19 de ago de 2007,15:30
DÉCIMA SEGUNDA LEVA
Foto: Antonio Paim


Tenho segredos que me sabem.
Todos eles tidos em mãos ocultas,
Circundam um tempo vazio de horas.
Então, adormeço para fazer frente aos desejos,
Catando a outra borda do sonho.
Pequeno grande objeto estranho de mim,
Deixo o sol se espraiar sobre mentiras,
Uns tantos prediletos brinquedos de vida.

(A Ponta da Estrela, Fabrício Brandão)






CICERONEANDO

Doze ciclos agregam contingentes de palavras, outras tantas manifestações para Levar. Os laços pela grande rede aumentam sua capacidade de promover o encontro de novas expressões, mostrando que os meios eletrônicos afirmam-se cada vez mais como um inevitável marco editorial. E é lendo um mundo de escritos que nos deparamos com o desengavetar de letras. Outros segredos nos são revelados nas linhas poéticas de Graça Carpes, André de Leones e Gilbert Antonio. A temática das nuances humanas está presente na exposição de fotos do baiano Antonio Paim. A partir de agora, o quadro APERITIVO DA PALAVRA indicará caminhos de leituras, auxiliando a divulgar novos e anônimos escritores. A prosa incisiva de Mariza Lourenço cultiva um jardim de sentimentos nossos, enquanto o contista Rodrigo Melo nos embebe em mistérios. Abraçada à sensibilidade, uma matéria sobre a arte digital do designer Marivaldo Nascimento. Com as veias dilatadas, o sangue cultural corre transportando vastos signos. Sejam bem-vindos à navegação!

*Comentários podem ser feitos pelo link EXPRESSARAM AFINIDADES, que está no final da Leva.




121

Mariza Lourenço



Ontem ele me matou pela décima e última vez. todas as outras nove foram tentativas e em cada uma delas eu morri um pouco. ele também morreu mas foi por conta própria motivo pelo qual não vai a julgamento só eu e a minha vida eu e a minha história eu e meu passado inteiro. ele escolheu e executou nossos destinos o dele e o meu.

engraçado: ele nem perguntou se podia.


(Mariza Lourenço é mãe, advogada criminalista, feminista e escritora inédita em livro. Co-edita a Germina - Revista de Literatura e Arte e Escritoras Suicidas)






Foto: Antonio Paim




JANELA POÉTICA (I)

O PORRE DOS DEUSES (POEMA PAGÃO)

Neuzamaria Kerner


Quando os deuses estão enfadados
jogam xadrez
das três às seis.
E ainda com enfado
(camuflado)
brincam com as pedras
(nós, pobres mortais)
até não quererem mais.
Depois tomam vinho de graviola
(que acham uma delícia)
saúdam Baco,
ligam a vitrola
e dançam. E dançam.
Volta e meia voltam
e mexem com as pedras do tabuleiro
não dando à noite tréguas
(deuses bêbados e bestas éguas).
No dia seguinte, o dia inteiro
continuam a jogar
sem nem um pouco se importar
se choram as pedras.
Não se importam.
(e estendem a farra após as seis);
mexem com o mundo,
sopram ventanias,
e em suas sádicas fantasias
(sacrílegos deuses!)
espetam os sacrossantos corações
das pedras-humanas
com as mundanas zarabatanas
e suas flechas envenenadas.
Depois de passado o enfado
tudo volta ao normal
(para eles)
e nem sabem se a algumas pedras
fizeram mal:
se cabeças ficaram confusas
se musas caíram do pedestal,
se do ventre nasceram feras,
se com a terra seca morreram as esperas,
se esperanças faliram,
se corações explodiram.
E com o caos estabelecido
fazem rir as carpideiras
e cair do muro as trepadeiras...
e não vêem de dentro do porre
(plenos de bebedeira)
se o sol nasce no ocidente
e se a lua inconsciente
depois com coma morre.
De nada querem saber,
só pensam no puro prazer
de quebrar a rotina
(coisas de deuses desocupados).
E brincam. E brincam
inocentemente (coitados!).
Ou coitadas são as impotentes
pedras do jogo
vítimas dos deuses inconseqüentes?

Não somos nós os deuses sem siso?
(dupla face?!).

