30 de jan de 2007,15:20
SEXTA LEVA
Foto: Leila Lopes




CICERONEANDO


Ano novo que desponta e a família Diversos Afins vai aumentando. É com muita alegria que recebemos novos colaboradores ancorando seus textos e sensações por aqui. Assim como as águas que se renovam, nosso espaço resolveu mudar a cara, fazer uma cirurgia plástica facial poética. Um novo rosto inaugura a Sexta Leva, trazendo consigo a vontade crescente de dar marca própria ao nosso projeto. Como não poderia ser diferente, a atual jornada ENTRE CAMINHOS E PALAVRAS traz os seus afins. Na lista de novidades, a primeira de uma série de crônicas do ator e escritor João Pedro Roriz, intitulada o Teatro do povo, inicia o espaço que devíamos às expressões teatrais. A poesia passeia nos escritos sensíveis de Valéria Freitas, Leila Lopes, Alba Liberato, Lita Passos, Affonso Romano de Sant’Anna e Cláudia Rangel. O registro da luz de um olhar que descobre sentidos por todos os cantos encontra morada na exposição da fotógrafa Leila Lopes. Num encontro repleto de boas energias conversamos com o cantor e compositor baiano Herval Lemos, com quem fizemos algo inédito: disponibilizar seu disco para download aqui no site. O cronista Bolívar Landi nos conduz a uma viagem pela bela e encantadora “cidade das pedras”, Igatu, na Chapada Diamantina. Também por aqui, Literatura e Cinema se encontram para varrer sentidos possíveis da oralidade a partir do filme Narradores de Javé. Desejamos aos nossos leitores uma excelente viagem por entre os novos caminhos e agradecemos, também, a todos aqueles que acreditam nesse sonho e colaboram conosco.





AMAR NA CORDA BAMBA, ENTRE OUTRAS COISAS.

Valéria Freitas


Minha estante é cheia do pensamento de outros. O mesmo olhar que alinha livros, anda pela rua desarrumando pessoas. Cada um em seu lugar. Sei de uma porta secreta que dá lugar ao que fica escondido e devo estar abarrotada com verso que não encontra saída. Por isso, olho bem pra o que voa até não conseguir mais ver. Temo silêncio encorpado que poda tudo à minha volta. O desespero me desafia. Contraio a razão quando compreendo poesia e mil cacos em papel guardam de mim a palavra amassada. Nenhuma frase sozinha é chuva a compreender ilha e sempre me falha o barco à hora de abraçar o cais...


(Durante bom tempo, cedeu aos desejos secretos de uma entidade - Diana-Dru - que assinava seus rabiscos. Para ela, poesia é um sagrado exercício: escrever até escrever. Depois de queimar noites, insana e insone, rabiscou mais poemas e assina agora com o próprio nome: Valéria Freitas )








Foto : Leila Lopes






JANELA POÉTICA (I)


TENDAS

Fabrício Brandão


São as tais folhas dispersas
No registro de um outro
Essas mesmas linhas sem pausa
Que me fizeram estranho dentro daquela vida.

Minhas doces meninas esconderam as faces
Rumo ao destino resignado.
Lastimaram pra dentro de si
O azar de não poderem rolar lágrimas visíveis.

Reinvenção do amor?
Causa impossível.
Arranjo uma lista de negações prontas
Como quem é incapaz de cobrir vazios.

Varredura insone do olhar.
Fecho as páginas do mundo à parte.
Minhas doces meninas, sempre mulheres
Se ocupam de varrer a poeira pra dentro da alma.







Foto: Leila Lopes






SEM-PATRIMÔNIO HISTÓRICO? ESCRITA X ORALIDADE EM OS NARRADORES DE JAVÉ

Por Neuzamaria Kerner


Os sem-terra, sem-teto, sem-comida, os sem-patrimônio-histórico, os sem-camisa, os sem-tudo-o-mais. Os moradores do Vale do Javé só têm a vida que pisa descalçamente num pequeno povoado sertanejo. Não têm história alguma que possa elevar o vilarejo à condição de existente.

