29 de abr de 2009,22:30
TRIGÉSIMA SEGUNDA LEVA



Pintura: Sérgio Lucena












CICERONEANDO



Cada palavra sentida, processada e depois expelida em verbos mais parece apontar para vãos entreabertos que perscrutam alma e coração humanos. É como se estivéssemos todos a buscar mínimas escutas sobre ecos que um dia foram nossos e, por razões das mais indecifráveis possíveis, vazam nos espaços invisíveis onde projetamos incansáveis e sôfregas imagens. E, mesmo peculiar a um idêntico aglomerado de racionais, a palavra explode como se fosse a primeira certeza que não anoitece prematuramente. Desengavetam-se bem mais do que um baú de efusões, medos, fantasias ou devaneios. Signos são expulsos na horda dos instantes e vão buscar abrigo longe, muito longe de sua pátria natal. Olhares se devotam intensos a perseguir os versos de gente como Vera Americano, Patrícia Ferreira, Ildásio Tavares, Sonia Regina, Tanussi Cardoso e Floriano Martins. Em meio a verbos e revelações pungentes, a arte sensível do paraibano Sérgio Lucena tece as tramas de uma realidade singularizada em telas e desenhos. Nas linhas de um inconteste livro vivo, Petria Chaves, José Geraldo Neres, Tekka Whitman e Sérgio Luyz Rocha compartilham conosco porções da existência. Um pouco das percepções do trabalho essencialmente humanista do artista plástico Canato está registrada numa breve conversa. Larissa Mendes desfila seus comentários cinéfilos ao redor do grande vencedor do Oscar 2009. Com os sentidos em prontidão, rendemos escutas aos novos trabalhos musicais de Mariana Aydar e Lula Queiroga. São trinta e duas vias percorridas com muita dedicação, caro leitor, para proporcionar a você um perene desengavetar de expressões!




*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.









JANELA POÉTICA (I)



MAÇÃ


Vera Americano



a perfeição

vem

do rigor.

a doçura

subverte

o conjunto.


*

sob a pele

hermética

o sabor do éden

negociável

a cada mordida.


*

esmero

e lustro

suntuosamente

armados

sobre o prato.

os sentidos

hesitam:

repentina afeição.


*

o fruto

silencioso

resgata a função

dos dentes.


na contramão,

o desassossego

pela ruptura iminente.


o nexo?

esse foi devorado,

em desatino.




(Vera Americano nasceu em Minas Gerais. Estudou Letras em Brasília, na UnB, e fez mestrado em Literatura Brasileira na PUC/RJ. Foi professora de teoria da literatura na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Atualmente, trabalha na Consultoria Legislativa do Senado Federal, na área da cultura. Publicou “A Hora Maior”, poesia, (1º prêmio da União Brasileira de Escritores, 1970); “Os cine-jornais sobre o período da construção de Brasília”(SPHAN/MinC/pró-Memória, Rio de Janeiro, 1988); “Viaje ao reino de Cora Coralina”, ensaio, (El Urogallo, Madrid, 1996); “Arremesso livre”, poesia, (Rio de Janeiro, Editora Relume Dumará, 2004)













Pintura: Sérgio Lucena












AS PUPILAS ILUMINADAS


José Geraldo Neres



Elisa banha-se nas horas. Lava cada palavra com a tempestade. Os pensamentos cantam na corda do violão silvestre e decoram o vazio do seu lar. Coloca-os em estantes, criados-mudos, os reparte com igualdade entre as flores para que elas a deixem em paz, para não enlouquecer. É seu encontro com o que chamamos mundo. A melodia para que a faça entender: não pode iluminar todos os caminhos.


O tempo é seu jogo prateado - as pupilas iluminadas como as portas na nudez da alma – o ritmo líquido da eternidade. Procura seu futuro e arranca as linhas mortas nas palmas azuis de suas mãos. Escreve com tinta nanquin sobre sua grossa perna; os animais, as plantas, os seres humanos, o tempo e o espaço são peças do seu jogo. Às vezes ganha. Às vezes perde. Às vezes chora. Às vezes ri sem querer. Dá golpes no peito, se agita no silêncio das cartas do tarô.


Elisa lança suas paixões pelos degraus do inferno e um par de lágrimas no horizonte; segue o curso natural do jogo e cospe manhãs. Tem um criadouro de estrelas; traz na boca o diálogo com o crepúsculo. Passo incerto que perturba algumas almas? O movimento da seta envenenada no labirinto imaginário, a graça de transformar-se em eco de pássaros. Sua viagem: o lugar onde cresce a inquietação, pisa com pés descalços nos buracos negros. Oferece docemente pedras e vôos ao subterrâneo, encanta-lhe alvoroçar as asas. Vontade de zombar da terra! Canta na navalha e as antigas histórias desprendem-se de seu corpo. Ela, uma chave, uma janela que provoca a curiosidade. Brinda pela vida, seu próprio destino. Quem chegará para entender seus jogos? Não a entendo, nem consigo aprovar seu passo incerto pelas velhas ruas empedradas, mesmo que as chagas de seus pés superem a beleza sanguinolenta que perturba algumas almas. Ar. Terra. Fogo. Água. Olhei por detrás de sua alma e me surpreendeu descobrir que os olhos crescem em sangue.