Bem, não se questiona de deuses o juízo.
Mas o que se sabe
(marionetes também não esquecem)
que coisas de louco acontecem
quando os deuses estão enfadados
e por tempo indeterminado
resolvem jogar xadrez.




Foto: Antonio Paim




OUVIDOS ABERTOS (I)

Por Fabrício Brandão


ISAAR – AZUL CLARO



O azul que reflete temáticas sublimes e cheias de vida ganha corpo e invade os sentidos de quem descansa nas paragens sonoras conduzidas pelo trabalho dessa pernambucana. Azul Claro, carro-chefe do primeiro disco solo de Isaar, espalha seus matizes em torno de um sentimento que parece querer abraçar um mundo de coisas ao redor, reinventando uma atmosfera na qual traços simples da vida ganham corpo. Num disco cujos arranjos captam os mais diversos ritmos populares, dentre eles o coco e o maracatu, a cantora faz uso de letras que estabelecem estreitas relações com elementos do imaginário nordestino. Canções como Borboleta Amarelinha e Flor de Capim exalam uma perfeita mistura entre a singularidade regional e os sentimentos pertencentes a todos nós. Em Ciranda da Madrugada vemos a beleza de um coro de cantiga encerrando os signos da canção. Além de ter integrado a banda Comadre Fulozinha, com a qual gravou dois discos, Isaar guarda em sua carreira parcerias com Antonio Nóbrega, Mundo Livre S/A e Dj Dolores. Azul Claro é um disco em que os sons não são apenas meramente audíveis, pois estes conseguem sugerir imagens, plásticas próprias e outras tantas capazes de serem inventadas pelo nosso universo pessoal de signos.




JANELA POÉTICA (II)


QUARTA-FEIRA EM CINZAS

André de Leones


O sol cauteriza o talho aberto na cabeça
e o suor que escorre
tem a indecência do sangue
com seu modelo brutal de vermelho,
de um rubro quase negro.
Mas há esperança para certas partes,
ainda que sempre
cortem os membros errados.
E no final é tudo teatro,
braços e pernas e cabeças nas calçadas
e o carnaval a escorrer por aí,
entupindo bueiros.

(André de Leones nasceu em Goiânia, em 1980. É autor do romance Hoje está um dia morto (Record), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005. É um dos participantes do projeto Amores Expressos. Vive no litoral paranaense. O poema acima integra o livro Mielomas de Ocasião & Algum Turismo Acidental, ainda inédito.)






Foto: Antonio Paim




CIRANDA DOS PEQUENOS DELÍRIOS

Fabrício Brandão


Quando infantes, primeiros conhecimentos de um fundo de quintal. Casa de vó, bate-pés pelos corredores, cheiro de café quase no ponto atravessando tardes dos deveres. E depois, os dois brincam desgarrados em meio às velharias de um resto de casa. A atenção para o fato de que estão vivos só lhes é dada pelos longínquos barulhos desconhecidos. Giram, rodopiam em torno do pouco espaço do quartinho. Gritos: algo foi descoberto no universo do mofo. Reconhecem-se como filhos dos irmãos espalhados por aí. Perguntam pelos pais? Nada disso! Ocupados estão com as miudezas que explodem noutro mundo.

Então, quando um canto de sol lhes foi reservado, sentiram-se atraídos pela brincadeira que acha respostas pra tudo. Mostra aí tua vergonha para que eu possa ver direitinho, prima! E ela sente que domina a situação, mas, timidamente, ainda não sabe fazer o jogo das coisas sutis e difíceis. E fica um negócio de perceber o outro pelo cheiro das partes tocadas, pelo primeiro espanto que abraça o instinto. Como desejaram que a aula viva das coisas de amarrar gente jamais fosse interrompida. Nem sempre era estimulante viver esperando que os sons dos gigantes viessem lhes despertar daquela febrezinha boa de se deixar levar. Mas quando o nada vinha assim com sua aura dissimulada, todas as falas pequenas bradavam ecos de pequenos reinados. Mirar o outro nas ocasiões alternadas era um mero joguete de espantar curiosos, principalmente quando os deleites invisíveis eram todos servidos ali nas mesas de família.

