31 de jan de 2010,18:00
QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA LEVA


Audrey Tautou - Coco Chanel
Ilustração: Lese Pierre










CICERONEANDO



Sob a égide incessante de nossas percepções, os caminhos seguem na busca de um experimentar renovado de representações de mundo. Mesmo aquilo que já frisamos reiteradas vezes na vida insiste em se afigurar por novas vias. Alijando-se dos impulsos mais céticos, não há limites que possam restringir de modo capital o poder da criação. Ainda assim, um empoeirado debate sobre o controle dos meios de comunicação parece ter ressurgido nos últimos tempos. Qualquer intenção de se cercear as liberdades de expressão deve ser vista, no mínimo, com severa desconfiança, pois, diante de tudo o que já foi construído no terreno sócio-cultural, o retrocesso é algo injustificável. As conquistas de até então possuem uma característica indelével, ou seja, fazem parte de um processo irreversível, através do qual as possibilidades de produção assumiram uma solidez crucial. Jamais nenhum aparato ideológico, revestido sob a forma de poder oficial, será capaz de arrancar de dentro dos criadores a essência de suas epifanias. Nenhum instrumento de censura será hábil para deter as verdades tão nossas e que são compartilhadas no solo comum das criações, ainda mais em tempos de “independência eletrônica”. Por estas e outras tantas válidas razões, é que os sentidos necessitam das escutas proporcionadas pelas vozes que ecoam dos feitos humanos. Reforçando tal ideia, dividimos a atmosfera íntima dos versos de Ana Luisa Amaral, Daniela Galdino, Genny Xavier, Heitor Brasileiro Filho, Marize Castro, Ronaldo Braga e Jorge Elias Neto. No decorrer de nossa jornada atual, deitamos olhos atentos aos signos que emanam das ilustrações de Lese Pierre. Explodem recortes cotidianos pelos contos de Milena de Almeida e Adelaide Amorim. O poeta e artista plástico Nelson Magalhães Filho expõe suas opiniões numa pequena sabatina. Bolívar Landi desfila suas impressões cinéfilas em torno da produção sueca “Deixa Ela Entrar”. Por aqui, também estão registrados os trabalhos musicais de Curumin e Taïs Reganelli. Entre caminhos e palavras, a Diversos Afins oferece a você, caro(a) leitor(a), os primeiros percursos de 2010.




*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.








A caminho do mar

Ilustração: Lese Pierre







JANELA POÉTICA (I)



Não se aproxime


Marize Castro



Não se aproxime!

Queimo.

Não há fogo. Há gelo.

Você não aguentará esta alma

que não sabe chorar.


Não se aproxime!

Amo.

Meu beijo é ferro.

Pesará para sempre.

Nada pergunte.

Jamais sei a resposta.

Tenho fome de rosas,

de coisas que voam.


Leves indícios de outras esferas.


Se alguém me afaga é porque já é tarde.

Áurea noite. Fresta que se abre.

E tudo se redefine: este sol; aquela estrela;

o abismo e sua pele macia, vespertina, numinosa;

este carnaval – breve, triste, alegre, primeiro.


Não se aproxime!

Minha sepultura, de seda e cinzas,

Não suportará tanto segredo.




(A poeta Marize Castro nasceu em Natal. Editora e jornalista, é autora dos livros de poesia “Marrons Crepons Marfins” (1984), “Rito” (1993), “Poço.Festim.Mosaico”(1996), “Esperando Ouro” (2005) e “Lábios-espelhos” (2009). “Em seus versos há algo de fundamental, algo entre o belo e o verum, a verdade em beleza, um cuidado especial com a síntese, um encontro com a poesia” – afirma Haroldo de Campos)









Balões e facas

Ilustração: Lese Pierre











V.C. é o que V.C. come


Milena de Almeida



V.C. cumpriu pena de dezenove anos num manicômio judiciário. Foi medicado, tratado, libertado. Prestou serviços comunitários, plantou uma horta, estudou antropologia. Esquartejou cinco mulheres e três crianças antes de completar vinte anos. Mudou-se pro interior do Brasil antes dos quarenta. Os jornais esqueceram seu nome. Os tribunais arquivaram seu feitio.


