13 de mai de 2007,14:00
NONA LEVA
Pintura de Kity Amaral





CICERONEANDO


O mundo é uma grande ciranda de palavras. Por trás da pluralidade de rostos, existem expressões de novos lugares passíveis de descoberta. Somos rebatizados com os sentidos vastos que giram em torno da palavra cultura. DIVERSOS AFINS, termo que cristaliza os propósitos mais sinceros de nossa identidade. A roda viva dos nomes gira, gira e encontra respaldo na carinhosa homenagem de nosso leitor e também colaborador, Oswaldo Begiato. A estrada poética afirma sua longevidade nas manifestações de Ana Luisa Kaminski, Wesley Peres e Ana Peluso. O simpático e talentoso músico Celso Fonseca afina o coro sensível da arte e nos recebe para uma conversa sobre suas expressões. Entre nossas linhas imperam outros olhares através da plástica impressa nas telas da artista Kity Amaral. A crônica de Adelaide Amorim prova que ainda é possível ver além da nossa tragicomédia urbana de cada dia. A memória do ator Guilherme Correa é lembrada no texto emocionado de João Pedro Roriz. Contando também com Cinema, Música e outros muitos afins, a Nona Leva convoca todos a deitar olhos sobre novos signos.


*Comentários podem ser feitos no link EXPRESSARAM AFINIDADES, que se encontra no final da Leva.




JANELA POÉTICA (I)


DIVERSOS AFINS

Oswaldo Begiato


de versos
se fez diversos
multifacetados
multiplicados

de prosas e plásticas
se fez afins
espelhados
espalhados

hímen complacente
se fez inspirações
que não se rompem
não se corrompem

verdade impávida
se fez verdade livre
que não tem arremedo
não tem segredo

reversos dos fins
se fez diversos afins


(Minha terra viu o passar, os pincéis e as cores de Tarsila do Amaral, que um dia encontrou em seu caminho um Oswald. A mim acresceram um artigo masculino no final, e um outro, acentuaram com circunflexo pra determinar meu centro: Oswaldo Antônio Begiato. Quando descobri isso, fiz das palavras minha terra natal.)




Pintura de Kity Amaral









MÃE NO DIA-A-DIA NO MEIO DO MAIO.

Neuzamaria Kerner


É maio.

O que tem a mais no meio deste maio? Pode ter um monte de coisas: mês mais feminino porque fértil, mês das deusas, mês da primeira lua bonita, mês das noivas, mês do dia 13 de maio na Cova da Iria, mês de outono, morno - já instalado desde março, esperando que o inverno assuma o comando -, mês de se fazer tudo o que se faz todos os dias em todos os meses e em todas as estações, mês das mães...

Das mães... Sim, elas mesmas. Aquelas que amam incondicionalmente - há controvérsias! – mas muitas amam desse jeito incondicional.

- Oi, meu amor! Estou com saudade!
- Ei, mãe, eu... agora não posso falar. Muito trabalho.
- Eu só queria mesmo ouvir sua voz.
- Então, já ouviu, né?

E ela ri da brincadeirinha do filho ou da filha, tanto faz.

- Você é uma gracinha quando fala assim, me lembra quando...
- Lá vem você com suas velhas lembranças!
- São boas, meu amor... você era tão...
- Eu já cresci, esqueceu?
- Não, mas para mim...
- Já sei o que você vai dizer.
- Oi, você ainda está aí?
?... ?... ?...
- Claro que estou! E no meu trabalho.

E ela dá um suspiro feliz porque o filho ou a filha, tanto faz, está trabalhando. Como é responsável essa minha cria!

- Alô? Alô?...
?...?...?...?...?...?...?...?...?...?...?...?...?...?...?..............................................................................
- Quem é?
- Sou eu...
- Ainda?
- É que eu queria te dizer que...
- Só pode ser agora? Não dá pra esperar pra outro dia?
- É que é importante...

bip-bip-bip-bip-bip-bip-bip ad eternum...

E ela dá um suspiro – o último. O filho ou a filha, tanto faz, tem seus afazeres-de-cada-dia. Já não está mais aqui, nem ali, nem acolá. Sem maio, sem estações do ano nenhuma, sem não-sei-o-quê-mais. O que ela queria mesmo dizer? Nunca saberemos. Levou o dizer consigo.