Os enfrentamentos assombram ossos até certa idade. Melhor seria dar ouvidos aos conselhos antigos: cada qual no seu cada qual, repetia sempre a velha voz materna na cabeça do já grande e pequeno homem. E entre memórias e lençóis embaralhados, um novo e desprezível rosto surge a cada semana só para lembrar que o outro lado da cama existe para poucos. Vez ou outra, as boas esperanças vêm assim visitá-lo em dias imprevistos, rondando todos os cantos do pequeno apartamento seminu. A cura sinaliza auroras nos pequenos gestos de interpretar as companhias de solidão. Manias e repetições acabam mantendo a temperatura ideal para a velha cortina de sonhos sem validade. Os pés estão agora avarandados e ainda lhe resvala uma nesga de sol quente sobre o juízo volátil. Tudo isso para não se esquecer de que quando o telefone voltar a tocar, o pano não vai cair, nem tampouco as misérias todas. Apenas a sorte pode querer duelar por longa vida.

Quanto às duas pequenas criaturas, cresceram, pois, sem nunca trocar a velha mania de cultivar um átimo das delícias por rituais muito prolongados de abate.



Foto: Antonio Paim




JANELA POÉTICA (III)


QUASE UM POEMA

Graça Carpes


Cinco minutos para que possa te falar algo.
Por favor!
Não estanque o tempo nem trancafie as possibilidades.
Impregno-me de teu estímulo e nem sei de onde ou porquê surge tamanha força.
Apenas...
Ouça-me!
Anjos platinados desceram em legiões.

Direis:
És louca?

Não, anjos sim sob o comando de Da Vinci querendo cometer um novo batismo.
Cercaram-me quando fui ao banheiro; quase um fluxo de arte,
compreendes?
Eu estava nua e eles, todos, em véus de muitas cores.

Direis:
Surreal?

Não, anjos não pertencem ao surrealismo. Antes os demônios e meu diálogo seria mais amplo e o plano de cena, mais próprio.
Mas, anjos?
Com anjos emudeço.
Colei-me à parede e a água escorria do chuveiro.
Tentei fugir enfiando o pé no ralo. Mas, eles seguraram em minha alma
e como se o corpo fosse uma roupa aderente a ela, a ponta de minha extremidade negou desfazer-se.

Direis:
Quase morreste?

Não sei, não sei que gosto tem a morte; talvez seja feito uma lagartixa
a perder a pele e não sou réptil, ainda. Não saberia dizer-te.
Mas ouça, há mais.
Os anjos ecoavam cânticos, verdadeiras sinfonias como se Ravel e
Ludwig van Beethoven houvessem trazido seus salões e orquestras até
meu tão minúsculo e simples banheiro e ali, anjos e deuses possuíram-me

Direis:
Um bacanal?

Respondo-te:

Sim, Dioniso erguia suas taças; bacantes implantavam florestas.

Perguntareis:
E tu?

Eu?
Esperava por ti.

(Antes de tudo, poeta. Quando cheguei ao mundo, ganhei de presente a intimidade das palavras. E assim, aprendi a inventar mundos – e invento do sofrer à alegria. Quando rio de mim, sou clown e, na plástica, quando trabalho formas e cores, altero o mundo. E dei de andar seguindo a trilha das águas, desde o extremo sul do país. Sou Graça Carpes)




Foto: Antonio Paim







DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Fabrício Brandão


Baixio das Bestas. Brasil. 2007.



Somos um Brasil plural nas imagens de vida e bem que poderíamos parecer certinhos em meio a esta nossa continentalidade de existências. Ao que parece, nossa estética construída com as vontades de nação emergente vai sedimentando sorrateiramente certos vícios tradicionais de modelos sociais falidos e desalmados. Assim tomados, nossos olhos percorrem os planos intensos de Cláudio Assis, diretor que já nos envolvia desde o seu primeiro e belo longa, Amarelo Manga. O motivo? Perceber, numa pequena cidade do interior de Pernambuco, a reprodução letal de um anacronismo secular: a redução das existências de seus habitantes em torno de relevantes misérias cotidianas.

