28 de fev de 2009,17:00
TRIGÉSIMA LEVA







Mãos
Pintura: Maurício Takiguthi













CICERONEANDO




Completamos trinta etapas de nosso projeto cultural. Considerando o que foi construído até aqui, a vontade de continuar trilhando caminhos e encontros em torno da arte e da literatura é algo deveras crescente. A cada novo desafio, vislumbramos outros horizontes, conhecemos autores e inúmeros artistas, ficamos de frente a tantas possibilidades de expressão. Nada disso seria tão significativo se de tais descobertas não brotasse aquilo que permeia o cerne das produções: as vastas perspectivas de entendimento do olhar humano sobre o mundo e suas epifanias, sejam elas externas ou internalizadas. É preciso desengavetar certos ímpetos e manifestações que possuem um propósito efetivamente coerente com aquilo que fala alto ao contorno íntimo de nossas percepções. Os escritos de agora apontam para as vias poéticas de gente como Valéria Freitas, Luciano Fraga, Mônica de Aquino, Célia Musilli, Alyne Costa e Lívia Soares. Entre as nossas ofertas de leituras, estão os traços sensíveis das realistas telas do artista plástico Maurício Takiguthi. Uma densidade de sensações habita os contos de Mariza Lourenço e Roberta Tostes. Numa entrevista concedida ao poeta Héber Sales, o escritor, filósofo e compositor Antonio Cicero expõe suas vigorosas reflexões sobre o fazer poético. O cronista W. J. Solha desfila suas impressões em torno das linhas do romance de José Nêumanne. Por aqui, há também um mergulho na sétima arte, com o texto de Bolívar Landi, e um passeio nas escutas musicais de Lui Coimbra e Alice Russel. Celebrando arte e vida, nasce a nossa Trigésima Leva.





*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.











JANELA POÉTICA (I)



Vida, Idas e Iras


Valéria Freitas




como se já não nos bastasse
as cores frias com que essa noite esdrúxula
insiste em colorir jardins
(parcos sonhos)
ainda tenho que entregar-me a ti.

para o quê ?

devias ver o que vai dentro em mim.
sou cheia tanto quanto a garrafa tinta do vinho que me ofereces.
e o amabile rosso dessa noite serás tu
a me tentar convencer que teu amor incenso
queima.
é para sempre.

pensa.
pensa bem enquanto ferves.

porque as dobras na minha pele não são
tenras
uvas
nem frescas.
e que o suor nesse risonho rosto
que apelava ao fogo por um beijo teu
não te devassa mais.
ou pouco.
ou tão menos
que a vedete da esquina
na televisão black and white,
é um apelo que o teu sexo não rejeita.


para quando vais resolver a aceitar que o vento é o único senhor e dono da chama ?
quando o amor chega ao fim meu caro
é o caso de desligar o som e explodir assoalhos.
é o caso de até,
chamar médico
pais-de-santo
e outros pasquins para restabelecer a desordem roubada.

um coração não aguenta tanto quebra-quebra
não consigo entender o que você fala...

pára de contar aos outros sobre o quanto me amou
com quantos carnavais tivemos fantasias e felicidade !
meu querido,
meu ex amado amor,
escuta:
bate a porta
fecha tudo a cadeado.
não é feio GRITAR.





(Valéria Freitas é original do Rio de Janeiro; tão carioca que não por acaso, nasceu no dia de São Sebastião. Jornalista, artista plástica, leitora, escritora, tudo isso é vício. Irreparável e para sempre. Tem um livro pronto esperando a tal da "qualquer hora dessas". Exercita-se em Curvas Concretos Quadris e com a Diversos Afins, ensaia saltos e oferece a outra face)











Silente
Pintura: Maurício Takiguthi











NÁUSEA


Mariza Lourenço






— Mãe, vamos brincar, mãe!


Olhou para o menino e era como se não existisse. atou os cabelos em longa trança e desceu correndo as escadas. uma onda de ânsia embolou-lhe o estômago e a empurrou para dentro do ônibus 647, sentido centro-bairro, via Cachoeira das Almas. passou em frente ao templo, àquela hora ele pregava, para sempre seja louvado, aleluia. vomitou ali mesmo, num saco de papel pardo. porque Jesus é a verdade e a glória para sempre, aleluia.


a casa continuava a mesma, a velha, dentro da casa, continuava a mesma. mais enrugada, talvez. menos humana, talvez. o grande banco de madeira parecia diferente sob as almofadas bordadas em ponto-cruz.


sentou-se antes que a velha lhe trouxesse um copo cheio de líquido escuro. bebeu até a última gota e até a última gota amaldiçoou a velha, a casa, o homem, a palavra. amém.


as dores começaram vinte minutos depois, nem mais nem menos, vinte minutos, como sempre. encolheu-se feito um feto e com as mãos espalmadas sobre o ventre apertou-o até nada restar de si e das lembranças, e da palavra, e do homem, e do menino chamando-a para brincar. porque delas é o reino dos céus.


horas depois, a velha, cansada daquele ofício, limpou o banheiro inundado de sangue. nunca prestava atenção aos restos de tristezas que flutuavam dentro do vaso encardido. para o ano, largaria tudo a troco da pensão do marido morto. talvez.