A pausa que se termina e se inicia.


O tempo: ruas em ruínas. O silêncio entre vozes. A pergunta não propriamente humana. Quem vai crer na história que conserva aprisionada nos seus punhos? Sem importar-se com o rumo dos jogos, só com o prazer de se perder no labirinto: Elisa.






(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, com dois livros: “Outros silêncios”, poesia, Prêmio Programa de Ação Cultural - ProAC - Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros no Estado de São Paulo, 2008 (Escrituras Editora, 2009); “Pássaros de papel” (Projeto Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007)











Pintura: Sérgio Lucena












JANELA POÉTICA (II)



COERÊNCIA


Patrícia Ferreira



da segunda vez

pronunciou meu nome com farpas

calculando perfeitamente distâncias

de sombras entre vogais

seu desejo pitagórico de coerência

implanta ângulos em meus ouvidos




(Patrícia Ferreira é artista visual, professora de artes plásticas (SESI/SENAI), mestre em letras e lingüística (UFG) e doutoranda em letras e lingüística (UFG). Adora música punk, grindcore, heavy metal, black metal, death metal, new wave, stoner rock... enfim, adora música! Também curte literatura, comer pipoca no cinema e beber cerveja com os amigos. Publica seus poemas no blog coletivo Vida miúda)










OUVIDOS ABERTOS (I)



Por Fabrício Brandão


LULA QUEIROGA – TEM JUÍZO MAS NÃO USA









O que faríamos se pudéssemos agarrar com mãos habilidosas metade das coisas que nos são atiradas pelo fluxo incansável do pensamento? Certamente, seria um trunfo, mas ainda assim uma conquista com ares bem relativos, pois talvez o devido juízo iria nos deixar desamparados, titubeando em incertezas tão nossas. Gente que se atira a esse tipo de constatação é, no mínimo, atraente, pois ousa tecer as tramas complexas daquilo que bem somos – os tais seres racionais imbuídos em pecar pela miopia da repetição. Então, fica inevitável deixar passar a ideia de que “todo grande amor vem de um coração burro”, intensamente apregoada pela sonoridade do talentoso cantor e compositor pernambucano Lula Queiroga, no instigante canto de Coração burro. Para ouvir Tem juízo mas não usa, terceiro disco solo do artista, é preciso se desgarrar daquelas velhas verdades empoeiradas e percorrer um caminho desprovido de convicções que engessam o olhar.


No disco não faltam poesia, sugestão, ironia, e, sobretudo, um amplo painel no qual sons se transformam em imagens vigorosas. É como se o texto da vida saltasse à nossa frente e nos chamasse para intervir a qualquer custo. Lula atravessa com propriedade as vias sonoras de suas percepções, muitas delas embebidas em memória e embaladas num voraz jogo de palavras famintas por lampejos da alma. Some-se a essa preciosa articulação textual a qualidade presente nos arranjos das canções. Mesmo se tratando de um álbum completo, é possível destacar o efeito que faixas como Você não disse, Altos e baixos, Tem juízo mas não usa, Fulana, Barulho da gota e a belíssima Geusa são capazes de produzir aos nossos sentidos. As participações de Lirinha, Lenine e Alceu Valença contribuem para afinar o coro da qualidade musical presente no disco. Modernidade e experimentações sonoras unem-se a serviço dessa verdadeira viagem rumo ao labirinto de nós mesmos. Definitivamente, ter juízo é algo deveras questionável.













Pintura: Sérgio Lucena













JANELA POÉTICA (III)



AS CASAS


Ildásio Tavares



As casas desta cidade,

suas coroas farpadas,

são cemitérios

de vivas almas penadas.


Escondidas por detrás

destes espinhos,

os seres desta cidade

em túmulos fazem ninhos


Os seus projetos

de cama e mesa propícia

são dirigidos por máquinas

de engrenagem subreptícia.


E, assim, nas rodas,

das rodas gira

quem muito te ama

e te admira.





(O escritor baiano Ildásio Tavares pertence à geração Revista da Bahia. Tradutor, professor de inglês e literatura americana, publicou três livros de poesia na década de 70: Imago, 1972, Ditado, 1974 e O Canto do Homem Cotidiano, 1977. Em 1980, publica Tapete do Tempo, em 1996, Poemas Seletos, entre outros. Os melhores nomes já se expressaram sobre sua poesia. Nelson Werneck Sodré diz: "É fácil compreender a alta qualidade do poeta. Em primeiro lugar pelo domínio da arte poética na linguagem de síntese que é sua essência. E ainda pela capacidade, nessa linguagem, praticar aquilo que Brecht ensinou, as diferentes maneiras de dizer a verdade")










Pintura: Sérgio Lucena














CIRCO



Petria Chaves



O que resta é esse nó. De garganta, de sentimento, de vida passada e vivida. De dizer que já fui sua, minha alma, cada pulso, cada susto, cada laço. De recordação que a gente vê passar na frente e não acredita que passou. Qual vida? Aquela quase morte. Aquela que pululava, rainha. Ainda existem. Desse vulcão que mora aqui dentro, de cores e vertigens. Que periodicamente insiste em transbordar. Toda complexidade, daninha. Voltei a cantar. Queria te dizer. Que todo sentimento que revive, só existe dentro de mim. Que todo universo de vermelhos e paixões é de minha natureza. E de outras vidas passadas, só me esqueço dos instrumentos. Comezinhos trapezis. Sinto. Ser pessoa é ser efêmero, ser alguém para alguém é morrer um tantinho pra gente. Neste circo. Somos o que sentimos. Em primeiro plano. Infinito. Um vulcão e esse nó. Resta na garganta um quente de vida breve, vivida. Eu sou. De sobressalto.