A história de Auxiliadora, uma garota obrigada a servir de mercadoria sexual gerenciada por seu avô, Seu Heitor, abre uma ferida humana quase incurável. Ao passo que revela lampejos de crueldade, reforça também a face hipócrita de se lidar com um mundo externo no qual se instala uma falsa normalidade. E Auxiliadora é a menina aparentemente resignada, que cuida forçosamente dos afazeres domésticos, além, é claro, de funcionar como escambo das torpezas sexuais do avô. Compondo a tríade central do filme, Cícero, personagem de Caio Blat, atravessa a trama tentando romper os domínios do velho Heitor a fim de possuir sua neta.


Mateus na pele do filosófico agroboy Everardo


Aqui, também, outros seres são mostrados em desventura. Exemplo disso está no decadente prostíbulo Baixio, lugar onde impera outro tipo atroz de violência: o esfacelamento de sonhos. As prostitutas da casa de Dona Margarida entregam seus corpos tentando alimentar últimas expectativas de vida. Do outro lado, estão os playboys do campo, encabeçados por Everardo (Mateus Natchergaele) e que promovem as mais perversas orgias no bordel. O líder desses agroboys (expressão usada pelo próprio Mateus para falar de seu personagem) serve como pano de fundo para uma ruptura na narrativa do filme, estabelecendo reflexões que vão além dos acontecimentos exibidos.

Tendo como cenário os canaviais da Zona da Mata Nordestina, o Baixio das Bestas é um desses lugares onde os equívocos são perpetuados em face de uma moral artificialmente inventada. E saber tocar nesse assunto sem insistir nos velhos modelos parece ser o grande mérito do filme. Aliás, os moldes decadentes existem, sim, e extrapolam a ficção. Quem tiver um pouco mais de disposição, basta olhar ao redor e irá enxergar legiões de poeira buscando abrigo nos cantos mais óbvios.





JANELA POÉTICA (IV)


Foto: Leila Lopes


SOMBRA

Leila Lopes


A noite traz lembranças da hora do sol,
do que queima os olhos,
do medo de ver além na claridade intensa.
De uma razão profunda.

Penso na queda,
uma penumbra que sabe a descanso, a bálsamo.
O abrigo aqui dentro depende da sombra
uma contradição, ofício da vida.

(Leila Lopes é colaboradora ativa do Diversos Afins)




DA TELA COM TINTA PARA O DESIGN GRÁFICO

Por Neuzamaria Kerner


Nas beiradas baianas do Rio Jequitinhonha, em Itapebi, Marivaldo do Carmo Nascimento observa o rio cheio passante e imagina o fundo, não só do rio, como o também fundo de todas as coisas e tenta entendê-las. Na parte mais abissal do rio, talvez existam até as sereias que permeiam o imaginário das crianças. Mas os barqueiros atravessam suas canoas e devem trazer as suas versões para as crianças das areias que não arriscavam mergulhos talvez por medo de serem engolidos pela boca faminta de um peral repentino.

No velho rio, o moderno já havia se instalado pelo olhar de Marivaldo, hoje artista plástico por hobby, especialmente por rejeitar as formas e convenções tradicionais para inovar com um modernismo colorido o que ele vira na concreta cidade com o rio da sua infância. Por isso, o artista se dedicar a pintar suas telas e, em seguida, adaptá-las para os olhares humanos via racionalidade e avanços tecnológicos. Daí, podermos inferir que o modernismo, representa, por bem ou por mal, a vitória da razão sobre a inspiração e concluirmos que, embora romântico, esse menino “rejeitou” o convencional e os modos tradicionais de expressão para retratar o mundo que, um dia, viu passar nas beiradas do seu rio, com o fluxo constante, e desaguou em Brasília, onde vive hoje como funcionário público (mais uma regra transgredida). Eis o artista!


Natal - Marivaldo Nascimento


Gombrich em História das Artes, comentando sobre o quadro Violino e Uvas de Pablo Picasso, nos diz: Por que não ser coerente e aceitar o fato de que nosso objetivo real é construir algo, em vez de copiar algo? Se pensarmos um objeto, digamos, um violino, ele não se apresenta ao olho da nossa mente tal o vemos com os olhos do nosso corpo. Podemos pensar, e de fato pensamos, em seus vários aspectos ao mesmo tempo. Alguns deles destacam-se com tanta clareza que sentimos poder tocá-los e manipulá-los. E, no entanto, essa estranha mistura de imagens representa mais o violino “real” do que qualquer instantâneo ou pintura meticulosa poderia jamais conter.”