(Mariza Lourenço é mãe, advogada criminalista, feminista e escritora inédita em livro. Co-edita a Germina – Revista de Literatura e Arte e o site Escritoras Suicidas)











Limiar da Vida

Pintura: Maurício Takiguthi











JANELA POÉTICA (II)



Mônica de Aquino




O peixe que ontem

sugava transparências

amanheceu morto de excesso.

A morte é leve

e pesa a superfície.


Encheu-se o aquário

de vazios

e rastros esparsos sobre o vidro

confundem memória e silêncio.


O peixe que ontem

mastigava a ausência

destilou-me a espera.

A vida breve

dispensa a superfície.


Encheram-se de vazios

os meus restos –

iscas dispersas entre as águas

confetes que não me alimentam.


O peixe que ontem

distraia precipícios

enfeitou amor e luto.


A vida é febre

e ferve, e agora

é recriar o aquário oculto

limpar vidro, excesso

líquido.


Limpar o peixe: comê-lo;

e transbordar

o vazio.






(A poeta mineira Mônica de Aquino já publicou seus escritos em antologias e em páginas eletrônicas do Brasil e do exterior. Seu primeiro livro, Sístole, foi lançado em junho de 2005 (Editora Bem-te-vi). Participou de vários eventos apresentando seus poemas, dentre eles o Terças Poéticas, realizado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, a Primavera dos Livros, em São Paulo, e a Feira do Livro de Porto Alegre)












OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão




LUI COIMBRA – OURO E SOL






De início, estamos diante de uma Astrologia que subverte alguns velhos conceitos sobre destino e quaisquer palpites do que possa ser um amanhã. Depois, vamos seguindo ao doce arremate da melodia de Vem Morena, certos de que, ao aportarmos em Minha Ciranda, teremos um abundante caminho no qual a sensibilidade sonora reina com suavidade e propriedade. O que vem adiante resume o belo trabalho do instrumentista e compositor Lui Coimbra num conjunto de expressões marcadas pela interpretação de faixas selecionadas com muito esmero.


Primeiro disco solo desse virtuoso violoncelista, Ouro e Sol vem nos trazer um Lui que convence pela sua equilibrada e, ao mesmo tempo, intensa performance vocal. Certamente, o curriculum do artista, agregando trabalhos com gente como Gil e Caetano, Paulinho Moska, Ney Matogrosso e Alceu Valença, coloca-o num rumo que denota um pouco da maturidade musical pulsante no cd. Pelas escutas desse trabalho, percebemos que personalidade é algo de sobra por lá, além de dar corpo a uma intimidade entre sons e canto. A versatilidade abraça os espaços e é capaz de unir o erudito ao popular, colocando nossos ouvidos ao deleite de um harmonioso encontro entre cello e zabumba. É muito bom perceber no disco o modo como o artista explora temas folclóricos, como é o caso de Peixe Vivo, canção que se utiliza de samplers entrecortados com vozes a construir um verdadeiro mosaico de diálogos esparsos, ecos que se agigantam por representarem recortes vivos de nossa gente. Fazê o que?, nos indaga a encantadora profusão de rabecas de uma das faixas. É retirar o fardo dos ombros e alma e mergulhar, mesmo que seja por alguns ínfimos instantes, numa serenidade possível.











Purificação no Ganges

Pintura: Maurício Takiguthi











JANELA POÉTICA (III)


QUASE A INFÂNCIA

Célia Musilli




na tarde líquida
caramujos deixam viscosidade e grude
entre as árvores
cascas camuflam-se nos troncos
até que antenas marrons
despontam para lembrar
que é tenso e úmido
lamber escargots
como o primeiro beijo

prossigo entre as folhas
em rotas de seda
tecelã da brisa que acende
a memória de um canto breve
até a última ciranda
perdida nos galhos
trincar a fruta
entre a língua
o gozo
e o sumo



(Célia Musilli, jornalista, poeta e escritora, elege a sensibilidade como lente apropriada para ver o mundo. Prefere pétalas a pedras. Adora sutilezas. Usa e abusa do olhar feminino para criar teias poéticas, fia palavras dia e noite. Vive em Londrina (PR), é autora do livro de poesia “Sensível Desafio” (AtritoArt/2006))











DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Bolívar Landi




Dúvida (Doubt). EUA. 2008.









Há certos momentos em que ficamos perplexos, sem saber a quem dar razão, sem ter a mínima certeza de nada... Esta é a sensação de torpor que predomina ao terminar de assistir a este filme. Nós temos uma sede visceral pela verdade, buscamos uma resposta definitiva, irrefutável que, para o bem ou para o mal, traga paz ao nosso espírito. O filme, contudo, não nos oferece isto. Ele apresenta apenas possibilidades, indícios não conclusivos, discursos sedutores, dúvidas...