(Petria Chaves é menina, por vezes pedra, por vezes chaves, por vezes não sabe o que quer. É jornalista, está de mudança, está de cabelos em pé. Escreve prosas e contos por diversão, tenta virar vegetariana, mas não consegue largar os prazeres da carne)












Pintura: Sérgio Lucena












JANELA POÉTICA (IV)



as águas novas


Sonia Regina



o tempo não é somente uma linha

do emaranhado que toca os sonhos

com uma nesga de direção


observa. há um começar para quem vive

a descer do mundo sem dele despencar


as mãos não se abrem só para se soltarem:

há no gesto uma nascente. a cabeceira de

um rio soberano que murmura


tu o escutas? é brando ainda o sussurro.


opera desde o leito, a firmeza das águas novas.

como o sangue renovado das artérias, elas fluem


e não mais contornam obstáculos: ultrapassam-nos.





(Poeta por paixão, psicóloga por vocação, professora por talento, mãe por amor, mulher do mundo por missão, artista por mistério… Sonia Regina. Soreg, simplesmente, como assina os seus trabalhos de arte digital)











Pintura: Sérgio Lucena











PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Um dos aspectos valiosos em torno do universo da arte é a pluralidade de signos e sentidos que uma mesma obra pode encerrar. Para além das acirradas discussões que se arrastam em torno da permanência da aura do objeto artístico, algo deve ser levado em consideração – a necessidade do aprimoramento do olhar através das percepções sugeridas pelo vasto terreno da sensibilidade. Ao mesmo tempo, apegarmo-nos ao viés da subjetividade nem de longe deve representar qualquer sinal de negligência a cânones e referências consolidados no contexto histórico da humanidade.


A expressão artística, enquanto instrumento motivador de uma transformação efetiva, é capaz de extrapolar noções herméticas e, por assim dizer, elitistas para promover uma aproximação com pessoas tradicionalmente postas à margem nesse intricado jogo interpretativo. E há quem ouse a se enveredar com propriedade por esse terreno. Exemplo vivo disso está no trabalho do artista plástico paulista Cláudio Canato, cuja arte revela-se capaz de transcender meros espaços contemplativos e nos propõe um diálogo no qual as acepções de beleza invariavelmente buscam se abrigar no sagrado das coisas. Utilizando-se de temas que permeiam aspectos sociais e simbólicos, a obra de Canato se agiganta quando os olhares se voltam para as nuances humanas expostas nas mais variadas expressões de suas telas. Ali, cada forma, tom ou gesto refletem um pouco das densidades tão presentes no espírito dos homens. Conversando conosco, Canato fala um pouco sobre seu processo criativo e influências, os rumos da arte contemporânea e alguns outros assuntos que o posicionam como um artista definitivamente engajado com as questões de seu tempo.





Canato

Foto: arquivo pessoal





DA - Sua arte, sobretudo através dos recortes humanos, reflete um experimentar de sensações que percorrem tons existencialistas. Que tipo de desejo orienta esse seu olhar?


CANATO - O desejo de ser uma pessoa melhor e de tentar fazer do mundo um mundo mais humano, mais justo e, se possível, mais belo. Através desses recortes, vejo a mim mesmo multifacetado. Tento entender melhor quem sou, principalmente no que posso me transformar e, dessa forma, contribuir como artista e como ser humano. Acho que essa é uma maneira de ser e existir, de experimentar e absorver o mundo, sofrer e viver de forma intensa o real. Viver é uma estética. Sem essa experiência o artista não cria de verdade. É preciso intensidade e muita entrega para entender o mundo e poder interpretá-lo, traduzi-lo, pintá-lo e transcendê-lo.


DA - A estética Barroca e Renascentista que atravessa a sua obra enaltece o propósito de representar as expressões humanas com mais vivacidade e precisão. A opção por tais escolas sempre fez parte de seu trabalho?


CANATO - Os dois momentos são insuperáveis. Ali estavam de fato os “mestres da pintura” e fizeram tudo de tudo de forma impressionante. São minhas duas maiores fontes, das quais absorvo todos os ensinamentos em termos de pintura. No meu começo, não acreditava ser possível fazer algo tão grandioso. E mesmo hoje parece meio pretensioso, mas esse foi o pensamento que sempre norteou minha busca pessoal. Experimentei várias estéticas diferentes, linguagens mais estilizadas, quase abstratas, sempre mergulhado em experimentalismos que, evidentemente, ajudaram a construir meu modo de ser e de pensar.


