30 de jun de 2010,21:00
QUADRAGÉSIMA SEXTA LEVA - ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO



Foto: Antonio Paim






CICERONEANDO



Durante quatro anos, uma missão preciosa descortinou-se ante os olhares dos leveiros da Diversos Afins, qual seja a de apostar no rito de desengavetar expressões. Tal lema norteou os caminhos que, com o passar dos dias, foram ganhando contornos próprios. A possibilidade de consolidar um projeto como o nosso só se firmou nos intervalos que atravessam as ações. E falar em intervalos significa ressaltar a força presente nas pesquisas e descobertas que permeiam uma edição presente e o lapso temporal a desenhar outra. Não há uma Leva sequer desta vasta jornada que não seja para nós especial em sua plenitude. Dos primórdios até aqui, muito se pôde aprender e, de todos os desafios que esta estrada impõe, certamente o do exercício das escutas é o maior. Cada componente humano que faz parte dessa história representa o verdadeiro motor a justificar nossas Levas. O entusiasmo, incentivo e o diálogo proposto por todos aqueles que acompanharam nossa trajetória é o que nos impele a continuar. Sem isso, os passos dados não teriam sentido, pois os feitos culturais atingem seu objetivo central quando instigam as pessoas à interação com os signos evocados. A 46ª Leva, através da exposição de escritores e artistas que integram nossa caminhada, tenciona prestar uma justa homenagem a todos os que, de algum modo, estiveram conosco em nossa infante existência. Saudamos a arte de Fao Carreira, Canato, João Colagem e Marco Angeli. Miramos um pouco de nós nas fotografias de Valéria Simões, Wellington de Medeiros, Antonio Paim e Ricardo Prado. Os poetas Neuzamaria Kerner, Jorge Elias Neto, Graça Pires, L. Rafael Nolli, Cássio Amaral, Ildásio Tavares, Felipe Stefani e Romério Rômulo nos ofertam seu lirismo. Nalgumas linhas de prosa, os contos de Roberta Tostes, Larissa Mendes, Rodrigo Melo e Alice Fergo percorrem densas vertentes humanas. A sabatina com o artista plástico Marco Angeli pontua os sensíveis diferenciais de uma carreira marcante. Bolívar Landi nos propõe olhares atentos ao filme argentino O Segredo de Seus Olhos. No Aperitivo da Palavra, um convite à leitura de Eros Resoluto, livro de contos do escritor Marcus Vinícius Rodrigues. Há muito mais nas entrelinhas do que podemos perceber e a cada leitor cabe uma particular e infinita conjunção de saberes e sabores. Agradecemos e saudamos a todos os colaboradores e parceiros e, em especial, aos leitores. Celebremos, pois, a vida e seus instigantes mistérios!



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.







JANELA POÉTICA (I)


Romério Rômulo



as valas do corpo, violência frugal, manhã doçada

são feridas ovais de um quase lento tempo.

musgos se arvoram em ausências, luzes dizem

de ser tarde.


quanto falar de cada rosto ausente?


se transeunte, falar ladeiras, pedras, umbrais

recíprocos do não revelado.

saber de cada corpo que se fala noite, surdo, de migalhas.


nada saber, se tudo já se fez.


(de cada rosto ausente)



(Romério Rômulo: um poeta confuso que, para ordenar o pensamento, tem sempre à mão os sonetos do Camões, o Augusto dos Anjos e o João Cabral. Seu mais novo lançamento é intitulado Per Augusto & Machina)









Ilustração: Fao Carreira












A DÚVIDA


Alice Fergo



Um fio de céu sangue. Crepúsculo. O último torpor do dia mergulha numa poça hipnótica. Respondo agora fortalecida pela claridade da noite. Sinto que vou. Dei os últimos retoques nas fronteiras – linhas imaginárias e pontos de fuga rasam o ângulo aberto, mas nunca detêm a verdade toda. Lembras-te daquele tronco calcinado que apanhávamos em conversa? Quando lhe peguei ainda guardava memórias do rio. Será mesmo pelo fogo que a redenção vem, ou nunca nada volta? Dúvida sumptuosa, meretriz dos poetas surte a água tardia com aparas de sol. Onde se quis o fim, lê para nós o princípio planando no átrio sentimental da hora.



(A poeta portuguesa Alice Fergo é formada em História pela Universidade Clássica de Lisboa. Lançou, recentemente, “Quando junto às horas se ilumina um rio” (Labirinto, Fafe, 2009), o seu terceiro livro)









Foto: Ricardo Prado










JANELA POÉTICA (II)



SONHO


Neuzamaria Kerner



Quando pistolas virarem braços

E balas virarem flores

Os pecados serão purgados.

Os braços serão como laços,

Enfeites de balas-flores

E as cores diversas dos braços

Esmagarão forte as balas

Plantarão firme as flores

Repartirão o mel

Para deleite dos que teimarem

Em fazer poesia.



(Neuzamaria Kerner é poeta e professora de Língua Portuguesa. Participou de várias antologias e publicações, sendo uma das precursoras da Revista Diversos Afins. São de sua autoria os livros de poemas Fragmentos de Cristal e Eu Bebi a Lua)





Foto: Antonio Paim






APERITIVO DA PALAVRA


Por Fabrício Brandão




EROS RESOLUTO - MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES





Quem desfolhar as páginas pungentes de Eros Resoluto (Coleção Cartas Bahianas - P55 Edições – Salvador – 2010), novo rebento do autor baiano Marcus Vinícius Rodrigues, certamente irá se deparar com uma narrativa que ousa instaurar algo que pode ser tido como um tempo da delicadeza. Tal expressão sobressai como um trunfo muito bem utilizado pelo escritor para penetrar com densidade num lugar que extrapola os horizontes aparentes do erotismo. Os três contos que perpassam o livro nos falam de certas paisagens íntimas da condição humana, construindo uma trama na qual os seus protagonistas são acometidos por uma varredura psicológica de suas veleidades.

Nas ambientações da primeira história, A Omoplata, pulsa evidente a marca das ambivalências comportamentais, algo que se assemelha a um cenário de hesitação dos desejos. É nesse momento que a habilidade descritiva do autor salta aos olhos, colocando-nos frente a revelações urgentes da alma. Através da conjunção do eu, do outro e do desejo por si, é como se novos seres surgissem a partir desse trinômio, respirassem carregando uma identidade própria, para depois se unirem numa amálgama que não sugere distinções nem tampouco barreiras de ordem moral. As limitações de conduta dos personagens, se é que estas existem de fato, são conduzidas por uma tênue e intricada linha que separa o pensamento da ação. No apogeu dos dilemas da mente, o escritor nos arremata o instigante questionamento central do conto: Quem é capaz de nos salvar face aos ardis do destino que desenhamos?

