29 de mar de 2008,17:40
DÉCIMA NONA LEVA
Ilustração: Juliana Moraes








CICERONEANDO



Uma nova Leva e alguns de seus percursos de vida. Eis o sentido que nos impele rumo ao encontro com palavras e imagens que encerram experiências singulares. Março traz em si a sua reverência ao universo feminino, sobretudo quando deixamos nossos sentidos abertos às ilustrações capitaneadas pelo olhar sensível da artista plástica Juliana Moraes. Ao mesmo tempo, prestamos escutas atentas numa entrevista ao jornalista e escritor Zuenir Ventura, homem cuja expressão dialoga com períodos cruciais da história contemporânea brasileira e mundial. Um fio essencial de nossas peculiaridades humanas atravessa, sem fronteiras, a poética inscrita em Genny Xavier, Gildo Jr., Ronaldo Braga, Edson Pielechovski e Ana Peluso. O terreno de íntimas e desnudas visões do amor deságua no conto de Rodrigo Melo. O cronista Hélio Pólvora rasga a memória de nossos tempos míopes e rememora o amante das letras Wilson Rosa. A figura controvertida de Fidel Castro é trazida à tona no drops cinéfilo de Larissa Mendes. Bem no fundo do nosso peito, clamamos pelo resgate sublime de nós mesmos, tal como em Constança Lucas. A cada trilha que construímos, querido leitor, um prazer se renova: poder reunir aqui olhares que compartilham e celebram nossa existência. Seja-bem vindo à nossa Décima Nona Leva!



* Para comentar, clique no link EXPRESSARAM AFINIDADES no final da Leva.





RESGATE

Constança Lucas


É nestes dias de calor que sentimos a pele em todo o seu esplendor, sentimos cada palavra que nos paira na alma, suada, transpirada, cansada, numa onda de querer.

Mostrai-me as palavras que no peito soluçam, guardadas, rasgadas, sabem-me a perto, perto de um eu em mim.


(Constança Lucas é portuguesa e vive em São Paulo. Mestre em Poéticas Visuais, a autora tem muitos de seus desenhos publicados em diferentes periódicos, além de ter participado de exposições coletivas em diversos países)










Ilustração: Juliana Moraes







JANELA POÉTICA (I)


VIAGEM


Genny Xavier



Pela janela envidraçada viajo as estradas
por onde as paisagens parecem correr
nas impressões das minhas retinas paradas...
As percepções inversas estão em mim...
Inversas estão as impressões das minhas retinas
que, paradas, correm ao vento
que desliza pelas paisagens estáticas
que vão ficando para trás...
Fosse eu a inércia, estaria espiando na curva da estrada
o ônibus de janela envidraçada...



(Genny Xavier nasceu no sertão da Bahia e começou a escrever versos aos 13 anos, com um traço humanístico e social que indicava a precocidade da sua idade. Atualmente, trabalha na criação do seu primeiro romance, com o título "Alma de Papel" e tem ainda inéditos os livros: “Da razão e dos sentidos” (poesia), “Impressões do anoitecer” (contos) e “Rio, doce rio!” (literatura infantil))







OUVIDOS ABERTOS (I)

Por Fabrício Brandão



ADELE – 19




Embarcando ao pé da letra nos “dias de sonho”, a melodia corta os espaços e define lugares próprios. Então, topar com a bela voz dessa inglesa traz algo intensamente carregado daquela sensação prazerosa de grata surpresa. E a menina, se é que assim podemos chamá-la, tal como o batismo desse seu disco de estréia sugere, tem apenas dezenove anos. Mas, o quantum 19 é pouco para descrever a possibilidade de signos presentes num trabalho que bebe em fontes de muito bom gosto musical, como Ella Fitzgerald e Eta James. Começar pela belíssima Daydreams, é um cartão de visitas e tanto a quem deseja percorrer a firme veia musical da moça, pois se trata de uma dessas canções que cativam de pronto, seja pela voz que se impõe com assombrosa naturalidade, seja pelo arranjo que exala suavidade. Depois, podemos fazer uma incursão na pegada jazzística precisa de Best for Last, canção que traz um ritmo cadenciado e entrecortado por um coro bem típico do gênero. Por aqui, as melodias também sabem se desdobrar por caminhos como o pop, nas faixas Chasing Pavements e Cold Shoulder.

Os arranjos de 19 não se confinam aos caprichos de um estilo em especial. Muito pelo contrário, mesclam elementos de funk e eletrônica num banquete que sabe conciliar as divisas entre clássico e moderno. Mais adiante, um casamento preciso de voz e piano atravessa a pungente Hometown Glory. Todas as faixas do disco dispensam comentários aprofundados. Quando a arte consegue nos capturar pela sua porção arrebatadora, algo de muito especial se instala. O talento de Adele não se presume vanguardista nem tampouco desconstrói ícones já feitos. Seduz pela presença, personalidade e pela força jovem e decidida de um canto que, certamente, sabe escolher caminhos e vislumbrar outros tantos possíveis.







