31 de dez de 2009,10:00
QUADRAGÉSIMA LEVA


Pintura: Wagner Willian





CICERONEANDO



O findar de um ano nos reserva bem mais do que uma mera passagem física dos nossos instantes todos. De fato, todos os feitos construídos até aqui possuem sua dose de significado e são especiais por terem flagrado momentos dos mais gratificantes possíveis. Na feitura de nossas Levas, vislumbramos a arte do encontro, outrora tão apregoada e desde sempre eternizada pelos versos do poetinha Vinícius de Moraes. Incessantemente, a grande aldeia midiática chamada internet nos assoma com força e nos propõe amplas possibilidades de diálogo. Mesmo que a compressão do espaço e do tempo por si só não seja suficiente para aproximar fisicamente pessoas, todo um caldeirão de signos nos é ofertado de modo perene, fazendo com que laços sejam alimentados pela causa nobre de se compartilhar o sentir, o saber e o sabor de um universo de coisas. Hoje, a Revista Diversos Afins celebra muito mais do que 40 Levas. Comemoramos, sim, as conquistas advindas de um estreitar frequente de laços humanos, pois eles são, de fato, a matéria essencial de todo o trabalho produzido até aqui. Entre o desafio atroz de driblar o tempo, reconhecemo-nos vivos, inquietos e sonhadores por meio de versos, prosas, imagens, telas, fotografias e toda a sorte de expressões fomentadas por escritores, jornalistas e artistas que por aqui demarcaram suas faces. E continuar a jornada significa adentrar no universo poético de gente como Rui Almeida, Beatriz Bajo, Zenilda Lua, Graça Pires, Luís Garcia e Daniel Mazza. Pulsamos à flor da pele nos registros densos e provocantes da arte aqui exposta de Wagner Willian. Envoltos estamos perante as linhas de prosa de Carmélia Aragão e Daniela Mendes. Em entrevista concedida ao escritor Marcos Pasche, o poeta cearense Daniel Mazza divide conosco um pouco de suas vivências e olhares em torno da sua sina literária. Num de nossos cômodos, um cinéfilo André de Leones rememora Aprile, do diretor italiano Nanni Moretti. Noutro, estão os ouvidos despertos e atentos de Larissa Mendes a nos apresentar a musicalidade de Julian Casablancas, além de um instigante olhar sobre o mais novo filme de Woody Allen. Somos muito felizes por podermos congregar pessoas em torno de um mesmo projeto. O instante atual se presta a louvarmos a colaboração de todos aqueles que marcaram sua trajetória por todas as nossas edições. A você, leitor, nossos mais sinceros agradecimentos pela reserva incondicional da parcela preciosa de seu tempo como forma de atenção às paisagens humanas aqui ofertadas. Evoé!



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.





JANELA POÉTICA (I)


CONTRACENA

Graça Pires


Debruçados sobre o vértice mais liso da manhã,
antecipamos a metamorfose do dia.
Temos em nossas mãos
a mesma forma côncava das conchas,
para nelas caber o mar possível,
ou podermos segurar toda a ternura
fermentada nas espigas.
Estranho... o reflexo verde
nos olhos dos homens,
quando as árvores nuas
são, apenas, o perfil da noite
Incógnitos, contracenamos a esperança
consentida no sorriso dos que sonham.




(Graça Pires nasceu numa cidade litoral portuguesa – a Figueira da Foz – onde aprendeu a amar o mar e os barcos e com eles as palavras envoltas na emoção de viver. É poeta e sabe que só a poesia pode absolvê-la de todas as fragilidades)







Pintura: Wagner Willian







O REMOVEDOR DE ESMALTE DE UNHA


Carmélia Aragão



Há muito tempo deixei de ter vísceras. Nada de esôfago, estômago, intestino, no lugar, um pires de porcelana. Na garganta, uma colher atravessada. No crânio, o nome dele corroído, enferrujado como uma placa de rua antiga. É assim que me sinto: objeto, coisa, quase, um processo que começou quando conheci M. que ao saber o quanto o amava, deixou-me. O meu amor era pesado demais, incondicional demais, bastava que M. voltasse. Não voltou.


Procurei nos hospitais, nas casas noturnas, no trabalho. Esperei no corredor, nas escadas, na portaria, na praça. Fui a cartomantes. Adoeci. Não querer existir é diferente de querer morrer. É diferente de não querer nascer, de não querer saber mais do próprio nome, nem da própria imagem. Fiz-me sentinela. Nem sinal da morte. Na rua, M. me surgiu com uma mulher pequenina, tão bonita, tão sorridente como eu ao conhecê-lo. Tornei-me viúva. Um morto não sorri, não cumprimenta, não fala. Um morto deixa objetos, cartas, roupas, lembranças sem volta. Abandonei tudo que era dele e meu.