Em A paz que chega no depois, os imperativos da carne ajudam a tecer uma sequência de acontecimentos na qual os embates são inevitáveis. A narrativa aqui se assemelha bastante a um roteiro cinematográfico, fortemente pontuado por frames decisivos. O protagonista, vivenciando as projeções da sua condição homossexual, arrisca pagar o preço pela maneira como concebe o seu prazer. A essas alturas, o que mais chama atenção na trama é o modo como o desejo encontra abrigo. O elemento sexo aparece contextualizado numa arena de relações de poder. É então que o futuro do gozo irrompe as fronteiras materiais. No lugar da carne, sobrepõe-se uma alma estranhamente triunfante.

O terceiro e último conto, intitulado A tarde de um fauno, oferta, a favor de nossas percepções, um cenário lúdico. Nele, os apelos sensoriais reforçam a descrição das vigorosas imagens tecidas pelo autor em seu modus operandi. O moço Davi, personagem central da história, encontra na mitológica figura do Fauno mais do que um parceiro para o compartilhar de seus silêncios e descobertas de menino. Pelas alamedas do prédio onde moram os protagonistas, a intimidade entre o garoto e a “criatura” idealizada vai sendo construída de modo a superar os mais aparentes limites físicos. A mística presente no texto e os recursos preciosos da plasticidade cênica demarcam um lugar especial aos olhos e sentidos do leitor.

Por que então crer em Eros Resoluto as inscrições de um tempo da delicadeza? É preferível que tal resposta seja dada no âmago das emoções silenciosas e intimistas devidamente afugentadas em cada um de nós. Os olhos do cicerone Marcus Vinícius Rodrigues servem de contumaz bússola, sugerindo-nos um painel sinestésico aos rompantes potenciais do ritual inexplicável dos desejos.


*Para adquirir o livro, clique aqui.

Contatos com o autor: marvin.mvr@gmail.com




Arte: João Colagem









JANELA POÉTICA (III)



BERCEUSE


Ildásio Tavares


Para Jéssica



Dorme, minha filha, dorme

na imensa cama de teu pai

onde foste buscar refúgio e proteção

de um terror qualquer

que gelou a tua noite.

Dorme. Mansa. Quieta. Formosamente

quieta, um sorriso de paz nos teus lábios –

fiapo da criança que apenas

se esgueirou da aventura cruel

da adolescência -- estendido

de bruços, teu corpo imenso,

vestido ainda de menina,

passado distante. Resta-me

apenas escrever estes versos,

em que, na minha cama,

desabrocha uma mulher, final de sonho.



(O escritor baiano Ildásio Tavares pertence à geração Revista da Bahia. Tradutor, professor de inglês e literatura americana, publicou três livros de poesia na década de 70: Imago (1972), Ditado (1974) e O Canto do Homem Cotidiano (1977). Em 1980, publica Tapete do Tempo, em 1996, Poemas Seletos, entre outros. Os melhores nomes já se expressaram sobre sua poesia. Nelson Werneck Sodré diz: "É fácil compreender a alta qualidade do poeta. Em primeiro lugar pelo domínio da arte poética na linguagem de síntese que é sua essência. E ainda pela capacidade, nessa linguagem, praticar aquilo que Brecht ensinou, as diferentes maneiras de dizer a verdade")










Pintura: Canato










ECO


Rodrigo Melo



Uma das luzes no corredor não funcionava direito. Piscava quatro vezes, como numa espécie de aviso, e então acendia-se completamente, clareando boa parte do caminho, para três segundos depois voltar a piscar outra vez. Oskar passara dezenas de vezes por ali nos últimos dias, mas não reparara naquilo. Abriu a porta de uma das salas e entrou. Sentado numa cadeira, havia o que parecia ser um homem com os braços e as pernas amarrados, a cabeça pendendo para frente, nu. Oskar circulou pela sala, olhando as feridas no corpo do sujeito. De alguma maneira, não gostava de estar naquele lugar, sobretudo do cheiro que ele tinha, um misto de suor, sangue, bosta, mijo e medo. Também as paredes, escuras e mofadas, davam-lhe a sensação de um certo distanciamento da vida e de tudo o que ocorria lá fora. Caminhou até o outro lado da sala e pegou o pedaço de pau, quase um bastão, que ficara num canto. Balançou o homem sobre a cadeira, cutucando os braços e os ombros, mas ele não se mexeu. Talvez estivesse morto. Oskar olhou para o relógio no pulso, eram quatro e quinze da tarde. Estacionara o carro num lugar que não era permitido e calculou a quantidade de multas que já recebera. Então cutucou o homem outra vez, agora mais forte, e ele então virou a cabeça e abriu levemente os olhos escuros e inchados, para logo em seguida voltar a ficar inconsciente outra vez.


- Merda!


Oskar deixou cair o bastão, colocou as mãos na cintura e olhou ao redor. Na outra extremidade da sala havia um balde repleto de um líquido grosso, de cor marrom, que alguém deixara e ele mesmo não imaginava o que poderia ser. Aproximou-se com o balde nas mãos e jogou o líquido no rosto do homem, que contorceu-se e gritou, o corpo ainda amarrado mas a cabeça a girar para os lados. Oskar puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele.


- Vai falar?


Uma poça de sangue coagulara no chão da sala.


- Você pode sair daqui. Entende isso?


O rosto do homem era apenas uma máscara escura e ele não parecia compreender as palavras que lhe eram ditas.


- Só precisa dizer um nome, Jorg, e tudo acaba. Pode sair.


Quanto tempo aquele sujeito estava ali? Oskar lembrava apenas da sua arrogância ao chegar. Os dias ali dentro, no entanto, mudam muito essas pessoas. Agora, o corpo de Jorg parecia-se muito mais como uma árvore frágil que envergara e estava prestes a se partir.


- Lars... – ele de repente murmurou, levantando a cabeça.


- Lars? - Oskar levantou-se, aproximando o seu rosto ao do outro.


- Lars... – Jorg repetiu.


- Lars de quê, porra?


- Viniez...


Oskar então afastou-se, os olhos brilhando, tirou o celular do bolso e discou. Caminhava de um lado para o outro.


- Oi. Olha, consegui... É. Lars Viniez, conhece?... Não, não, pode ir. Me liga depois.