Terra: sete palmos necessários e olhe lá; teto: submoram subhumanamente; alimento: pode ser que cestas básicas caiam do céu; roupa: subvestem; sem-história: subvertem. Inventar é preciso para evitar o naufrágio iminente do fictício Vale de Javé, no sertão baiano. Como registrar de forma escrita o que se inventa quando não se pode escrever? Com sabedoria, Antonio Biá (José Dumont) diz: “uma coisa é o fato acontecido, outra é o fato escrito” que perpetua a memória da humanidade, seus rastros, suas lendas...

Em Lascaux (França) homens traçaram seus primeiros desenhos e nós aguardamos 17 milênios para que se iniciasse a maior das façanhas dos habitantes deste planeta Terra: a escrita.

É longa a história da escrita, é lenta e complexa e se entrelaça com a história do próprio homem pelo que ele produz na oralidade. Linguagens diversas substituíam a escrita, no passado, porém Javé está séculos à frente da Suméria com seus símbolos múltiplos. Javé é aqui e agora.

Somente Biá dominava a “escrita dos deuses”. Os outros mortais dominavam a oralidade inventiva para criar versões diferentes, conforme cada narrador, a fim de impedir a construção da represa que afogaria o Vale de Javé.

Ao criar versões diferentes para comprovar que o povoado possuía um patrimônio histórico, ou seja, a própria história, os moradores lançam mão da memória – inventada ou não – para traduzirem oralmente sua bagagem histórico-cultural e suas histórias vão se interligando e se complementando para que seja criado um texto que produza sentido e prove que aquele povo naquele universo merece ser perpetuado.

Se a história escrita é documento, de que vale, então, a oralidade? Para evocar as lembranças e não deixar que uma história se perca no campo do individual e ganhe força na memória coletiva que mantém um grupo coeso. Assim fazem os povos de línguas ágrafas que são donos de suas lembranças e as mantêm vivas de geração em geração e, nem por isso deixam de ser legítimos ou se deixam sucumbir pela modernidade, que pode afogar a criatividade livre dos padrões exigidos pelo que chamam de mundo moderno.

O Vale de Javé é engolido pelas águas. “O livro da Salvação” termina não sendo escrito, mas a memória do povo é o próprio livro que flutua e permanece, porque a oralidade também tem o seu jeito simples de documentar. O filme termina exatamente no local onde se imagina que há somente silêncios; no cemitério. Mas há de se ter a certeza que os mortos, ao seu modo, misteriosamente, também falam.






JANELA POÉTICA (II)




Foto: Leila Lopes



MEMÓRIA

Leila Lopes



Escuros os cantos da memória

como uma cidade revelada
entre sombras.

Alma antiga debruçada em janela.
Silenciosa,
escuta o som do dia: pedaços do ontem.

Sente o laço apertado.
Desperta por leveza de cores.

Do traço gravado de outros tempos
revive o amor.


(
Leila Lopes é graduada em Letras Vernáculas (UFBA) e Comunicação Social - Produçâo Editorial (FHR). A sua escrita é por um mergulho profundo e a fotografia por uma compreensão dos sinais, acontecimentos e formas do mundo e sua diversidade. Significa fazer parte, envolver-se)


Mais sobre a autora, em:

In Margens
Focando

Palavra e Destino





FRAGMENTO



DIÁLOGO KARIM / LEILA


Karim aproveita bem o tempo de espera. Por um momento consegue falar com Leila a sós quando Sharifa desaparece para perguntar sobre algo num balcão com uma fila comprida.

- Qual é a sua resposta? – ela pergunta.
- Você sabe que eu não posso te responder -, ela diz.
- Mas o que você quer?
- Você sabe que eu não posso querer nada.
- Mas você gosta de mim?
- Você sabe que eu não posso ter opinião sobre isto.
- Você vai aceitar se eu pedir a sua mão?
- Você sabe que não sou eu quem decide.
- Você quer me encontrar de novo?
- Não posso.
- Por que você não pode ser um pouco gentil? Você não gosta de mim?
- A minha família é quem decide se eu gosto de você ou não.”


* O Livreiro de Cabul, Asne Seierstad, ed. Record, pg 306.