A história se passa em um colégio católico, no novaiorquino bairro do Bronx, na década de 60. Meryl Streep, mais uma vez irrepreensível, em sua 15ª indicação ao Oscar, interpreta uma austera religiosa que dirige sua instituição com mãos de ferro. Sua presença é capaz de provocar arrepios e desconforto em quem está à sua volta. Sem provas definitivas e movida basicamente por sua intuição, ela tenta mostrar que o carismático padre da paróquia, representado de forma brilhante por Philip Seymour Hoffman, está tentando aliciar um dos seus alunos (o primeiro estudante negro a freqüentar o colégio). Tal é a dubiedade dos acontecimentos que ficamos sem saber o que realmente move a diretora em sua obcecada missão: inveja, intolerância, perspicácia? E o que conduz o religioso em seus atos: compaixão ou desejo? Abnegação ou medo? Outro elemento que contribui para aumentar o estado de confusão do filme é a excelente atuação de Viola Davis, no papel da mãe do garoto envolvido, cujas revelações dão um duro golpe aos nossos padrões de moral e às nossas concepções de verdade.


Temos aqui uma produção corajosa, lúcida e extremamente bem conduzida. O roteiro é uma adaptação da peça teatral do próprio diretor, John Patrick Shanley, vencedor, por este trabalho, do prêmio Pulitzer em 2005. Uma obra sem pieguismos e com uma imparcialidade raramente vista. A película apresenta temas árduos de serem abordados: pedofilia no clero, vocação religiosa, maledicência, intolerância e traz questionamentos difíceis de serem respondidos.


Este definitivamente não é um filme inocente. O que há de mais inquietante nesta obra, no entanto, não é apenas a definição do que é verdade ou mentira, mas a relatividade com que estas questões são tratadas. Os sofistas na Grécia antiga, e pensadores contemporâneos como Nietszche, diziam não haver verdades absolutas. Por mais que tenhamos provas, nunca conheceremos a totalidade de um acontecimento ou fato. Não existiria, também, uma única resposta, mas discursos possíveis, baseados nas evidências e na coerência das interpretações. Estamos, assim, inexoravelmente condenados à dúvida, mas, ao menos, muitos serão os lugares onde poderemos encontrar a verdade.





(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História e encontra nos filmes uma forma de conhecer realidades distintas e experimentar novas sensibilidades)









Cárcere

Pintura: Maurício Takiguthi













JANELA POÉTICA (IV)




BALA PERDIDA


Luciano Fraga




“...eu sou o Nada, e é isso que me convém

eu sou a execução, a perfuração...”

Lobão







Solene

a mandíbula esnobe

desce e sobe

mastigando alhos

para desvelar agruras

terrificantes

vindas de onde?

De longe

das alturas

das vielas

das capelas

das panelas destampadas

de argila

das faces rubras

das donzelas

carregadas de aflições

pedregosas...

Meus resquícios

de goela

suspiram pólvora

à espera do estalo

da faísca imprecisa...





(Eu não me pertenço, assim, acredito na existência de três faces da necessidade transformadora: a do Poeta, a da Poesia e a do homem que sou, soa e escuta... O homem transporta as enfermidades e o dia adia para que o poeta a transforme em poesia. O homem/poeta é o misto quente, agente, fio condutor de energia desta poesia que em si mesma já existia, há tempos... É preciso ficar atento a este atanazamento, esta profecia, à manifestação de santo pelo avesso da alegria, que vem lá de dentro. Como disse Pessoa: “Eu sou nada...” Mas minha alma quer revoltar...)











Sectários Genealogia

Pintura: Maurício Takiguthi











PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Héber Sales



Filósofo, poeta e compositor, parceiro, entre outros, de Marina Lima, Adriana Calcanhoto, João Bosco e Lulu Santos, Antonio Cicero* publicou em 2006 o livro Finalidades sem Fim, uma obra que o coloca, a meu ver, no centro de um espaço ainda muito carente na poesia brasileira: o espaço de uma reflexão unificadora e sistemática sobre a arte. Não é uma posição fácil, já que vivemos num tempo em que todo juízo é relativizado, as grandes narrativas são vistas com desconfiança e debater o gosto se tornou politicamente incorreto. Talvez por esses motivos, os ensaios de Finalidades sem Fim ainda não mereceram a devida atenção entre nós, especialmente na Academia Brasileira, onde eles deveriam estar sendo lidos com entusiasmo. Nesta entrevista, trago a vocês a parte central de um longo bate-papo que Antonio Cicero e eu tivemos há alguns meses. O ponto de partida foi a minha inquietação diante da sua tese do fim das vanguardas. Segundo o filósofo, não há e nem haverá mais vanguardas porque elas já cumpriram o seu papel de desprovincializar a arte e afirmar a validade de toda forma de poesia - o que não significa dizer que todo poema é bom e nem que não haja mais experimentação poética. É a partir dessa afirmação que se desenvolve a nossa sabatina com Antonio Cicero. Vamos a ela.



Antonio Cicero
Foto: Eucanaã Ferraz




DA - Se, como você sustenta no livro “Finalidades sem Fim”, a desprovincialização da poesia nos permite todas as formas, se a poesia hoje não consiste em nenhuma forma específica, o que é poesia afinal? O que a distingue de outros gêneros?

ANTONIO CICERO - Tanto sobre o que distingue a poesia de outros gêneros quanto sobre o valor de um poema, um dos caminhos que tenho seguido diz respeito ao grau de escritura de um texto. Considero o poema o mais escrito dos escritos.