Ao repensar as palavras de Gombrich, temo classificar a arte de Marivaldo como puro Cubismo Pictórico, que seria o desejo de transmitir a estrutura total do objeto, decompondo as formas em diferentes planos geométricos, como se estivesse sido contemplado sob diferentes ângulos de visão ou tivéssemos dado a volta em seu derredor. Também, classificar como puro Surrealismo seria perigoso porque nem todas as características desta escola estão presentes nos quadros de Marivaldo, levando em conta a idéia de que no surreal subjaz a noção de real, quando a imaginação é solta e o onírico fantástico se impõe. Lembremos de Salvador Dali para que possamos clarear nossa memória. Em verdade, a arte é arte e não precisa ter nomes ou classificações para que nos deleitemos com ela.

No entanto, não seria interessante dizer apenas que o artista em questão faz design gráfico. Ele se utiliza da linguagem tecnológica, com sua capacidade de criação, apresenta suas imagens feitas inicialmente em tela e óleo, numa outra versão que interage perfeitamente com o receptor da mensagem. Portanto, Marivaldo é a confirmação de que o computador, essa ferramenta bem moderna de trabalho, não é artista, não faz nada sozinho sem que a mão do ser humano sensível esteja diante de uma “tela” diferente.




APERITIVO DA PALAVRA


A INFÂNCIA DO CENTAURO

por José Inácio Vieira de Melo


A infância do Centauro é um mergulho na noite dos tempos. O centauro encarnado, escarlate, é a personificação de um vaqueiro aboiando sua memória de volta ao caos primordial, é a representação de um peregrino que questiona os códigos da existência e mergulha no sol para se purificar e descobrir-se o Cavaleiro de Fogo – aquele que sai em busca da consciência dos dias.

DILÚVIO*

O olho daquele pingo de chuva que vem caindo
revela a minha convicção: acredito no dilúvio.

Não tem mais jeito, para toda árvore que olho
só vejo tábuas para construir a arca da salvação.

Sei que todos riem de mim, fazem galhofa
e acham mesmo que estou com um chocalho no juízo.

Mas é que tive um sonho: um ser vestido de água
inundava o meu dia a minha noite a minha vida.


*Dilúvio é parte integrante do livro de poemas A Infância do Centauro. Para adquirir a obra, clique aqui




Foto: Antonio Paim




VISITA

Rodrigo Melo


Ele veio ontem, no final da tarde. Eu fazia algumas anotações. Entrou na sala, puxou uma cadeira e se sentou. Perguntou se eu me chamava Alberto Rivas. Eu disse que não e ele então ficou me encarando por um longo tempo, balançando a cabeça numa espécie de tique nervoso. Tinha os cabelos compridos, a barba por fazer e vestia uma camisa de botões branca, suja na gola, uma calça marrom e botas.

- Tem cigarro? – perguntou.

Tirei um cigarro do bolso, puxei o isqueiro e passei para ele. Seus olhos fixaram- se na chama. Era um sujeito estranho, logo desconfiei: quem sabe vinha de longe, de um deserto qualquer, trazendo consigo a poeira e algo mais perigoso e já não muito esperado. As surpresas da vida, quem sabe. Minha imaginação, de alguma forma, sempre fora fértil demais.

- Não sou fumante... – ele disse -... Alguns problemas, compreende?

- Hum-hum - respondi.

- Alguns probleminhas aí...

Ficou olhando a sala e tragando o cigarro, a mão tremendo no caminho entre a boca e o cinzeiro.

- E em que posso te ajudar? – perguntei.

- Depende – respondeu. - Você trabalha com o quê mesmo? Não li a plaquinha na entrada, desculpe.

- Sou corretor de imóveis. Meu nome é Rômulo Antunes. Tem na placa.

- Entendo, vende carros, casas...

- Só casas.

- Casas... Hum... Alguma de frente pro mar? Sempre tive vontade de morar numa casa de frente pro mar. Ter uma varanda, olhar o mar... Se algo desse errado, pegaria um barco e iria para o outro lado do mundo... Que acha?

- Acho bom, mas infelizmente não tenho nenhuma assim. Só apartamentos no subúrbio, kitinetes.