Foto: Leila Lopes






OUVIDOS ABERTOS (I)

Por Fabrício Brandão



ACID X – UMA GERAL




Conduzidos pela bela voz de Helena Cutter, os cariocas do Acid X constroem um disco bem trabalhado e com melodias agradáveis. Uma geral abusa acertadamente de bons arranjos, que esbanjam qualidade com trompetes, violinos e bases eletrônicas bem típicas do drum’bass. Dialogando com letras leves e que abordam o universo das relações, a banda está longe de cair num lugar comum, pois sabe dosar as mensagens com os tons melódicos bem estruturados. Faixas como Pára-quedas e Schultznietsin is down destacam os apuros musicais do grupo. Outro ponto máximo do disco é a música Ouvindo Orixas, que traz um misto de hip hop, eletrônica e um solo magnífico de trompete. É, com certeza, um grande álbum para completar a pilha de discos.






JANELA POÉTICA(III)



ÁGUA VIVA

Alba Liberato


Matéria de ver-me-envolve a partir da raiz do pêlo
aflorado poro a poro. Poreja no continuum do tempo
o que em mim compreende substância corpórea.
O corpo ressuma o vivido
e nem que minhas palavras queiram dizer
outra coisa, sou trans
forma do ser que sou. Difícil consiste espalmar-se
credita, sístole/diástole de água viva navegando
o presente configurado. Na extensão do corpo
torna-se crespo o revestimento do que teme,
poros arrepiados, autônomo contorce me indispondo
como se a água não fosse fluida estrada.


(Alba Liberato vem produzindo textos desde a década de 60, incluindo estórias populares do Nordeste para cinema de animação, tendo realizado inúmeros filmes curtos e o longa metragem BOI ARUÁ, que carrega no seu lombo prêmios nacionais e internacionais. Água viva faz parte do livro RETRATO EM SI – Coleção Poiuy – Coordenação Editorial: Antonio Brasileiro – Bahia/1999)





Foto: Leila Lopes








TEMA EM DEBATE: O TEATRO DO POVO


O TEATRO MUNICIPAL JOÃO CAETANO DE ITABORAÍ

Por João Pedro Roriz



A explosão teatral adveio do povo e isso pode ser observado através do estudo da história do teatro. Essa versão de teatro elitista que está em voga hoje apareceu com os atores personalistas franceses no fim do século XIX, tendo em Sarah Bernhardt a sua principal diva. No Brasil foi o caso de João Caetano, ator romântico que lotava as apresentações do Teatro São Pedro que futuramente receberia o seu nome como homenagem póstuma. João Caetano nasceu em Itaboraí (RJ), onde não havia um teatro público. Sua vinda para o Rio de Janeiro foi imprescindível. Vendo a necessidade de criar um centro teatral em seu ninho, Caetano fundou o Teatro Municipal de Itaboraí, a fim de dar ao povo daquela cidade algo de valoroso em reconhecimento por sua formação.

Estive no Teatro Municipal de Itaboraí em 2005 com o espetáculo de minha autoria “Carmen, O Musical”. Tinha uma reunião com o diretor do teatro – um lutador pelas artes na cidade, mas não sabia como chegar no local. Fui à praça central e perguntei a duas meninas que estavam com o uniforme da escola pública, sentadas no banco e indaguei onde ficava o Teatro Municipal da Cidade. As duas bateram cabeça, olharam ao redor e procuram resposta. De certo nem sabiam que existia um teatro naquela humilde cidade. Uma delas olhou para trás e disse “acho que é aquele prédio branco ali”.

De fato. Entrei no prédio e fiquei chocado com a beleza das escadarias que dariam acesso à sala principal. Porém a alegria durou pouco: a cortina ruim, não havia rotunda (pano preto de fundo de palco), tudo meio velho, meio acabado e no rosto do diretor do teatro um sorriso de franco embaraço. Ele já havia feito de tudo por aquele local, mas não dependia muito dele e tampouco da Secretaria de Cultura, que, com a pouca verba que dispunha, tentava manter a dignidade daquele patrimônio brasileiro. Aquilo era obra do povo que esquecera de suas raízes, delegando o Teatro do Povo às elites para depois reclamar do preço do ingresso nos teatros particulares ou da falta de cultura em suas comunidades.

Apresentamos “Carmen – O Musical”, com 26 atores no Teatro Municipal de Itaboraí e a despeito do grande sucesso que alcançamos em outros locais e da grande divulgação que fizemos naquela cidade, foi um grande fracasso de bilheteria, o que nos fez cancelar a última apresentação.