Comecei a andar nos passos daquela mulherzinha para compreender. Chamava-se "A". Ela me despertava sinais, aparentemente, irracionais de fuga, raiva e pesar de mim mesma. De tão perfeita, A. me remetia a uma sequência de imagens silenciosas como a ordem alfabética dos dicionários; a sombra calculada entre um jarro e duas maçãs; a vitrine de uma loja de roupas caras; o tule rosa que prende as flores; os cartões postais; as fotografias de casamento; o vapor dos telhados de zinco; a porta de um auditório vazio; os rótulos dos produtos de limpeza, além do rótulo de um removedor de esmalte de unhas.


Há muito tempo deixei de ter vísceras. Objetos compõem todas as partes do meu corpo. Quando eu morrer, será, certamente, a autópsia mais estranha que já fizeram. Não canso de pensar a cara de espanto dos médicos, mesmo agora enquanto tomo um café depois do expediente. Então A. me apareceu, a cara suja, carregada por duas mulheres, uma delas, a mãe. Sentaram-se ao meu lado como se me conhecessem tão bem quanto as conhecia, pareciam esperar de mim todas as respostas, as saídas, as palavras. Quebrei a formalidade silenciosa olhando nos olhos de A.


O que você quer?

O telefone...

Que telefone? - fingi um descaso vitorioso.

Me ajude.


Meu sangue de água sanitária, detergente, ácido sulfúrico me avermelhou o rosto, estava feliz com a humildade, a súplica, a humilhação da nova viuvinha. À noite, A. deitou-se comigo em sonho, senti de perto seu cheiro de abandono e sua voz de ausência. Prometi-lhe que seríamos amigas, M. não voltaria para nenhuma de nós.




(Carmélia Aragão é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade federal do Ceará. Tem publicado o livro de contos Eu vou esquecer você em Paris, ganhador do III Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará-SECULT, em 2007)







Pintura: Wagner Willian







JANELA POÉTICA (II)


Rui Almeida



A desobediência

Dos que se habituaram a interromper a música

Antes de sonhar


É o testemunho do melhor silêncio.

O envio de mensagens ajuda

A reafirmar a vontade


De escapar ao chão coberto

Pelo desperdício das festas.

Os moribundos sentam-se para comer


Junto aos lugares deixados vagos

Por quem não confiou na pureza.

As luzes alteram-se


Para indicarem a mudança de estação.

Já não faz frio dentro de casa

E aos que se acolhem resta


Apenas escolher o seu lugar,

Pois lhes foi lembrada

A fragilidade da plenitude.




(Rui Almeida nasceu em Lisboa. Publicou em 2009 o livro de poemas Lábio Cortado (Editora Livrododia). Está incluído na “Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa” (Exodus, 2008) e em “Os Dias do Amor – Um poema para cada dia do ano” (Ministério dos Livros, 2009). Tem textos publicados nas revistas “Saudade, Big Ode” e “Callema” e, ainda, na revista online “Minguante”)







DROPS DA SÉTIMA ARTE (I)


Por Larissa Mendes



Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works). Estados Unidos. 2009.





Bastaria adjetivar Tudo Pode Dar Certo como o novo filme de Woody Allen para atrair a atenção de metade de vocês. E se eu acrescentasse que o roteiro tem como protagonista “um judeu nova-iorquino neurótico e fracassado que destila suas neuroses de forma irônica em longos diálogos analíticos”? Esperem. Isto seria um clichê em se tratando de Allen! E é preciso lembrar que Boris Yellnikoff protagonista do longa odeia clichês.


O enredo de Tudo Pode Dar Certo gira em torno de Boris (Larry David, um dos criadores da série Seinfeld e protagonista de Curb Your Enthusiasm, onde interpreta a si mesmo), um gênio da física inconformado, professor de xadrez rude e hipocondríaco, que passa a maioria do tempo debatendo com os amigos sobre a mesquinhez humana. Mal imagina o velho rabugento a reação em cadeia que está por vir com a entrada da doce e tosca Melodie Celestine (Evan Rachel Wood) em sua vida. Marietta (Patricia Clarkson) e John (Ed Begley Jr.), pais da jovem, a certa altura entram na história e garantem alguns dos melhores diálogos do filme ao lado de Boris.


Escrito originalmente na década de 70, o roteiro engavetado recebeu poucas alterações para se adequar aos nossos dias. Prova que a mesma raça humana que Boris tanto abomina não evoluiu muito de lá pra cá. Tudo Pode Dar Certo pode ser definido como uma grande ode ao acaso e uma análise sarcástica da insignificância humana. Aliás, Boris é uma espécie de alterego de Allen, com sua metralhadora de piadas rápidas de humor refinado. Não seria difícil, por exemplo, imaginar o próprio diretor cantando ‘happy birthday’ enquanto lava as mãos (tempo considerado suficiente para matar os germes, segundo Boris). A verborragia do filme rende ainda boas reflexões (e boas risadas) sobre religião e a transitoriedade do amor.