Desligou o telefone e o guardou no bolso. Respirou forte e o cheiro da sala veio direto pra os seus pulmões. Era horrível aquilo. Algo, no entanto, sempre o fazia voltar. Não quis pensar sobre o que seria. Levou uma das mãos às costas e puxou o revólver – grande e niquelado, presente de um antigo superior. Admirou-o por alguns segundos. Então virou-se e apontou-o para a cabeça de Jorg e atirou. O barulho ecoou pela sala, mas depois de alguns segundos o silêncio voltou a predominar, ficando apenas uma espécie de grito distante, um grito dado a quilômetros dali. Ninguém apareceria, de qualquer forma. Quase sorriu ao pensar nisso. Em seguida olhou para o relógio: quinze para as cinco. Guardou a arma, abriu a porta da sala e ganhou o corredor - a lâmpada piscando uma, duas, três vezes, de repente acendendo-se num clarão, para logo depois voltar a piscar outra vez.



(Rodrigo Melo é contista, mora em Ilhéus, no sul da Bahia, e já foi editado por inúmeras revistas. Seu livro, "gambiarra", deverá ser lançado até janeiro de 2011)











Foto: Wellington de Medeiros













JANELA POÉTICA (IV)



Tão cúmplices, as palavras


Graça Pires



Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.



(Graça Pires nasceu numa cidade litoral portuguesa – a Figueira da Foz – onde aprendeu a amar o mar e os barcos e com eles as palavras envoltas na emoção de viver. É poeta e sabe que só a poesia pode absolvê-la de todas as fragilidades)








Pintura: Marco Angeli









PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



A forma como alguém se expressa artisticamente encerra uma infinidade de perspectivas, muitas delas a ganhar corpo novo quando aos olhos dos apreciadores vêm se juntar, oportunamente, repertórios individuais de mundo. Talvez o objetivo maior da arte seja o de se libertar, propondo um salto ao universo alheio para ali se instalar de maneira até mesmo surpreendente. Tentar entender o que cada ser carrega em si é um questionamento pouco relevante frente ao universo de temáticas a serem percorridas. Ousando contrariar alguns postulados, navegar é preciso; viver, mais ainda. E ao fazer de seu ofício um instrumento que se desloca no tempo, no espaço e nas consciências, o artista deixa aberta a marca da sugestão, talvez a maior de suas ferramentas no diálogo com um outro que, à primeira vista, cercado está por seus mistérios.


Através do trabalho de um alguém como Marco Angeli, estão impressas certas razões indeléveis para crer da arte um movimento incessante de transformação. Paulista de nascimento, Marco viu surgir seu ofício ante uma metrópole que se impunha não somente pela sua imponência espacial, mas, sobretudo, pelo sentido que as passagens humanas emprestavam à dinâmica do lugar. Para além dos homens e suas intervenções materiais, interessa ao artista voltar seus olhos às histórias de vida contidas nas pessoas. E é nesse aspecto que se revela um criador capaz de transpor a barreira avassaladora de um banal anonimato imposto por uma grande cidade aos seus habitantes, conferindo-lhes, por intermédio de suas telas, uma nova existência, quiçá uma identidade notadamente subjetiva. Adepto do figurativismo, Marco Angeli faz do estilo algo além de uma proposta meramente descritiva da realidade, expondo-nos signos que transcendem a visão aparente das coisas. Com experiências que transitam por desenhos, pinturas, ilustrações e, também, pela publicidade, o artista recebeu a Diversos Afins para uma conversa sobre sua carreira e, em especial, sobre o modo como se depara com a gestação de sua criação.



Marco Angeli

Foto: Graci Hastenreiter




DA - Há um quê de memória afetiva no modo como você retrata os homens e seus lugares. De que maneira tal característica se estabelece no seu processo criativo?


MARCO ANGELI - A expressão artística, enquanto verdadeira, sempre é a impressão digital do próprio artista. Ou sua alma, o reflexo de sua vivência. Assim, como soa falso o texto escrito por um escritor sobre um tema que ele desconhece ou conhece pouco, também é com a pintura, meu fascínio. E o foco central de todo meu trabalho sempre foi o ser humano. Sou fascinado pelas histórias das pessoas. Quando retrato a cidade e seu centro antigo, o que está ali é a sensação do menino que, levado pela mão do pai, passeava por ela assombrado pelos edifícios, que observava, maravilhado, cada detalhe das estátuas imponentes, dos arabescos de seus portões de ferro artesanais, da luz incidindo por suas ruas. Mas, acima de tudo, o menino imaginava quem seriam os homens que a construíram, e o que os impulsionava. Esses anônimos estão aqui e ali, em minhas obras, preocupados com uma coisa qualquer em suas vidas naquele momento. Interagindo com a paisagem urbana que dia a dia ajudavam a construir. Assim como meu pai. Cada homem ou mulher presentes ali, naquela cidade, representam simbolicamente a minha origem, meus próprios pais que, descendentes de imigrantes, passeavam, amavam e viviam naquela cidade enorme.



DA - A cosmopolita cidade de São Paulo tem uma presença marcante em sua obra, sobretudo no que se refere ao enfoque histórico. No complexo universo de uma metrópole como esta, onde as identidades aparecem um tanto dispersas, o que você acredita ser o maior desafio do artista?


MARCO ANGELI - A maior dificuldade não é, sem dúvida, representar figurativamente ruas, edifícios ou pessoas. São Paulo é um enorme caldeirão de culturas e, durante séculos, absorveu indiscriminada e generosamente os hábitos, costumes e folclore dos povos que recebeu. Vemos, claramente, por exemplo, a influência europeia na arquitetura do Centro Antigo, mas em 1940, 1950, por suas ruas passeiam carros com design tipicamente norte-americano. E as pessoas usam livremente as roupas de sua cultura, especialmente nessa época. De certa forma, os anos 40 e 50 são marcantes no sentido de expressarem mais fortemente esse mix da cidade. Basta ver quantos grandes artistas, como Alfredo Volpi, tiveram sua fase mais fértil naqueles anos. São Paulo é uma cidade que, sob vários aspectos, talvez possa ser considerada uma metrópole precursora desse movimento de globalização que hoje vivemos, quando agregou às suas próprias características as dos povos que para ela vieram, sem preconceito ou limites. A cidade respira essa mistura, e esta sensação está em suas ruas, presente. A maior dificuldade, então, é justamente conseguir transmitir através da pintura figurativa essa sensação, que é subjetiva. Esse sempre foi meu grande desafio.


Em 1990, eu preparava minha primeira mostra figurativa, depois de pintar abstrato durante alguns anos, e meu tema foi justamente a Avenida Paulista e suas madrugadas. Ora, o que eu via eram as luzes incidindo, frias, sobre a avenida deserta, sobre as poucas pessoas que perambulavam por aí. Era, antes de tudo, uma sensação subjetiva, mas presente nos postes e edifícios que, impassíveis, compunham a arquitetura da cidade. Confesso que o que achei muito fácil no início se transformou de imediato numa tarefa árdua, sofrida. Eu pintava e repintava as telas e elas me pareciam esteticamente dentro do que eu queria, mas a sensação me escapava por entre os dedos. Fiz o melhor que pude e elas foram para a mostra, que aconteceu numa galeria da própria Paulista. Surpreendentemente, a reação dos que as viram, na vernissage, foi a de interagir absolutamente com elas. Alguns executivos que passavam justamente por aquelas cenas todos os dias comentavam comigo que aquelas visões eram inéditas para eles, principalmente por se sentirem transportados para dentro delas imediatamente. Foi, nessa época, que comecei a admirar a beleza e a capacidade gigantesca que tinha Edward Hooper de nos envolver nessas sensações com suas pinturas.