Ilustração: Juliana Moraes







JANELA POÉTICA (II)



CINTILÂNCIAS ESCURAS

Ronaldo Braga



Uma poesia desnudando cintilâncias opacas,
nas falsas noites fervilhantes de brilhos escuros,
estupidamente rejeitando a paixão sem vergonha dos jardins do poeta.
Uma poesia despetalando zoófitos nas similitudes,
rasgando noites de recôncavo e
reencontrando as noites bêbadas nos absintos impositores e decididos.
Uma poesia-palavra sem semelhanças,
destronando e coroando significados e significantes nos vazios ocos,
morada e desprezo dos loucos primeiros.
Um poema sujo, desgrenhado,
despencando alturas em uma altivez capenga.
Uma poesia surda-assassina,
um sentimento-perigo,
traindo todos os fustes solitários e inútil,
Inútil traço latitudinário das emoções.
Sinais sem abrigo.
Uma poesia: perdição dos deuses envergonhados e das mulheres,
embustecidas e coloridas nas vargens esquecidas das falsas noites
cintilantes. Que grite.
Que faça.
São palavras indizíveis penetrando a carne insensata.
Um amor inadvertido e traidor.



(Nasci em Cruz das Almas no mês de junho, entre as brumas e o frio, numa madrugada chuvosa. Além da chuva, e os ventos fortes, o silêncio ameaçava o amanhecer interrompido com o meu nascimento)



Ilustração: Juliana Moraes











EM MEMÓRIA DE WILSON ROSA

Hélio Pólvora



Há fins de vida tristes para intelectuais de fato apaixonados pelas letras. Cigarras de estio, hábeis violinistas, eles parecem embevecidos com les sanglots longs (Verlaine: os soluços longos) de seus instrumentos, enquanto formigas azafamadas se abastecem para o inverno. Semanas atrás, em Ilhéus, feneceu um desses, Wilson Rosa, que foi aluno interno dos Maristas, aqui em Salvador, e fez curso de Direito no Rio de Janeiro. Considerava-se, desde que aprendera a ler, uma traça de biblioteca — não um rato, porque, em vez de roer livros, assimilava-os.

Aos 85 anos, magro, curvado, rosto contraído, boca torcida em expressão amarga, calado ou fechado sobre si mesmo, como uma concha, mas sem esconder a cabeça e eriçar os espinhos, como fazem os ouriços, Wilson Rosa andava pelas ruas de Ilhéus. Não tinha automóvel. Melhor dizendo, não tinha como comprar automóvel, mesmo de segunda mão. Ultimamente, dera para sair descalço, roupa enxovalhada, por um fio, cabeleira descuidada. Uma sombra daquele professor comunicativo, brilhante, que havia ensinado literatura na antiga Fespi — hoje Universidade Estadual de Santa Cruz, e ajudado a fundar, com Soane Nazaré de Andrade e outros, a Faculdade de Direito de Ilhéus.

Da mais alta referência intelectual em sua terra, ele passou, aos poucos, na sucessão desmemoriada dos anos, a um esquecimento completo. Viam-no andar sob o sol forte, que tirava reflexos das pedras, e não demoravam nele os olhos. Mais que a pobreza quase absoluta, dependente da ridícula aposentadoria dos segurados do INSS, vexava-o, acredito eu, aquela exclusão, aquele esquecimento explícito, aquele despreço e indiferença. Mas, cheio de dignidade, o velho professor não mendigava sequer um olhar. Passava como uma sombra. Talvez caminhasse por necessidade, para comprar remédio, alimentos, fazer alguma visita. Ao contrário do escritor negro Lima Barreto, esquivava-se dos bares, decerto embriagado por seu próprio desespero. E voltava sempre para a casa pequena, modesta, onde vivia só.

Para quem, como Wilson Rosa, sabia alemão em Ilhéus, e recitava poetas, e rememorava frases de Goethe no original, doía-lhe o isolamento qual morte prematura. Poucos, raríssimos, sabiam que nele ia, a pé, da ilha para o Pontal, através da ponte, um verdadeiro homem de cultura, de fino espírito acadêmico, ensaísta arguto, com biobibliografias na memória. Uma personalidade, em suma. Era especialista em literatura de língua inglesa. Quando falava de seu poeta preferido, T. S. Eliot, que sabia de cor, no original, empinava a cabeça, os olhos logo perdiam a névoa baça, ele se sentia outra vez no púlpito, a discorrer. Entusiasmado, emendava os assuntos, bracejava como um afogado para que aquela rara ocasião não morresse. Não se limitara nas suas leituras aos textos autorais; ia buscar, de memória, em mergulhos prontos, citações de exegetas, e quase tudo no original, porque era fluente em inglês, tanto quanto em francês. A oportunidade inesperada de mostrar quem era, o que sabia, aspergia-lhe o ego — e Wilson Rosa, de volta da caminhada solitária, trazia no rosto escurecido, que parecia de couro curtido, o furtivo sorriso de quem recebera uma nota alta, pois acabara de recuperar uma identidade para os ilheenses já de todo perdida.

