30 de mai de 2009,16:44
TRIGÉSIMA TERCEIRA LEVA



Foto: Valéria Simões











CICERONEANDO




Tamanha é a profusão de verbos que insistem em atravessar nossas delicadas existências. Se eles não se dedicam a se atirar voluntariamente aos nossos domínios, ao menos tomamos a ousadia de desfolhar alguns para o deleite de certos ímpetos do sentir. A arte afigura-se um verdadeiro complexo de ecos das nossas mais primevas vozes, muitas delas renovadas em meio aos olhares dispersos das multidões. Há um gosto pelo indefinido sabor e o saber daquilo que escorre de nossas reveladoras intimidades. Tudo sempre esteve aqui, num mesmo mundo onde os ares servem de combustível incessante aos mais distintos sopros criativos. A cada um, a sua verdade, ou melhor, a busca de uma relativa certeza que lhe convém para amansar a fera imortal da inquietação. E como faz bem aos seres todos testemunharem e serem parte de tantas epifanias. É com tal volúpia de expelir fragmentos de nosso tênue cristal que compartilhamos o solo comum das esperas nos versos de Micheliny Verunschk, Daniel Mazza, Dheyne de Souza, João Filho, José Gil, Luiz Otávio Oliani e Edson Cruz. Este último, dissecando um pouco o fazer poético, divide conosco suas imagens e falas de poeta, editor e fomentador cultural numa pequena sabatina. Nas linhas de Regina M. A. Machado, projetadas estão as miopias em torno do outro. No conto de Bernardo Linhares os delírios saltam aos olhos. A jornalista Ana Lúcia Vasconcelos exibe instigantes olhares sobre o legado do dramaturgo Augusto Boal. Os olhares cinéfilos de Bolívar Landi são a dica de mais um Drops da Sétima Arte. O Aperitivo da escritora Astrid Cabral nos convida aos versos de Espiral, novo livro de Luiz Otávio Oliani. Diante de tudo que aqui agora pulsa, há o traço humano indelével das lentes da fotógrafa baiana Valéria Simões. Ei-la, caro leitor, uma trigésima terceira via!






*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES













JANELA POÉTICA (I)



NAUFRÁGIO


Micheliny Verunschk



Silêncio,

agora me destroço,

mastro retorcido,

casco arrebentado.


Meu nome encontra

o rosto da sereia cega

e decepada.


Meu nome encontra o nome

desse país provisório

entre a vida e a água.


Vértebras.


Pele furada.


Olho de baleia.


Agora é a minha deixa.


Coluna dolorida

tocando o abismo

desse céu inverso.


Incisão de agulhas de tricô.


Silêncio.


Agora me atravessam

pregos,

travessões.


Silêncio,

agora começou.





(Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy, 2003), indicado ao prêmio Portugal Telecom de 2004, e o Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003))











Foto: Valéria Simões










CORREIO SENTIMENTAL

Regina M. A. Machado


A senhora me desculpe eu vir com as minhas leréias ocupar a sua coluna, mas é que eu lhe conheci há muito tempo atrás e hoje eu estou meio triste e queria lembrar dessas coisas, mas só pode ser com alguém que me conheceu antes, bem antes.

Não sei se vai dar para lembrar, mas foi logo depois daquela história das desovas de mocinhas pelo motoboy no Parque Municipal, lembra? A gente até conversou sobre isso, mas não é disso que quero falar agora, só estou relembrando porque tem a ver.

Eu costumava correr no parque, para treinar, sem muita animação, mas me fazia imaginar que um dia eu seria campeão da corrida de São Silvestre ou até que iria correr em Nova Yorque, umas ideias que me vinham. Quando eu vi a senhora correndo também, devagarinho, com aquele peso todo nas pernas meio curtas afinando para baixo, e aquele short de malha, fiquei imaginando outras coisas. Para mim, ou era uma mulher maluca ou uma que estava querendo. É que, apesar do parque se chamar Municipal, podia até ser a floresta amazônica, porque da cidade mesmo, dos bairros bons, não vinha ninguém ali.