JANELA POÉTICA (II)


UNÍSSONO AVESSO

Fabrício Brandão


Construo as passagens que bem desejo
Quando a caminho estão as legiões
Das falas que ainda não tive

É preciso passar a língua no escuro
Tatear idiomas distantes
Estar surpreso com o novo óbvio

Mãos de silêncio sabem como me agarrar
Pois são feitos com restos dos sonhos de ontem

É preciso que me parem agora
Porque ouço apenas uma voz






Pintura de Kity Amaral





OUVIDOS ABERTOS (I)

Por Fabrício Brandão



ETA CARINAE – MIRANDO A ESTRELA



Aqui, e mais uma vez, Pernambuco confirma sua condição de celeiro musical. E o Eta Carinae é prova bem viva de toda essa qualidade, da noção de um sentido múltiplo que ronda a cultura daquele estado. O próprio nome da banda é também o nome da estrela de maior brilho de nossa Via Láctea. A sonoridade do grupo parece nos remeter a um ambiente um tanto cósmico, pontuado por elementos eletrônicos viajantes e que reforçam o cuidado de seus músicos com os arranjos. Interessante é a mistura existente de ritmos musicais, como o xote e o baião, com os incrementos eletrônicos. Faixas como Ecos, Loa do Mar e Tive que ir remetem a uma espécie de sertão eletrônico, exalando sensações características da cultura nordestina. Dividem os vocais Dirceu Melo, um dos ativistas do movimento mangue, e a interpretação, carregada de personalidade, de Karina Falcão. Mirando a estrela aposta numa universalidade sonora, sem esquecer da força que brota do traço regional. Um lugar de boa música e, o que é melhor, bem trabalhada.





CENA CARIOCA

Adelaide Amorim


Acordara tão feliz naquele dia que deu dez reais ao mendigo à saída da faculdade e logo depois viu que tinha ficado sem dinheiro para a passagem. Tentou uma carona, mas o colega ia para o lado oposto da cidade. Lembrou então do pai, que àquela hora devia estar ainda no escritório da rua do Ouvidor. Correu para lá e o pai já tinha saído. Ligou para casa, é, mãe, estou sem dinheiro. Toma um táxi, a gente paga aqui – mas às sete da noite é uma coisa meio difícil.

Começava uma chuva de verão e ela teve a desagradável sensação de que nunca mais conseguiria voltar para casa. O bom humor da manhã era agora uma vaga lembrança. Perdeu um táxi para uma velhinha simpática, outro para um sujeito grosseiro que fingiu não ter visto seu sinal e outro para uma mulher cheia de embrulhos com um garotinho a tiracolo. Descabelada, as sandálias ensopadas, avançou para um carro de que desembarcava uma criatura imensamente gorda. Junto com ela, duas mulheres falando aos gritos e dois sujeitos mal-encarados, sem falar no velhinho magrelo e rabugento, forçavam a passagem, um cotovelo ossudo em suas costelas, o guarda-chuva quase furando seu olho.

Não saberia dizer como, mas ganhou a parada. Sentada no fundo do carro, os cabelos escorrendo, água entrando nos olhos, ainda pôde ver o gesto obsceno do velhinho e a cara de ódio dos sujeitos e das mulheres. Largou-se no banco, suspirando aliviada. Copacabana, disse ao motorista, rua Miguel Lemos. Estavam na esquina da Evaristo da Veiga e o motorista diminuiu a marcha e se virou para ela. Ah, moça, não vai dar, disse com um meio-sorriso. Acabei de vir de lá, está tudo engarrafado, e além disso eu hoje nem almocei. Não leva a mal não...

A raiva a fez pular do carro na calçada alagada sem olhar para trás. Nem no abrigo do ponto de ônibus havia lugar para escapar do aguaceiro. Dez, quinze, vinte minutos e nada. De repente sentiu que alguém a segurava pela cintura e se encostava nela. Olhou meio assustada meio esperançosa de encontrar um amigo qualquer, e viu um rosto estranho, até bonito, com um sorriso resplandecente, que sussurrava em seu ouvido: ri pra mim e me passa a carteira e o relógio que vai dar tudo certo. Sentiu as pernas tremerem e de repente desatou a rir como uma louca, sem o menor controle. Não precisa exagerar, disse o sujeito, olhando em volta rapidamente. Ela não conseguia parar. Achou fôlego pra perguntar: você tem algum dinheiro aí? Eu?! ele, atônito. É, só pra eu poder pegar o ônibus. Sentiu então a pressão nas costelas. Não sacaneia. Me passa logo o dinheiro e o... É sério não tenho um tostão, estou ensopada e vou pegar uma pneumonia. Você ao menos tem uma jaqueta de couro. O rapaz pareceu perturbado e ela teve uma idéia: olha, se você tiver dois reais aí pode levar meu relógio.