DA - Qual seria então, por exemplo, a diferença entre o poema e o ditado? Enquanto textos prontos e acabados, os ditados parecem compartilhar com o poema muitas das especificidades deste: 1) neles também não se separa O QUE se diz da forma COMO se diz; 2) daí serem igualmente resistentes à paráfrase e à tradução; 3) além disso, eles são entesouráveis, ou seja, são um patrimônio da língua (não sofrem de descartabilidade). A meu ver, a única diferença entre o ditado e os poema seria que, ao contrário deste, o ditado costuma ser usado com uma finalidade cognitiva ou prática. Mas essa distinção poderia ser anulada, e um ditado elevado à condição de poema, caso ele fosse apresentado como objeto sem função específica por uma pessoa socialmente autorizada para tal: ou seja, se um poeta apresentar um ditado como poema, quem irá dizer que não o é, especialmente se o autor usar padrões reconhecidamente poéticos? Será que, no final das contas, poesia não seria simplesmente aquilo que os poetas dizem ser poesia?

ANTONIO CICERO - Suas observações são pertinentes, você percebeu coisas importantes. Você observa que caracterizo o poema, enquanto poema, como "um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada". De fato, para mim, essa é uma das descrições que chegam mais perto de determinar o que é um poema, SEM A UTILIZAÇÃO DE QUALQUER JUÍZO DE VALOR. Entretanto, não creio que seja possível determinar totalmente o que é um poema sem a utilização de juízos de valor.

Um ditado, uma vez retirado de todo contexto utilitário ou cognitivo, poderia ser considerado como um poema. Publicado numa revista literária, mesmo sem versos ou título (como os poemas concretos), ele seria considerado como poema: o que uma revista literária faz é exatamente retirá-lo de qualquer contexto utilitário ou cognitivo e apresentá-lo à apreciação estética. O mesmo ocorre, naturalmente, quando Duchamp retira um urinol do seu contexto utilitário ou cognitivo e o expõe num museu: ele passa a ser considerado como obra de arte.

Examinemos bem o que eu disse: retirado do seu contexto utilitário ou cognitivo, um objeto (que pode ser verbal, como no caso de um poema) passa a ser CONSIDERADO como se considera uma obra de arte. Será que isso quer dizer que ele já é, então, uma obra de arte? Não necessariamente. Eu posso olhar para um pretenso poema numa revista – isto é, um texto que pede para ser considerado como um poema – e dizer: isso não é um poema; é uma bobagem. E se esse juízo se generalizar, é provável que o pretenso poema seja esquecido, que acabe sendo, realmente, considerado apenas uma bobagem por todo o mundo, e que não chegue a ser visto como obra de arte.

DA - Em que condições, então, podemos dizer que um texto que se diz poema é um poema, e dos bons?

ANTONIO CICERO - O que ocorre é que não é possível determinar de modo puramente descritivo se algo é um poema ou não. Para determinar se algo é um poema, entra em jogo, além da descrição que dei acima ("um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada"), algo que pode ser objeto de discussão, mas não pode ser objeto de prova. Refiro-me a um juízo de valor. Além de ser “um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada”, um poema é um objeto que consideramos valer por si, sem necessidade de justificativa ulterior: um objeto ao qual damos valor, sem que tenhamos nenhum interesse ulterior na existência dele.

DA - E quando é que uma obra de arte vale por si?

ANTONIO CICERO - Quando, mesmo sem nenhuma finalidade biológica, prática ou cognitiva, ela mobiliza, vitaliza e faz interagirem no mais alto grau as nossas faculdades, as nossas capacidades, os nossos recursos. Quando ela nos atrai e nos faz pensar nela com vários dos recursos de que dispomos: inteligência, razão, cultura, sensibilidade, sensualidade, emoção, senso de humor etc. Está justamente na provocação e na mobilização dos nossos recursos o valor dela. Um poema que não faça nada disso, ou que o faça muito pouco, não é bom, ou mesmo não é um poema.

DA - Não seria esse um conceito muito subjetivo e, portanto, relativo? Ele parece justificar a posição daqueles que dizem que cada um deve decidir o que é um poema...

ANTONIO CICERO - Quando digo que um texto é um poema, ou que é um poema bom, não estou dizendo meramente que gosto dele, mas que todo o mundo que o considere desinteressadamente DEVE reconhecer que se trata de um poema. Se não fosse assim, valeria aqui o ditado “gosto não se discute”. Ora, todo o mundo sabe que o que mais se discute é gosto, quando se refere a obras de arte. Por outro lado, se digo “eu gosto de abacate”, não pretendo o mesmo. Não acho que todo o mundo que seja despreconceituoso DEVA gostar de abacate. É aqui que vale o ditado “gosto não se discute”.

Há, sem dúvida, muita discussão sobre determinados textos. Mas essas discussões mesmas mostram que há alguns terrenos em comum entre os que dela participam. Não se pode provar por a + b que tal texto seja um grande poema, mas milhões de páginas têm sido escritas, há séculos, para argumentar que tais ou quais textos são (ou não são) grandes poemas. Com o tempo, alguns textos acabam sendo reconhecidos QUASE universalmente como clássicos ou canônicos. São textos que entraram para a língua.