É interessante observar que Melodie não é exatamente a redenção para o estilo de vida de Boris. Muito pelo contrário, ele permanece imutável. A grande transgressão se dá justamente nos personagens que passam a conhecê-lo, caso de Marietta, John e da própria Melodie.


Vale destacar que, depois de uma passagem de quatro anos pela Europa, com Match Point, Scoop, O Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona mantendo assim a média de um filme por ano , Woody Allen finalmente retoma não só seu amor por Nova York, mas também o estilo que o consagrou como o mestre das comédias inteligentes.


Ainda que o desfecho da película fique aquém do esperado, numa noite de Réveillon, Boris avisa ao expectador – e na narrativa ele literalmente dialoga com a plateia –, que a vida é uma sucessão de acasos e que, no final, com uma dose de sorte, tudo pode dar certo. É uma boa maneira de encerrarmos o ano, não?




(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras)








Pintura: Wagner Willian









JANELA POÉTICA (III)



CONSENSO AMOROSO NÚMERO 3


Zenilda Lua



Cuidei da falta tua

gota a gota

sol ante sol

vesti-me de intervalos

oferta, vigília

e continuei cuidadosa

aguardando o término

dessa sua licença de mim...



(Zenilda Lua é paraibana, mãe da Brisa e Assistente Social)








OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



PEDRO MORAIS – SOB O SOL






Antes que se possa exigir certos requisitos fundamentais a todo e qualquer trabalho musical que pretenda ser visto como algo de qualidade, é necessário prestar atenção ao modo como as sensações são vividas e retransmitidas. Nesse aspecto, vale ressaltar a capacidade de interpretação que cada cantor pode empreender ao seu rebento criativo. Mais do que cantar e desfilar toda a sorte de verbos autorais, tudo ganha mais corpo quando o artista sabe exalar os signos de sua obra. Definitivamente, saber interpretar é virtude das grandes e isso é marca indelével do mais novo disco do mineiro Pedro Morais. Sob o Sol se revela assim um álbum a agregar sentimentos envoltos num lirismo que cativa pelas suas formas intensas e não menos dotadas de uma suavidade dispersa nas letras.


Munido de composições que percorrem reflexões sobre o amor e a existência, Pedro consolida um disco no qual o equilíbrio é aspecto que salta aos ouvidos. Do início ao fim, o belo passeia por entre as canções. Nada é em vão e, como na complexa montagem de um mosaico de emoções humanas, as faixas vão, uma a uma, assinalando o seu valioso papel. Chamam a atenção os sentidos evocados em Canção de Outono, Sob o Sol, O Nunca da Estrada, A Fúria do Infinito, Do Tao e Vou me Iludir. Trata-se de um álbum que não dá espaços para a quebra das sensações, pois a completude vigora como uma de suas características essenciais. Além dessa presença forte da continuidade embalada no disco, vale a pena perceber que estamos diante de um artista comprometido com a perspectiva de evolução dos seus caminhos. Nunca é demais mirar os trilhos rumo a uma salutar maturidade musical. Sem dúvida alguma, tal tipo de atitude é capaz de atravessar a volatilidade de nossos imprecisos tempos modernosos.









Pintura: Wagner Willian









JANELA POÉTICA (IV)



INCANSÁVEL


Leila Andrade



O dia está em silêncio. Não por opção,

alguma imaginação dos inquietos.

Incansável, ele demarca o tempo, desvia a seta

e escolhe feridos.

No íntimo, cada um traça

o particular espinho do caminho.
E vem a noite como uma chuva
de lembranças impróprias
desafiando o desejado sonho
do paraíso.









Pintura: Wagner Willian








PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Marcos Pasche*



Apesar de sua curta bibliografia, constituída por dois livros, não é forçoso antever que Daniel Mazza, jovem poeta cearense, constituirá um sólido caminho em nossa literatura, seja pela firmeza com que delineia as linhas mestras e referências de seu trabalho, seja especialmente pela poética vigorosa que elaborou exemplarmente em A Cruz e a forca (Book, 2007), seu segundo livro de poemas – o primeiro, Fim de tarde (Funpec, 2004), é, na verdade, um embrião de um escritor que palmilha à procura de seu caminho.


Com uma escrita impregnada de inspiração clássica e perplexa, sobretudo pelo fenômeno da morte, Daniel Mazza, nesta entrevista concedida por e-mail, fala-nos acerca de suas concepções artísticas, da relação (ou ausência da mesma) entre seus ofícios social (é médico) e estético, além de dizer, quando perguntado sobre os motivos de sua produção, que escreve fundamentalmente por necessidade espiritual.