- Ah, mas eu me interesso muito por kitinetes no subúrbio também. Talvez fosse bom possuir algumas para alugar. Uma outra opção. Já estou cansado da vida que tenho, sabe...

- Muita gente passa por isso.

- Mas a maioria não é como eu, acredite. Então,... o que eu teria de fazer, ou de não fazer, para possuir essas kitinetes?

Era esquisito o tique que tinha, às vezes parecia mais forte e demorava um tempo maior para acabar, o rosto se contorcendo como se fosse um homem lutando contra algo que não lhe desse chances.

- Posso mostrar algumas fotos e os preços.

Ele sorriu. Talvez fosse louco, pensei.

- Você está dificultando as coisas, Alberto.

- Não sou o Alberto, já falei. Nunca te vi antes!

- Viu, apenas não se lembra – falou, mirando-me nos olhos, como se tivesse absoluta certeza daquilo.

- Qual o seu nome? – perguntei.

Ele então virou- se e olhou pela janela. Não havia nada lá fora, exceto a chuva e o vulto dos prédios do centro.

- Firmino – falou, embora não parecesse ser verdade.

- Nunca conheci nenhum Firmino. Você se enganou de sala, meu amigo. Ou de prédio... Posso te provar...

Puxei a minha identidade do bolso e mostrei para ele. Era nova, eu havia tirado-a há cerca de dois meses. Ele olhou- a rapidamente, então me devolveu. A cinza do cigarro, entre os seus dedos, fazia uma curva no ar.

- Eles bem que me avisaram para ir com calma com você.

- Eles quem?

- Você sabe...

- Não, não sei!

- É claro que sabe, Alberto.

Eu me aborrecia com aquela situação – o que fazer para se viver em paz?. Correr e chamar o segurança? Pular sobre a mesa e, antes que reagisse, acertar uma direita em seu queixo? Talvez estivesse armado. Tudo era possível na minha imaginação.

Enquanto eu pensava sobre o que fazer, o telefone repentinamente tocou. Era alguém interessado num terreno. Abaixei-me e abri a gaveta, à procura da pasta e dos papéis com as informações dos imóveis. Quando levantei o tronco novamente, ele já não estava mais lá.

Tudo aconteceu de uma forma muito estranha.

No mesmo instante, peguei algumas coisas que precisava e fui para o apartamento que havia alugado ali perto. Fiz uma pequena mala, tomei banho e parti. Coisa de meia hora, no máximo. Não me importava quem ele era ou o nome que tinha. Eu teria que fugir outra vez.


(Rodrigo Melo é ilheense, contista, e escreve semanalmente para o site Bagatelas, do Rio. Lançará em breve o livro "Sonhos não passam disso")





Foto: Antonio Paim





JANELA POÉTICA (V)


em modo extra vagante

Héber Sales



não diz palavra com coisa. é esquecido de dicionários.
sabe dos nomes por estranhas genealogias.

lampiros são vampiros de estrelas conforme a fonologia em seu DNA.
pelo som descobriu também as patavinas, tão leves que não conseguem pousar,
bem como os salamaleques, em suas mesuras de cortesão.

através de seus experimentos, soube-se ainda:

a) que dias madorrentos carregam em seu intestino o mesmo desassossego de uma revoada de libélulas;
b) que o bocejo das montanhas entorpece as manhãs por sua qualidade de neblina;
c) que certos cães são tomados por lordes porque esmeram-se em finezas;
d) que as crisálidas confessam sua divindade pelas cores dos néctares em seu vôo.

(quanto mundo há esquecido na linguagem por falta de desuso?).


(
Héber Sales é colaborador ativo do Diversos Afins)





Foto: Antonio Paim






OUVIDOS ABERTOS (II)

Por Fabrício Brandão


CEUMAR – ACHOU!