A pintura de Hooper, apesar de figurativa, de uma beleza e técnica incomparáveis, é pura sensação. Não há como não ser transportado para dentro delas, quase sentir seus cheiros, a brisa que entra pelas suas janelas. Só mais de dez anos depois, ao observar novamente esses meus trabalhos sobre a madrugada na Paulista, consegui entendê-los um pouco melhor, perceber o resultado daquele esforço. E, passado muito tempo, quando alguém, diante de uma de minhas obras sobre São Paulo, comenta, entusiasmado, que conhece essa ou aquela esquina, que passava todos os dias por ali para ir trabalhar, que no inverno o frio era terrível, sinto que de alguma forma consegui meu objetivo ali, naquele momento.


Lamentavelmente, entretanto, foi também o registro histórico de uma depredação sem igual. No final de 1989, quando captava essas imagens, construía-se ali o metrô e vi grandes casarões, historicamente de grande valor, serem demolidos numa única noite, para burlar a lei do patrimônio histórico. Casarões como o de Horácio Sabino, construído em 1903 e assinado pelo arquiteto francês Le Courbisier, viraram escombros. Sintomático da triste condição da cultura no país. O maior desafio, então, não é o simples registro figurativo de uma época histórica da cidade, mas a interação pela sensação do ser humano na paisagem urbana, uma forma de viver que foi mudando rapidamente, como tudo em São Paulo muda.


Com o tempo, e pela própria característica de meu trabalho, que é basicamente sob encomenda, meu interesse sobre as cidades foi ficando mais abrangente, e pintei New York, Madrid, Paris e outras cidades do mundo que têm uma carga histórica forte e marcante, além, é claro, das capitais brasileiras, como o Rio de Janeiro, que é maravilhoso. Mas São Paulo tem essa conotação forte para mim como origem, a minha origem, e será sempre especial.



DA - O figurativismo pode significar bem mais do que uma mera representação da realidade, pois é capaz de conferir uma noção mais dinâmica e, talvez, menos passiva ao objeto retratado. Como lidar com esta via transformadora na sugestão de novos sentidos?


MARCO ANGELI - Durante alguns anos, a partir de 1984, eu estudava e pintava abstrato, baseado principalmente em Tomie Ohtake, Manabu Mabe, Paul Klee e Fukuda, com quem havia trabalhado anos antes. Fiz algumas exposições dessas obras a partir de 1985 aqui no Brasil e, finalmente, parei com o abstrato em 1990, com a mostra sobre a Paulista.


A pintura abstrata, por não ter um referencial objetivo e ser conceitualmente subjetiva, emocional, é passiva de múltiplas interpretações que fogem do controle, inclusive, do artista que a criou. Consequentemente, a sensação - ou a alma da obra - é transmitida sem qualquer comprometimento com a realidade objetiva.


Na pintura figurativa, há esse comprometimento profundo com a realidade, e o objeto retratado tem necessariamente que conter e transmitir uma emoção definida pelo autor. Se isso não existir, tratar-se-á apenas de um exercício de técnica e mais nada. Não importa se a técnica é péssima ou excelente, sem emoção não há alma, e sem alma não há arte. Conheci e apreciei, durante toda a minha vida, excelentes técnicos com um domínio maravilhoso do que faziam, mas eram sempre trabalhos vazios, exercícios apenas, a técnica como princípio e objetivo. Por outro lado, quando se tenta retratar figurativamente a emoção que um objeto qualquer possui, as possibilidades são praticamente infinitas, mesmo que exponham ícones comuns à maior parte das pessoas. Para usar um exemplo rudimentar, qualquer artista sabe que certas cores, quando aplicadas, transmitem dinamismo e tensão, como o vermelho, agitação e vibração como o amarelo, e assim por diante. Ou que o movimento frenético do traço passa agitação e inquietação, e linhas suaves transmitem paz e serenidade. Ora, isso é a base da pintura abstrata, que lida com esses elementos fundamentalmente para transmitir o que quer. Na pintura figurativa, soma-se a esses elementos a imagem representada, real, que tem sua própria carga e conotação. Esse é o grande fascínio que a pintura figurativa exerce sobre mim - a mistura e subversão desses elementos, desses ícones, que é praticamente sem limites. A interpretação do artista sobre a realidade é única e individual, assim como a do espectador que observa a obra. O artista induz com sua obra através dessa mistura ou de um olhar mais criativo sobre os próprios ícones, como fez Andy Warhol na pop art com suas latas de sopa Campbell, por exemplo. Novos caminhos e novas interpretações, assim, são infinitas e jamais cessarão. O próprio sistema social é mutante, rápido, e fornece um material abundante para isso. Basta querer ver.



DA - Em sua carreira, você também desenvolveu trabalhos voltados para a publicidade. Na sua opinião, até que ponto os ditames mercadológicos limitam as possibilidades de criação?


MARCO ANGELI - O trabalho para a publicidade, que desenvolvi, desde o início de minha carreira, me deu uma consciência e formação profissionais que, muitas vezes, entram em conflito com o mercado de arte existente por aqui. Na publicidade, a imposição do mercado é óbvia, pois, afinal, é exatamente para o que ela existe - para vender - e o foco de tudo que é produzido é voltado exclusivamente para isso, desde textos a ilustrações, etc. Além disso, mesmo em editorial, jamais existe o trabalho individual, autoral. Tudo sempre é feito num consenso mútuo que envolve diretores de criação, diretores de arte, redatores, atendimento, etc. Em outras palavras, não importa a genialidade ou qualidade de determinado trabalho, ele será bom se vender ou péssimo se não vender. Isso é muito claro, fácil de entender e viver, sendo profissional.