Então eu resolvi atacar direto. Não tinha ninguém vendo, mesmo. Não vou repetir o jeito como lhe falei, hoje em dia tenho vergonha daquele jeito desafrontado, mas era assim que eu falava com todo o mundo. Aí, quando a senhora me disse, vem aqui, meu filho, vamos conversar, eu fiquei com medo, achando que a senhora tinha topado e então perdi o jeito. É que eu nunca quis nada com mulher assim, não estou falando da idade, é mais o jeito da pessoa ser. Meu sonho sempre foi com moça loira, bem bonita mas sobretudo com olhos, depois eu digo como, porque aconteceu, só que eu não sabia de nada disso, aliás, nem sabia muito bem o que gostava de verdade.

Aí, a senhora me levou até uma árvore velha (não sei se era velha, mas era já bem grande), me fez encostar a cabeça no braço, pôr o pé pra trás e esticar a panturrilha (nunca tinha ouvido essa palavra). Depois me mandou respirar de um jeito diferente e, no final, me mandou cheirar uma flor qualquer.

Então a gente sentou na grama e conversou. Foi uma coisa muito, muito boa. Me lembro que a senhora me perguntou quais eram as minhas aspirações e eu só tinha duas: trepar com uma loira daquelas de capa de revista e correr numa maratona internacional. Depois me falou de trabalho e eu desconversei. A conversa foi, foi e eu sei que numa certa altura a senhora me falou para ver bem, quando aparecesse uma moça do tipo que eu queria, se ela era mesmo como eu sonhava, se ela me deixava comovido, se me dava vontade de rir e de rezar. Tudo meio bobajada, mas bonito. E devia ser o que eu queria ouvir, porque nunca mais esqueci. Só descobri quem era a senhora porque no jornal aparece a sua fotografia no alto da coluna, bem mais moça, mas deu para reconhecer. Isso foi muitos anos depois e agora me deu vontade de lhe contar o que aconteceu na minha vida no entretempos.

Pois é, um dia eu vi uma moça que me deu aquilo tudo. Ela era loira, mas quase tão magrinha como eu e só um pouquinho mais alta, e branquinha demais, até meio cor-de-rosa. No começo, tive medo de ir falar com ela; essas paulistas branquelas não gostam muito quando um cara como eu, um escurinho com cara de pau-de-arara chega perto delas sem conhecer. Não sei se ela deu uma olhadela que me deu coragem, mas quando vi, estava já conversando, não sei bem de que, isso faz muito tempo, mas a gente se acertou tão bem que de vez em quando me dava vontade de rezar, como a senhora tinha dito.

E foi assim por muito tempo. Para lhe explicar, tenho que começar por aquele jeito de olhar que eu tanto queria encontrar e que ela tinha, e que achei direitinho do jeito que era, num pedaço de jornal velho que achei no chão e que falava do olhar de uma mulher velha chamada Dona Paula, que tinha sido bonita e tinha tido uma paixão e que lembra de tudo olhando nos olhos “ainda infinitos” de uma sobrinha dela. A minha loira meio desbotada não era assim o tempo todo, mas quando a gente transava, às vezes ela soltava um ai comprido de eco de gruta de montanha e fazia esse olhar. Depois o tempo passou e ela não conseguia mais gostar de mim do mesmo jeito, também não era possível, não vou lhe dizer tudo que aprontei, mas entendo, sei que não era possível ela continuar gostando de mim.

O que me salvou foi a idade, foi o tempo e a necessidade de cuidar de meus filhos, que esses, não tinham outro para olhar por eles, então eu tive que tomar jeito. Não foi com a loira, não, foi com uma morena bunduda como a senhora (desculpe, mas é uma coisa engraçada, de costas ela parece com a senhora). E essa, desde que olhei para ela, me dava vontade de rir. Como a senhora tinha dito. Depois às vezes também me dava vontade de rezar. Acho que foi assim que aos pouquinhos tomei juízo. E queria lhe dizer que o jeito como a senhora falou comigo acho que foi uma coisa que mudou o rumo da minha vida. Pronto, acabou a minha história, só que hoje eu queria mesmo era me perder de novo daquele jeito de antigamente, mas acho que esse rumo eu perdi. Um grande abraço e tudo de bom.

Vicente.