V.C. arrumou emprego, juntou dinheiro, abriu negócio próprio. No transcorrer do tempo, casou-se. Tornou-se chefe de família, construiu a casa, teve duas filhas. Soltou um cachorro no jardim, instalou a cerca elétrica, o interfone, e dormiu tranquilo. Quase. Pois era sonâmbulo. E havia noites acordava desnorteado no meio da sala, buscando manchas de sangue no corpo. Corria até o quarto, tateando a cama ao encontro da mulher. Logo pensava nas meninas. Acendia as luzes da cozinha, banheiro, corredores. E V.C. tudo o que fez foi atacar outra vez. Quindim, pavê, casadinho, compota. Aos cento e setenta quilos, há um ano na fila de espera, aguarda em tensa agonia sua cirurgia. Vai cortar em breve um pedaço do estômago. Pelo SUS.




(Milena de Almeida nasceu em Nepomuceno, Sul de Minas, na primeira semana de junho de 1980. Chegou a ser jornalista, quase foi veterinária. “Da gastrite e da ira”, seu livro de estreia, demorou dois anos para ser publicado na internet. Antes disso, editou por cinco anos e treze edições a revista MININAS)







Barquinhos de papel

Ilustração: Lese Pierre








JANELA POÉTICA (II)



A IMPOSSÍVEL SARÇA


Ana Luisa Amaral



Que mais fazer

se as palavras queimam

e tanta coisa em fumo em tanta coisa

sarças ardentes do avesso

o fogo em labaredas que mais

fazer


Que mais fazer

se nem a água tantas vezes

descrita abençoada

mas demais e cristã

também castigo

Mas como nem castigo


nem as nuvens de fumo na sarça

do avesso

se tudo no avesso

das palavras


que não chegam

— mas cegam





(A escritora portuguesa Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa. É Professora Associada na Faculdade de Letras do Porto. Tem doutorado sobre a poesia de Emily Dickinson e publicações acadêmicas (em Portugal e no estrangeiro) nas áreas de Literatura Inglesa, Literatura Norte-Americana, Literatura Comparada e Estudos Feministas. Em 2007, venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d’Escritas, com o livro A Génese do Amor. No mesmo ano, foi agraciada, na Itália, com o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi. O seu livro Entre Dois Rios e Outras Noites, obteve, em 2008, o Grande Prémio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores). Publicados na França, no Brasil, na Suécia e na Itália, os seus livros serão brevemente editados também na Holanda e na Venezuela)






OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



CURUMIN – JAPANPOPSHOW





Talvez apostar na descendência japonesa do moço em questão fosse razoável de se pensar quando o assunto é o nome de batismo dado ao disco. No entanto, nada disso importa se apontarmos o fato de que as sonoridades delineadas no trabalho de Luciano Nakata Albuquerque, mais conhecido como Curumin, atentam para uma verdadeira jornada musical. E tal odisseia sonora esbanja qualidade por toda uma vastidão de elementos bem vivos no álbum. Prova disso é que JapanPopShow sabe muito bem de si e ousa, acima de tudo, mesclar brasilidades, como o samba, com pegadas eletrônicas, hip hop, soul, funk e reggae, dentre outros atributos que ouvidos mais concentrados possam ainda tentar deter. É justamente essa mescla de gêneros que confere um lugar especial ao disco, pois, através dela, o artista estabelece uma ligação bastante estreita entre imagens do passado e do futuro, tudo isso sem utopias vãs ou profecias pós-modernas.