O Barroco talvez seja a escola que mais me fascina, mas a Renascença foi “o grande momento” da arte. Meus trabalhos devem muito a Botticelli, Ticiano, Caravaggio, Rembrandt e a todos que trago dentro de mim. Sem a ajuda deles eu não teria conseguido certos avanços técnicos. Essas foram influências escolhidas a dedo, mas sempre com a preocupação de ser eu mesmo. Sou da pintura e, definitivamente, um artista da figura. Posso dizer que não foi simples chegar até aqui. Não é tarefa fácil, hoje em dia, trilhar tais caminhos, mas é o que gosto de fazer e o que tenho de mais verdadeiro dentro de mim. O importante é fazer o que se acredita. Não vejo necessidade de romper com nada, nem abandonar nada para ser novo, seja suporte, seja técnica, e, principalmente, o que se acredita. Basta ser você mesmo, isso só já faz de um trabalho único. O importante é produzir de forma honesta e o mais sincera possível. E produzir com amor, isso é essencial.


DA - Certa feita você assinalou que havia muita falta de preparo por parte de gente que se propõe a ensinar arte, aspecto que muitas vezes chega a limitar em demasia a criatividade dos aprendizes. Isso ainda é muito frequente?


CANATO - Infelizmente, assistimos hoje a uma total banalização das coisas, dos valores, e o ensino não ficou livre desse fenômeno. A crise do ensino se reflete diretamente na crise atual da arte. Embora haja uma preocupação cada vez maior com a educação, não se pode dizer que o que se ensina, na maioria das escolas, seja arte, com raríssimas exceções. O ensino de arte foi reduzido a meros trabalhos de “dia dos pais”. Muita coisa precisa ser mudada. Embora muitas pessoas bem intencionadas e preparadas estejam conseguindo realizar seus projetos, ainda há muito por fazer.

Gosto da ideia de ensino multidisciplinar com a arte permeando todas as outras matérias, o que tornaria o aprendizado mais significativo e menos mecânico. O professor assumiria o papel de gerenciador de capacidades e de estimulador de talentos.


Quando o talento existe, deve ser estimulado no mais alto nível. O professor deve, antes de tudo, detectar as diferentes capacidades dos alunos para melhor aproveitá-los. O bom educador é aquele que está atento às mudanças e principalmente às oportunidades em sala de aula, saber como e quando usar a arte para uma maior e mais eficaz absorção do conhecimento por parte do aluno. Estou desenvolvendo um projeto ligado à educação infantil que espero possa contribuir um pouco no desenvolvimento dessas capacidades. Espero um dia ver a arte no lugar que é dela por direito e não como matéria transversal. Sonho em ver a arte presente na vida das pessoas não como entretenimento e passatempo, mas integrada à própria vida, e as pessoas, de fato, fazendo um uso mais consciente dela. Talvez aí o mundo melhore.


DA- Ainda há a questão de que criatividade e domínio técnico nem sempre fazem par constante...


CANATO - Em decorrência da deficiência do ensino, é cada vez mais raro encontrar um artista mestre de seu ofício, que domine de fato alguma técnica. Bons pintores estão quase em extinção. Hoje o fazer artístico não requer prática nem habilidade, a produção é efêmera e, na maioria das vezes, está em segundo plano, mais vale uma boa rede de relacionamentos. A produção é cada vez mais submissa a discursos muito bem “elaborados”, que mascaram um conteúdo inexistente ou, propositadamente, tornam-no inatingível. Dessa maneira, a criatividade é desperdiçada em elucubrações cada vez mais distantes de nossa realidade, a obra se esvaziou e, como consequência, o público se afastou.


Particularmente, vejo esse momento com certo otimismo, tudo é cíclico, tudo se esgota para novamente renascer, renovado. Vejo nessa crise uma nova oportunidade para a pintura e percebo que os experimentalismos contemporâneos, bons ou maus serviram para provar que o belo é essencial para o ser e que o público deve e quer ser respeitado e está sempre ávido por arte de verdade.





Foto: arquivo pessoal





DA - Há um viés social muito forte na sua série Pessoas à Margem. Acredita que a arte pode atenuar certos incômodos tão nossos?


CANATO - A arte não só pode atenuar esses incômodos como pode transformá-los. Leonardo dizia que “O belo toca o coração...” e acho que, de forma irreversível, as pessoas se transformam através da arte e cabe a elas transformar o mundo.


A série Pessoas à Margem foi extremamente importante no meu processo de crescimento como artista e como ser humano. Tive oportunidade de conhecer pessoas e ter contato com realidades totalmente diferentes da minha, que me fizeram questionar tudo e querer mudar tudo.


DA - Como você percebe a questão da sobrevivência da aura do objeto artístico face a um mundo tão cheio de ruídos e distorções interpretativas?