A arte supostamente não deveria ter nada a ver com isso tudo, com as imposições de mercado. Mas não é o que aparentemente se vê por aí. A partir do final dos anos 90, o mundo passou por revoluções profundas e, com uma velocidade espantosa, presenciamos, atônitos, uma grave crise financeira mundial que se originou na Ásia em 1999, a internet que se afirmava definitivamente mudando o comportamento pessoal e profissional de praticamente todo habitante do planeta e o fatal 11 de setembro de 2001, o qual abalou o coração financeiro do mundo. Mudanças com essa dimensão obviamente foram decisivas para delinear e definir o mundo em que vivemos hoje. No Brasil, especialmente, onde a valorização do capital por ele mesmo, acima de qualquer outra coisa, é um fato incontestável, tudo parece - inclusive a cultura - ter o mesmo foco que a publicidade sempre teve: o que vende é bom, e o que não vende não precisamos nem saber se é bom ou ruim, não presta. Na arte e na cultura, temos ainda um agravante, o do mercado valorizar apenas o que é certo e líquido, instituído, que tenha receita garantida. Isso eterniza velhas fórmulas e velhos nomes, um procedimento padrão arcaico em relação à arte, uma repetição incansável de mesmices.


Sempre tive uma preocupação excessiva em relação a definir claramente arte e publicidade em meu trabalho como funções completamente distintas, e a consciência de que, se um dia se misturassem, de alguma forma, perderiam ambas seu valor, simplesmente porque são fundamentalmente diferentes, com propostas antagônicas. Foi assim que só comecei a pintar e expôr depois de muitos anos de atividade profissional em publicidade, só quando pude ter certeza de que não dependeria financeiramente da pintura nesse momento. Isso era fundamental, e foi o que fiz. E foi a base que me garantiu liberdade, que tenho até hoje, quando praticamente só exerço a pintura como atividade profissional. Essa liberdade me permitiu uma volta às origens, de certa forma. É meu trabalho atual. Estudei e executei exaustivamente técnicas como óleo, aquarela, airbrush e outras, e as executo bem. Mas, a partir de um determinado momento, a técnica em si deixou de me interessar e voltei às minhas origens: a criança que desenhava rabiscos na parede de casa com um lápis preto. Ou, mais radicalmente, ao homem de Neandhertal que contava as histórias de suas caçadas com um carvão na parede de sua caverna. Hoje, faço o que gosto e minha mão se move e desenha da forma como gosto.


Lamento, no entanto, que graças à conduta desse mercado o caminho se feche para novos artistas, justamente para os que são mais criativos, que oferecem novas fórmulas, novos olhares. Na correria atrás do retorno financeiro imediato e por pura covardia de encarar o novo, o mercado os isola, cruelmente. E os deixa à míngua. Estamos cansados de ver grandes talentos sem colocação alguma, mal sobrevivendo.


Ao invés de aprender com as lições que nos deixaram as histórias de Van Gogh ou Paul Gauguin, o dito mercado de arte as repete indefinidamente, não compreendendo que o trabalho do artista quase sempre transcende sua época e somente é entendido em sua íntegra muito tempo depois.


Não indo tão longe, ouvi, há tempos, uma entrevista na qual Aldemir Martins afirmava que durante muitos anos pintava uma tela hoje para pagar as contas amanhã. Ou Volpi, que pulava de alegria quando vendia uma de suas pinturas, o que garantia o pagamento do aluguel.


A cultura de um povo se estabelece pela convivência e parceria entre os velhos e já consagrados nomes com os jovens criativos, que tem novas e instigantes propostas. Isso se chama renovação. O contrário, a cultuação perene de velhas e rentáveis ideias, é uma estagnação cultural. Que vive de repetição. Some-se a isso a quase total indiferença das entidades governamentais em relação ao assunto e temos um esboço definido do que vivemos hoje culturalmente. Desconsiderando-se, claro, uma pequena elite, temos um resultado desolador, com programas de reality show, novelas ou apresentadores de programas de auditório na TV como ícones da cultura brasileira. Ironicamente, e não por acaso, a publicidade e a música brasileira são reconhecidas entre as mais criativas do mundo. Graças, talvez, ao capital injetado nesses canais e ao apoio da mídia, sempre que interessa. Não é o caso das artes plásticas ou literatura, por exemplo.





Foto: Victor Angeli



DA - Há muitas distorções no papel desempenhado pela crítica de arte no Brasil?


MARCO ANGELI - Não há muito o que eu possa dizer a respeito da crítica, já que desenvolvo meu trabalho de forma completamente independente, como outros artistas que conheço, os quais procuram maneiras mais modernas e criativas de trabalhar e colocar seus trabalhos. Aliás, é algo em que deveríamos pensar.


As mudanças radicais que o mundo sofreu, nos últimos dez anos, impõem mesmo uma nova postura e uma nova forma de se olhar para a arte e como ela é colocada no mercado, e esquecer as velhas e arcaicas formas de se lidar com isso, pois estas só favorecem mesmo aqueles que pretendem que o mundo seja o mesmo de trinta longos anos atrás.


Parece-me que a crítica de arte, tal como a víamos anteriormente, desfigurou-se completamente, absorvida pelo mercado e seus ditames. O mesmo processo que detonou o 'romantismo' existente na publicidade nos anos 60 e 70 parece ter afetado a crítica, a qual acabou se amoldando ao esquema da valorização absoluta do capital e perdeu seu real e verdadeiro sentido. As distorções que existem, então - e são muitas - atuam principalmente sobre os novos artistas, justamente os que mais precisam do apoio da crítica. E não têm. Mas, pessoalmente, acredito que o maior crítico de seu trabalho é o próprio artista, e mais ninguém. E que o maior impulsionador de seu trabalho são as pessoas, não necessariamente entendidas, que o apreciam e compram. Há uma certa ingenuidade em pensar que eternas discussões filosóficas nos levarão muito mais longe do que esses princípios simples levam. Não levarão. A força e a tenacidade com que um artista luta para colocar seu trabalho serão sempre os fatores fundamentais e decisivos para seu sucesso ou fracasso.


Há uma frase significativa do empresário Ray Kroc, fundador da rede McDonald's, que pode ser aplicada no caso, a qual diz que talento sem perseverança não serve para nada. 'Cansei de ver grandes talentos fracassarem por falta de tenacidade', disse. Mais ou menos o que Picasso quis dizer com 'arte se faz com 99% de transpiração e 1% de inspiração'.



DA - A celeuma em torno do conceito do objeto de arte parece ser algo infindável, como se todos atirassem para todas as direções em meio à escuridão. Nesse sentido, você acha que a dita pós-modernidade foi longe demais?


MARCO ANGELI - Não, claro que não foi. Há muito o que se fazer desde o anarquismo de Hélio Oiticica, que abriu uma porta genial e necessária. Não acredito de forma alguma em arte desvinculada de seu tempo. Mesmo que, improvavelmente, se volte para o futuro, a obra de arte usa e se alimenta de referenciais, conceitos e materiais da época em que é produzida e é um resultado da cultura em que vive. E o mundo se move hoje a uma velocidade espantosa, evoluindo tecnicamente para um futuro quase inimaginável, subvertendo as velhas noções que tínhamos sobre relacionamento humano e disponibilidade de informações, as quais são fornecidas às toneladas e ininterruptamente. A espiritualidade do ser humano, entretanto, não parece evoluir com a mesma velocidade e nem ao menos acompanhar de longe essa enxurrada tecnológica.