(João Pedro Roriz é ator, jornalista e escritor. Autor dos livros “A Poesia Teatral” (Íbis Libris) e “História da Arte Dramática”)


E-mail : jproriz@yahoo.com






Foto: Leila Lopes






PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Na litorânea Ilhéus, de Jorge Amado e de todos nós, Herval Lemos, à época criança, nascia no seio de um ambiente povoado pela música. Os sons vinham da vitrola marcada por vozes como a de Nelson Gonçalves e outros tantos. Aquele menino, que fazia do rádio uma espécie de travesseiro, hoje é um homem que percorre o caminho musical. Cumpre seu ofício apaixonado de levar a força das canções para os mais diversos ambientes por onde passa. Munido de seu violão, compõe e canta, acreditando que se dedicar a uma atividade só vale a pena se alma e o coração puderem fazer parte dessa escolha. Uma de suas máximas é assumir que ouve música com os ouvidos e não com os olhos. Bastante simpático, Herval aceitou o convite do Diversos Afins para falar um pouco sobre a sua carreira. Aqui, ele nos conta sobre um tudo possível, desde origens até a produção de seu primeiro disco, HERVAL LEMOS, um trabalho fruto de gente com boa vontade, belas composições e arranjos bem elaborados.





DA – Como surgiu essa companheira inseparável em sua vida, a música?

HERVAL LEMOS – Todo mundo gosta de música e sonha com a coisa de tocar um instrumento. Eu ficava admirado com o rádio do meu tio, tanto que o fazia de travesseiro. Eu me imaginava tocando aquela guitarra que saía dali de dentro. O primeiro contato com a música foi através de meu irmão, em casa, aprendendo a tocar Pra não dizer que não falei das flores, do Geraldo Vandré. Até que um dia apareceu um piano lá em casa, no qual todos ali tinham acesso. A partir daí, já me via acompanhando as músicas pelo ouvido. Passei um tempo tocando piano até poder descobrir o violão. O fato de ter sido chamado por um amigo para tocar teclado numa banda fez com que eu me interessasse em comprar uma guitarra. Só depois de ter aulas de violão, foi que consegui um domínio maior dos acordes. Então, eu ia a rodinhas de música, entre amigos, ouvia os outros tocarem violão e aprendia. Depois pintaram as primeiras inspirações para compor. Fui incentivado pelos amigos, que também se comportavam como críticos do meu trabalho. E tudo isso com o desejo de me profissionalizar.

DAVocê é um daqueles operários da noite, o que faz lembrar a bela canção de Milton, Nos bailes da vida, remetendo à idéia de que o artista tem de ir onde o povo está. Como você se relaciona com suas andanças musicais?

HERVAL LEMOS – Tenho a impressão de que a música veio atrás de mim. Tudo é musical em mim. Sempre gostei da noite, de farra. E noite é música. Quando eu me juntava com a noite, sempre procurava selecionar o melhor da MPB e da música internacional. Passei a me interessar em estudar, pesquisar, conhecer os artistas em geral, principalmente os da MPB, não apenas como músicos, mas como gente mesmo, sentindo-os de perto. Considero-me um fã integrado, conhecedor dos artistas.

DA Falando de influências, quais delas você guarda para o seu ofício?

HERVAL LEMOS – Quando conheci a música a fundo, ainda criança, meu contato era o samba, mesmo ouvindo outras coisas. Mas o que achava legal, mesmo, era o samba. Ouvia de tudo um pouco. Foi ouvindo Matita Perê, de Tom Jobim, que despertei para o cantar. Eu ficava ali, acompanhando Tom cantar, tentando pegar a música. Também vivi uma fase influenciada pelo rock brasileiro dos anos 80. De uma maneira geral, é a Bossa Nova quem permanece como grande influência pra mim. Como compositores, sempre me identifiquei com Chico Buarque e Caetano Veloso. Procuro ouvir as coisas atuais e ir mesclando as novidades.

DADepois de alguns anos de carreira, surge um primeiro disco. Qual a dimensão disso na sua vida?

HERVAL LEMOS - O disco surgiu com a idéia de ser um trabalho comercializado em barzinhos. Um amigo músico teve a idéia de gravarmos em estúdio. Então, o CD acabou sendo um encontro entre amigos, tanto que um título provável poderia ser Fraternal ou Ganhando experiência. Acho que todo artista tem a sensação de que nem tudo está perfeito. Ainda tenho esta impressão, mesmo sabendo que muita gente gostou do disco. Ainda posso melhorar e não é à toa que considerei o CD experimental. O disco foi feito na cara, coragem e amizade, pois o profissionalismo da produção local ainda é deficiente. Posso até fazer música comercial, mas, em primeiro lugar, procuro realizar algo que toque meu coração. Tento ser verdadeiro comigo, principalmente quando se trata de música.