É duro viver em sociedades que medem as pessoas apenas pelo que amealharam, por sua exterioridade e conta bancária. E, além disso, guardam preconceitos em relação ao intelectual, a quem consideram sempre disponível para servi-las mediante pequeno estipêndio. O intelectual é, no entender dessa gente, um trabalhador de aluguel, um servidor braçal que se contenta com pouco. Por isso foi tão penoso a um intelectual do porte de Wilson Rosa viver em cidade do interior, onde se acentuam as atitudes egocêntricas. Mas ele resistiu com a máxima dignidade. Choveram-lhe desgraças, uma a uma, após a aposentadoria compulsória e a perda do patrimônio cacaueiro, pequeno, porém capaz de manter e educar a família. E ele soube ser estóico.

Uma das últimas alegrias de Wilson Rosa há de ter sido o ensaio que lhe encomendei sobre simbolismo, a propósito de Sosigenes Costa. Foi incluído na antologia A Sosigenes, Com Afeto, comemorativa do seu centenário de nascimento. Um bom ensaio logo republicado em A Tarde Cultural. Nele estão algumas admirações de Wilson Rosa: Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, dos quais tinha a dizer sempre algo seu, meditado e exato — e não apenas copiado de outrem. A escola simbolista dá-lhe ensejo a considerações ponderadas; o ensaísta não se atém a cânones, gosta de fazer ele próprio descobertas tão luminosas quanto o mar de Ilhéus visto do mirante em que morava Sosigenes Costa. Mar largo, segundo Wilson Rosa, o mar com o azul de Mallarmé, de onde vinha a noite cheirando a cravo, trazendo a sereia em cima do dragão, e rendando-se em brancas espumas aos pés do búfalo de fogo".




(Hélio Pólvora é cronista, contista, romancista e tradutor. Carrega a marca que tem no nome muito forte: o Sol personificado e a Pólvora em forma de palavras que deixam os leitores cheios de reflexões. É jornalista militante e escreve semanalmente para o Jornal A Tarde (Salvador – BA). Dentre suas obras, muitas delas enfocando histórias curtas e novelas, estão, “Os Galos da Aurora” (1958),”Noites Vivas” (1971), “Mar de Azov” (1986) e “Xerazade” (1990) )







JANELA POÉTICA (III)



Ilustração: Ana Peluso



AUTO-MAR

Ana Peluso



um barco, uma nau sem leme
o mundo todo aberto e sem paredes
o infinito fazendo arruaça
um medo desgraçado da desgraça
a espera encantada por um príncipe-peixe
o céu sem recortes e sem redes
o real estampado sem escrúpulos
a solidão dos pescadores e dos brutos
e uma âncora do tamanho do mergulho



(Ana Peluso, paulistana, ilustradora, escritora e poeta, participou de algumas antologias, organiza seu primeiro livro, e bloga no Poesfera)








Ilustração: Juliana Moraes









ARREMESSO

Fabrício Brandão



Tudo chegando assim no vento da tarde. O movimento de cortinas recorta corpo estirado e sem pensamento. O sol se espreguiça numa memória de parede repleta de velhos retratos. Ele avança para dentro do dia do sonho. Ela procura jamais apagar os idiomas da pele. São dois verbos que, de nada divinos, deixam escapar a chance de entrarem juntos nos paraísos da sorte. Aquelas mãos cuidadosas ainda catam as folhas caídas fora de um jardim discreto. A cada água derramada, um novo espírito se eleva para além das armadilhas costuradas desde a primeira vinda ao mundo. Quem sabe as faces, já sem lados para serem ofertadas, sirvam de manual das pequenas delicadezas redentoras. O estranho porão da intimidade jamais permitiu que a primeira pedra fosse atirada.










Ilustração: Juliana Moraes










IMPRESSÕES SOBRE DE CABEÇA BAIXA

Por André de Leones (*)



Terminei, agora há pouco, de ler o romance De cabeça baixa (Guarda-Chuva), de Flávio Izhaki. É o primeiro romance dele. Gostei do livro. Gostei muito. Mas ainda não consigo racionalizar um monte de coisas. Assim, e a exemplo das outras coisas que venho publicando neste espaço, estas linhas não constituem uma resenha. Estas linhas são, na verdade, um segundo movimento de minha parte em direção ao livro. O primeiro movimento, é evidente, foi a leitura do mesmo.

A premissa é austeriana: um escritor carioca, auto-exilado há meia década em Curitiba por conta do fracasso comercial e crítico de seu primeiro romance e também da sua vida afetiva, adentra um sebo. Ali, encontra justamente um exemplar de Desencanto, seu romance. Ao folheá-lo, constata que alguém fez uma série de anotações nada simpáticas nas páginas do livro. Na folha de rosto, uma dedicatória escrita por ele mesmo: “Para Ana Maria”. O escritor, determinado a localizar a pessoa que teceu aqueles comentários, acaba voltando ao Rio de Janeiro. Graças à situação insólita, ele sai do estado letárgico no qual se metera há anos.

De cabeça baixa, entretanto, não comporta acertos de contas, grandes viradas, reviravoltas de tirar o fôlego, um desfecho que efetivamente “resolva” tudo, nada disso. A Curitiba e o Rio de Janeiro do livro não são Elizabethtown. Felipe Laranjeiras, o protagonista, é movido por um sentimento egoísta: descobrir quem escreveu aquelas coisas em um exemplar de seu livro.