Ao mesmo tempo em que revela suas nuances serenas e de certo modo poéticas em canções como Compacto, Dançando no Escuro, Mistério Stereo e Esperança, Curumin amarra alguns questionamentos político-ideológicos em Kyoto, Caixa Preta e Mal Estar Card. É bom que se diga que, quando o tema é crítica social, as letras nem de longe se assemelham a qualquer indício de panfletarismo. O álbum ainda nos apresenta uma revigorada In The Hot Sun Of a Christmas Day, pérola setentista da fase londrina de Caetano Veloso, que aqui aparece muitíssimo bem interpretada e arranjada. JapanPopShow é um daqueles discos cujo virtuosismo e a coerência predominam. Isso tudo só é possível porque a música desfila sem falsos alardes, despretensiosa e nos deixa o alento de que em cada esquina desse desvairado mundo há mentes prontas para fazer ecoar válidos pensamentos.



* Clique aqui e abra um pouco os ouvidos para o disco!









Miss Dorothy

Ilustração: Lese Pierre








JANELA POÉTICA (III)



REDEMOINHO


Daniela Galdino



Fatias à mesa

contra

a luz solar.


Répteis que

não se sabem

sonham dilúvios.


Incompatível é

contornar o

caos soprando

fertilidades.


Já não há

signos

a pôr desfecho

nas desgraças

generalizadas.

Ensaio o fim:

- suicídio

compassado.

Perco o tempo

e vomito

desalinhamentos.


Minha metade

diabólica é

cúmplice do

vital assomo.




(Daniela Galdino é baiana de Itabuna. Graduou-se em Letras pela UESC, concluiu o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. Tem publicada a obra “Vinte Poemas Caleidoscópicos” (Via Litteratum, 2004))










Vomitando esperança
Ilustração: Lese Pierre








PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Quem seria capaz de deter o que nossos tempos de então nos apregoam? Se estamos diante de um mundo amorfo, cujas complexidades sequer redefinem uma identidade homogênea ao que se convencionou chamar por aldeia global, também não sabemos precisar o que pode efetivamente ser salvo em vivos termos de conteúdo. Aquilo a que chamam pós-modernidade ainda não sabe de si, imerso que está em sua avassaladora corrente de informações soltas e cada vez mais frenéticas. Então, poderíamos até pensar na Teoria do Caos, conferindo certo poder ao mecanismo aleatório dos acontecimentos, como se tudo pudesse ser alterado desavisadamente a todo o instante. Apesar de toda uma miopia gerada em função desse mosaico de múltiplas ordens não aparentar possuir compromisso algum com uma harmonização de expressões, cabe aos artistas a tarefa de transpor incômodos e mistérios para o vasto produto de suas criações.


Por tudo o que foi dito acima, talvez se consiga mensurar o significado das representações de mundo a povoar o trabalho do artista plástico Nelson Magalhães Filho. Baiano de Cruz das Almas, Nelson expressa em suas telas muito mais do que um olhar aguçado sobre aquilo que nos circunda. De fato, as formas utilizadas pelo artista em suas telas podem até sugerir que o foco esteja centrado puramente nas misérias humanas. No entanto, inexiste o ideal gratuito de redenção como modo de romper as amarras da existência. Chama mais a atenção um compartilhar de sentimentos que são parte integrante de um íntimo coletivo. Esse anjo baldio, espécie de batismo de fogo muito utilizado pelo artista, revela-se multifacetado por se exprimir também no terreno da poesia ( As Luminárias – 1982, Imagens do Porão – 1989, A Flor do Láudano – 1996 e A Cara do Fogo – 1999) e do audiovisual, além de lecionar na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Tem, em face de sua carreira artística, acumulado diversos prêmios e mostras com seu trabalho. E é em meio à montagem de uma nova exposição de suas telas que Nelson recebe a Diversos Afins para uma breve troca de ideias, compartilhando conosco algumas de suas visões sobre a arte e a literatura.