Ele afrouxou o abraço e lançou um olhar às pessoas que se amontoavam no abrigo da parada de ônibus. Ninguém tinha se tocado. Enfiou a mão no bolso da calça e puxou duas notas amassadas. Disfarçadamente ela tirou o relógio e o entregou. Ele baixou a cabeça e sumiu no buraco do metrô, enquanto ela disputava um espaço no ônibus quase aos tapas, espremida, aliviada e sem mágoas.


(Adelaide Amorim, como ela própria se define, é carioca por nascimento e convicção. É autora de Umbigo do Sonho e Como se livrar da Glória?)





JANELA POÉTICA (III)


AUTO-MAR


Ana Peluso


um barco, uma nau sem leme
o mundo todo aberto e sem paredes
o infinito fazendo arruaça
o medo desgraçado da desgraça
a espera encantada por um príncipe-peixe
o céu sem recortes e sem redes
o real estampado sem escrúpulos
a solidão dos pescadores e dos brutos
e uma âncora do tamanho do mergulho


(Ana Peluso, paulistana, poeta, designer, ilustradora, mãe, filha, amiga, ex, pisciana, esquisita, imprevisível, bloga no rasuras até o dia 29 de junho, quando o blog completa 9 meses e a gestação se deu. Depois nasce, não sabe ainda pra onde)




Pintura de Kity Amaral







PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Com sua múltipla bagagem, o cantor e compositor Celso Fonseca vai sedimentando os passos pelos vastos e complexos caminhos do universo musical. Dono de um esmerado trabalho, sabe usar de suavidade e sensibilidade para emprestar vida a suas canções. Sua intimidade com a música vem atravessando os tempos, algo que se reflete em suas letras, arranjos e interpretações. O menino que recebia do colo paterno primeiras melodias de vida é hoje um homem comprometido com sua missão de enxergar outros lugares por trás das notas. Com sete discos gravados e uma carreira internacional significativa, brinda a experiência e guarda em sua estrada parcerias e produções com outros nomes de referência da cena musical. O autor de “Sorte”, sucesso eternizado na voz de Gal Costa e Caetano Veloso, também possui letras interpretadas por gente como Gilberto Gil, Ana Carolina, Nana Caymmi, Maria Bethânia, dentre outros. Com sua bela energia, simplicidade, carisma e preparando seu mais novo disco, “Feriado”, Celso Fonseca recebeu o Diversos Afins para um bate-papo sobre suas origens, criação artística e outras sensações.



DA - Você tem uma estrada considerável pela música, compondo, gravando e produzindo canções com diversos outros artistas consagrados. Suas origens sempre apontaram para um destino musical?

CELSO FONSECA - Não. Venho de uma família de classe média do Rio de Janeiro. Meu pai era médico, e seu único irmão, engenheiro civil, mas ambos viviam cercados por música. Aprendi a ouvir muita música em casa desde muito cedo. Meu tio organizava uns saraus na casa dele, que contava com a presença do compositor Synval Silva, autor de alguns dos sucessos de Carmen Miranda. Cresci nesse ambiente plural, em que se ouvia muito samba, Bossa Nova, música clássica e também Jazz (nos LPs dos meus primos mais velhos ). Que eu saiba, nunca tive músicos profissionais na minha família. Mais tarde, como a maioria da minha geração, fui contaminado pela música dos Beatles e depois pelo Rock inglês e pela música negra americana. Ouvia de tudo na minha infância e adolescência. Comecei a tocar violão “de ouvido” aos 10 anos. Segui tocando outros instrumentos, mas me fixei mesmo no violão e na guitarra. Cheguei a cursar Comunicação na PUC do Rio de Janeiro, e só me decidi pela música depois de assistir a um Festival de Jazz, em São Paulo. A partir daí, comecei a estudar teoria e harmonia com um professor particular, paralelamente aos meus estudos na faculdade. Depois de dois anos de curso e já tocando em pequenos grupos no Rio, conheci o Gilberto Gil e entrei para a sua banda. Depois disso, abandonei definitivamente a faculdade e caí na estrada. Já nessa época, eu experimentava fazer minhas primeiras composições. Alguns temas instrumentais e, mais tarde, algumas canções mesmo, com letra e música.

DA - Em seu trabalho é visível a exploração das raízes musicais brasileiras, elementos que transitam principalmente pela Bossa Nova e pelo Samba. Você acha que é um contra-senso fazer mais sucesso fora do Brasil do que no próprio país?