Nascida num lar onde a música sempre reinou intensa, a cantora mineira Ceumar é uma dessas belas descobertas de nossa vasta e rica MPB. Dona de uma voz que mescla beleza e sensibilidade, Ceumar transborda talento neste que é o terceiro disco de sua carreira. Achou! é o resultado preciso de sua interpretação vigorosa e a parceria com o compositor, arranjador e instrumentista Dante Ozzetti. O trabalho agrega estilos como o frevo, xote, pop, chorinho e outros. E essa diversidade chama atenção na obra, pois promove um verdadeiro passeio pelas vertentes variadas de nossa música. Uma boa dose de brasilidade se instala em faixas como Achou!, Lenha na Quentura e Praga. Ceumar também nos revela um canto doce através da jazzística Parte B, canção que nos pega de efeito em meio aos sentimentos cortantes e tão necessários das relações. Sonoridade, suavidade e bom gosto são ingredientes essenciais para definir o repertório desse bem cuidado disco. Melhor ainda é saber de nossa MPB um ambiente incansável de novos e bons valores.




PEQUENA GRANDE CRIANÇA

Fernanda Cota


Cortou-se, pior, ainda tinha muita coisa cortada dentro dela, coisas que não se diziam ou tampouco entendiam. Existiam feridas, manchas escuras na alma, na cabeça desta pequena. Olhou fixamente em direção à luz, talvez a última vez que pudesse sentir o sol; abraçou com calma o vento que batia no corpo já cansado, e foi sorrindo aos poucos para o menino na sua frente, até morrer devagar.

O que para todos estaria em jogo ali era o pouco tempo, era a defesa impetuosa e íntima que fizera para sustentar os próprios tentáculos. O que estaria em jogo ali era o revólver mirado na cabeça, era o olho no coração do bandido menino. Aquele mesmo que não tinha pedido a Deus para nascer e tampouco matar, aquele mesmo que sem piedade tinha tirado a vida de uma mãe de filho sem dono. Aquele filho que não sabia o que era ter mãe.

Mas o que estava em jogo ali ainda eram outras histórias. Coisas de gente que anda descalço pela rua, coisas de gente que vive, coisas de gente que sente o vento. Histórias de pais e mães que tinham deixado para trás seu apartamento com hidromassagem, para darem lugar a filhos perdidos. Não, o que estava mesmo em jogo era o outro que nunca tivera hidromassagem. Mentira, mentira verdadeira. Alguém acredita? Porque quem mata e morre com dez tiros na cabeça não sabe o que tem além da hidromassagem.

E como acreditar se, se está prestes a morrer, quando se olha fundo na cabeça de alguém e aperta o gatilho. Por raiva, por paixão, por Deus? Pela vida, talvez. Pelo olhar de uma mãe, por uma vida sem mãe. No fundo não poderemos dizer de fato qual o motivo do impetuoso ou mais ingênuo no tragar de um cigarro, ao passo totalmente descabido. Mas também, são coisas que mãe nenhuma sabe... Não, nós não aprendemos a morrer. Nós não aprendemos a acordar de nosso sonho com almofadas coloridas, nós não sabemos olhar no olho bem no fundo do poço. É simples, dentre todos os papéis, desses atores do mundo, desses diabos do templo, nós preferimos o de ter que morrer calado, porque essa é a nossa única justiça.

Antes que um filho aponte uma arma para a cabeça da mãe, e aperte o gatilho. Afinal, não podemos negar, ele era apenas uma criança, e não sabia de nada.


(Fernanda Cota Martins Bastos, estudante, alguém que percorre todos os dias em busca de conhecimento, em busca de novas fontes para embeber. Alguém que descobriu através das palavras uma maneira leve e densa, clara e vaga, gritante e silenciosa de entender a razão dos acontecimentos)




Foto: Antonio Paim







JANELA POÉTICA (VI)

AMOR DEVASSO

Gilbert Antonio



Do absurdo e intrépido silêncio de minhas palavras,
dilacero rascunhos e depois destas palavras despedaçadas construo
teu nome feito tatoo, vertendo amor vadio em cada contorno teu,
para enfim despertar na inusitada e ácida descoberta de tua
existência geográfica em meu corpo exigente.

(A criação literária de Gilbert Antonio é uma experiência siamesa - fusão de palavras e percepções poéticas. Há na fala impressa do escritor um núcleo impermeável às palavras. Impassível diante da mesmice vigente, considera-se um aprendiz de feiticeiro. É um escritor reincidente no Crime de Acreditar)




Foto: Antonio Paim




*Os lugares existem através das lentes do fotógrafo e webdesigner Antonio Paim, mas o olhar aprofunda-se quando o assunto é o humano.
 
publicado por Fabrício Brandão
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