Não há o que “resolver”. Quando, sentado a uma mesa de restaurante diante de sua ex, Laranjeiras ensaia um daqueles típicos diálogos que, em um livro ruim, levariam à lavagem de roupa suja e depois a uma reconciliação, o constrangimento se instala e eles não conseguem dizer mais nada. Uma vida passou. Outra vida é possível, mas ela não é necessariamente igual à anterior, não se trata de simplesmente retomar as coisas e tentar consertar o que antes ferrou com tudo.

Relativamente à estrutura metalingüística do romance, em que passagens de Desencanto e de um rascunho de uma narrativa escrita a partir de Desencanto (misturando personagens do livro e do livro dentro do livro, incluindo aí o próprio Laranjeiras) se alternam, tudo funciona muito, muito bem. Izhaki é talentoso o bastante para não deixar que a metalinguagem tome conta do romance e obscureça todo o resto. Em outras palavras, De cabeça baixa é tão bem amarrado que não sobra espaço para maneirismos de qualquer espécie.



(*) André de Leones é escritor e vive de cabeça baixa, mas está tentando mudar.










Ilustração: Juliana Moraes








JANELA POÉTICA (IV)


CHÃO FUGITIVO

Edson Pielechovski



Embora não conheça
Já sei como paira
Certa aproximação acomodada
Na distração das asas
Sobre um declive murcho de nervos
Ao certo pra demarcar terreno
Em uma área que muito espera
Ficar bem longe
Da esfera míope
Onde possa ver
Na ponta dos dedos
Uma constelação de cadeiras
Voadoras
Apenas quando a praça levanta
E a fuga senta
No encosto abandonado a si mesmo
Na tentativa de me conhecer



(Edson Pielechovski, 25 anos, solteiro, não tem endereço certo... mas atualmente mora em São Paulo... é pesquisador do Ibope... ator, poeta e dramaturgo nas horas vagas... )


Ilustração: Juliana Moraes









PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão



Um saguão de hotel, pessoas transitando em seus interstícios de lazer e, ao fundo, o mar das terras do sem fim de Jorge Amado como testemunha de um encontro. O homem que aguardo para uma conversa traz em si adjetivos muito fáceis de captar ao primeiro instante, quais sejam a simplicidade e a simpatia de um alguém desperto a falar de si e de seus feitos. É Zuenir Ventura, que do alto de seus intensos anos dedicados ao jornalismo, ousou trilhar um caminho aberto de possibilidades em torno de tudo o que atravessou. Em seu ofício de cronista, adere à democrática arte de sugerir um debate amplo com seus leitores, uma via que, segundo ele, não sobrevive se for hermética e intolerante. Seu olhar atento percorreu períodos emblemáticos da história nacional e mundial, dentre os quais se destaca 1968 – O Ano que não terminou, obra que assinala um valioso testemunho sobre aspectos importantes que rondaram a ditadura militar brasileira. Na década de 70, cobre a Revolução dos Cravos, em Portugal. O autor de Cidade Partida deixa nítida a sua paixão pelo fazer jornalístico, vivenciando situações delicadas de nossa realidade e trazendo à tona reflexões desse complexo espelho de nós mesmos. Às vésperas de lançar seu mais novo livro, 1968 – O que fizemos de nós, Zuenir dialoga conosco sobre sua vida e obra, deixando exposto o olhar que vislumbra de modo otimista um futuro.



Zuenir Ventura
Foto:
Leila Lopes


DA – Quem percorre sua obra percebe o quanto você se engaja nas questões predominantemente sociais do Brasil e do mundo, algo que importa bem mais do que apresentar aspectos e seus efeitos sob um ponto de vista meramente jornalístico. É possível afirmar que sua missão foi sempre a de provocar uma reflexão mobilizadora de ações nas pessoas?

ZUENIR VENTURA – Mais do que isso. Eu acho que a função do jornalista é a de ser testemunha de seu tempo. Ele não deve ser juiz, não deve ser promotor, investigador, policial. Deve ser realmente testemunha. Acho que a gente veio ao mundo para isso, olhar, observar e relatar. Quando escrevo, não penso nos possíveis efeitos do que estou fazendo. Tenho até muitas dúvidas com relação a isso porque acho que a leitura é muito aberta, pois, em geral, o leitor lê o que ele quer. Essa abertura de leitura é muito importante. Às vezes, quando estou viajando e me encontro com algum leitor, ele me diz: “você, naquele texto, quis dizer assim, não é? Esse personagem é isso...”. Isso é algo curioso porque, algumas vezes, tais interpretações correspondem ao oposto do que eu quis dizer. Penso que nós, autores, não somos donos da nossa obra nem somos os melhores leitores do que a gente escreve.

DA - Somos um país ainda excessivamente carente de leitores. Em sua opinião, que tipo de diálogo podemos estabelecer com as pessoas, sobretudo os jovens, no sentido de incentivar-lhes a leitura?