Daniel Mazza

Foto: arquivo pessoal



DA – Você não abandonou seu primeiro livro, Fim de tarde, mas também não o considera um marco representativo de sua obra. O que mudou na escrita do Daniel Mazza do primeiro para o segundo livro?


DANIEL MAZZA - Indubitavelmente, no interregno de 3 anos que separa os dois livros houve um amadurecimento da minha concepção de linguagem poética, utilização de recursos imagísticos, esquemas rítmicos, etc. Isso, de alguma forma, refletiu-se no meu estilo. Mas me parece que a mudança decisiva ocorreu no que diz respeito à “voz do poeta”. No Fim de Tarde a minha dicção ainda se encontrava misturada, em maior ou menor grau, com a de escritores que li muito amiúde na adolescência e início da vida adulta, sobretudo Fernando Pessoa. Esse tipo de influência do cânone sobre livros de estreia é muito comum, ocorrendo mesmo com poetas que, subsequentemente, desenvolveram uma voz bastante pessoal: veja o caso de Manuel Bandeira e o seu primeiro livro, A Cinza das Horas. Somente um zoilo não tem esse tipo de entendimento. Críticos experimentados e conscientes compreendem perfeitamente esse fenômeno. De qualquer modo, nunca abandonei o Fim de Tarde porque se nele há alguns poemas que julgo ainda imaturos, também lá encontro peças como “A Carpideira”, “Pão e Circo”, as “Odes”, “A Litania do Corpo”, “A Muda”, “Madrugada”, e alguns dos “Poemas Desconjuntos”, entre outros. Ainda assim, é preciso ficar claro que O Fim de Tarde não é o início de uma jornada, mas, como o próprio título já sugere, o fim de uma. Naquele momento eu estava concluindo um período, tanto é assim que finalizo o apêndice afirmando: “Deixo para trás uma Tarde de doze anos”.


Com o A Cruz e a Forca começa uma nova fase, onde, primeiramente, a minha voz já está individualizada e, em segundo lugar, o tema da morte, já ensaiado no primeiro livro, ganha mais densidade. A partir daí, será essa a pedra fundamental da minha poesia.


DA – A cruz e a forca é um livro em que prepondera a temática da morte. Isso é consequência das experiências vividas por um médico (que convive com enfermos) nordestino (originário de uma região secularmente marcada por problemas derivados da miséria) ou uma opção reflexiva e estética?


DANIEL MAZZA - Afirmo que não é consequência de uma coisa nem de outra. Claro que a medicina propiciou-me uma formação humana ímpar e, também, o contato inicial com a morte. Eu nunca me esquecerei dos primeiros cadáveres que vi, nem das pilhas de ossos nos anfiteatros da faculdade de medicina: eram ossos de muitos homens e mulheres diferentes, mas como eram sumamente iguais entre si! Creio que, de alguma forma, aquelas imagens ficaram estampadas na minha mente porque muitos anos depois elas foram regurgitadas na forma de versos, no meu poema “Os Ossos”: “Eis os ossos de reis e de rainhas/Os ossos de grão-duques e de servos,/Os ossos dos primeiros e dos últimos.../ São ossos iguais a ossos, ossos são/Não mais que ossos-irmãos: foram cozidos/ De um mesmo barro e pelas mesmas mãos.”


Mas eu não posso afirmar que minha poesia nasça exclusivamente pelo fato de eu ser médico, muito menos um “médico nordestino”, para utilizar-me de um termo seu. Mesmo porque, após a minha formatura, em 1998, fiquei apenas 2 anos em Fortaleza: quase não tive contato, do ponto de vista profissional, com a miséria a que você se refere. Depois me mudei para o sul do país com o intuito de complementar minha formação, concluindo mestrado e doutorado na área médica. Assim, nos últimos 8 anos residi na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A propósito, foi esse o período em que publiquei o A Cruz e a Forca, mesmo sendo, naquele momento, digamos, um “médico paulista”. Suponho que eu poderia ser, ainda, um “médico paranaense, acreano ou fluminense” e, ainda assim, creio que a morte não cessaria de obsedar minhas reflexões líricas. A poesia nasce de uma angústia ou de um enlevo. Em meu caso, de uma angústia: a angústia que me invade quando reflito sobre essa rasoura que nivela todos os homens: a morte. E morte que pode ser de fome no interior do Ceará, de infarto em São Paulo, de “bala perdida” no Rio de Janeiro ou de câncer no Paraná.


DA – Anderson Braga Horta, no prefácio ao referido livro, percebeu nele a presença de João Cabral de Melo Neto e de Augusto dos Anjos. Como é sua relação com a alta tradição de poetas nordestinos, de harmonia ou de angústia? Essa relação é buscada voluntariamente ou acontece ao acaso?