Quando pinto a cidade de 1950, eu a pinto daqui, de nossa época, e não como a pintaria um artista em 1950. É, acima de tudo, uma reflexão sobre os caminhos de nossas vidas e de nossa espiritualidade, inseridos nessa paisagem urbana. Não simplesmente um resgate, mas uma análise sobre as mudanças que sofremos para melhor e para pior. Em contraponto, pinto também a cidade de hoje. Reflexões que estão, igualmente, nos portraits das pessoas que pinto. Cada uma delas traz consigo uma identidade, uma alma que procuro captar, independente da época. São momentos, e únicos. Esta mesma onda impulsiona todo e qualquer artista desse tempo, fornecendo como nunca antes material e recursos infindáveis para seu trabalho. A arte é a busca eterna da espiritualidade, e as respostas estão na convivência forçada ou não que temos com o mundo em que vivemos, com o lixo que ele produz, com a internet que o guia, com a desigualdade social, com uma linguagem virtual recém-descoberta, e com a nossa própria incapacidade de digerir completamente tudo isso. É com isso que a arte lidará, este é seu material hoje, como foram em 1965 os parangolés de Hélio Oiticica. Mas, hoje, mantendo-se as devidas proporções, talvez não ocorresse com um artista mais ousado o mesmo que aconteceu com Hélio em 1965, quando foi expulso de uma mostra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, causada justamente por seus parangolés.


Atualmente, graças à difusão enorme de informações pela internet, há uma confusão enorme em torno do objeto de arte, que coexiste com uma certa tolerância passiva em relação a tudo o que aparece e é chamado de arte. É, ao mesmo tempo, um aspecto negativo, que gera lixo, mas tem seus aspectos positivos também. Aparece cada vez mais frequentemente, por exemplo, uma expressão que designa um novo tipo de artista, o multimídia, que exerce diversas atividades culturais e não apenas uma. Este artista pode pintar, fazer música ou escrever, tudo simultaneamente. O conceito do artista multimídia é extremamente inteligente e absolutamente necessário na época em que vivemos, enquanto derruba algumas barreiras culturais importantes. A principal delas é a que invalida, por puro preconceito, artistas que tenham atividades diferentes. Um engenheiro ou arquiteto que mostre um trabalho de pinturas sempre é visto com certa suspeita. Ou um publicitário que faz música. É algo frequente, e eu mesmo convivi com isso diversas vezes.


Hoje, com a possibilidade democrática e praticamente infinita que a internet proporciona através das redes sociais, qualquer trabalho cultural pode ser mostrado indefinidamente e terá seu sucesso ou fracasso definido não mais por uma pequena e fechada elite cultural preconceituosa, e sim pela própria comunidade em que está sendo difundido. Essa comunidade é, em última análise, o mundo. A perspectiva é fascinante e nunca antes, na história da humanidade, o objeto cultural foi submetido a uma exposição tão intensa e democrática. Com o tempo, provavelmente, e de forma automática, a própria comunidade irá estabelecendo conceitos e separando o que tem ou não valor. Se assim fosse em 1965, provavelmente o anarquismo de Helio Oiticica teria sido melhor compreendido. Ou o de Glauber Rocha, entre tantos outros.



DA - Retratar a vida e seus atores tem uma conotação fortemente subjetiva, algo que motiva as criações dos mais variados artistas e, por vezes, parece se situar num terreno indefinível. O que você considera mais instigante nestes signos despertados pela arte?


MARCO ANGELI - Interessante refletir sobre esse aspecto, já que nunca tive grandes preocupações com isso. Meu trabalho foi evoluindo, durante esses anos, de uma forma natural e quase intuitiva, e meu foco em relação ao assunto foi ficando mais apurado. O resultado disso foi uma busca interna minha e pessoal pela simplicidade quase absoluta. Muitos anos de publicidade com uma pressão constante por fórmulas mágicas e criativas para velhas ideias acabaram me cansando e me fazendo ver que, com raríssimas exceções, muito pouco se criava realmente no sentido literal da palavra. Apenas aplicavam-se velhas fórmulas com uma roupinha nova. Objetivamente, ou se é criativo ou não. Criatividade não é uma profissão que se aprende, é uma maneira de se enxergar o mundo e as pessoas. Uma maneira que se vive. Com esta consciência, optei pela simplicidade, em fazer o que gosto, apenas. Não havia mais a preocupação em saber como seria visto ou criticado. Isso não cabia mais e nem era possível, em certo momento. Era uma necessidade de expressão, de comunicação, da forma como eu sabia fazer, nada além disso. Foi assim também - por essa necessidade - que recomecei a escrever, depois de muitos anos sem fazer isso.


No fundo, mais do que nunca, essa mistura de trabalhos faz com que, after all, cada um deles carregue consigo uma história, além das que estão ali contidas e visíveis. A minha história. Essa é a proposta mais instigante da arte, como sempre o foi, imagino, contar uma história com o coração. Fica mais fácil, assim, enxergar os terrenos onde a arte atua.










Pintura: Marco Angeli











JANELA POÉTICA (V)


O vento


Jorge Elias Neto



O vento reivindica distâncias,

não deixa espaço para o fervor

do pensamento.


A carapaça veda a imperfeição do olhar,

mas deixa frestas para a brisa.


Refeito, o vento zune distantes segredos,

entoa desejos ao pé do ouvido.


O pisar do vento reverberando aconchegos.




(Jorge Elias Neto é capixaba de Vitória, médico cardiologista e poeta. Envolvido na tarefa de conciliar o tempo entre o palpável e o intangível. Sempre tentando descobrir a quanto dista o zelo do cientista, do abuso apaixonado do poeta com a palavra. Publicou Verdes versos (2007 – Flor&cultura) e, recentemente, Rascunhos do Absurdo (2010 – Flor&cultura)










Foto: Valéria Simões









CONFISSÃO DE CORPO


Roberta Tostes



Da cópula dos sentidos, descendeu a ânsia, brincando de ferver na candeia das artérias. Tremiam que tremiam pensamentos! E o corpo, desapaziguado com a calma, era um desastre no manejo da candura - tanta candura por aqui dentro tudo!... escorrida numa baba de medo, numa gagueira mansa, suando delicadas as mãos, prenha de ternura rota. E a paixão, assim, desavisada de jeito, ia eriçando a penugem das vontades, soprando afetos, afogada em desrazão. E a febre adubada de sonhos ia, de um jeito bobo e bonito, adoentando a realidade. Da vigília pro sono, vezenquando encontrava a paz - que me era arrancada dos campos da emoção: pequeníssima flor, tímida de cheiros e gestos, no triste pendor de colher, colher a si. Todavia, eu nunca me queixei: da paz amputada, da dor nos ossos, do desconcerto nos músculos, desafinando a orquestra do coração. Recusei remédios, cessei com a lucidez do mundo. Sentir virou minha doença, minha poesia.