Sobre isso, quero comentar uma vez mais a sua observação sobre os ditados populares, o que pode ajudar a compreender o que quero dizer. Os gregos arcaicos, que ainda não empregavam a escrita, como Homero, usavam a mesma palavra – epos – para denominar poema épico, palavra, ditado, gnoma, canção curta etc. (Falo disso no ensaio Epos e mythos em Homero, publicado no meu livro Finalidades sem Fim). O que tinham essas coisas todas em comum? Elas eram memorizadas e, por isso, reiteráveis, ao contrário das falas cotidianas: elas faziam, por isso, parte da língua. Por que eram memorizadas? Com exceção, é claro, dos poemas e das canções, essas coisas eram memorizadas porque se considerava que tinham uma função utilitária na língua. Quem decidia? Ninguém em particular e todo o mundo em geral. Quem decide ainda hoje se um sintagma qualquer entra para a língua? Ninguém em particular e todo o mundo em geral. Eu posso resolver inventar uma palavra nova e defini-la. Ela pode parecer muito com as outras palavras. Entretanto, não sou eu nem ninguém em particular quem decide se ela vai ser uma palavra ou não, mas o fato de que ela "pegue": de que seja, em geral, usada como uma palavra. O mesmo ocorre com um ditado.

Pois um poema entra para a língua quando se considera, QUASE universalmente, que ele vale por si.

DA - O teu livro Finalidades sem fim descortina um horizonte muito amplo para o poema. Ele nos convida a penetrar no território da poesia de maneira direta, sem que confundamos os meios (formas/modelos poéticas) com o fim (provocar o livre jogo entre as faculdades do conhecimento). Por outro lado, o conceito de poema defendido nele me parece às vezes tão largo ao ponto de confundir as fronteiras tradicionalmente estabelecidas entre os gêneros. A prosa de Guimarães Rosa, por exemplo. Por que não considerá-la poema, uma vez que ela possui em alto grau aquela que para você é a virtude maior dos poemas (ser o mais escrito dos escritos)?

ANTONIO CICERO - Fico muito feliz de você ter gostado do Finalidades sem Fim. Concordo inteiramente com você sobre as fronteiras tradicionais entre os gêneros. Como as distinções baseadas na forma se revelaram puramente convencionais, elas se tornaram fluidas para nós. Assim, você tem toda razão em relação a Guimarães Rosa, por exemplo.

DA - Noto uma aproximação muito grande entre teu conceito de poema e a teoria de Jakobson. Refiro-me à tese de que o valor do poema não é dado pelo que ele possa dizer de alguma coisa, mas pela forma como ele o diz: nele não se pode separar significante de significado. Ora, parece-me que você está dizendo, em outras palavras, o mesmo que o russo afirmou, ou seja: que os textos poéticos distinguem-se pelo fato de terem como principal assunto a linguagem em si (o código): mesmo quando parecem dizer alguma coisa, estão, na verdade, tratando, como assunto principal, da linguagem em si e, eu acrescentaria, do poder encantatório dela. Ora, nada me parece mais verdadeiro em relação à obra de Guimarães Rosa do que isso.

ANTONIO CICERO - Quanto a Jakobson, você o torna mais próximo quando fala do "poder encantatório" da palavra. Mas é também possível lê-lo por um viés excessivamente formalista, que não tem tanto a ver com o que penso.

DA - Finalmente, o que a tua poesia tem a ver com o que o filósofo Antonio Cicero pensa? Em que medida ela é influenciada e moldada pelas teses que lemos nos ensaios de Finalidades sem Fim? Como se dá essa relação entre poesia e filosofia em teu trabalho? O que uma tem a dizer à outra em tua obra?

ANTONIO CICERO - Grande parte do que digo sobre a poesia é resultado de minhas experiências de leitura, em primeiro lugar, e de produção de poemas, em segundo lugar. Depois, em terceiro lugar, entra em jogo tudo o que li sobre a poesia, quer tenha sido por poetas, quer por teóricos, críticos, filósofos. Comparo essas teorias com minha própria experiência de ler poemas, de escrevê-los e de pensar sobre a poesia. A partir da minha formação filosófica, formulo então as minhas concepções sobre esse assunto. Naturalmente, essas concepções, retroativamente, se refletem de alguma maneira no meu modo de fazer poesia: mas penso que, em última análise, a minha experiência de leitura e de feitura de poemas é determinante em relação à teorização sobre a poesia.








* Antonio Cicero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Formou-se em filosofia na Universidade de Londres. Poeta, tornou-se conhecido nos finais dos anos 70 como letrista de sua irmã, Marina Lima. É autor, entre outros livros, do ensaio O mundo desde o fim (1995) e de duas coletâneas poéticas: Guardar (1997, Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira) e A cidade e os livros (2002). Organizou, em parceria com o poeta Waly Salomão, o livro de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (1994) e, junto com o poeta Eucanaã Ferraz, Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (2003).