CANATO - A aura do objeto artístico nunca morre. As interpretações equivocadas, por mais que atrapalhem e deturpem a visão da obra, não tiram do objeto artístico sua aura. Nos séculos XX e XXI, a arte sofreu duros golpes, as subsequentes rupturas foram esvaziando o conteúdo da produção, sobretudo na produção mais recente. Os ruídos são muitos, mas não prevalecem sobre a verdadeira obra de arte, que permanece independente das opiniões e da crítica. A obra verdadeira é independente, autônoma e atemporal. A arte pura nunca morre, o objeto artístico nasce eterno e pode até, num primeiro momento, ser desprezado e restar esquecido por séculos em algum porão, mas, quando vem à luz, é por todos reconhecido e reverenciado.


Tenho uma teoria: a medida do gênio de um artista está diretamente relacionada ao tempo que sua obra leva para ser entendida e aceita. Se um trabalho leva cinquenta anos para ser compreendido, o artista estava cinquenta anos à frente do seu tempo.


DA - Corremos sérios riscos atribuindo valores a tudo o que se apresenta nessa enxurrada?


CANATO -


O homem que não possui a música em si mesmo,

Aquele a quem não emociona a suave melodia dos sons,

Está maduro para a traição, o roubo e a perfídia.

Sua inteligência é morna como a noite,

Suas aspirações sombrias como o Erebo.

Desconfia de tal homem! Escuta a música.


Shakespeare


A resposta a essa pergunta é sim, é preciso muito discernimento. Nunca se viu tamanha quantidade de informações. Hoje elas nos chegam de todos os lados e por todas as mídias. É um fenômeno sem precedentes e que tem como resultado a banalização da informação e de todas as coisas. Infelizmente, a obra de arte também foi banalizada. Mais do que nunca é preciso saber separar o joio do trigo, pois os carniceiros atacam sem piedade.


Há alguns anos, uma matéria do Arnaldo Jabor dizia que “a arte contemporânea se encontrava num beco sem saída”. Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, vivemos hoje o que ele chama de “Anomia Ética e Estética”, as artes moderna e contemporânea devem ser reavaliadas. São pensamentos que devem ser levados a sério, pois muito do que hoje se produz “artísticamente” é lixo e passa despercebido nessa enxurrada.


DA - A série Os Doze Trabalhos de Hércules marca um momento muito especial em seu trabalho, equilibrando os contornos vivos de formas e expressões das personagens com uma valiosa pesquisa histórica. O que mais o motivou a recriar esse verdadeiro ícone mitológico?

CANATO - De fato, é um bom momento, momento de muita segurança. Pela primeira vez, sinto-me no domínio pleno do meu trabalho, livre para criar. Não quero dizer que tenha chegado ao auge, mas acredito que minha produção mais verdadeira começa agora.


Trabalho nessa série há pelo menos dez anos. Sou apaixonado por mitologia e principalmente por simbologia, e os Trabalhos de Hércules me fascinam desde pequeno. Lembro que meu primeiro contato com o herói foi nos livros de Monteiro Lobato. Esse é um mito fascinante e recriá-lo foi como desconstruir a mim mesmo, e o mais interessante foi descobrir que somos todos heróis em potencial.


Existem duas maneiras de se ler um mito: uma é literal, lendo-o pura e simplesmente como uma história, imaginando outros mundos, seus heróis, seus monstros e seus deuses, o que, por si só, já é extraordinário; porém, a outra, e ainda mais fascinante forma de leitura, é indagando o que realmente esta história quer nos contar, é ler buscando seu real significado, sua verdade, que vai muito além das aparências, e que, de certa forma, nos traz de volta desta viagem imaginária, ao percebermos que os mitos nada mais são que imagens de nós mesmos, são contos que ilustram, fantasticamente, nossas próprias histórias.


DA - “A Pintura é o retrato dos mais belos sonhos da Poesia”. O quanto esse pensamento ajuda a dimensionar seus olhares?


CANATO - Essa é uma frase que me foi dedicada por um querido amigo anos atrás. É um pensamento que me ajuda a entender o mundo ou, pelo menos, vê-lo de outra forma, com olhos de poeta.


O poeta trabalha imagens da mesma forma que o pintor. As duas artes são muito íntimas e o diálogo entre elas é muito rico. O artista lê o mundo através do que eu chamo de “códigos do belo”. Esse é um olhar diferenciado, que vê beleza em tudo e tudo através da beleza. Arrisco até a dizer que nós, pintores, também somos poetas, poetas da cor.







Pintura: Sérgio Lucena















JANELA POÉTICA (V)



TEIAS


Tanussi Cardoso



Alimentar aranhas,

eis o meu ofício.

Deixá-las criar tentáculos.

Moscas mansas

apaixonadamente sangrar.

Cuidá-las para tecer

os pequenos vícios

do seu tear:

venenos sutis

tatos improváveis

-vivê-las.

Redescobrir as cores

as sedes e as sedas.

Entrelaçar as sendas

do meu destino nelas:

véus de astúcia

morte e viuvez.

Decifrar sua dança:

rede de valsas

fios de arame.

Aprender com elas

o ritmo do salto.



(Tanussi Cardoso é carioca, formado em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica/RJ, e Bacharel em Direito, pela Bennett/RJ. Dedica-se em tempo integral à literatura, em especial à poesia, além de ser crítico, contista e letrista de MPB)








DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Larissa Mendes



Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire). Inglaterra/Índia. 2008.