(Roberta Tostes Daniel, carioca de nascimento, também é mineira - por vocação e herança familiar. Habita mar e montanha. Trabalha para sobreviver, escreve porque vive. Seu laço mais profundo com a existência é o que a une à palavra, aos sentidos e à memória. Reconciliada com o presente, agora explora sua outra acepção, porque assim o vive, prazerosamente, a conjugar amor. Mas seu grande desafio é o futuro, tão fluido. Vir a ser é a sua obra)










Ilustração: Fao Carreira









JANELA POÉTICA (VI)



Sonho, 28 de setembro de 2009


L. Rafael Nolli



Um ruído me arranca do último sono,

como um feto na carne mais profunda.

O diálogo interrompido, em terra estran-

geira, dissipa sobre a minha cabeça – se


perde na geografia tortuosa e inconstante

de ilha absurda, escondida no verso dos olhos.

Um gato mastigando osso debaixo de cama?

Um rato asilado nas frestas da parede,


afiando os dentes nos fios elétricos?

Coisas assim, possíveis, me vêm à mente

no escuro líquido que encharca o cômodo

e umedece lentamente a tinta dos quadros.


Volto ao sono, sem solução possível ou

GPS que me oriente ao reino de Morfeu.

Enquanto, lá no fundo de meu cérebro

um verme rói, incansável, o último pilar.



(L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, no ano de 1980. Publicou "Memórias à Beira de um Estopim")







OUVIDOS ABERTOS


Por Fabrício Brandão



MOMBOJÓ – AMIGO DO TEMPO






As mentes férteis e virtuosamente pernambucanas dos rapazes do Mombojó ousam investir novamente a favor de nossas escutas. À medida que o tempo passa, a banda parece cada vez mais engajada em delimitar seus espaços no infinito universo das possibilidades sonoras. Desde o cuidado com as letras até a elaboração dos arranjos, o que se percebe de Amigo do Tempo, terceiro rebento do grupo, é um ambiente carregado de maturidade. E tal condição parece se encaixar perfeitamente ao sugerido pelo título do disco, algo que fez da sucessão dos instantes parceira ideal das perspectivas criativas da banda. Sem se apartar das tradicionais influências regadas a rock, pop e elementos eletrônicos, o Mombojó, através do suporte vigoroso de seus vocalizados textos, confere alma às canções, carregando cada uma delas de imagens próprias.


De um canto a outro do álbum, a sensação é a de estarmos atravessando uma verdadeira espiral do tempo, onde saberes e sabores se confundem pelas complexas trajetórias de vida comuns a qualquer mortal. Um pouco dessa atmosfera viajante pode ser percebida em faixas como Entre a União e a Saudade, Passarinho Colorido, Justamente e Aumenta o Volume. De certa forma, há um quê de existencialismo beirando o discurso habitante de Amigo do Tempo, cuja atmosfera incita a verdadeiras reflexões sobre a vida, seus acertos e desventuras, tudo isso sem soar pretensamente doutrinário. As sonoridades presentes em Casa Caiada chamam atenção pelos recursos que remontam à consciência atenta aos imperativos das mudanças necessárias. Em Triste Demais, os sintomas de uma civilização urbanóide revelam-se aguçados por inevitáveis constatações pós-modernas. Em seu eixo poético-filosófico, o disco evoca um apelo à continuidade das coisas. De tudo isso, paira uma sensação de que a vida, com seus matizes, se não nos oferta soluções fáceis, ao menos nos sugere o desafio da tentativa.



* Clique aqui para abrir os ouvidos ao disco











Foto: Wellington de Medeiros










JANELA POÉTICA (VII)



ACOLHIMENTO


Felipe Stefani



A chuva
cai sobre o corpo que é oco,
e abriga o dia.
Cinza é o dia.

Brisa,
infinito que corta o vão do labirinto,
e ecoam trovões
às portas do exílio.

Desvãos.
A tarde entende o vulto silente,
de um silêncio maior que o mundo.
Ressoam as sombras desses muros,

pausadamente.

Tarde cinza.
Vem a brisa,
arde pelo cárcere,
larga sinfonia.

Talvez o corpo abrigasse
as fugas da melodia.



(O paulista Felipe Stefani é poeta, artista plástico, fotógrafo e surfista. Encontrou na arte e nas ondas do mar formas de explorar a existência. É autor do ainda inédito “Verso Para Outro Sentido” (Escrituras) que será lançado em São Paulo, Brasil, dia 25 de Setembro de 2010. Faz parte do grupo Só Desenho)











Arte: João Colagem











RANGO


Larissa Mendes


Nem a gula de você torna meu pensamento indigesto.



O painel anuncia um amor desses padronizados, pedidos por número, servidos numa bandeja engordurada, enquanto berram sua senha e a fila por outros amores-velozes aumenta como a taxa de colesterol de seu velho coração. Junk-food de amores ambulantes, pedidos na madrugada depois da festa. Um amor meio cru, de má vontade, feito às pressas, como quem joga um coração dentro de um pão dormido, acrescido de outros ingredientes, só para enchê-lo de uma vez. Um amor incompleto, por favor. Sem ervilha e sem maionese.


Na estrada, um típico (não confundir com temático) amor. Literalmente pra viagem, servido a turistas como souveniers para ostentar na estante da sala de estar. Com gosto de novidade, de primeira vez. Um amor regional, internacional ou até de outro planeta. Você decide entre o amor-vatapá, amor-zen (variação de amorzin?) ou especialmente para os astronautas, o amor em cápsulas. No ar, amores catering. Porções de amores minguados, fracionados, econômicos, servidos ironicamente quando se está nas nuvens. Fui às alturas com aquelas migalhas de amor que jamais alimentariam as borboletas que porventura viessem habitar meu estômago.


Para os dias famintos, a diversidade de um amor a quilo, daqueles que você se empanturra só de olhar. Coração de pedreiro. Uma confraternização num rodízio de amores. Amores já partidos, fatiados ou espetados por uma lança, desfilando nas mãos de garçons-cupidos. Mais um pedaço de amor com tomate seco, senhor? Seco fica o coração.