(Héber Sales é poeta, profissional de marketing, articulista e professor. Mantém o blog Coisas para fazer com palavras e tem textos publicados em revistas e sites como Digestivo Cultural, Portal Literal, Germina, Webinsider e Diversos Afins)








Ensimesmado 2
Desenho: Maurício Takiguthi









JANELA POÉTICA (V)




CARTILHA


Fabrício Brandão




Ensina-me outros modos

que não sejam estes

os de agora

irrompendo em peles amanhecidas

idiomas antigos que não uso mais


Deixa-me assim

taciturna a mente

sem contar os fios que caem


Posso arranhar paredes de qualquer madrugada

sem que o temor se agigante

nesses olhos rasos que sempre aprenderam

a secar em silêncio












Sol de Inverno V

Pintura: Maurício Takiguthi










LUZ


Roberta Tostes




A criança ergueu seu corpo de pequenas lendas, e riu, como se fosse a primeira vez. Correra a vida breve, desde o parto, irretocável momento de corte e luz. O parto foi a dor desgarrada e nobre, aquiescida de um sim de mãe; explodindo a vida, em sangue, em gozo, em berro, em jorro, em luz. Diminuta e diáfana, a taça daquele corpo, embebido em instintos, recobriu de vermelho o sangue por dentro das veias. E toda a sorte de vermelho que encontrasse, seria para sempre a cor do de dentro. Com magia de coisa posta em abismo, dançava meio que aos berros, na companhia agreste de sua insensata solidão. De negro e baço olhar, de acastanhada promessa. E todo riso dissolvia a atmosfera em sobrenatural, como lágrima se despedindo do céu, como fortuna acontecendo da terra o alimento. Era ingrata a companhia da mãe, posto que desde o início prevaleceu a nua selvageria do parto, o feto-instinto moçando as carnes cruas. Cheirava a incenso, e era natural aquele ar velho sobre os destinos.




(Roberta Tostes Daniel, carioca de nascimento, também é mineira - por vocação e herança familiar. Habita mar e montanha. Trabalha para sobreviver, escreve porque vive. Seu laço mais profundo com a existência é o que a une à palavra, aos sentidos e à memória. Reconciliada com o presente, agora explora sua outra acepção, porque assim o vive, prazerosamente, a conjugar amor. Mas seu grande desafio é o futuro, tão fluido. Vir a ser é a sua obra)











Silente III

Desenho: Maurício Takiguthi












JANELA POÉTICA (VI)




O FRACASSO DA LINGUAGEM


Lívia Soares




"...on this glorious occasion of splendid defeat..."

ANTHONY NEWLEY




"Eu te amo"

é uma concha vazia

onde ecoam mentiras primevas.


"Eu te amo"

é um possível mantra

de retorno à origem do fogo.


"Eu te amo"

é inversamente proporcional

à tua ânsia de amar.





(Lívia Mara Araújo Soares nasceu em Caicó/RN e vive hoje em Natal, a capital do estado. Trabalha e sonha entre o sertão e o mar, não exatamente nessa ordem. Prepara um livro de poesia, outro de contos e outro de ensaios, exatamente nessa ordem)












Anchieta, o Apóstolo de São Paulo

Pintura: Maurício Takiguthi










O SILÊNCIO DO DELATOR


A reconstituição de uma época riquíssima, num romance ágil, denso e original


Por W. J. Solha




A ficção é a melhor forma de se assistir aos acontecimentos de uma parte do passado como se fosse “ao vivo”. Tornam-se incrivelmente presentes, nos grandes romances, aquela gente que resistiu à invasão napoleônica em Moscou, aqueles americanos ricos que vagaram pela Europa no entreguerras, aqueles paraibanos que viveram o Ciclo da Cana de Açúcar. “O Silêncio do Delator”, de José Nêumanne, tornou-se, na mesma linha, a maneira mais perfeita de se “ver” o que foram os muitos grupos de jovens brasileiros dos anos 60, apaixonados – e marcados - por Bob Dylan, Mao e Che, pelos Beatles, mais o cinema de Glauber e Godard, além do tórrido tempero da revolução sexual.


Tolstoi dizia que não escrevera nada que não houvesse visto. Hemingway fez parte da lost generation. Zé Lins foi, ele mesmo, um menino de engenho. Com uma carreira que inclui a Folha de São Paulo, o Estadão e o Jornal do Brasil, Nêumanne começou no jornalismo justamente nos anos 60, tema de seu livro, como crítico de cinema do Diário da Borborema.


- Nos idos de 67 – segundo me disse -, Bráulio Tavares presidia o Cineclube de Campina Grande, eu, o Glauber Rocha. Eu programava o Cinema de Arte do Cine Capitólio; ele, a sessão Cultura do Cine Babilônia.