Nelson Magalhães Filho

Foto:Karla Rúbia


DA - Chama atenção em suas telas a fragmentação gritante de um mundo, seja pelas formas impactantes dos seres e objetos ali retratados, seja pelo uso de uma variedade de cores conferindo outras esferas de percepção ao nosso olhar mais atento. É possível ver ordem no caos que atravessa nossas existências?

NELSON MAGALHÃES FILHO - Acredito que até no próprio caos há uma ordem intrínseca. Existe um oculto e estranho acondicionamento que move os seres e as coisas neste violento e conturbado mundo contemporâneo. Nietzsche já dizia que só quem tem dentro de si o caos, pode dar a luz a uma estrela bailarina.

DA - Você considera que a chamada pós-modernidade, quando o assunto é arte, padece de um vazio conceitual?

NELSON MAGALHÃES FILHO - Não acho que a arte padeça de um vazio conceitual. É o vazio existencial que reflete a mediocridade do cotidiano pós-moderno. Mas os conceitos estão aí, e talvez alguns sejam mesmo, às vezes, mal formulados ou vazios.

DA - É possível perceber em seus traços uma forte presença de um olhar aguçado sobre o espaço urbano, sobretudo no modo como as interações entre os homens se processam. O que há de mais desafiador na alma humana?


NELSON MAGALHÃES FILHO - Quem poderá responder isto? Eu não sei, e talvez o que há de mais desafiador é tentar sobreviver no meio de toda esta violência assustadora. A brutalidade é real e está nos grandes centros urbanos do mundo como também nas pequenas cidades do interior. A gente procura refletir sobre a profundeza de uma terra que há tempos já está desolada e decaída.


DA - Não bastasse a visceralidade presente em sua arte, seus poemas também são munidos desse sentimento, algo que se funda em marcantes inquietudes. Como você articula tais sensações em seu processo criativo?


NELSON MAGALHÃES FILHO - Afirmo que todo artista tem o dever de ser visceral em sua sinceridade diante dos desafios. A inquietude, a selvageria e a pureza são necessárias para a sobrevivência. Mas ainda não sei articular conscientemente estas sensações contrárias para a criação artística. Acredito muito nos acasos e na intuição, além de uma rígida disciplina de trabalho diário.




Foto: Karla Rúbia



DA - Através da Companhia dos Anjos Baldios você desenvolveu significativos trabalhos em vídeo, aliando imagem e linguagem poética. Quais outros horizontes você vislumbra nesse terreno?


NELSON MAGALHÃES FILHO - Não sei se estes trabalhos, sejam em pintura, poesia ou vídeo, signifiquem alguma coisa para alguém. Estou ainda experimentando esta linguagem do audiovisual. A arte será sempre um gesto inacabado, um processo em movimento inflexível. Gosto muito desta ideia das redes rizomáticas de criação. Entrei nas artes visuais pela adoração ao cinema. Pretendo continuar estudando muito.


DA - Como um profissional que leciona arte, acredita que o mundo acadêmico ainda encontra grande dificuldade em harmonizar os aspectos formais com a questão da subjetividade?


NELSON MAGALHÃES FILHO - A questão da subjetividade é muito complexa. Mas a academia serve justamente para debater isso. Procuro passar aos alunos os aspectos que envolvem a forma, a cor, a luz, etc. Eles precisam aprender a construir uma base sólida, para mais tarde saberem desconstruir e dessignificar estas questões.


DA - O que é necessário ao ofício do artista: lucidez ou loucura?


NELSON MAGALHÃES FILHO - As duas coisas são importantes, porque o que as separa é uma linha muito delicada. Mas gosto de flertar com a loucura, apesar da dor. Admiro a coragem com que Artaud encarou a crueldade de sua essência performática como homem de teatro.



* Acesse a exposição de telas de Nelson Magalhães Filho na Diversos Afins.