A chuva é boa para amores delivery. Disque M para matar a fome de amar. O interfone toca depois de duas horas de atraso, quando você já esqueceu que está esperando um amor. E ele chega molhado, revirado, misturado doce e salgado. Você dá a gorjeta ao motoboy, friend. Compara a propaganda do folheto, injuriado pelo amor menor, murcho e desbotado. Isso quando o amor não vem trocado e já é tarde demais para reclamar o pedido. Eu pedi um amor no ponto e veio (bem) passado, com cara de ex-namorado.


Já vomitei amores de rodoviária, de feira, de beira de estrada. Decidi, então, partir para os amores industrializados. Padrão ISO 9000 de qualidade e longo prazo de validade. Engana-fome. Prontos para consumo instantâneo. Seu amor em 3 minutos. No lugar do peito, um microondas. Amores congelados (ela partiu), requentados (ele voltou), pré-prontos (eles reataram).


Sinto falta daqueles amores meio sagrados, como feijoada de sábado, churrasco de domingo, nhoque todo dia 29. Também me faz falta um amor caseiro, daqueles que o aroma se espalha por todos os ambientes num meio-dia de sol. Cheiro verde, amor recém colhido da horta. Um amor al dente, à língua, à boca. Um amor que tem intimidade pra abrir a geladeira e colocar os pés na mesinha de centro. Um amor que você passa o dia pegando mais uma fatia, uma porção, uma colherada, um naco, um teco.


Amor nutre, engorda, enche. Mas ainda prefiro o peso a consumir esses amores diet, light, zero caloria. Amores artificiais. Fingem que são de uma linha saudável, mas estão embutidos de conservantes que só conservam um amor destemperado. Para os naturebas, amor puro – a verdadeira ração humana. Sou vegetariano. Não consumo amor, só paixão.


Já fiz muito regime e até greve de amor. Emagreci alguns gramas de coração; os (a)braços também deram uma enxugada; a boca, ressequida. Mas o efeito é sanfona, violoncelo e cavaquinho. A cirurgia de redução de amor não é irreversível. Eu, por exemplo, tenho apetite de um amor balanceado, rico em fibras, músculos, carne, pele, osso, alma. Um amor rico em vida. Direto do forno para a mesa, o sofá, a cama, o chuveiro, o chão, o elevador. Daqueles que ultrapassam as quatro paredes. Amores requintados. Com entrada, prato principal, sobremesa. Amores de mil talheres, mas que ainda assim dá vontade de comer com a mão, com os olhos, com os poros. (In)saciáveis amores. Com começo, meio e fim.



(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)










Foto: Valéria Simões










JANELA POÉTICA (VIII)



CLARÃO


Cássio Amaral



Clarão na dança das nuvens

No lívido gozo de feixes de luz

Bomba atômica

no cogumelo da interrogação

Domingo um tiro dado na imprevisão

Bem-te-vis rezando jazz ou blues

Revoada de pombas vedetes

Balançando e rodando...

Em volta do baú e do homem

Um quê de amplidão.


De frente da placa de é proibido estacionar

Aterriza um disco voador.



(Cássio Amaral é professor de História. Publicou Sonnen, livro de poemas e haikais, entre outros)






DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Bolívar Landi



O Segredo dos seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos). Argentina/Espanha. 2009.






Nossos “hermanos” argentinos foram premiados este ano com o Oscar de melhor filme estrangeiro com o denso e envolvente O segredo dos Seus Olhos, em uma coprodução com a Espanha. Acabaram, assim, surpreendendo e superando o grande favorito da crítica: A Fita Branca, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e da Palma de ouro no festival de Cannes.


A obra vem reforçar o vigor do cinema argentino, que, a despeito da crise econômica enfrentada por seu país, apresentou na última década filmes de grande qualidade como O Filho da Noiva, Plata Quemada, XXY, dentre outros. Um dos pontos fortes destes títulos é o cuidado com os roteiros, muito bem construídos e coesos, o que poucas vezes conseguimos observar nas produções brasileiras.


A película passeia entre o passado e o presente. O competente ator Ricardo Darín, protagonista de O Filho da Noiva e XXY, interpreta Benjamín Espósito, um funcionário da justiça recém aposentado, que, sentindo o peso da idade e da efemeridade das coisas, procura exorcizar os seus antigos fantasmas e resolver as pendências de sua vida. O filme gira em torno de um caso de estupro seguido de morte, ocorrido no ano de 1974, com uma linda jovem em Buenos Aires quando Espósito ainda era investigador no Tribunal penal da cidade. A produção passa a desenrolar uma ágil e bem elaborada trama policial, com surpreendentes revelações e um consistente desempenho dos seus atores.


O diretor Juan José Campanella, que já havia feito parceria com Darín em O Filho da Noiva e O mesmo amor, a mesma chuva, substitui as cenas frenéticas de ação e explosões, típicas do cinema americano, por um roteiro inteligente que consegue dar uma maior densidade aos seus personagens e cria um clima de suspense que prende a atenção dos espectadores até o fim.


O filme irá abordar questões intimistas que nos falam sobre o peso das nossas escolhas, dos acontecimentos do nosso passado e o quanto podemos ficar presos a ele e, ainda, sobre a possibilidade de recomeço. Ele irá também mostrar o ambiente político da Argentina no governo de “Isabetita” Perón e da ação do grupo denominado "Triple A" (Aliança Anticomunista Argentina) que, em nome da falácia de luta contra os comunistas, cooptava pessoas da pior espécie, sendo utilizado pelo aparelho do Estado para eliminar desafetos, burlar a justiça e justificar os atos dos “ridículos tiranos” de nossa América Católica, como nos diria Caetano em sua música protesto “Podres Poderes”.


O Segredo dos Seus Olhos, apesar de contar com um pequeno orçamento (2 milhões de euros), é uma obra virtuosa e muito bem produzida, contado com sequências eletrizantes como a tomada aérea em um campo de futebol lotado, sendo o filme nacional de maior arrecadação na Argentina até hoje.



(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História e encontra nos filmes uma forma de conhecer realidades distintas e experimentar novas sensibilidades)








Pintura: Canato










JANELA POÉTICA (IX)



SONORA


Fabrício Brandão



Existem canções

A vida nunca mais acabará depois delas

Como num sopro as lembranças

Giram no apertado do vazio


Redime, escutar murmúrios

Esquecidos em meros artifícios


Viver em constante dúvida

Sem enfraquecer

Nem levar o acaso a sério


Quando a porta fechar

Que o canto fique impresso












Foto: Ricardo Prado






* Os artistas plásticos e fotógrafos desta edição comemorativa expuseram outros trabalhos nas Levas 10ª, 12ª, 17ª, 21ª, 31ª, 33ª, 34ª e 44ª. Além disso, seus sites pessoais podem ser visitados na seção Outros Versos, em nosso menu lateral.



 
publicado por Fabrício Brandão
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