DANIEL MAZZA - O Anderson “percebeu” essa presença, mas, como ele próprio afirmou no prefácio, não houve tempo suficiente para uma análise mais detalhada do A Cruz e a Forca, isso porque o livro teve que ser impresso às pressas, por exigência do conselho organizador do Prêmio Gerardo Mello Mourão, que tinha lá os seus prazos para o lançamento. Creio que esses dois poetas estão presentes no livro somente na medida em que eu lancei mão, como João Cabral, com muita frequência das formas fixas e das metáforas concretas, e, como Augusto dos Anjos, do tema da morte. Mas Augusto dos Anjos trabalhava a questão da morte quase que exclusivamente do ponto de vista da desestruturação do corpo. Quando se fala da morte, é muito difícil não se adentrar nesse aspecto, mas a minha poesia está mais voltada para o problema metafísico gerado pelo morrer. A morte como dúvida, pergunta sem resposta. A morte que faz da vida um absurdo e que, nesse sentido, é em si mesma um absurdo. E não só da morte nutre-se a minha poesia, mas, ainda, de outros conteúdos que lhe são afins, como o sentido da existência, a sondagem do real, a objetivação do ser, e daí por diante. Nesse aspecto, minha relação é de harmonia: o tema da morte é universal, mas o meu enfoque traz, de fato, peculiaridades inerentes a minha cosmovisão. Poemas como “A Morte” e “Os Ossos”, do meu último livro, revelam muito bem isso.


Com relação a Cabral, o que me aproxima dele é, em alguns momentos, o uso das metáforas “não-líquidas”, com conseqüente rejeição da subjetividade e, mais raramente, a técnica do desdobramento imagístico. Mas isso ocorre apenas esporadicamente em minha poesia: não é uma constante, como era na dele. Por exemplo, uso esses recursos no poema “A Bala Viva”, o mais extenso do último livro. Talvez por isso o Anderson Braga Horta tenha sentido a presença Cabralina nesse poema, porque, de fato, esses recursos acabam por marcar bastante a dicção. Mas, volto a dizer, se ele tivesse tido mais tempo, veria que o resto do A Cruz e a Forca é bem diferente desse modelo. Além disso, é preciso ter ciência de que esses recursos são apenas ferramentas e estão disponíveis para qualquer poeta que se dedique a estudar a fundo a natureza da poesia. Assim, eu não posso furtar-me a utilizá-los, quando vislumbrar a possibilidade de um bom poema, somente porque foram sobejamente empregados na poesia de João Cabral de Melo Neto. Se o poema sair bom, eis o meu objetivo alcançado. Nesse sentido, quando muito, há aí tão-somente uma influência de natureza técnica: nada mais. Finalmente, contrastando em definitivo com o que produzo, Cabral poucas vezes escreveu sobre a morte, o que, como já explicitei, é o tema basilar da minha poesia. De qualquer forma, as proximidades com esses ícones são apenas casuais. A meu ver esse tipo de influência é até bastante positiva. Se a leitura de outro escritor nos estimula a refletir e nos aprofundarmos sobre determinado conteúdo, se nos abre uma estrada ainda não trilhada de possibilidades, parece-me que essa influência não pode ser qualificada como perniciosa. Por outro lado, quando inibe a criatividade e escraviza um autor mais jovem, aí sim, temos o que Harold Bloom chamava a “angústia da influência”. Eu nunca me senti inibido seja por João Cabral, seja por Augusto dos Anjos.




Foto: arquivo pessoal



DA – Ainda nessa esteira, que autores são mais frequentes em sua mesa de leitura?


DANIEL MAZZA - É difícil escolher entre tantos nomes imprescindíveis. Estou, com muita frequência, lendo 4 ou 5 livros simultaneamente. Digamos que procuro orientar minhas leituras por vertentes: procuro sempre estar lendo um livro de poesias, um romance, um livro de ensaios e, de três anos para cá, comecei a seguir a trajetória completa da filosofia ocidental, partindo de Aristóteles. Minhas últimas leituras foram “The large, the small and the human mind”, do físico inglês Roger Penrose, “O mundo como idéia”, de Bruno Tolentino, “Ética”, de Espinosa, “O problema do sofrimento”, de C. S. Lewis e o quarto tomo dos “Pontos de Vista”, de Wilson Martins. Atualmente estou lendo o “O discurso de metafísica” e a “Monadologia”, de Leibniz, “A imitação do amanhecer”, de Bruno Tolentino, “O Mito de Sísifo”, de Camus, o penúltimo tomo da saga “O Tempo e o Vento” e também um compêndio de “História da Pintura Ocidental”. Não obstante eu estar habituado a reler pouco, aqueles a quem retorno com alguma frequência são, sobretudo, os filósofos e os poetas: entre os primeiros, Descartes, Tomás de Aquino, Kant e principalmente Schopenhauer. Entre os últimos, Pessoa, João Cabral, Eliot, Whitman e Yeats.