DASeu disco revela uma seleção apurada de canções juntamente com arranjos muito bem trabalhados. Pode-se dizer que o que está nele se aproxima bastante do Herval que toca na noite?

HERVAL LEMOS – Sem dúvida. Até porque os arranjos foram feitos por mim e por pessoas que já me conheciam, e muito, musicalmente. E eu não tive preocupação nenhuma em deixá-los à vontade. A coisa foi fluindo sem estresse, parecendo que já estava tudo pronto. Os músicos chegavam, surpresos e estacionavam seus instrumentos. Chegavam, gravavam e pronto. Porém, simples não foi. Se tem algo errado no CD a culpa foi da pressa, mesmo sabendo que ele demorou mais do que muitos produzidos por aí.

DAEm seu disco, canções como “Sexo pudor” e “Afloração” revelam um cuidado com os sentidos poéticos. Quais caminhos você costuma percorrer quando compõe?

HERVAL LEMOS – Geralmente alguma coisa que eu vi, aconteceu ou passou por mim. Também posso criar em meu imaginário, mas normalmente está no que vivi.

DA Trilhar caminhos culturais no Brasil é uma tarefa e tanto, já que poucos conseguem alguma projeção. Como você encara tudo isso? Almeja grandes pretensões com sua arte?

HERVAL LEMOS – Não tenho. Até já pensei e sonhei. Sonhava com a possibilidade de sucesso, porque seria uma prova de acerto. As pessoas querem ver resultados, mas, independente disso, o que deve prevalecer é o amor pela profissão. Prefiro ser um músico que enobrece a profissão. Lembro da frase: “A minha oração é a música e a minha religião é o sorriso”. Hoje em dia, com os pés no chão, a felicidade é fazer o que gosto e mesmo sem o retorno financeiro, pois não me vejo fazendo outra coisa. Sinto-me feliz porque a música fará parte de mim eternamente.







Para fazer o download desse disco, clique no link abaixo e siga as dicas.

HERVAL LEMOS


1- Após clicar no link, selecione a opção FREE, que aparece no retângulo inferior direito da tela.
2- Aguarde a contagem do tempo até que apareça o código a ser digitado.
3- Digite o código fornecido e salve o disco em seu computador.






JANELA POÉTICA (IV)


OUVINDO...

Neuzamaria Kerner


Ouço a chegada
de quem nunca chega.
Ouço a voz de quem
comigo não fala.
Ouço o passado se afastando
e me deixando só
cada vez mais.

Eu na beira dos olhos - águo
Eu na beira da boca - engasgo
Eu na beira da terra - broto
Eu na beira do Eu...
silencio.







Foto: Leila Lopes






SONHO

Fabrício Brandão


Uma sala e seus ambientes. Luz esparsa cobrindo todos os espaços em redor. Todos caminham como se partissem rumo ao largo de memórias perdidas. Os instantes são marcados pelo compasso de altas respirações. Nada existe. Um silêncio ininterrupto que fala mais alto a qualquer berro desesperado. Todos brigam sem se tocar. Há diálogo na guerra das mentes. No jardim da lembrança, objetos, retratos, adereços, um rosto embalsamado de mãe.






Foto: Leila Lopes






TRILHA PARA IGATU

Por Bolívar Landi


Entre o Natal e o Reveillon surgiu a oportunidade de voltar à Chapada Diamantina. Aqueles que conhecem a região sabem o prazer e a viagem espiritual que este lugar encantado consegue despertar em seus visitantes. Não é à toa que ali se encontram pessoas das mais diversas crenças, cientistas, ufólogos, gente de toda parte em suas buscas particulares que se entrelaçam e se confundem nas mágicas trilhas da Chapada.