CELSO FONSECA - Num certo sentido, acho sim. Na verdade, acho uma pena, mas entendo que as coisas tomaram esse rumo sem que eu me desse conta. Depois de já ter gravado cinco discos no Brasil, fui contratado por uma gravadora belga para gravar um CD que seria lançado na Europa, Estados Unidos e Japão. Esse selo é o mesmo que lançou outros artistas brasileiros como Bebel Gilberto, Bossacucanova, Cibelle, Trio Mocotó, etc. O primeiro CD, “Natural”, teve uma grande repercussão fora, o que me levou a fazer várias tournées anuais pelo mundo, desde o seu lançamento em 2002. Nossa música vive um momento muito singular fora do nosso país. Ultimamente, não só eu, mas muitos outros artistas brasileiros fazem sucesso fora, sem que seu trabalho seja reconhecido pelo grande público aqui no Brasil. Nomes como os que já citei acima e mais: Vinícius Cantuária, Joyce, Marcos Valle, Roberto Menescal, Clara Moreno, Paula Morelenbaum, Moreno Veloso, Seu Jorge etc. Todos têm, em seus shows, um público cativo de estrangeiros e um número muito pequeno de brasileiros na platéia. Esse ano, tenho concentrado as minhas atenções e meus esforços no sentido de fazer mais shows por aqui e lançar meu novo trabalho no Brasil, em primeiro lugar. Quem sabe consigo reverter essa minha situação?

DA - O seu disco Polaróides traz uma reunião de canções que são resultado de uma precisa parceria com Ronaldo Bastos, personagem importante no meio musical brasileiro. Qual o sentido maior desse trabalho para sua carreira?

CELSO FONSECA - Comecei a compor com o Ronaldo nos anos oitenta e temos uma parceria muito fértil. Temos um gosto parecido. Nos acostumamos a compor, desde o início, à maneira antiga. Sentamos juntos, cada um com uma folha de papel em branco, e vamos desenvolvendo nossas idéias dessa forma, com as minhas melodias servindo de fundo musical. Ronaldo não toca nenhum instrumento, mas tem um respeito pela palavra cantada como poucas pessoas que conheço. Obedece a cada frase musical com uma precisão maravilhosa. É de um rigor absoluto. Digo isso porque, às vezes, muitos compositores, que não têm essa preocupação, costumam fazer adaptações que modificam muito a idéia original da melodia, o que acaba empobrecendo a canção. Tive, e ainda tenho, muitos parceiros ao longo da minha carreira, mas, sem dúvida, Ronaldo é aquele com quem eu mais me identifico. Orgulho-me muito disso e acho que temos uma trajetória muito interessante com nossa trilogia, “Sorte”, “Paradiso” e “Juventude / Slow motion Bossa Nova”.

DA - Gêneros como a Bossa Nova e o samba vêm recebendo novos impulsos em suas sonoridades. Um exemplo disso seria a junção com elementos da música eletrônica, aspecto que ganha corpo e revela outros ambientes para a MPB. É possível conceber uma espécie de reinvenção desses estilos?

CELSO FONSECA – Primeiro, preciso dizer que não tenho absolutamente nenhum preconceito com relação à música eletrônica. Também não acho que fazer música eletrônica seja uma confirmação de modernidade, como muita gente costuma dizer. Já se faz música eletrônica há mais de vinte e cinco anos no mundo todo. Por outro lado, entendo o conceito e gosto do que algumas pessoas fazem. Acho que o fundamental nisso tudo, a matéria-prima para que se faça qualquer tipo de experimentação com uma música, é ter uma bela melodia e uma grande canção como base. Se existe a grande canção, tudo pode ser feito com ela. E acho que é o que acontece com a Bossa Nova e o Samba, sobretudo porque são gêneros que contam desde sempre com grandes canções. Consigo enxergar a grande canção em vários outros gêneros, obviamente, mas hoje em dia, a música eletrônica se serve principalmente desses dois estilos para compor sua base dançante (ou não, no caso do que hoje se costuma chamar de “Música Lounge” – ou música para se ouvir enquanto você está fazendo outras coisas...). Enfim, acho que se podem fazer muitas coisas interessantes com as máquinas de ritmo, computadores e teclados, mas sinceramente não vejo tanta reinvenção assim... Tem coisas inusitadas que acrescentam um dado novo e algum frescor e outras que acabam simplesmente banalizando e destruindo a música original.

DA – “Febre”, canção integrante do álbum Natural, nos revela um Celso vivenciando um ápice de criação, dosando maturidade com modernidade musical. Como você se enxerga hoje dentro desse novo lugar? O Celso intérprete é muito diferente do Celso compositor e produtor?

CELSO FONSECA - Fico feliz quando você diz que vivencio o ápice da criação numa canção como “Febre”. Gosto muito dessa música também. Hoje em dia, tenho certeza de que achei um lugar confortável dentro da minha múltipla personalidade musical. Gosto muito de produzir, de tocar e da performance no palco também, mas acho que talvez o ofício do compositor seja o que mais me alegra a alma. O momento da criação é uma coisa que, ainda hoje, depois de anos escrevendo música, me emociona e surpreende. Nada se compara ao momento em que a música nos toma por completo e nos leva a lugares completamente inesperados. Quanto ao intérprete e produtor, ambos trabalham muito intuitivamente. Nunca fiz aulas de canto e aprendi a produzir discos colocando a mão na massa. Ambas as funções eu exerço seguindo o que me diz a intuição. E parece que tem funcionado...