** Confira também o canal de vídeos do artista.







Peixe palhaço

Ilustração: Lese Pierre







JANELA POÉTICA (IV)



OFICINA


Heitor Brasileiro



Aceito o ofício –

o exercício da liberdade

é o mais caro de todos os vícios

– a graça


como um padeiro oficia

o trigo que nos sacia

sigo o rito da li-

ber da de em exercício

o pão nosso de cada dia


Enquanto o universo conspira

enquanto o homem maquina

a palavra oficina:

despe-me da agnostia

& põe-me a conversar com Deus

no balcão do bar da esquina

que teima em ser padaria


Nem diário escrito

nem memória iconográfica:

escrito diário

Festa esferográfica

Desafio:

cio iconoclasta


incontrolável rio

que a tudo rui

inunda

anima

& arrasta


As margens que o oprimem

exalam em orifícios

do elo contra a corrente

de frialdade sublime

xxxxxxxxxxxdesatam


Assim abraço o ofício

o exercício da liberdade

o mais elevado de todos os vícios

a graça




(Heitor Brasileiro Filho é poeta,
crhonesto & friccionisto –
ex-tenso,
ex-es-tático
& ex-tinto)







Capa - Catálogo Imaginarium

Ilustração: Lese Pierre








ANA ANGÉLICA

Adelaide Amorim


Fala de tanta coisa ao mesmo tempo que no fim não sobra nada.

Ana Angélica, um nome assim tipo arrebatador. Não que ela faça o gênero – um pouco tosquinha, simpática e boa pessoa. Impossível é seguir o fio de seus pensamentos ou manter uma conversa coerente que dure mais de três minutos. O pensamento de Ana Angélica é como um tobogã transparente por onde deslizam incontáveis pedaços de assunto, nomes que não se sabe de onde vêm, lembranças e sensações mal definidas, misturadas como meadas de várias cores. Ana Angélica não conta uma história, conta várias ao mesmo tempo, e no fim é preciso fazer múltipla escolha entre os trechos de enredo e os finais. Por qualquer motivo ela ri, ri muito, o que torna suas falas uma colagem de palavras incompletas.

Não, não é doida nem passa perto disso. É alegre e adora se divertir. Ninguém a encontra em casa nas noites de sexta ou a qualquer hora nos sábados, sendo que aos domingos vai à missa – diz que se faltar à missa alguma coisa muito ruim sempre acontece durante a semana – e dali parte para a praia se não chover. Depois almoça um churrasco em casa de amigos ou amigos de amigos, toma todas que aparecerem e vai dormir cedo porque segunda é dia de voltar ao posto de recepcionista de uma clínica de estética na Barra.

Tem um círculo de amizades surpreendentemente grande, variado e flutuante. Tem orkut, adora sexo na internet e faz questão de espalhar suas fotos em todos os sites de relacionamento. Já fez dois abortos, porque diz que só quer filhos depois dos trinta e cinco e ainda tem vinte e oito. Fica, namora, sai sempre com alguém, faz qualquer coisa para não ficar sozinha, mas nunca demora mais de quinze dias com o mesmo cara.

Acredito que isso acontece porque uma vez passou uns meses com um sujeito que a trocou por outra e fez de seu coração risonho uma gruta escura. Caiu em depressão, parou de comer, quase morreu sozinha em seu canto. Os amigos a salvaram do desespero, mas depois do luto pelo amor falecido, voltou à rotina de variedades que a mantém sempre com o olhar brilhando e os dentes bonitos de fora.

Ana Angélica não quer servir de exemplo pra ninguém. Não se responsabiliza, e como tem o coração fácil de derreter, chora com facilidade, mas logo se distrai e esquece. Vive cada momento, não pensa no futuro nem para em lugar nenhum do passado. Alguém já disse que ela é como espuma, sempre efervescente e renovada. Mas o segredo de Ana Angélica é que ela se especializou em esquecer.