Fiquei com amigos muito queridos, hospedado em uma pousada próxima à cidade de Andaraí, a 2ª mais importante da Chapada. O diamante ainda tem um peso cultural muito forte na cidade. Hoje é proibida a sua extração mecanizada, mas encontramos ainda garimpeiros que possuem permissão para minerar à moda antiga. Visitamos na cidade uma oficina onde é feita a lapidação das pedras brutas. Um processo engenhoso, que exige do profissional anos de preparação, cuja técnica é passada de pai para filho. São necessárias exatas 58 facetas para extrair do diamante todo o seu brilho e encanto. Outra visita interessante é à sorveteria da cidade com seus sabores exóticos e deliciosas caldas feitas com a própria fruta que são de enlouquecer qualquer pessoa. E por falar em loucura, não deixem de, ao menos, experimentar o sorvete de cachaça. Duas bolas são suficientes para derrubar um elefante.

No entanto a visita indispensável e inadiável é à Vila de Igatu, antiga Xique-Xique, hoje distrito do município de Andaraí. Igatu é também conhecida como a Cidade das Pedras ou Cidade Fantasma. O primeiro nome se deve à construção das casas, feitas quase que exclusivamente com pedras. Felizmente este tesouro está hoje protegido e até mesmo as novas construções devem seguir o estilo das edificações antigas. Passear pelas ruas de Igatu parece nos transportar para uma outra época.

O segundo nome diz respeito ao abandono do local. O povoado já chegou a possuir cerca de 6.000 habitantes e hoje abriga pouco mais de 400 pessoas. Há uma grande quantidade de ruínas de pedra espalhadas por toda a Vila. O guia contou-nos uma história impressionante. Disse-nos que durante a exploração de diamantes, foi descoberto um filão do precioso mineral passando debaixo de uma das ruas principais da antiga Vila. Pasmem! Haviam construído as casas em cima dos diamantes!!! E, assim, muitas casas foram desmontadas para que se iniciasse a exploração no local.

Há ainda uma opulente Igreja, construída em um local amplo e arborizado, que contrasta com a singeleza do povoado. Esta construção pode nos dar a dimensão da importância e promissão que Igatu já chegou a possuir um dia. Ao lado da Igreja podemos apreciar um pequeno cemitério em estilo Bizantino, nos mesmos moldes do famoso cemitério encontrado na vizinha cidade de Mucugê.

Almoçamos em um restaurante/pousada cuja comida, tentadoramente saborosa, era servida voltada para um daqueles antigos quintais da infância. Ao lado do restaurante, fomos comprar uma sobremesa em um local que se arvorava em “ter de tudo”. Encontramos deliciosas cocadas e o seu dono, Seu Amarildo. Assim como a água e suas corredeiras emergem surpreendentemente das terras áridas da Chapada, fascinando a todos, personagens incríveis, admiráveis mesmo, surgem de onde menos se espera.

No ambiente, revistas antigas, parede ricamente decorada, souvenirs, doces... Ao folhear as revistas, me impressionei, pois todas tinham algo em comum: traziam Xuxa na capa. Eram dezenas, talvez centenas. Seu Amarildo possuía todos os discos da cantora em LP, quase todos em CD. Ele contou que era fã da artista e exibia na parede, com orgulho, bilhetes mandados pela apresentadora, através de conhecidos que foram em seu programa, agradecendo o carinho que tinha por ela. A fama dele já se espalhou pela região. Na parede viam-se recortes de jornais locais falando sobre a sua excentricidade e afeição pela artista.

Mas as surpresas não pararam por aí. Na parede havia, ainda, o anúncio da venda de livros sobre a história da cidade. Como bom estudante de História, interessei-me imediatamente por aquilo. Seu Amarildo esclareceu que ele mesmo escrevia os livros e, acreditem, fazia todas as cópias com a própria mão! Coisas impressionantes eram ali relatadas. Ficamos sabendo, por exemplo, que a cidade possuía 428 habitantes; quantos eram homens, quantas mulheres; quantos eram conhecidos através do apelido; qual o pai que teve filho mais cedo: 14 anos; qual a mãe mais nova: 24 anos. E, assim, hábitos, costumes, formas de lazer e uma sucessão de curiosidades fascinantes eram resgatados e preservados por aquele autor desconhecido em uma terra há muito esquecida.

A Chapada tem mesmo o dom de se mostrar cada vez mais surpreendente e reveladora. Seus silêncios, a fala e o modo de vida simples de seus moradores servem como um contraponto para os nossos gritos internos e para o ritmo frenético e atribulado que vivenciamos nas grandes cidades. Uma viagem interior e inesquecível.