Qual o maior trunfo de Quem Quer Ser Um Milionário? A. uma boa história; B. um elenco coeso; C. um bom diretor; D. uma montagem instigante. Resposta correta: todas as alternativas anteriores.


Está escrito: este filme é muito mais que um jogo de perguntas e respostas. Portanto esqueça os dalits e brâmanes da novela das oito ou qualquer modismo indiano. Com um orçamento modesto, pouca publicidade e sem atores famosos, Quem Quer Ser Um Milionário foi o grande vencedor do Oscar 2009, com oito estatuetas (melhor filme, diretor, roteiro adaptado, fotografia, edição, trilha sonora, canção original e mixagem de som).


Baseado no romance Sua Resposta Vale Um Bilhão (no original Q&A), de Vikas Swarup e dirigido pelo brilhante Danny Boyle (que não fazia um filme tão ousado e ágil desde Trainspotting), Quem Quer Ser Um Milionário conta a história de Jamal Malik (Dev Patel), um jovem indiano que se inscreve em um programa de perguntas na TV para ganhar 20 milhões de rúpias. Na verdade, o jogo não passa de um pretexto para reencontrar Latika (Freida Pinto), seu grande amor de infância.


É impossível digerir a história sem lembrar do clichê da “escola da vida”, onde as respostas de Jamal nada mais são que produto de suas próprias vivências no submundo de Mumbai, ao lado do irmão Salim (Madhur Mittal). O conhecimento empírico e subjetivo do participante, aliado à sorte e intuição, se sobrepõe aqui a qualquer genialidade ou trapaça.


Com uma visão não-apelativa, a história transita com sutileza pela densidade de temas como tráfico, trabalho infantil, fanatismo religioso e prostituição, debruçando-se sobre a deterioração e a regeneração do ser humano. O resultado é o retrato de uma espécie de miséria “ensolarada”, onde as mazelas de Jamal são transformadas numa fábula atemporal e porque não, universal. Contrário do longa brasileiro Cidade de Deus (narrativa cruamente realista regada de palavrões, cenas de sexo e violência) – ao qual Milionário foi insistentemente comparado, principalmente por sua estética.


Com maestria subliminar, o enredo faz ainda uma metáfora de Os Três Mosqueteiros da obra de Alexandre Dumas. Personagens que, ironicamente, parecem acompanhar o protagonista ao longo de sua jornada, construindo assim um paralelo entre os três meninos de rua e a personificação de Athos (na figura de um Jamal protetor e devoto à magia do destino), Porthos (representado pela excentricidade, truculência e hedonismo de Salim) e, finalmente, Aramis (uma Latika sensível, leal e forte).


A edição ritmada repleta de flashbacks bem costurados e a entusiasta trilha sonora garantem que até mesmo a dispensável coreografia final – com perdão do trocadilho, uma homenagem de Boyle ao estilo bollywoodiano – não comprometam a originalidade do filme. Certamente o espectador sairá do cinema cantarolando Jai Ho (que significa aleluia): as estatuetas estão em boas mãos.



(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila de ouvidos atentos e turista no mundo das palavras)











Desenho: Sérgio Lucena











JANELA POÉTICA (VI)



SOPRO NO ESCURO


Fabrício Brandão



Ei-la, a madrugada reinante

A governar as horas aceleradas.

Misturam-se anseios à insônia induzida

Por uma sede indefinida de vida.

Junto ao silêncio cortante

Um levante à Elis,

Voz densa e sentida

Rangendo nessa escuridão amiga.

Parecemos íntimos,

Perfilando sensações cristalizadas

Do incorrigível espírito humano.

Sim, somos, de fato,

Repetitivos seres da mesma agonia.

Velamos a dor

Em meio a acessos descarados de loucura,

Crentes de uma solidez invisível,

Reclamando atenção dos que padecem de idêntico mal.

Nem tanto desejo

A suspensão desvairada dos instantes,

Pois sei dos signos encerrados

Na lentidão que agora se faz mister.

O menino foi deixado, então,

Deitado sobre o solo comum da espera.

Sequer trouxeram-lhe a chave,

Apenas sussurraram-lhe promessas de liberdade.

Mas ele não se abala.

O afago que vem das mãos amadas

Lhe permite cruzar a estrada,

Partindo em direção à praia perdida.