DA – Você vê sua poesia ligada a uma determinada linhagem ou vinculada a uma tendência? Como avalia a poesia de Daniel Mazza dentro do panorama literário nacional?


DANIEL MAZZA - Em linhas gerais, do ponto de vista formal, minha poesia aproxima-se da poesia clássica, pelo uso frequente das formas fixas. Tenho composto cada vez menos em versos livres. O decassílabo heróico, branco, é meu verso predileto e onde me sinto mais confortável, embora para alguns poemas ainda me utilize da redondilha maior. Do ponto de vista temático percebo, em minha poesia posterior ao A Cruz e a Forca e ainda inédita, uma progressão inexorável para uma abordagem metafísica da morte e temas afins.


Sou um escritor novo, minha estreia se deu há pouco mais de 4 anos, o que é praticamente nada quando se compara com a duração de uma carreira literária, ainda mais pelo fato de eu escrever pouco e, também, não ter absolutamente nenhuma pressa em publicar. Suponho que levará algum tempo para que minha poesia possa ser lida mais difusamente, se isso vier a ocorrer, coisa que, afinal, desejo, mas sobre a qual não me preocupo, mesmo porque a poesia em geral tem poucos leitores, e aquela com um tema tão espinhoso como a minha, tem menos ainda. Mas em meu caso não há como ser diferente: vejo bardos “reconhecidos” escrevendo e publicando poemas sobre suas brigas com a esposa, suas mulheres extraconjugais, seus problemas com os filhos, suas opções sexuais, sobre o dia-a-dia no escritório e até sobre o creme dental que utilizam; ou, ainda, tentando extravagâncias linguísticas absurdas de toda ordem, que forçosamente culminam em experimentalismos estéreis. Com todo o respeito ao que cada um tem como estro, isso tudo, de fato, não me interessa e, parece-me, mais denigre do que enaltece a imagem da poesia: quando há nesses casos, ressalte-se, qualquer coisa a que se possa chamar poesia.


DA – Por que escrever poesia num país e num mundo cada vez mais refratário ao intelecto e à sensibilidade?


DANIEL MAZZA - Necessidade espiritual. E, em seguida a esse primeiro momento marcado pela necessidade, eis também que surge a imposição intelectual: a verdadeira poesia é uma forma de conhecimento não-racional que nos permite sondar, por meio de um método alternativo, a realidade do mundo. Quando escrevo, estou refletindo sobre inúmeras questões, de modo que se abre a possibilidade de me compreender melhor, e, ato contínuo, melhor compreender o mundo.





*Marcos Pasche (Rio de Janeiro) é crítico literário e editor adjunto da revista Confraria e da página virtual Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea. Atualmente, prepara a campanha “Não manche o Mangue”, em prol da preservação do manguezal de Guaratiba (Rio de Janeiro), e quer saber de Caetano Veloso o que ele acha da alfabetização do presidente Nobel da Paz, que, com todas as letras, quer destruir o Afeganistão.









Pintura: Wagner Willian









JANELA POÉTICA (V)



A CRUZ E A FORCA


Daniel Mazza



É o silêncio que não cala as verdades,

E o verbo que oscula as mentiras.


É o silêncio que se deixa enlaçar,

E o verbo que se colga livremente.


É o silêncio que pede silêncio,

E o verbo que vende o verbo.


É o silêncio que é necessário,

E o verbo a última das instâncias.


É o verbo calado na forca,

E o silêncio altissonante na cruz.










Pintura: Wagner Willian









MAGIA DE CASCA DE LARANJA


Daniela Mendes



Toda vez que ia chupar laranja se concentrava. A casca tinha que sair como uma espiral sem interrupção. A magia não podia ser quebrada. A laranja era chupada depois com prazer ou desconforto dependendo do resultado. Segurava uma ponta e começava a girar a casca repetindo o alfabeto. A B C D E... Arrebentou? Então seu futuro marido terá a primeira letra do nome “E”. Não importa se a letra mudasse a cada laranja chupada, afinal o destino era caprichoso para a minha mãe. Mesmo já viúva do meu pai ela continua a girar a casca. Não pretende se casar de novo, mas gosta de apostar no meu pai toda vez que vai chupar uma laranja. Quando não dá a primeira letra do nome dele, modifica as regras. Porque o amor é também, entre muitas coisas, teimoso.