(Bolívar Landi é colaborador do Diversos Afins)





OUVIDOS ABERTOS (II)

Por Fabrício Brandão





CRIS DELANNO – CRIS DELANNO


Aparelho de tv ligado para as moscas e, de repente, ouço uma bela voz percorrendo os espaços. Levantei-me e fui conferir a dona daquela voz vibrante e firme. À frente do já aqui comentado Bossacucanova e, pasmem, cantando para uma platéia de um concurso de Miss Brasil, Cris Delanno desfilava seu talento. Foi assim que conheci o trabalho dessa grande cantora e, melhor ainda, acompanhada daquele belo conjunto. Neste disco que agora comento, a intérprete realiza um trabalho solo e que conta com uma ótima seleção de músicas. Além de visitar suas influências habituais bossanovistas, ela revê nomes como Caymmi, Vinícius de Moraes, Baden Powell, João Bosco e Herbert Vianna. Um disco gostoso de escutar e, melhor ainda, com cara de Brasil.






JANELA POÉTICA(V)


NÉCTAR DA MEMÓRIA

(Para Luciano Passos)

Lita Passos



No espaço onde águas são estrelas
onde cortejos de carneiros são céus,
tua memória é bailarina em mim.

Na flor do meu coração,
o néctar é tua estranha doce presença.
Tua eternidade. Tua luz.

Deus bailarino.
Pássaro.

No espaço onde florestas e bichos pairam,
flores e seres imaginários matizam,
tua memória é cuidada,
no fogo que arde em mim.



(Lita Passos diz que sua poesia passeia livre entre as grades sensíveis da palavra. No seu texto reverbera o canto mais delicado da raiz do rosário de lembranças... Sou uma reticência fluindo em versos. Publicou: Mão Cheia (2005), Nosotros (1996), Flores de Fogo (1994), entre outros, inclusive tem publicações em Revistas Literárias)







Foto: Leila Lopes






A SOMBRA E O POETA

Por Carlos Amadeu Botelho Byington



Os poetas sempre descreveram a luz e a escuridão da alma e, por isso, não é surpresa que Affonso Romano de Sant’Anna tenha tido a inspiração de escrever sobre a Sombra. Inspiração ou tentação?

No conjunto dos poemas (48), a Sombra apresenta-se suavemente disfarçada, expondo seu lado terrível apenas em alguns poucos versos. No mais das vezes, ela se mostra irreverente ou esquisita, até mesmo exótica e engraçada, atiçando sedutoramente nossa curiosidade para conhecê-la mais. Será essa uma intenção sub-reptícia durante sua incursão na alma do poeta?

Cada poema é uma pequena história, na qual a Sombra surge de forma inesperada e surpreendente. Vamos aos poucos construindo a certeza de que a Sombra é nossa companheira e estará sempre conosco, irresistível e inevitável. (O Homem e sua sombra, ed. Alegoria, 2006).

(O autor é Médico Psiquiatra, membro da Sociedade Internacional de Psicologia Aplicada e criador da Psicologia Simbólica Junguiana)

*****




Foto: Leila Lopes



QUATRO SOMBRAS DE AFFONSO


O HOMEM E SUA SOMBRA - 1


Era um homem com sombra de cachorro
que sonhava ter sombra de cavalo
mas era um homem com sombra de cachorro
e isto de algum modo o incomodava.

Por isto aprisionou-a num canil
e altas horas da noite

enquanto a sombra lhe ladrava
sua alma em pelo galopava



O HOMEM E SUA SOMBRA-4

Um homem deixou de alimentar
a sombra que transportava.
Alegou razões de economia.
Afinal para quê
de sobejo levar
algo que o duplicava?

Sem sombra, pensou:
melhor carregaria
o que nele carregava.

Equivocou-se. Definhou.

Descobriu, então,
que a sombra o sustentava.



O HOMEM E SUA SOMBRA-9

Era um homem com uma sombra feminina.

Com ela se dava bem
-os outros é que estranhavam.

Olhado de perfil
parecia uno, duro, macho.

Mas nela cresciam seios
e era como se a sombra
à revelia do homem
- no escuro engravidasse.



O HOMEM E SUA SOMBRA - 12

Era um homem
que não podia amar ninguém
pois entre ele e o objeto amado
a sombra se intrometia
e perturbava.