(Regina M. A. Machado é uma brasileira expatriada que em geral trata dos escritos dos outros, mas que de tanto engolir crias alheias, acaba pondo para fora alguma criatura nascida do medo e da escuridão, como tantas outras. Fez um doutorado tardio em 2007, na Sorbonne, sobre literatura brasileira. Atualmente anima oficinas de francês para imigrantes em Bonneuil-sur-Marne, onde mora. Quando tem oportunidade, traduz autores brasileiros para o francês e, em se tratando de ficção ou teatro, sempre em colaboração com algum francês de raiz)










Foto: Valéria Simões











JANELA POÉTICA (II)



CONVIVÊNCIA


Daniel Mazza



Do barro escorrido entre os dedos

Moldei o pouco que ficou entre as palmas


E tomou forma:



E as frágeis mãos esculpidas envolveram as minhas,

As mãos de carne sobre as minhas mãos de argila,

E moldaram-me pacientemente

À imagem e semelhança: mão e luva.


Convivência:

Mistura de barro e tempo...




(O cearense Daniel Mazza Matos é médico hematologista e escritor. Mestre em Clínica Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, doutorando em Clínica Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou dois livros “Fim de Tarde” (Ribeirão Preto, Editora Funpec, 2004) e “A Cruz e a Forca” (Fortaleza, Book, 2007))









OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



ANA COSTA – NOVOS ALVOS






Coloca-se o disco na “vitrola”, aciona-se a tecla de reprodução e pronto. É deixar os ouvidos descobrirem por si mesmos o que os aguarda nas profusões sonoras do segundo trabalho da cantora carioca Ana Costa. E tudo começa bem com uma eletrizante performance “percussivo-bucal” de ninguém menos do que Carlinhos Brown, o qual assina a letra de Samba Cria Lei, canção cujo ritmo desenha as imagens de um Rio que se rende ao samba de forma inconteste. Eis aí apenas o aperitivo para um repertório que desfila qualidade em seus arranjos e melodias. Mas nada disso seria tão importante não fosse a vigorosa interpretação do canto firme e afinado da artista.


Novos Alvos é um daqueles álbuns nos quais é possível perceber o cuidado com que um artista se debruça ao seu trabalho. E a força disso emana por todos os cantos. Há intensidade e poesia nos versos sensíveis de Crônica de uma cidade armada, composição de Celso Fonseca, certamente ponto especial do disco e que serve como um lamento para um Rio cujas faces não passam mais impunes pelas suas dores próprias. Antes que se tome o álbum como um tributo implícito à alma carioca, é preciso frisar que os caminhos aqui vão mais além dessa ideia, pois o cd traz um repertório rico em sentimentos de um vasto mundo, algo que visita horizontes distintos.


Outro momento belo é o duo que Ana faz com Paulinho Moska em Almas Gêmeas, de autoria de Luiz Tatit. Nos apelos da memória que pulsam em Antiga, Leila Pinheiro compartilha devidamente os vocais. Ainda há espaço para os enlaces românticos de Estranho e para o batuque africanizado de Quer Amar Mamãe. De tudo o que é possível perceber dessa continuidade dos caminhos musicais de uma talentosa Ana Costa, talvez muita coisa possa ser resumida num trecho de E Vai Que Dá: “O bom de sonhar devagar é que o sonho custa a acabar”. Lembremo-nos disso, então!











Foto: Valéria Simões











JANELA POÉTICA (III)



NA VOZ DAS JANELAS


Dheyne de Souza



Eu posso te tocar o lábio, te soprar o olho, te rimar a face

Eu posso te sonar a espera, te afinar a busca, te entornar a ordem

Eu posso escandir teu som, libertar teu verso, rasurar sua língua

Eu posso entupir de letra toda a partitura de seu gozo cru

Eu só não posso esperar as portas ritmarem ilesas os verbos das tuas mãos

enquanto

o vento morre gasto nas outras janelas.




(Dheyne de Souza escreve principalmente poesia, também desenha e pinta. Está em Goiânia e nos ambientes de Histórias Possíveis e Nós, sós, ombros)












DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Bolívar Landi



Rio Congelado (Frozen River). EUA. 2008.








Este não é um filme que tenha como foco vidas ou fatos extraordinários. Ele é feito de situações e pessoas comuns, de gestos e atitudes sinceros. Justamente por isto, o que mais encanta nesta obra é a veracidade com que os acontecimentos são tratados. A película traz uma dignidade comovedora e uma força fascinante, surpreendente como a vida.