ZUENIR VENTURA – Eu acho que você tem que seduzir. Todos os recursos de sedução para incentivar a leitura são válidos. O jovem hoje é assediado, bombardeado por muitos prazeres, por muitas coisas interessantes. A internet, por exemplo, reúne um mundo fascinante de lazer, de jogos, de comunicação. Então, é preciso que os jovens sejam conquistados de alguma maneira. Já me perguntaram se eu achava as bienais importantes. Eu penso que sim, pois, em todas as bienais que vou, sobretudo a do Rio e de São Paulo, elas são um espaço de lazer, de divertimento, principalmente para as crianças. É muito legal quando você vê essas crianças brincando, rolando com o livro no chão. E aí você se pergunta por que elas não estão lendo. No entanto, elas estão conseguindo uma coisa que é fundamental, o primeiro contato com esse suporte que é o livro. Para mim, o livro é um objeto erótico. Gosto de pegar, de cheirar, de tocar. Portanto, acho que é importante ver uma criança rolando com um livro numa bienal, até porque aquele objeto fica sacralizado.

DA - Você acha que o novo panorama virtual trazido pela internet, onde blogs e sites variados se prestam a registrar fatos e a discutir temas de certa relevância, permite assegurar que um novo fazer jornalístico foi criado? Percebe com bons olhos essa tendência?

ZUENIR VENTURA – Antes via com muito preconceito e acho que quem me abriu os olhos foi Umberto Eco, quando escreveu um ensaio maravilhoso dizendo que a televisão estava acabando com a escrita e quem salvou a escrita foi a internet. Nunca se escreveu tanto no mundo quanto hoje. Tem muita gente que diz que a linguagem está sendo estropiada. No entanto, acredito que isto venha acontecendo na dimensão menos importante da linguagem, que é a ortográfica. Há pessoas que olham isso de forma apocalíptica, temendo uma espécie de fim da escrita e, inclusive, acreditando que iremos nos comunicar somente por sinais. Penso que não corremos esse risco. O blog hoje é um espaço de construção de uma linguagem própria. Inclusive, já existem trabalhos detectando nos blogs um lugar onde se pratica um gênero literário específico. Hoje, digamos assim, o gênero epistolar do séc. XVIII é praticado nos blogs, algo caracterizado por um tom confessional. Estamos vivendo uma revolução através da internet e a gente não sabe exatamente onde isso vai dar. Riscos existem, é claro, mas há essa possibilidade de você estimular a escrita.

DA - O cronista deve ser rigorosamente um observador fiel de seu tempo, estabelecendo um elo de confiança com seu leitor através de análises plausíveis, ou pode ser um alguém capaz de transcender certas barreiras e apostar nos recursos da sugestão?

ZUENIR VENTURA - A crônica é o gênero mais democrático que existe. Nela, você pode fazer de tudo, ensaio, poesia, entrevista. Enfim, você pode fazer o que quiser, pois o gênero permite isso. O cronista estabelece, sobretudo, uma relação de cumplicidade com o leitor, pois sua atividade é caracterizada por um olhar subjetivo, mais pessoal das coisas, algo que o aproxima muito de quem o lê. É como se o leitor visse através dos olhos do cronista. Daí, surge uma relação de confiança. Nas minhas crônicas, eu procuro dar espaço aos leitores, deixando bem claro que ali estão presentes as minhas opiniões e que, portanto, elas comportam opiniões contrárias. É um espaço muito privilegiado que a gente tem para usar arrogantemente. Quando se fala em sugestão, é claro que é melhor sugerir, é mais democrático e, às vezes, funciona até mais. Se você chega para o leitor e diz que ele tem que gostar disso ou fazer aquilo, a primeira reação dele é indagar o porquê daquilo, questionando qual a autoridade do escritor para fazê-lo aceitar aquela orientação. Por outro lado, se você sugere, se você seduz com argumentos mais tolerantes, democráticos, você tem muito mais chances de convencer o leitor.

DA - Seria a lucidez a arma maior do cronista?

ZUENIR VENTURA – Não sei se seria a lucidez. Só sei que a maior arma dele é o olhar. A crônica a gente não faz com a cabeça, nem com a mão, mas com a observação, com o detalhe, aquilo que o Machado de Assis dizia, ver o mínimo e o escondido. É como um olhar míope. O cronista trabalha muito não com o grande acontecimento, mas com aquilo que aparentemente não tem muita importância e que acaba tendo depois. É o olhar que faz o cronista.



Foto: Leila Lopes



DA - Numa de suas crônicas, você nos fala sobre uma certa dificuldade de se definir com precisão o que é a nossa nação. Tal como você relembrou àquela época numa máxima de Tom Jobim, o Brasil ainda permanece um país que não foi feito para principiantes?