DA - Falando da matéria-prima de sua música, você costuma ser muito criterioso com suas escolhas?

CELSO FONSECA - Sou excessivamente criterioso. Isso, às vezes, chega a atrapalhar um pouco. Posso ficar horas, dias, meses, para terminar uma canção. Procuro o acorde certo, a harmonia que mais se encaixa, as notas mais bonitas. Por outro lado, tenho, muitas vezes, a sorte de simplesmente captar alguma coisa que vem rapidamente à cabeça e aquela idéia acaba sendo a melhor idéia. Mas sempre dá algum trabalho. Mesmo que a melhor idéia seja a primeira, sempre dou muitas voltas até me convencer disso completamente.

DA - Seu trabalho revela uma veia apurada em sensibilidade, algo que se reflete tanto nos arranjos quanto nas letras. No que acredita quando está vivendo a música?

CELSO FONSECA - Não sei... Como falei antes, sigo muito minha intuição e tenho tido muita sorte em fazer coisas que ouço depois de algum tempo e ainda consigo gostar. Existe um lado misterioso em todo o aspecto da criação que sempre me surpreende e fascina. Mesmo quando quero falar sobre alguma coisa em particular, sempre me surpreendo com os lugares em que vai parar aquele impulso inicial. No que diz respeito aos arranjos, quando a música vem, normalmente já vem com aquele arranjo embutido no seu corpo. Quando acabo de fazer uma canção, já imagino que ela precisa de violinos ou simplesmente de uma versão só de voz violão e caixinha de fósforos.

DA - O Brasil é um verdadeiro celeiro da diversidade musical. Que conselho você daria para aqueles que desejam alargar seus passos nesse terreno?

CELSO FONSECA - Ouvir de tudo sem preconceitos, ler bastante, estudar sempre e nunca deixar de perseguir uma identidade própria. Isso talvez seja o mais difícil, porque demanda um certo tempo para amadurecer e um despojamento total, mas sem dúvida é fundamental para quem deseja fincar o pé em terreno mais sólido.

DA - Após todos esses anos de carreira e girando o mundo com seu trabalho, que olhares marcantes percebe em sua trajetória?

CELSO FONSECA - Só tenho que agradecer a sorte que tive ao longo de todos esses anos por ter estado ao lado de muita gente bacana com quem aprendi muito. Ainda aprendo o tempo todo. Vivo observando o mundo à minha volta com muita curiosidade. Tive muitos momentos marcantes, sem dúvida, mas talvez o mais importante tenha sido aquele que revela muito, até hoje, a pessoa e o artista que sou. É a minha lembrança mais remota. Meu pai comigo no colo, cantarolando canções do repertório de Nat King Cole. A partir daquele momento estava em formação o Celso Fonseca que muitos anos depois escreveu “Febre”. A música tomou conta de mim naquela hora.


Clique aqui para ouvir, ler e sentir o trabalho de Celso Fonseca




JANELA POÉTICA (IV)


Foto: Leila Lopes




DE OLHAR E MISTÉRIOS

Leila Lopes


Por dentro
sempre aquele anseio de vida livre
qual pássaro solitário de asas e escolhas:
sobras do desapego.

Quando a cor invade e a palavra embriaga
os recantos dos teus olhos me emudecem.

Invade o desejo de existir fundo
por cada imagem cotidiana
onde tocam as pontas dos dedos do teu mistério.


(Leila Lopes é colaboradora do Diversos Afins)



ÚLTIMO ADEUS AO ATOR GUILHERME CORRÊA

João Pedro Roriz


A crônica dessa Leva é em homenagem a um homem que marcou a história do teatro e da televisão. Sem falsa modéstia, afirmo que ele marcou a minha vida mais do que a de qualquer espectador desatento. Aquele senhor de barba branca, natural do Rio Grande do Sul, que por lá viveu tantas histórias e tantas glórias, hoje repousa em paz com o peso da experiência dramática em suas costas. O ator Guilherme Corrêa, o “paizinho”, como nós, integrantes da peça Violetas na Janela gostávamos de chamá-lo, faleceu após um ataque cardíaco.