Pintura: Sérgio Lucena










RONDA

Tekka Whitman


Pega-se um bonde chamado desejo, vai-se até a Central do Brasil, corta para Sunset Boulevard. Descer em Trafalgar Square, no Dia D. Paris é uma festa e eu não sei por quem os sinos dobram. Mas posso dizer, com certeza, que os alemães tomaram Pearl Harbor. Hiroshima, meu amor, me deixe em Casablanca. Sam, não toque outra vez! Essa musiquinha sua já cansou. Precisa uma coisa mais heavy, mais metálica, entende? Liguei para Mr. Kane sobre a montanha dos sete abutres. Juro que vi o Charlton Heston descendo de lá com as tábuas da lei. O demente do Cecil B. deMille estava mais que atrasado. Toma um fósforo, acende teu cigarro. Pega à direita em direção ao Cairo. Daquele minarete, quarenta séculos vos contemplam. Todo crime será punido, mas toda nudez será muito bem recompensada. Cash - sabe lá o que é isso? Águias de Haia, asas de águia em Haia. Enguias japonesas, esguias japonesas, ex-guias japonesas. Já é hora de dormir? Não! Espere mamãe mandar. Sai, seu boi da cara preta. Vai um daiquiri aí? Daiquiri, para quem não sabe, são aqueles carrinhos chineses que transitam no viaduto do chá. Alice saiu por las cinco de la tarde en punto. Isso são horas? Que horas são? É tarde, muito tarde, pra quem vem da Aclimação. Na Paulista, um anacrônico acordeom toca a trilha de Amarcord. A Rua Augusta bota Fellini no chinelo. À noite, alguns gatos pingados se tornam pardos. Aqui, jazz; ali, rock, adiante, tecno. Sweet memories are made of this. Viste minhas vinte cartas de amor? Que achas de minha canção desesperada? Veja bem, nem tudo que reluz é prata, os diamantes são our best friends. Darling, what do you mean? really? indeed? Nas férias iremos ao Kilimanjaro, passando por Nova York, of course. Sei, sei, você já me apresentou o Brad. Com ele, vamos invadir a Tunísia. Trilha: The Sheik of Araby. Não me deixe só. Não precisa agradecer pelas jóias da coroa nem pela morte no Nilo. I’m alright, sacou? All the lonely people, where do they all come from? Você quer dizer o Lautrec, ou aquele Van Gogh das orelhas de abano? Yes, Mann, yes. Claro que não me esqueci de passar na Tifany’s nem na Harrod’s. Depois desci a rua Chamberlain e atirei o pau no gato. You must remember this, just in case. Entre sem me bater. Quem vir ver verá. Deveras. Amigos para siempre. Toma outro fósforo, acende teu cigarro. Não, espere. Ouço vozes, é a Joana falando sozinha de novo. Elvira, escuta: era o bem-te-vi ou a cotovia? Não, isso não! Never more, nunca mais never more, foram as últimas palavras da galinha. Verde que te quero azul. Vamos a la playa, baby. Nosso dejeneur sur l’ herbe. Ah, não se esqueça de trazer a lua na bandeja, viu Salomé? Previsão do tempo: ventos uivantes a boreste. Espártaco! Esse menino não larga os leões em paz. Ele ainda vai ver pra que serve essa boca tão grande! Só vovô viu a uva, Eva não viu ninguém, essa deficiente. Allons enfants, le jour de gloire est arrivé. Fricassé, consomé, egalité. Nao se fazem mais brioches como antigamente. Convidei Maria Antonieta para jantar. A excêntrica lady só toma banho de chapéu. Dona Chanel, só temos o nº 5, serve? Depois das mortes em Veneza, foram-se os anéis, ficaram os pombos de la Concorde. Paris c’est une blonde. Vai, Charles de Gaulle, ser gauche no Sena. Vai, menina, vai que é sua! Un jour tu veras. Ne me quitte pas, digo eu. La mer, la mère, la merde. Ponha aqui o seu pezinho. Já te disse mil vezes: Inês é morta, cara! Passa um, Passa-quatro. Minas não há mais. E junho é o mais cruel dos meses.



(Tekka é escritora bissexta, de natureza bipolar, mas não morde. Mora em Brasilia, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais. Não quer ser imortal, posto que é chama. Mas quer viver, enquanto dure)











Pintura: Sérgio Lucena













JANELA POÉTICA (VII)





Imagem: Floriano Martins





REINO DE VERTIGENS



Floriano Martins


dedicado a Socorro Nunes



Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo:

noite saqueada por uma caravana de relâmpagos.

Despojos do tempo foragido de sua fonte,

minando abismos à deriva, perdas flutuantes.

O rosto deformado da beleza que as ruínas cultuam,

linguagem extraviada ao querer entrar em si.

Teu corpo e o meu em sua queda mais secreta.

Um labirinto que fosse um deserto e um deus

ciente que dali não há retorno. Fuga de trevas.

Os disfarces fatais da memória ante o infinito.

Indetíveis sombras caindo sobre o mundo.

Teu corpo e o meu: o que resta de um no outro.





(Floriano Martins é cearense e já publicou alguns livros, entre poemas, ensaios, traduções e preparação de antologias alheias. Edita uma revista virtualíssima, a Agulha. Tem uma incorrigível inclinação para envolver outras pessoas em tudo que faz, em decorrência do que certamente estejam em curso projetos dentro e fora do país, envolvendo a publicação de livros e a organização de eventos)











OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



MARIANA AYDAR – PEIXES PÁSSAROS PESSOAS






Há alguns poucos anos, mais precisamente em 2006, o primeiro trabalho da paulistana Mariana Aydar chamava atenção pela personalidade em torno das sonoridades muito bem selecionadas de seu repertório. Kavita 1 já revelava que a moça colocaria com firmeza os pés na complexa estrada guiada pela música. No entanto, o tempo passou e aquela intimidade de outrora, sobretudo definida em gêneros como o samba, evoluiu e tomou forma agigantada em seu mais novo trabalho. Peixes Pássaros Pessoas é um álbum que expõe em vivas cores a maturidade musical vivenciada pela artista, cuja qualidade maior está no ápice vigoroso de sua interpretação, tudo isso aliado a valiosas composições que servem para posicionar Mariana como uma das representantes de peso da nova música brasileira.


