulheres quando mortas ou vivas, que contarão às mulheres mortas sua história e seu renascimento.


As mulheres ouvirão suas histórias e se lembrarão. À memória delas retornará toda a lembrança. À memória delas, todas as suas vidas.


As Deusas verão a tristeza da vida brotar nos olhos das mulheres. Algumas mais cedo, outras mais tarde, se lembrarão e voltarão à lagoa, tentarão nadar de volta para o Hades, onde podiam ficar esquecidas, mas os corpos vivos e resistentes e fortes das mulheres renascidas não irão afundar.


Nadarão de volta à margem e clamarão pelas Deusas. Estas descerão novamente do céu com punhais e armas de fogo, e porretes e pintos de plástico e dirão às mulheres: Fazei bom uso.


As mulheres entenderão as palavras e sairão nuas pelo mundo, atirando em homens, esfaqueando os corpos, criando orifícios para enfiar e tirar os porretes pintos de plástico, com vaselina e sem camisinha.

Os homens mortos serão todos revividos pelos Deuses.




(Daniela dos Santos tenta, mas não pára. Gosta de brincar de boneca e ver desenho animado)









Foto: Luís Américo Bonfim






*O fotógrafo baiano Luís Américo Bonfim é doutor em Ciências Sociais pela UFBA. As imagens expostas nessa Leva englobam dois ensaios distintos. Em P&B o autor lança seu olhar diferenciado sobre a cidade de Salvador, na Bahia, e ressalta a harmonia proporcionada pelo silêncio e pelo vazio do espaço urbano: “o passar pela cidade me fascinava pelo grafismo e pelos jogos de luz (especialmente na sua ausência) que ordenavam estes fragmentos ocultos da paisagem soteropolitana”. Em cores, outra leitura especial, o jogo provocante da luz, as sombras das coisas mais banais transformadas em beleza, cada canto da cidade, que mal percebemos, invadido por um olhar atento e deveras singular.


 
publicado por Fabrício Brandão
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