Casado com a atriz Ana Rosa, mulher forte e de fibra, que conheceu a fama muito cedo, o velho ator, pai de sete filhos, galgou oportunidades televisivas, mas sempre ficou à mercê de personagens secundários, infelizmente pouco conhecidos pela maioria dos modernos espectadores de novela. Mas Guilherme atuou também no cinema e no teatro. Nos fez rir com diversos filmes, entre eles “O Homem de Itu”.

No teatro, tive o prazer de conhecer a metade do país em sua companhia. Viajando pelo Brasil, a imagem que eu tenho de nosso eterno diretor é a de um homem sorridente, que apesar das agruras que a vida muitas vezes o fez passar (como a fatídica morte da filha em 1997), sempre procurou mostrar o seu encanto pelo palco e pela vida cigana que levava entre os mundos e submundos teatrais ao longo de nossa jornada.

Guilherme era um amante do Brasil, prenhe de brasilidade e adorador da nossa cultura. Um ator apaixonado por música e pelo legendário compositor Lupicínio Rodrigues. Guilherme sabia todas as músicas desse compositor e cantava com emoção nas festas que promovíamos em sua homenagem. Em seus momentos mais introspectivos, possuía alguns lapsos de memória, mas nunca esquecia das românticas composições de Lupicínio, que fazia questão de interpretar com grande desenvoltura.



João Pedro Roriz, ao centro, com Guillherme Corrêa e Ana Rosa


O mestre Guilherme me fez passar por um dos momentos mais bonitos da minha vida. Estávamos em cartaz no teatro Cine Central de Juiz de Fora, com a capacidade máxima para dois mil expectadores. O Cine Central, como qualquer outro teatro moderno, possui campainha eletrônica que serve para alertar o público de que a peça está para começar, mas Guilherme quis me mostrar como funcionava o Pau de Moliére; uma espécie de cabo de madeira que os artistas antigos usavam para bater no palco e chamar a atenção do público para o começo do espetáculo.

Com o teatro lotado, ouvíamos o murmurinho das pessoas e o barulho era tão ensurdecedor, que parecia uma chuva torrencial caindo no lado de fora. Ele me disse com a sua voz peculiar:

– Preste atenção, filhinho, para a mágica. Quando eu disser já, bata o Pau de Moliére com toda a força que puder.

E eu fiz o que ele me pediu. O som oco da madeira ressoou por todos os cantos do teatro e o público imediatamente se aquietou. O silêncio oriundo da platéia de dois mil espectadores preencheu o ambiente e brandiu mais do que mil sirenes. A peça estava para começar. A ansiedade tomava conta de todos os artistas e no breu da coxia, o sorriso do velho ator me comoveu. Era mais uma apresentação de nossa famosa peça de teatro. A música se iniciou e eu, todo arrepiado de emoção, o vi sentar em seu banquinho na coxia, sem camisa, o peito nu, a se abanar com qualquer revista que vira pela frente. Era algo comum. Algo terreno. Algo corriqueiro para alguém tão coroado pelo tempo.

Agora sobrará tempo para o velho ator se emocionar. Emocionar-se com as complexidades da alma e do saber, e com as novidades que Deus lhe preparou no lar de todos os homens de bem: o proscênio espiritual. Sob a ribalta quente das estrelas, o aplauso tornar-se-á eterno. Adeus, meu bom amigo!


(João Pedro Roriz é colaborador do Diversos Afins)



Pintura de Kity Amaral





JANELA POÉTICA (V)


Trilogia, de Ana Luisa Kaminski


TRÂNSITO

Ana Luisa Kaminski


Alçando vôo, deixo o chão e me arrisco
a mergulhar no mar da ondulante emoção
atravesso abismos, saboreio o imprevisto
abro as asas azuis, navego em águas de sonho
exploro labirintos, curvas, caracóis, entrelinhas
entrevejo luas e sóis nos corpos e olhos amados...
Ao levitar, viajo entre nuvens, cristais e espelhos
Flutuo em abraços, deslizo em desejos dourados
fio linhas de bronze e seda, laços e pós cintilantes
que se espalham ao vento, tingindo peles, cabelos
dançando em espirais, em rodopios delirantes
beijando de leve as corolas, qual brisa ou bruma...
Atrevo-me a sussurrar, no ar, algo indizível
desnudo os mundos dos peitos amantes, sem medo
descubro caminhos, carinhos, desvios e doçura
das conchas, estrelas e mapas desvendo o segredo
desfruto o sensível, toco luzes, visito a loucura
decifro enigmas do ser, vislumbro céus invisíveis
reinvento murmúrios e vozes, sentidos, matizes
redesenho prazeres e flores, do bordado a ternura...