Grande parte de suas qualidades se devem à excepcional interpretação de Melissa Leo, indicada ao Oscar de melhor atriz por este trabalho, no papel de uma mulher recém abandonada pelo marido que vive com os dois filhos em um pequeno trailer. Ela luta arduamente para manter a sua família e, guiada pela falta de perspectiva e pelo desespero, acaba se envolvendo com o transporte ilegal de imigrantes sob um rio congelado que divide a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá. Sua interpretação é autêntica e sem exageros, tocando os nossos sentimentos mais profundos. Há uma boa interação entre os integrantes do elenco e conseguimos nos identificar com seus personagens, pois eles nos falam das esperanças que se perdem em meio ao vão, de nossa impotência diante dos reveses da vida, da força inexplicável que nos faz resistir, de milagres... Sob a camada de gelo que recobre o rio e a frieza que reveste os homens descobrimos, no íntimo de cada ser, gêiseres em ebulição.


O filme é mais uma agradável surpresa do cinema independente norte-americano e contou com um orçamento de US$ 1 milhão, extremamente modesto para os padrões estadunidenses. Ele marca a estreia da promissora diretora Courtney Hunt, que assina ainda o roteiro da produção, também indicado ao Oscar na categoria de melhor roteiro original em 2008. A película foi vencedora do grande prêmio do júri no Festival de Sundance no mesmo ano.


A diretora foi injustamente censurada em algumas críticas por realizar uma apologia da pobreza e pender para o melodrama. Sua criação, contudo, é rica em sutilezas, silêncios expressivos e utiliza com maestria a força da natureza para compor o clima pretendido pela história.


De tanto se ater aos detalhes, os seus críticos esqueceram de ver o que o filme traz de mais essencial. Esta é uma obra preciosa que nos faz refletir sobre o quanto somos responsáveis pela vida dos que nos cercam e o quão difícil é nos doarmos por inteiro, incondicionalmente, ao outro. Somos apresentados a seres imperfeitos, mas capazes de gestos sublimes... Filmes assim são um alimento para o nosso espírito e aquecem o que há, em nós, de mais humano.




(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História e encontra nos filmes um modo de conhecer realidades distintas e experimentar novas sensibilidades)










Foto: Valéria Simões










JANELA POÉTICA (IV)



PEQUENO ORATÓRIO


João Filho




Meu coração, pobre capela,
tão devedor do gesto alheio.
A débil luz de sua vela
deixa confuso este romeiro.

Não quer rezar, contudo reza,
no seu altar de pedra tosca
– a comunhão é o que pesa –
Deus não é busca nem espera.

Como quem ama o que lhe arrasa
tem muita pressa em ficar nu,
por mais que a si mesmo combata
é só de perdas o seu prêmio.

Meu coração, casulo d’alma,
sua canção do corpo cego,
e na prisão da própria palma
nada perdoa sem duelo.

Neste jardim sem calendário
pleno de azul e acácias, sorve
esta manhã e o seu contrário:
o que acompanha o que se move.

Meu coração, pobre capela,
este seu salmo dito ao vento
só não é vão, porque o modela
uma outra Mão fora do tempo.

Quando apagares, coração,
e para além do apagamento
o esquecimento for seu pão,
aí serás completamente.




(Tal como o autor argentino Antonio Porchia, o poeta João Filho nos assinala: “Como me hice, no volvería a hacerme. Tal vez volvería a hacerme como me deshago.”)











Foto: Valéria Simões











PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Eivada de vida e signos próprios, a poesia nos impele a percorrer suas veredas ao mesmo tempo complexas e desafiadoramente sugestivas. Por tantos atributos implícitos nesse exercício de expelir lampejos da alma, o poeta é mais do que um artífice hábil no trato com as letras, pois é capaz de subverter certas ordenações e propor um diálogo que surpreende até mesmo olhares mais viciados, impulsionando-os rumo a outras tantas direções. Dentro dessa e outras perspectivas, prestamos atenção ao que nos assinala o escritor Edson Cruz quando o assunto implica em varrer as tramas intricadas do fazer poético.


Desempenhando as feições incansáveis de poeta, editor e, sobretudo, articulador cultural, o baiano Edson figura como um dos mais importantes ativistas do atual cenário editorial brasileiro. Juntamente com o seu parceiro Pipol, tece e organiza as estruturas do Portal de Arte e Literatura Cronópios, site que se destaca pela abertura incessante de frentes que privilegiam valiosas manifestações em meio aos escritos eletrônicos. Some-se a isso também a qualidade que o site possui nos quesitos interatividade e programação visual.