Tentava afastá-la
deixá-la em casa,
mas a sombra se dava conta
e como uma cadela
o seguia
e quando ele ia beijar a amada
nos seus pés urinava.
Pior,
quando o homem se deitava com a amada
era a sombra que gozava.





DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Fabrício Brandão




Narradores de Javé. Brasil. 2003.



José Dumont interpretando o "escrevedor" Biá


É possível transcrever a oralidade de um povo? Eis a pergunta que parece atravessar o filme da talentosa diretora Eliane Caffé. Movido por um grande tema, Narradores de Javé mostra a tentativa dos habitantes de uma pequena cidade do interior do Nordeste, em salvar suas moradas da invasão das águas de uma usina hidrelétrica. Como a única forma de tentar escapar do destino feroz é provar que a cidade possui algum patrimônio histórico-cultural de valor, os moradores se reúnem e decidem que a sua tradição oral pode ser o instrumento de redenção. A partir daí, começa uma verdadeira cruzada pela salvação do lugar. O hilário Antonio Biá, interpretado magistralmente pelo grande José Dumont, é escolhido pela população para, através de um registro escrito, materializar as histórias contadas por cada um dos moradores. Nesse ínterim, o filme desfila toda a sua força e beleza, pois somos levados a penetrar no ambiente que serve de alicerce ao imaginário popular, sobretudo daquilo que é considerado como a principal riqueza de um povo. Afora as brilhantes atuações de atores como Dumont e Nelson Xavier, chama a atenção na obra a participação de pessoas que vivem no local escolhido como locação. Essa participação dos “reais” compõe uma outra característica forte do filme, a fusão entre o ficcional e o documental. Para consolidar essa opção de usar gente do local, a equipe de produção do filme trabalhou com esmero, ensaiando passo a passo as falas e demais detalhes cênicos. Narradores de Javé, com certeza, é uma dessas obras cheias de trunfos, marcada por expressões simples e verdadeiras das facetas do povo brasileiro. Quanto à pergunta feita no início do texto, tente responder quem assistir ao filme.




OUVIDOS ABERTOS (III)

Por Fabrício Brandão



APOLLO NOVE – RES INEXPLICATA VOLANS




O produtor Apollo Nove nos leva a uma viagem eletrônica suave. O disco parece remeter a uma espécie de marcação dos espaços musicais viajantes, algo traduzido numa sensação de aproveitamento do instante, do chamado downtempo. Trata-se de um trabalho refinado, fruto de uma busca em sair dos ditames convencionais, uma vontade pelo novo. Com efeitos sonoros e sensoriais diversos, Res Inexplicata Volans reúne um time de cantores e músicos de primeira mão, fazendo algo totalmente diferente dos seus habituais. Dentre os nomes que aqui passam, posso citar os de Céu, Seu Jorge, Fred 04(numa interpretação poética de peso), Cibelle, Thalma de Freitas, Igor Cavallera e outros. Um disco macio, leve, bem elaborado e feito sob medida para ampliar os espaços sensíveis de nossa existência. Sejam bem-vindos à contemplação do belo.





JANELA POÉTICA (VI)


SEU SONO

Cláudia Rangel

Nada me prende tanto a atenção quanto o que vem de você;
Seu corpo perfeito no abandono do sono
Despertando em mim desejos esquecidos...
Não quero seu despertar.

Esse amor povoa meus sonhos, mesmo acordada.
É meu desejo secretamente acalentado,
cuidadosamente escondido,
vício solitário que alimento sem remorsos e sem culpas.

É minha canção de amor, suave, leve e melodiosa.
É meu vinho tinto numa noite de inverno,
encorpado, quente e forte.
Minha cerveja de verão, leve e refrescante.
É meu livro de cabeceira, intrigante e confortável.
Penumbra de luz de velas e sol de verão.
É banho de chuva no meio da tarde quente.

Seus grandes olhos pretos olham em outra direção;
Mas sua carinhosa voz me embala,
Me adormece para tudo que é externo ao meu amor
E penetra até meu coração.

Você, alheio, nem sabe o quanto reavivou em mim essas doçuras
esquecidas pelo tempo e a solidão.



(
Fotógrafa, Cláudia Rangel vez por outra brinca de criar imagens com palavras.)





Foto: Leila Lopes


 
publicado por Fabrício Brandão
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