(Daniela Mendes, mais de trinta anos de leitura, verborragia que não se estanca, sempre teve necessidade de fugir do mundo real. Descobriu, graças ao virtual dos tempos de internet, que carregar alguém junto era muito mais divertido. Desde então, tem que se segurar pra não criar e destruir blogs e mais blogs. Já foi Colombina, no “Candongas não Fazem Festa”, e, depois de perder totalmente a vergonha na cara, resolveu abrir o Livraria das Obras Inéditas. Depois que descobriu que aconselhar amigas como num dicionário de soluções também era um exercício poético, resolveu criar o Verbetes. Também faz parte da revista de contos Histórias Possíveis e adora trocar correspondências)









Pintura: Wagner Willian







JANELA POÉTICA (VI)



FUTUROS DÍSPARES DO SER


Luís Garcia



Todos os movimentos que são os teus passos

teimam em morder cada hiato de espaço

o tempo que já aprendeu

sabe que és tu quem marca o seu ritmo

Não digas agora as palavras

que te queimam...

Se aguentares guarda cada uma delas

quem sabe amanhã

o seu significado não seja

tão diferente e a dor

ela própria uma inveja.

Uma palavra não faz o teu futuro



(Natural de Tomar, Portugal, Luís Garcia nasceu em 1973. Mestre em Informática Educacional pela Universidade Portucalense é Consultor de Tecnologias de Informação e Formador nas áreas de Informática e Formação Pedagógica de Formadores. A escrita tem sido uma paixão constante, desde a poesia, em que se estreou em 1989, como autor na coletânea “Poetas do Nosso Tempo”, à prosa em que se deu a conhecer com o 2º Prémio na categoria de Conto, no Concurso Literário Emília Cruz, em Tomar, ainda no ano de 1989)





DROPS DA SÉTIMA ARTE (II)


Por André de Leones



Aprile. Itália. 1998.






Há dois filmes dirigidos por Nanni Moretti em meados da década passada dos quais eu gosto muito: “Caro Diário” e “Aprile”. E não é que eu desgoste dos outros trabalhos dele, incluindo “O Quarto do Filho”, premiado com a Palma de Ouro em Cannes e sisudo como ele só.


O que me atrai em “Caro Diário” e “Aprile” é a forma inusitada, onde Moretti interpreta a si próprio ou, melhor dizendo, faz de si um personagem, e o humor finíssimo com que ele cria situações e tece comentários sobre os rumos da Itália, do cinema e de sua própria vida.


Há pouco, revi “Aprile” depois de não sei quanto tempo, seis ou sete anos. Às vezes, dependendo do que for, é muito bom constatar que algo não mudou, isto é, não envelheceu mal. O filme continua intacto, exatamente como eu me lembrava dele: divertido, espirituoso, terno.


Moretti parte de uma piada recorrente nesses dois filmes (o desejo de filmar um musical contando a história de um confeiteiro trotskista na Itália dos anos cinquenta) para desenvolver um belo retrato de seu país em meados dos anos noventa, quando a esquerda, completamente perdida, ou melhor, ainda mais perdida do que o normal, via um sujeito como Silvio Berlusconi prestes a ascender ao poder.


Em uma cena particularmente tragicômica, acompanhamos a reação de Moretti diante de um debate televisivo onde o então primeiro-ministro Massimo D’Alema é triturado por Berlusconi. O desespero de Moretti diante daquilo é ao mesmo tempo engraçadíssimo e angustiante. Ele sabia o que estava por vir.


O equilíbrio entre a vida doméstica (acompanhamos a gravidez da esposa, o parto e os primeiros anos de vida de Pietro, filho do diretor) e o retrato da situação política que se deteriorava só é possível porque Moretti se coloca inteiro ali, fazendo tudo convergir para si, ou para esse personagem de si mesmo que criou. De um lado, ele impede que o filme descambe para o pastelão ou se torne banal, e, de outro, não deixa que a coisa fique séria demais.


No entanto, uma das melhores passagens do filme nada tem de cômica: trata-se do momento em que a equipe documenta a chegada de uma barcaça repleta de imigrantes ilegais albaneses, inclusive entrevistando alguns deles. Tenho a impressão de que não é sequer esperança o que leva aquelas pessoas até ali, mas uma outra coisa, um certo desespero que eu seria incapaz de categorizar ou nomear.


E há o desfecho, o tipo de coisa bestamente simples que me faz sorrir, com Moretti & equipe dançando enquanto, finalmente, rodam a primeira cena de seu musical, aquele, sobre o confeiteiro trotskista na Itália dos anos cinquenta.




(André de Leones(Goiânia, 1980) é autor do romance “Hoje está um dia morto” e do volume de contos “Paz na terra entre os monstros” (ambos publicados pela Record). Trabalha agora em uma comédia bufa sobre um confeiteiro petista no Brasil dos anos noventa)









Pintura: Wagner Willian














JANELA POÉTICA (VII)



DANÇA


Beatriz Bajo



sempre o que há de mais quente é o que escorre e entra
é que a febre do teu nome avança pelas calçadas

e contemplo a senha

pelas fresta das portas que serão abertas

pés descalços

enquanto me embaraço em pernas

que procuram arrebatar as fissuras do salto

no chão que espera a dança

e arrisca o vão do asfalto

A ironia da vida está no instante em que se cala.