ZUENIR VENTURA - Cada vez mais ele é um país que não foi feito para principiantes porque ele é muito complexo, tem muita ambigüidade, muito imprevisto, muitas surpresas (boas e más). O Brasil é muito difícil de apreender, de captar. Então, o francês, por exemplo, com aquela visão cartesiana, preto e branco, reto e curvo, acredita que tudo se opõe de alguma forma, não há meio-termo. Os Estados Unidos não têm mulato, têm negro e têm branco, não existe meio-termo. O Brasil é feito de ambigüidades, pois aqui as coisas são isso e aquilo, não isso ou aquilo como citei nos exemplos anteriores. Temos sempre essa margem de dúvida, de incertezas. O Tom Jobim, que era um gênio de frases (um dia, ainda pretendo escrever um livro com todas elas), brincava, dizendo que no Brasil até o mapa era de cabeça para baixo. É muito difícil encontrar respostas definitivas para o país. Sempre me diziam que o Brasil estava à beira do abismo. Na verdade, ele nunca caiu porque é maior do que esse abismo.

DA - Como você define o atual momento da cultura brasileira?

ZUENIR VENTURA – Eu acho que estamos vivendo um momento de muita riqueza. Se há uma dimensão no país que está dando certo é a cultura. Se você coloca a economia, dizem que está indo muito bem. A política está vivendo uma crise ética da maior gravidade. Agora, a cultura, sobretudo quando se refere às manifestações populares que a gente encontra pelo Brasil, é de uma produção riquíssima. No cinema, temos produções recentes, como é o caso de Cidade de Deus e Tropa de Elite, que foram premiadas internacionalmente. Na época do Cinema Novo, por exemplo, só ganhávamos prêmios, mas não público. Hoje, o cinema continua sendo premiado e a gente o percebe conquistando o público interno também.

DA - Em sua opinião, qual deve ser a conduta essencial daqueles novos autores que desejam um diálogo efetivo com os leitores?

ZUENIR VENTURA – Acho que isso está acontecendo com muitos jovens autores que a gente nem conhece, que nem chegaram ainda à mídia impressa. Mas você só percebe quando acontece um fenômeno, como aquele da Bruna Surfistinha que escrevia na internet, tinha blog e depois estourou. Mas tem histórias de gente que não chegou a se transformar em fenômeno, mas que já possui um público leitor definido. É verdade que ainda temos a influência muito forte do jornalismo escrito, dos livros, mas as coisas estão mudando, principalmente em razão da produção textual feita na internet. Hoje temos um jornalismo sendo feito nos blogs. Tem gente que faz o seu próprio jornal. Só não sei como vai ser quando todo mundo fizer o seu jornal. Só vai ter jornalista e não vai ter leitor (risos).

DA – Existiria uma fórmula para ser publicado?

ZUENIR VENTURA - Hoje os editores recebem pilhas e mais pilhas de originais para ler. Então, é muito complicado emplacar livro. Se eu fosse um jovem escritor, eu começaria a escrever na internet, a criar meu próprio público nela, como muitas pessoas estão fazendo. Acho que esse seja um novo filão a ser explorado pelos novos pretendentes a escritores.

DA – A despeito da repressão, dos Anos de Chumbo, época de nossa história que gera efeitos até hoje, há a esperança que sempre se renova. Depois do primeiro livro em torno de 1968, qual é a sua expectativa em relação à nova obra que você está lançando agora?

ZUENIR VENTURA - Primeiro, eu não tenho olhar nostálgico. Acho que minha vida hoje é melhor do que àquela época. Eu tive uma juventude meio sofrida e acho que hoje, na velhice, estou vivendo uma fase muito mais feliz, mais interessante. Esse segundo livro é sobre hoje. Claro que tem como pano de fundo 1968, mas estou muito mais interessado em saber sobre o que ficou daquele ano, mais com a herança do que com a origem. Vai ser um livro sobre questões atuais. No retrovisor, eu vejo 68, mas o principal é o olhar para frente, para o presente. Você vai encontrar nele uma comparação. É uma obra muito aberta, onde eu procuro não estabelecer nenhuma teoria definitiva. Tem essa coisa de meu olhar como testemunha, sem julgamentos, sem acusações. Estou ali tentando recolher experiências da realidade e dando isso para o leitor através do meu olhar.

DA - Com tantas experiências vividas nesse complexo terreno que é o jornalismo, ambiente em que você presenciou momentos importantes da nossa história e também do contexto mundial, qual deles marcou decisivamente um novo lugar para o homem Zuenir Ventura?

ZUENIR VENTURA – Eu tive a sorte de ter vivido muitas experiências. Por exemplo, ter ido a Paris através de uma bolsa de estudos, em 1960. Passei um ano por lá como bolsista e correspondente. Foi um começo de década muito importante da história da humanidade, época em que o homem viu a terra do alto e descobriu que ela era azul, criou a pílula anticoncepcional, enfim, um período de grandes invenções, de grandes avanços tecnológicos. Esse ano me marcou muito porque eu saí de Friburgo, fui estudar no Rio com muita dificuldade, terminei meu curso, me candidatei a essa bolsa e depois fui para a França acompanhar o surgimento de um novo mundo para a humanidade. Outro momento muito importante foi o livro Cidade Partida, onde eu fiquei dez meses freqüentando uma favela carioca, em meio à violência e ao tráfico. E essa foi uma fase muito marcante na profissão e na vida. Um mês depois da morte de Chico Mendes, também passei por uma grande experiência quando fui mandado para o Acre, pelo Jornal do Brasil, e fiz uma série de reportagens, intitulada O Acre de Chico Mendes. Esse trabalho me rendeu o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog, que depois foi transformado em livro, Chico Mendes, Crime e Castigo. Do ponto de vista profissional, eu tive todas essas experiências. Do ponto de vista existencial, eu descobri um estado, uma cultura que eu não fazia idéia que existia. Já conhecia Paris, Nova York, mas não sabia que havia um povo tão interessante no Acre, um lugar com tanta criatividade, tanta energia, com marcas tão intensas de um povo da floresta.