Certamente, a receita para o sucesso de Mariana está na capacidade que ela possui de equilibrar tradição e modernidade. Some-se a isso também uma seleção de canções que são fruto de novos e bons compositores, tais como Duani, Romulo Fróes, Carlos Renó, Roberta Sá, dentre outros. O belo samba Florindo abre as alas do disco com propriedade. Em seguida, somos servidos de intensas escutas em torno de Beleza (faixa que conta com a participação preciosa de Mayra Andrade), Manhã azul, Peixes, Nada disso é pra você, O samba me persegue (com Zeca Pagodinho) e da intimista Tudo o que eu trago no bolso (com Lanny Gordin). A temática das relações das pessoas com o mundo e um certo tom existencialista pontuam muito bem a essência do disco. Além do samba, Peixes Pássaros Pessoas traz em suas vias arranjos vestidos em baião e jazz. O canto sensível de Mariana Aydar é capaz de converter as imagens aqui desenhadas num lugar sublime. A voz não se cala jamais e, em cada alameda do disco, pulsa um desejo humano recorrente, o de agarrar, com o apelo dos sentidos, outras esferas nossas do entendimento de si e do outro. Por aqui, um tudo escorre melódico, atraente e intenso.












Pintura: Sérgio Lucena











JANELA POÉTICA (VIII)



RITUAL


Leila Andrade



hoje acordou tão perto

uma vã falta de nexo:


a dor do sonho noturno

que se instaurou

longe das mãos,

confundida na respiração


um breve desassossego:

há em cada dia um rito

de passagem












Pintura: Sérgio Lucena











O silêncio da deserção


Sérgio Luyz Rocha



Até onde sei calei-me não de um silêncio convicto, mas de um vazio de olhares, calei-me da ausência de verbos irregulares que pudéssemos conjugar sem pressa numa única pessoa enquanto os festejos perseguissem as horas. Calei-me de marés altas e da fartura as tantas, calei-me de conveses abandonados e porões inda mergulhados na tinta fresca da memória. Calei-me de silêncios entrincheirados argutos acompanhando-me os passos, e calei-me das aventuras impróprias que adormeciam antes que eu retornasse dos caminhos incorpóreos do sonho. Calei-me das agressões que me lamberam as faces e me atiraram aos leões, calei-me dos milagres viciados nas esquinas, das aparições paridas no cortejo fumegante dos cafés, calei-me para ver-te dançar, requebrar-se cabrocha, contorcer-se odalisca, misturar-se aos sons inaudíveis da extrema-unção. Calei-me das terminologias, das aliterações, calei-me das dormências e dos sacrifícios, calei-me de calores incontidos e dos bons modos e quando arremessado contra a turba calei-me num voo cego. Até onde sei, procurei nas fechaduras, ranhuras, brechas, portas entreabertas calar-me mais do que pensei e apenas ressenti o mal dos carinhos noturnos. Calei-me amanhecendo com as fuças ainda cheias de sua genitália, calei-me no corte da navalha e na lavanda das prostitutas, e calei-me destas cruezas abstratas que desenham seres pavorosos nos noticiários e incensam as poucas verdades veladas atrás das portas. Calei-me dos trovões e dos ruídos que desciam as escadas na ponta dos pés; bailarinos meninos escondidos vizinhos deitados ao meu lado. Calei-me destas cerrações que nos fazem sombras dentro das espirais de um mundo em movimento, e calei-me destes mesmos movimentos puxando todas as gavetas de um caminho de pedras e fragmentos e vísceras e autores catalogados no silêncio das bibliotecas. Calei-me das especiarias e sob o cutelo dos magos calei-me por definição e muito mais do que devia.





(Sérgio Luyz Rocha é paulistano dos altos de Santana e escreve desde sempre porque as palavras assim querem; ele mesmo não tem querer. Filósofo pela Universidade Federal de Sergipe e educador, acredita que as artes e a educação possam salvar a Humanidade, no mais, é pura circunstância)














Pintura: Sérgio Lucena






* O essencial em Sérgio Lucena é a pintura, seu único caminho. Suas imagens transcendentais nos remetem à nossa própria existência, seus contornos nos trazem o singelo e a natureza se faz intensamente presente. Em palavras próprias, a magia do seu ofício: "Sou essencialmente pintor. A pintura é a realidade, a única realidade que conheço. Isto posto, fica claro que sem a pintura eu sequer existiria. A pintura me faz real. Não existem para mim duas coisas como a vida e a arte. Sem a experiência da vida não existe arte. Da mesma forma, sem a arte e sua natureza reflexiva não haveria a percepção da vida, sem consciência o que é real? Arte é linguagem, meio de comunicação. O que comunica? O essencial. Isto, portanto, é o que interessa a mim: alcançar o significado, viver a essência, Ser Real”.

 
publicado por Fabrício Brandão
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