(Beatriz Bajo é paulista. Poeta, escritora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). Editora da seção literária do site Armadilha Poética e membro do conselho editorial do Projeto Macabéa. Participou de antologias e mantém publicações frequentes em revistas literárias e espaços virtuais como Portal Cronópios, Germina Literatura e Confraria do Vento)








OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Larissa Mendes



JULIAN CASABLANCAS – PHRAZES FOR THE YOUNG






É inegável que o rock do The Strokes revigorou o cenário musical mundial no início da década. Portanto, mais do que natural que os integrantes da banda utilizassem seu recesso estratégico para dedicarem-se a projetos paralelos. O que já ocorreu ano passado, por exemplo, com o baterista Fabrizio Moretti e seu bem sucedido Little Joy, ao lado da namorada Binki Shapiro e do hermano Rodrigo Amarante. Mas, como todas as atenções sempre se voltam ao vocalista, agora é a vez da tão aguardada estreia solo de seu frontman Julian Casablancas. E ele não decepciona nem um pouco em sua miscelânea desacelerada e sombria, num misto de baladas retrôs ou numa pegada oitentista, com o (ab)uso de baterias eletrônicas e sintetizadores.


A música de abertura de Phrazes For The Young é Out Of The Blue, de letra reflexiva e um pouco amargurada, que à primeira vista lembra muito Strokes, mas é desmistificada logo em seu refrão. Left & Right in The Dark e 11th Dimension fazem as honras dançantes e são os grandes destaques do álbum, ao passo que 4 Chords Of The Apocalypse é uma balada tão doce quanto seu nome poderia sugerir. Ludlow St. flerta com o country e relata acontecimentos boêmios (everything seems to go wrong when I stop drinking), enquanto River Of Brakeligh é rápida e anuncia em seu refrão que ‘timing is everything’. Glass e Tourist encerram o álbum num tom mais psicodélico e com gosto de missão quase cumprida. Quase, pois o único revés do disco é possuir apenas oito canções em sua versão física, visto que no iTunes (loja virtual da Apple) é possível encontrar três faixas bônus (Old Hollywood, que lembra muito a melancolia do Radiohead; a ‘sintetizada’ 30 Minute Boyfriend e a natalina I Wish It Was Christmas Today) que completam o repertório e manteriam a unidade do disco.


É impossível deixar de reparar que a capa do álbum é uma homenagem futurista ao famoso símbolo da gravadora RCA, assim como seu título é inspirado em Phrases And Philosophies For The Use For The Young, de Oscar Wilde. Como sugere, o álbum pode ser bem traduzido como a referência do nostálgico em roupagens contemporâneas - a julgar pelo encarte interno com cara de cardápio western -, com todo o respeito que o passado merece e com toda a ousadia que o futuro permite, como velhos conselhos para jovens ouvidos.




(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras, além de se dedicar às pesquisas musicais)









Pintura: Wagner Willian








JANELA POÉTICA (VIII)



CICLO


Fabrício Brandão



duas gotas bastam

para que tudo se dissolva

e em restos

petrifique as marcas gastas


dessa tua passagem

por aqui colhi certos frutos

ignotas contas

de cerzir o míope bordado


eu que sempre quis estar no mundo

hoje bebo do estranhamento

antigo costume de repetir









Pintura: Wagner Willian




* Por trás dos traços humanos percorridos pelos olhares do artista plástico Wagner Willian, há muito além do que um mero gestual típico dos mortais. Não estamos diante de um registro óbvio dos nossos instantes de vida, mas sim desnudados por apelos que nos abraçam através de um imprescindível jogo sugestivo das imagens. Cada representação inaugura um jeito próprio de se passear por questões cruciais de nossa existência, quiçá um passeio rodriguiano em forma de telas.

Em sua erotizada relação com a arte, Wagner nos assinala: “Assim como em tudo aquilo com o qual nos relacionamos, existe uma relação de prazer e esse prazer pode acontecer em vários níveis, seja o prazer da angústia, da violência, da comodidade, enfim, quando isso deixa de existir vem o fim do jogo, o pedido de divórcio, ou no pior das hipóteses, a morte plena. Não há nada pior do que entrar em uma exposição de artes e sair ileso do mesmíssimo jeito que você entrou, pressupondo que a obra de arte deva nos incitar alguma coisa. Seja conceitual ou meramente estética, a obra de arte deveria seduzir seus oponentes com uma retórica perfeita assim como a ogiva nuclear dos Planetas dos Macacos. É a crença que faz a obra de arte. E arte é estilo, e estilo é arriscar até o último round”.

 
publicado por Fabrício Brandão
Permalink ¤

<BODY>