Ilustração: Juliana Moraes






JANELA POÉTICA (V)


PARA NÃO DOER

Neuzamaria Kerner



Não perturbe a Paz
das memórias dolorosas
nunca!

Elas que fiquem
na cama que acomoda
feridas.
Que fiquem
gelatina de sangue
coagulado.

Futucar em memórias dormintes
é liquefazer coágulos
que infiltram vermelho
nos labirintos da alma...
é desapaziguar o tempo
daquilo que dorme
para não doer.








Ilustração: Juliana Moraes









O CINZA DO RABO DO CACHORRO

Rodrigo Melo




E, então, estávamos em um outro lugar – perdidos na distância, nós e o lugar. E eu perguntei pra ela:

- meu bem, você é feliz?

Eu já me entregava, me fazia de cão, cuspe e capacho, me estendia na areia da praia, acreditando no bronzeado, e escutava música nacional; no fim da tarde, por vezes, fumava maconha na varanda e comia biscoito em seguida, gostando de senti-lo entrando no espaço vago da cárie, tocando na minha gengiva, na raiz. Ela, lá no seu canto, era apenas uma menina triste, dessas que engolem as palavras e os pensamentos para só tentar digeri-los depois, na hora que o sol se punha, lembrando da janela do ônibus, duma frase que escutou.

Às vezes chovia e nós gozávamos juntos e eu acreditava na água que escorria da telha e também em escrever; a varanda servindo como o meu blush e o meu laquê; as canetas eu colocava, todas juntas, dentro dum copo com o emblema do Bahia; havia ainda uma máquina Olivetti; e o vento entrava; a cortina movia-se; um cachorro volta e meia passava, balançando o rabo cinza pra lá e pra cá.

- você é?
- creio que sim.
- então, me diz.
- não sei dizer.

E eu, acima de tudo, alimentava crenças na espécie; via-me bom, um Salvador tupiniquim. As árvores cresciam rapidamente. No verão, davam sombra e uma safra de frutos carnudos. Mas, então, um conhecido morreu. Nada mudou de lugar. No entanto, o mundo ficou mais deserto e mais só; o cinza do rabo do cachorro saiu por aí e manchou os muros e as casas e os carros e as caras das pessoas e o rabo delas também; descobri que tudo passa, meu amor, menos o meu amor por você; por você eu faço um drinque, pulo da ponte ou mato um; por você, só por você, minha madalena, sou capaz de tentar.

Os dias se transformam em outros dias, o espelho muda de cor, mas algo fica. Se pudesse, diria como é.



(Rodrigo Melo é ilheense, contista, e escreve semanalmente para o site Bagatelas, do Rio. Lançará em breve o livro "Sonhos não passam disso")







DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes



A Culpa é do Fidel! (La faute à Fidel!). França. 2006.





Não sei se é apenas implicância minha ou vocês também sentem certa desconfiança de filmes que têm como protagonistas crianças prodígio. Como se não bastasse a publicidade usar atores mirins (além de animais e animações) como artifício de popularidade, o cinema também tem se prevalecido de tais artimanhas.

Só para citar os mais recentes e expressivos, encabeçam a lista o argentino “Valentin” (2002), o chileno “Machuca” (2004) e o brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006). Saliento que “apesar” das crianças, todas essas histórias são extremamente interessantes e muito bem construídas.

Além do título intrigante - combinado a toda polêmica que tem girado em torno da renúncia do ditador cubano - confesso que tentei vencer meu preconceito unicamente para conferir a velha máxima de que ‘filho de peixe, peixinho é’. Explico: “A Culpa é do Fidel!” é o longa de estréia da diretora Julie Gavras, filha do talentosíssimo cineasta grego radicado na França, Costa-Gavras (“O Quarto Poder”, “Amen” e o imperdível “O Corte”).

Pode-se dizer que Julie segue os passos de Sofia Coppola (filha do consagrado Francis Ford Coppola) no melhor sentido da palavra. A exemplo de Sofia, ela também consegue sair da sombra de seu pai e imprimir um trabalho pra lá de autoral.

“A Culpa é do Fidel!” é uma história no mínimo didática. Traduz com leveza e humor a invasão da ideologia socialista (o filme se passa entre 1970 e 1971) e seus derivados no universo de duas crianças, Anna de la Mesa (a encantadora Nina Kervel; ok, eu me rendo, o filme já vale por sua atuação) e seu irmão mais novo, François.