(Adelaide Amorim confessa: A vida é parecida com férias na praia - você passa uns dias impecáveis, perfeitos, de sol e céu azul, águas mansas e noites estreladas, e logo chegam vento e chuva, a temperatura cai e você tem que correr pra comprar os agasalhos que nem pensou em pôr na mala. O que salva as férias é nunca ter agasalhos na mala)








Garoa (chora)

Ilustração: Lese Pierre







JANELA POÉTICA (V)


Jorge Elias Neto



Nada saberei dizer de tuas agruras.

A fenda obscura de teu beijo cala;

é ironia pura.

Disfarça a dura pele que trazes

a sustentar a boca

cariada de desejos.


Lembrarei apenas a distraída forma

que contornou certa manhã meus desencontros.

E percorreu-me afoita a alma,

e num enlace torto, desvendou meus medos.



(Jorge Elias Neto é capixaba de Vitória, médico cardiologista e poeta. Envolvido na tarefa de conciliar o tempo entre o palpável e o intangível. Sempre tentando descobrir a quanto dista o zelo do cientista, do abuso apaixonado do poeta com a palavra. Publicou Verdes versos (2007 – Flor&cultura) e prepara “Rascunhos do absurdo”)







DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Bolívar Landi


Deixa ela entrar (Låt Den Rätte Komma In). Suécia. 2008.



Em tempos de megaproduções como Crepúsculo e Lua Nova, que tratam da paixão entre criaturas sobrenaturais e humanos, surge da Suécia um belo e delicado filme, que incursiona pelo mesmo tema. O que eles têm em comum, contudo, para por aí. E não se engane: o que o “Deixa Ela Entrar” tem de tocante e sensível, tem também de inquietante e assustador. Não espere, do mesmo modo, músicas arrebatadoras ao fundo criando momentos de clímax, nem cenas megalomaníacas repletas de efeitos especiais. Esta produção, de orçamento modesto, consegue, de forma inteligente e criativa, trazer a tensão, o suspense e a complexidade psicológica que os primeiros nem sonham em atingir.


O filme conta a história do amor adolescente entre um menino de 12 anos e uma misteriosa menina, aparentemente da mesma idade, que se muda para o apartamento ao lado. Os dois compõem personagens reclusos, que não se adaptam bem à vida em sociedade, e uma afinidade entre ambos logo se estabelece. O grande trunfo da obra concentra-se justamente aí, a sua trama explora a personalidade e as motivações de cada personagem de forma coerente e plausível. O caráter fantástico do roteiro não diminui em nada a sinceridade com que os dramas do elenco são retratados.


Tudo contribui para produzir o clima sombrio e melancólico da película: o ambiente gélido dos países nórdicos; a trilha sonora sutil e econômica, que sabe valorizar momentos de silêncio; a cenografia e o figurino adaptado aos marcantes anos 80 e a interpretação visceral dos atores, em especial do par central de adolescentes.


Esta obra original, dirigida pelo sueco Tomas Alfredson, revelou-se como uma grata surpresa em 2008, sendo reverenciada pelo público e grande parte da crítica especializada. Ela pode ser considerada uma pequena obra-prima do gênero e despertou tanto interesse que uma versão americana do filme já se encontra em andamento. Uma preciosidade que deve ser logo conferida antes que mais uma produção pirotécnica e requentada, e muitas vezes empobrecida, bata mais uma vez à sua porta...




(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História e encontra nos filmes uma forma de conhecer realidades distintas e experimentar novas sensibilidades)









Dorothy de Oz

Ilustração: Lese Pierre







JANELA POÉTICA (VI)


HORA DO OCASO


Genny Xavier


Há, neste ocaso do dia

uma nota destoante de uma canção em mim!

Não há peso na densidade da alma

que contempla a última flama do sol...

Meus devaneios se perdem pela porta dos olhos

que vislumbram a imensidão do horizonte.

Se há em mim um feminino suspiro

de um corpo físico

neste intervalo de tempo incomensurável,

ofereço sua anímica essência

à natureza misteriosa dessa hora que admiro.

Eu estou aqui,

Mas algo além de mim vagueia,

para sondar o matiz

que esmaece a vermelhidão do dia que se finda.