Adquirindo saber e enorme vivência com artistas, políticos e intelectuais daqui e do Sul em seu desenvolvimento, aparelhou-se, com o tempo, para produzir aquilo que o narrador de seu livro classifica de romance enciclopédico, o que nos lembra logo o “Ulisses” de Joyce e o “Contraponto”, de Huxley, obras que fazem os inventários completos de suas épocas e de seus ambientes, tal como Dante – em “A Divina Comédia” - fez com a Florença que o exilou. Assim, “O Silêncio do Delator” nos traz do passado uma juventude idealista e culta que seqüestrou um embaixador, protestou contra a guerra do Vietnã, padeceu a ditadura, idolatrou Woodstock; viu mil vezes “A Chinesa” de Godard e “Os Retratos da Vida” de Lelouch, analisou telas de Lichtenstein e de Wharol; dissecou romances de Camus e Salinger; riu e se comoveu com as tiras em quadrinhos de Crumb e Quino, deslumbrou-se com as sinfonias de Luciano Berio e Phillip Glass, usufruiu e sofreu a revolução da pílula, que transformou o comportamento reprimido da década anterior, principalmente entre as mulheres.


- O livro de Nêumanne – diz Affonso Romano de Sant´Anna – realizou, de modo original, aquilo que tantos tentaram – “o romance de minha geração”.


De modo original? Sim, porque, entre outras coisas, “O Silêncio do Delator” é um enorme monólogo em que um autor incerto orquestra as vozes de todo um grupo de velhas figuras - marcantes no seu tempo -, reunidas agora no funeral de uma delas, o Morto, com quem faz duo constante (numa brincadeira com o Brás Cubas do Machado). Falam, aí, a historiadora, o publicitário rico que não conseguiu se impor como romancista, a psicanalista, o ex-guerrilheiro que fez fortuna especulando na bolsa, o militante comunista que virou ministro, o popstar que é gay; o artista plástico que ficou na miséria; etc, etc.


Ao contrário que seria de se esperar de quem é poeta, Nêumanne não usa em seu romance as construções comuns em Gabriel García Márquez (“El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre”) ou Guimarães Rosa (“estalinho de estrelas, deduzir de grilos”). Assim, ele preenche as 540 páginas de seu livro com o que ele mesmo chama de “texto zero”, tão despojado quanto o do também jornalista-romancista Ernest Hemingway.


- “Tudo o que estiver ao meu alcance será revelado neste velório”, promete, objetivamente, o início de “O Silêncio do Delator”. Mas isso, capciosamente como no título, não é cumprido, pois enquanto García Márquez cria nomes precisos para os habitantes de sua precisa Macondo, como José Arcádio Buendía, Amaranta, Remédios, mais Úrsula Iguarán; enquanto, no “Grande Sertão: Veredas”, vigoram os bem mineiros Jisé Simpilício, Titão Passos, Jazevedão ou Fafafa, Nêumanne vai chamando suas personagens femininas de Helena, Penélope e Hebe, obtendo com isso uma desindividualização-generalização semelhante às das máscaras do teatro grego, colocando todo mundo – isso é ainda mais significativo – em alguma cidade do país da qual não se sabe o nome nem a que estado ou região pertence. Acaba-se chegando, com isso, por vias indiretas, ao “poético” necessário ao gênero herdeiro da “Ilíada” e da “Eneida”.


Quando peguei “O Silêncio do Delator” pela primeira vez, há cerca de dois anos, travei logo no início. Não conhecia o comentário em que Bráulio avisava: “No começo o leitor custa a pegar o tom e o ritmo, mas depois que consegue passar a terceira, vai em terceira até o fim”. Senti o que me pareceu excesso de referências e citações, grande problema do “Contraponto” de Aldous Huxley... e de todos os meus romances. Tanto, que para me livrar do cacoete no último, ainda inédito, tive de reduzir suas 400 páginas originais a 160. Mas com o nome de Nêumanne repetido freqüentemente – há pouco tempo – devido à sua posse na Academia Paraibana de Letras e na de Cinema, retomei a leitura de sua narrativa e me aconteceu a reedição de minha descoberta em dois tempos da “Chacona”, de Bach: o primeiro, com estranhamento e resistência, o segundo com sintonia e prazer. Nada de excesso de referências. O que há é um fabuloso uso de necessários tijolos ou átomos para a reconstrução de um universo, talvez o mais rico da recente história brasileira.


Bem, falou-se e fala-se muito, merecidamente, de A Pedra do Reino, do Ariano Suassuna. Acho que está na hora de se fazer igual barulho em torno de todo esse “Silêncio”, para que se faça justiça à sua retumbante fortuna crítica, a que venho juntar este meu tarol. Uma minissérie da Globo cairia bem.





(Meti-me em teatro, cinema, poesia, pintura - já os deixei de lado - permaneço romancista desde criancinha e quero ser Guimarães Rosa, Machado, Graciliano, Zé Lins e Euclides da Cunha quando crescer)











Sectário Inerte

Pintura: Maurício Takiguthi











JANELA POÉTICA (VII)