A vida desta menina de 9 anos, estudante de colégio católico e moradora de uma mansão em Paris é alterada com a chegada da tia e da prima fugidas da Espanha durante a ditadura de Franco. Seus pais (sua mãe é vivida por Julie Depardieu, mais uma “peixinha”) revêem seus conceitos e empregos burgueses e tentam viver de modo “igualitário” em um pequeno apartamento que passa a ser freqüentado por vários “barbudos”, que buscam apoio para eleger Allende como presidente do Chile.

Nesse contexto, Anna, contestadora e inconformada com tantas mudanças em seu cotidiano, toma aulas de solidariedade de grupo, discute o conceito de comunismo na divisão de uma laranja, depara-se com o feminismo e vivencia a diversidade étnica através da troca constante de suas babás, seja na culinária ou nas histórias por elas contadas.

Adaptação do romance “Tutta Colpa di Fidel”, da jornalista italiana Domitilla Calamai, que assim como Julie cresceu em um lar comunista (sim, o filme tem um quê autobiográfico), “A Culpa é do Fidel!” é sutil, inteligente e recheado de “pérolas” proferidas pela pequena "múmia" (como os barbudos chamam Anna, apelido da oposição conservadora de Allende).

Julie Gavras consegue com muito talento e criatividade fugir do clichê esquerdista-político-panfletário encabeçado por Che Guevara e não cair na armadilha de sua experiência pessoal.



(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras)







JANELA POÉTICA (VI)



Foto: Leila Lopes


A CASA OCULTA

Leila Lopes


Perdida em qualquer manhã, não sei se sol, se chuva, a única vontade do cotidiano dos sons: o barulho da casa. O inverno escondido em vozes distantes. O chão frio da sua morada.
O dia atravessa.
A fome permanece.








OUVIDOS ABERTOS (II)

Por Fabrício Brandão



A FILIAL – QUEM MENOS TEM É QUEM MAIS OFERECE



Para muitos grupos que se utilizam do rap como forma de construção musical, os usos da linguagem parecem ser um verdadeiro desafio. A pecha de panfletarismo pode até rondar esse universo, impondo olhos bem atentos aos seus compositores. No entanto, os caminhos não são fechados e nem devemos olhar com determinismos para essa direção. Virtude maior é a daqueles que sabem fazer a diferença, sem forçar barras dos supostos discursos ideológicos aparentes. É quando os ouvidos se deparam com gente como A Filial, grupo carioca que sabe usar das nuances de brasilidade para verter outros caminhos para o rap. Quem menos tem é quem mais oferece tem como sua maior virtude a musicalidade, condição esta que vai beber diretamente na fonte rica de nossa MPB. É, sem dúvida, um rap feito bem à brasileira, com o olho devidamente voltado para o nosso tão calejado umbigo. A crença num futuro que se constrói a cada dia aparece bem enquadrada na faixa A arte do final de tarde. Em Be The World, fica patente a vontade de compressão das distâncias entre as pessoas, unindo-as num mesmo caldeirão de contradições e sentidos fraternos. Nesse disco, A Filial também sabe se utilizar do velho suingue derivado do funk e do soul. Passeia também pela faceta clássica na instrumental Prelúdio e chega com força necessária e bela nos arranjos que mesclam o piano e os pick ups de Linda. Que se abram as alas para a música brasileira de boa qualidade. O olho sobre nós mesmos é condição democrática, pertence a todos que ousam botar lentes de aumento nos nossos cantos mais escondidos.









Ilustração: Juliana Moraes









JANELA POÉTICA (VII)

FAMÍLIA BLUES #1

Gildo Junior



algumas mulheres fogem com seu amor
e se arrependem pelo resto da vida
algumas mulheres não
e se arrependem também
(conheci um monte delas na minha família)

uns homens acordam e fazem planos
e os destroem ao final do dia
alguns desses dias não
e os destroem também
(conheci um monte deles na minha família)

todo dia procurar um emprego
achar um e se arrepender
de ter (se verdade)
talento que não dá dinheiro.
(nem vou dizer quem é da minha família...)

todos os homens e mulheres que conheço
amam e planejam com afinco
mesmo apanhando
dos dias e das noites
(sei bem disso: também sou da família...)



(Gildo Staquicini Jr. é paulistano desde os sete anos de idade, já fez um monte de coisas (todas honestas), mas sempre disseram que escreve bem (talvez seja só uma questão de quantidade de erros menor que a dos outros...), e ainda tem o sonho de ficar rico escrevendo (sem gargalhadas, por favor...)







Ilustração: Juliana Moraes





* A artista plástica Juliana Moraes é formada pela Escola de Belas Artes da UFBA. Os signos e símbolos recorrentes em sua obra refletem questões como as exigências e necessidades sócio-psicológicas freqüentemente esperadas da experiência feminina, as formas de opressão associadas às relações de gênero, a mulher e seu espaço cotidiano (supostamente protegido). Seus trabalhos exploram a tensão entre dois pólos: agressividade e ternura, inocência e perversão. Há também uma referência à memória e ao desgaste provocado pelo tempo.

 
publicado por Fabrício Brandão
Permalink ¤

<BODY>