(Genny Xavier nasceu no sertão da Bahia e começou a escrever versos aos 13 anos, com um traço humanístico e social que indicava a precocidade da sua idade. Atualmente, trabalha na criação do seu primeiro romance, com o título "Alma de Papel" e tem ainda inéditos os livros: “Da razão e dos sentidos” (poesia), “Impressões do anoitecer” (contos) e “Rio, doce rio!” (literatura infantil))








OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



TAÏS REGANELLI – ANTES QUE A CANÇÃO ACABE






Se há algo fundamental para que um projeto musical apareça e tome corpo definido, com certeza esse fator é a capacidade que um artista tem de se mostrar com vigor e, sobretudo, com personalidade. Some-se a isso um potencial de expressão que seja baseado em uma estrada essencialmente autoral. Eis que de modo suave e intenso Taïs Reganelli nos apresenta seu primeiro disco solo, trabalho que nos reserva instantes cuja palavra de ordem se chama delicadeza. Desde os seus primeiros arremates, Antes que a canção acabe nos incita a um percurso por entre ambientes de forte apelo lírico, tanto pelas suas letras quanto pelos acertados arranjos que atravessam suas 12 canções.


O disco exala de modo marcante um cuidado na utilização de todos os recursos sonoros que lhe são possíveis. Ressalte-se aqui a presença marcante de instrumentos como trompete, baixo acústico, flauta, piano, violoncelo, clarinete, todos eles a compor uma atmosfera que só agiganta a imagem das canções. Durante todo o álbum, a voz preciosa e bela de Taïs conduz os sentimentos que habitam faixas como Antes Que o Verão Acabe, Valsa Dois Copos, Ambíguo e Um Dia. Além do tom jazzístico presente em Agora Jaz, também nos deparamos com a pegada firme de Parangolé do Samba. A cantora, além de compor parte considerável das canções presentes no disco, privilegia parcerias com outros novos compositores, como é o caso do músico Nando Freitas. A propósito do que nos sugere o título do cd, cabe a crença na marca indelével da música, qual seja a de se tornar algo infindo. Mesmo em muitos momentos, quando somos até capazes de trucidar nossa própria memória, ainda nos é dado resistir e poder guardar tudo num recanto inexplicável de nós mesmos. Parafraseando Renato Russo, definitivamente existem canções. E elas ficam.



* Clique aqui e abra um pouco os ouvidos para o disco









O abraço

Ilustração: Lese Pierre








JANELA POÉTICA (VII)



MINHA ALMA


Ronaldo Braga



corpos catados

por toda parte

agoniza

os meus passos em transbordante mutismo.

sinto frio no calor dos gritos

e nos olhos do horror o nada colhe flores nos rituais da demência

já não ouço meu avô envolto nas brumas

e sei da solidão dos velhos nas quedas dos muros empacotados.

e sei ainda das dores que nos beijos colherei na madrugada sem amanhecer.




(Sou de Gêmeos, nascido nas brumas e trovoadas na madrugada de 04 de junho de 1959. No teatro, busco a prática do impossível e, na poesia, o exercício da inteligência. Não gosto de nada do além, mas me reforço nas invisibilidades constantes em minha vida)








Tirando leite

Ilustração: Lese Pierre






* As ilustrações do artista plástico pernambucano Lese Pierre visitam paisagens nas quais o lúdico se instala como matéria-prima motivadora de todo um processo criativo. O sentimento pueril que habita muitas das formas do artista não se revela como reforço a uma espécie de ingenuidade gratuita. Através das expressões de suas meninas, série emblemática em seu trabalho, as imagens povoam atmosferas que dialogam com o real e constroem elementos dotados de um vigoroso humor inteligente. Lese é diretor de arte do Estúdio Buena Luz, além de desenvolver trabalhos para publicidade e expor suas gravuras e ilustrações nas galerias de São Paulo.


 
publicado por Fabrício Brandão
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