(Ana Luisa Kaminski é uma alma surreal, apaixonada por palavras e cores. Pintora, amante da Vida e do azul, sonhadora incorrigível... Mora em Florianópolis, SC, onde dá aulas de pintura, desenho e esperança em seu atelier. Nasceu em Erechim, RS, em 1966. Ama também explorar os paradoxos e ambivalências humanas, e decifrar enigmas. Às vezes, desvenda alguns mistérios! E voa, muito...)



OUVIDOS ABERTOS (II)

Por Fabrício Brandão


CHICO CORREA & ELECTRONIC BAND




Direto da Paraíba para um mundo de possibilidades. Eis a palavra de ordem para o polivalente músico Esmeraldo Marques, que, em homenagem à Chick Corea, nome de peso do cenário jazz fusion, conduz com maestria a Chico Correa & Electronic Band. Esmeraldo veste a pele de Chico Correa, utilizando sua experiência como produtor e DJ na construção de um verdadeiro Nordeste eletrônico. Nesse álbum a experimentação fala alto e coloca num mesmo caldeirão baião, coco, batuques afro-brasileiros, samba, bossa nova e elementos do jazz. Um trabalho de extrema qualidade que ainda ressalta canções folclóricas integrantes do domínio popular. A faixa Mangangá traduz bem a junção de elementos eletrônicos e rock com uma letra que se assemelha ao cenário de uma típica cantiga nordestina. Em Odete, o tradicional ritmo do coco aparece entrecortado por vocais sampleados. Uma força jazzística exala vigorosamente na bela e instrumental Terra. Enfim, tudo aqui denota fino trato e cuidado com os arranjos. Num verdadeiro baile moderno, a beleza convida o bom gosto para a dança. Assino embaixo!



DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Bolívar Landi


A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen). Alemanha. 2006.


A produção alemã “A Vida dos Outros” foi premiada, em 2007, com o Oscar de melhor filme estrangeiro, batendo favoritos como “Dias de Glória” (Argélia) e “O Labirinto do Fauno” (México). O filme é ambientado na Berlim Ocidental dos anos 80, nos últimos anos da guerra fria. A Alemanha, mais do que nenhum outro país, viveu a divisão do mundo na própria pele e procura, mais uma vez, expurgar os seus males nesta sensível e contundente história dirigida pelo alemão Florian Henckel von Donnersmarck.

A obra aborda a perseguição política e ideológica sofrida pelos cidadãos da Alemanha, especialmente por sua classe de artistas. Diretores de teatro, atores, escritores têm as suas vidas permanentemente vigiadas e devassadas pelos órgãos oficias de controle. Este enfoque nos oferece um olhar privilegiado, pois compartilhamos a visão angustiada de um grupo, que pela própria natureza de sua profissão, está fadado a refletir e traduzir em sua obra a realidade. E, por isso mesmo, são duramente intimidados, corrompidos e cerceados no exercício de sua arte.

O filme tem o mérito de não ser simplista e mostrar que a opressão e as atrocidades ocorreram dos dois lados do muro. “A Vida dos Outros”, mostra, de forma lúcida, que a concentração desmedida de poder na mão de poucas e despreparadas pessoas tem a capacidade de gerar insanidades e deformar o caráter dos homens. A resposta para a transformação da sociedade, na verdade, nunca passou pela modificação deste ou daquele sistema, mas pela necessidade de uma coerente, e não impositiva, transformação do homem. Eis o grande equívoco de Marx.

A arte vem, contudo, subverter a ordem, abrindo novas portas para a sensibilidade e o entendimento, trazendo novas e inusitadas possibilidades de redenção. Ela vem assim como um prazeroso caminho capaz de despertar as pessoas e, em alguns momentos, promover uma verdadeira e permanente revolução no interior do homem.

(Bolívar Landi é colaborador do Diversos Afins)





Pintura de Kity Amaral




JANELA POÉTICA (VI)


CINCO CANTOS À PRIMEIRA LUA

Neuzamaria Kerner


Quando estiver o mundo em desando
e imperar a dor do só na multidão
levanta os olhos cativos do chão
e olha a Primeira-Lua-de-Maio.

E quando se esvair do dia a luz
e nos disser o dia, “eu saio”,
olha o céu e canta contente
à Primeira-Lua-de-Maio.

A noite ao soltar da lua o lume
e mostrar da lua o perfume,
o último crescente de abril é o ensaio
para a Primeira-Lua-de-Maio.

Qual uma flor no botão apresada
a noite se vai libertando em desmaio
para acolher o brilho crescente
da Primeira-Lua-de-Maio.

Eis que afinal se instala inteira
bola de brilho, divino raio:
faz-se um poema, divina oferenda
à Primeira-Lua-de-Maio.