DAS ESPERAS


Alyne Costa




Ora apresento-me numa fragilidade ambígua
Noutras me dispo e renasce uma víbora
E sem muitas profundezas, douro frases em cascatas
A
plenitude das gueixas
O calafrio das mulatas
E atitudes, colho várias
Minha meiguice talhada a canivete
Minha doçura
Minha bandeira
Meu brinquedo antigo
Aquele amor guardado num lenço perfumado
A minha santa histeria
Minha sagrada alegria
Voando na contra-mão do destino que rabisquei a lápis
E sou feita ainda de tantas perguntas.
Um rascunho num pedaço de papel de pão
Paixões bordadas num embornal
E se quase nada respondo é que aprendo a ouvir
Com olhos, tato e coração
A minha santa não é casta, é vasta
E o meu amor é um féretro com tulipas
Dos sonhos em sepulcro
Das flores que enfeitam calvários
E de repente, me invadem ondinas
A luz da lua que revigora as meninas
E passo a pular amarelinha
A fazer com miçangas pulseirinhas
E visito as Igrejas, acendo incensos
E comungo, resmungo, excomungo
Essa parte é pública
A timidez é notória
Sou uma com certa dúvida
E várias com mil histórias
Não quero meus versos em molduras
Quero-os nas bocas das mais vis criaturas
Quero-os férteis, clandestinos e cretinos
No requebro das moças, no assobio dos meninos
Quero-os ponte pro que não me tangencia
Luz da lua e estrela guia
Quero parir poesia
Dançar com sílfides e gnomos
Despir-me à lua cheia numa rede
Cobrir-me de ostras
Virar mosaico
Quero-me divida em letras e cacos
Dispersos ao vento que sopra do cais
Para que quando me encontrares
Não haver nem sobras
De tantas esperas, rodilhas e quimeras.





(Alyne Costa é servidora pública seis horas por dia e poeta em tempo integral. Bacharela em Direito pela UFBA é também mãe de Victor (14 anos). É poeta desde que aprendeu a ver, lançou pela Editora Cispoesia seu primeiro livro em 2008: 29 Fragmentos. Escreve também para o Blog Poema Dia, junto com outros poetas. Mulher de fibra, cismas e desafios, amante da Arte, vê na poesia o caldo de sua sopa)












OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão




ALICE RUSSEL – POT OF GOLD







Certos discos possuem uma capacidade imagética intensa, a ponto de nos sugerirem ambientações para as nossas mais variadas viagens mentais. Então, é como se, a cada faixa escutada, penetrássemos em lugares distintos, todos eles movidos pelo desenho próprio de nossas estrangeiras elucubrações. É um trunfo certo podermos explorar os rastros deixados por tais marcas. Coisas assim existem. Estão em trabalhos como a da britânica Alice Russel. Quem não conhece seu rosto, poderia logo pensar que a loira seria uma daquelas negras de poderosos quilates vocais entoando sua performance pelas ricas alamedas do soul, funk e jazz. Discussões étnicas à parte, no sangue da moça inglesa corre simplesmente música da melhor qualidade, tudo muito bem dotado daquilo que vez por outra apelidamos de um bom groove.


Pot Of Gold reúne um conjunto de canções cujo repertório foi selecionado com elevado bom gosto musical. Além da belíssima interpretação vocal de Alice, o álbum traz em si a vitalidade presente em seus arranjos. E isso com certeza faz enorme diferença. É certo que as canções bebem diretamente no funk/soul setentista, recriando atmosferas de outrora, entretanto, aqui não há espaços para as chamadas releituras ou apelos nostálgicos. Há, sim, intensos percursos equilibrando voz e sons aos requintes de modernidade. Impossível enumerar predileções quando a qualidade é unânime, mas, faixas como Turn and Run, Two Steps, Let Us Be Loving, Lights Went Out, Crazy e Universe são, de fato, arrebatadoras. Pot Of Gold é um daqueles trabalhos que inauguram sensações especiais embutidas em momentos somente nossos. Ouvir, por exemplo, esse disco em plena escuridão é como descortinar mistérios íntimos. Ajuda-nos a passar levemente por certos labirintos.











Ensimesmado III

Pintura: Maurício Takiguthi












JANELA POÉTICA (VIII)




SOBRE O RISCO DE UM TEMPO


Leila Andrade



“e as horas revestidas de demônios na velocidade de não ser...”

(Wesley Peres)




Os meus dias atropelam as horas

um ritmo indesejado.

Dos últimos tempos, faz parte o susto

dos acontecimentos:

que se foram,

que estão por vir.


O tempo e sua lógica

imperceptível, quase sensata.


Deuses impróprios

esses do meu mundo...


Da água do rio profundo

sobra sempre uma gota no meu copo.












Mitiko

Pintura: Maurício Takiguthi








* O artista plástico paulista Maurício Takiguthi diz revelar em sua obra seu estado de espírito e sua percepção do mundo: “Não acredito mais no “dom” como graça divina que condiciona e pré-determina o pensar e o fazer artístico, não compartilho da idéia muito difundida do artista como mensageiro na terra da mensagem de Deus e muito menos da visão do artista como aquele transgressor excêntrico que entretém a platéia à semelhança do palhaço de circo. Acredito no esforço na direção do aprendizado e na possibilidade de escolha. Vejo-o como aquele que estabelece uma relação complexa com o mundo a partir da atribuição de valor e sentido e expressa suas concepções, percepções, sentimentos a partir dessa interação sensível. A arte, em poucas palavras, representa a busca de si mesmo e a expressão dessa busca”.


Em seu trabalho, que prima pelo realismo de expressões e formas, Maurício expõe algumas certas visões que perpassam mistérios do tão contraditório e complexo espírito humano.



 
publicado por Fabrício Brandão
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