NASCIDA EM BERÇO DE PLENITUDE SONORA

Por Cristiano Contreiras

Charlotte Gainsbourg



Filha do poeta e músico francês Serge Gainsbourg e da atriz-cantora Jane Birkin, ambos ícones da música-erotizada nos anos 60, Charlotte Gainsbourg nasceu em 21 de julho de 1971, em Londres. Cresceu numa família ligada à música efervescente e ao teatro, fez seu primeiro filme em 1984, "Paroles et musique". Ganhou o Cezar Award de “Melhor Atriz Promissora” pela sua expressiva atuação no filme "L'éffrontée". Em 2000, voltou a vencer com o prêmio de “Atriz Coadjuvante” pelo filme "La Bûche". Além da sua carreira como atriz, gravou dois álbums e cantou a canção-título de um dos seus filmes, e é garota-propaganda da grife de roupas Gérard Darel. Vive atualmente na França, é casada com o ator e realizador Yvan Attal, pai dos seus dois filhos.

Após 20 anos de seu primeiro álbum, “Charlotte Forever”(em alguns países conhecido como ‘Lemon Incest’) – cujas composições foram feitas pelo seu pai – Charlotte Gainsbourg retorna com um álbum totalmente bem produzido: ”5:55”, é o nome do álbum e da faixa-título de autoria da banda francesa Air. Além do duo Air, o álbum tem produção, letras e parceria com nomes conhecidos do mundo da cultura pop musical - Jarvis Cocker, do Pulp, e Neil Hannon, do The Divine Comedy. “5:55” é um álbum maduro, tem a produção do reputado Nigel Godrich, as canções são elogios à sensibilidade sonora. Repletos de arranjos sutis e melódicos nada convencionais, além dos sussurros constantes da Charlotte – coincidentemente, semelhantes ao de sua mãe, Jane Birkin.

Principais trabalhos como atriz:

- L`Effrontée, de Claude Miller
- Kung Fu master, de Agnes Varda
- 3 Irmãs , de Danielle Thompsom
- 21 Gramas, de Alejandro G. Iñaritú
- Lemming , de Dominik Moll
- Mundo Novo (2006), Emanuelle Crialese

Discografia principal:

Charlotte For Ever - (1985)
5:55 – (2006)


(Cristiano Contreiras é colaborador do Diversos Afins)





Pintura de Kity Amaral







JANELA POÉTICA (VII)

WESLEY PERES*


Tão humana quanto um demônio sonhando, ela
me sopra o húmus da-alguma-mulher-que-se-abraça-e-diz:
A lua sabe a minha chuva,
anjos são mulheres que escolheram a noite;
sem lua, é outra a beleza da noite.

***

E se ela sente saudades da noite,
envio-lhe, em palavras,
uma concha, por exemplo,
ou simplesmente pronuncio seu corpo em aramaico:

caos, cuja chave é do lado de dentro.


*Poemas integrantes do livro Palimpsestos,
Editora da Universidade Federal de Goiás, Coleção Vertentes, 2007.


(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance CASA ENTRE VÉRTEBRAS, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura
2006, a ser lançado pela Editora Record em junho deste ano. São dele os livros: PALIMPSESTOS (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, RIO REVOANDO (poemas) USP/COM-ARTE 2003; ÁGUA ANÔNIMA (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL)



O QUE ANDA*

Fabrício Brandão


Até parece que as coisas todas lhe foram reveladas em sonho. Então, faço um pouco de força para imaginar por onde cruzam os passos dele agora. Fazia um tempo que andava refugiado nos caminhos tortuosos que levam a si. Tomou a dianteira de tudo, decidindo atravessar seus próprios mistérios. Quem sabe daí poderia retomar um outro inteiro? Começou por tentar não cometer mais o horizonte usual, talvez tentando se libertar da mesmice do todo que se projeta debaixo do sol. Negou supostos discursos que poderiam afirmar perniciosos caminhos da vaidade traidora de todos. A cabeceira da mesa não mais lhe interessava. Ficaram para trás as leituras compulsivas da miopia alheia, as mesquinharias sobres as posses vãs, o desejo obscuro, pretensas verdades, um amor aguado. Sua bagagem agora pesa pouco. A estrada ainda insiste em ser longa, mas não há trevas para quem tomou a escuta como companheira dos caminhos.


* Para o andarilho da alma Maurício Pinheiro.




Pintura de Kity Amaral




SOBRE A ARTISTA


Cores pontilham as telas de kity Amaral e chegam diversas entre as palavras nossas. Mas suas telas também falam letras ocultas que dizem do seu mundo surreal e abrem caminhos para os olhos de nossa alma.

Clique aqui para percorrer outros trabalhos de Kity Amaral


 
publicado por Fabrício Brandão
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