Dono de versos que atravessam marcantemente os apelos existencialistas, Edson Cruz recebe a Diversos Afins para uma troca de ideias sobre vida, seu trabalho como editor, palavras e sentidos, esses mesmos que justificam em grande medida a perene busca humana por um viés de libertação mínimo que seja.







Foto: Carol Mendonça





DA - Já dizia a poetisa grapiúna Valdelice Pinheiro que nenhum poeta fica no que escreve, porque todo poeta é o que escreve. Tal ideia da escritora baiana referendava a força vigorosa do presente como uma espécie de símbolo da perenidade poética, algo que talvez até evite a coagulação de certos instantes de vida. De fato, somos marcados a ferro e fogo pela poesia, não é?


EDSON CRUZ - Parece-me que sim. Mesmo antes de começar a encarar o trabalho poético, a poiésis, como um labutar permanente com as palavras, os sentidos e o vazio da existência, já me chamavam de poeta. Só fiz encarar com seriedade a imagem que o espelho do mundo teimava em refletir.


Nenhum poeta “fica no que escreve”, pois a poesia continua inscrita. E precisamos persegui-la, ir adiante, ou antes, voltar à infância para poder merecê-la.


palimpsesto


toda poesia já

escrita


não se equipara

a toda poesia


inscrita

a poesia jaz


DA - Por mais que tentemos esboçar explicações, a poesia desafia tudo e parece se guardar num fundo secreto de cada um de nós. A despeito disso, subsistem múltiplas interpretações e sensações para um mesmo texto. Corremos o risco de relativizar demais as coisas quando damos força a uma ampla liberdade de recepção daquilo que se lê?


EDSON CRUZ - Sim, a poesia parece desafiar a todos e a tudo. Ela continua como um sopro que anima o mundo e a vida humana, apesar dos poetas, dos movimentos, das correntes e das igrejinhas.


O poeta consciente de seu ofício não deixa muita coisa solta para ser preenchida pelo receptor. Ele o conduz, o frustra, apresenta outras paisagens, cria a tensão quando o leitor espera o relaxamento... É muito parecido com o fazer musical. Mesmo que a música seja tonal, que parta de um pretenso repouso, gere uma expectativa, crie uma tensão para resolvê-la no final, o passear até a conclusão pode ser feito de forma modal, abrindo sempre novas possibilidades, novas paisagens e muitas vezes deixando a resolução em aberto, embora isso sempre nos traga algum desconforto. Tudo deriva da intenção do autor e de seu manejo com as palavras, os sentidos e os ritmos determinados por elas (as palavras) ou por ele (o artífice).


Nesse momento, conduzo em meu blogue uma enquete poética com poetas contemporâneos brasileiros, portugueses e alguns hispano-americanos, justamente sobre o que seria poesia e como um iniciante no fazer poético poderia direcionar suas buscas. De maneira geral o que depreendemos das respostas é que cada poeta tem sua própria visão do que seja poesia e o fazer poético. É algo tão chocante e sem consenso que o poeta uruguaio Nelson Guerra (que também participa da enquete) me escreveu dizendo que ficou abalado em sua pretensão de passar alguma coisa sobre poesia para seus alunos (ele conduz oficinas/tajeres de poesia em seu país há muitos anos), depois de ler as respostas dadas pelos poetas.


Parece-me justo, então, que se há tanta falta de uniformidade entre os poetas, que a recepção de suas obras também abra miríades de possibilidades de leituras, de recepção apaixonada ou desapaixonada do fazer poético.


Por outro lado, como já mostrou Umberto Eco em seu livro Obra Aberta, toda obra de arte é aberta porque não comporta apenas uma interpretação; a “obra aberta” não é uma categoria crítica, mas um modelo teórico para tentar explicar a arte contemporânea; e qualquer referencial teórico usado para analisar a arte contemporânea não revela suas características estéticas, mas apenas um modo de ser dela segundo seus próprios pressupostos.


DA - Muitos de seus poemas vão beber na fonte de mistérios que perpassam a nossa complexa existência. Essa varredura da alma é um recurso inalienável na busca por respostas?


EDSON CRUZ - Todo poeta é, de alguma forma, fiel a sua biografia e história de vida. Como meu ser sempre buscou por respostas, e ainda busca — nos textos, no catolicismo, na yoga, no budismo, na vida, na natureza, na música, no nam-myoho-rengue-kyo —, minha poesia está contaminada por tudo isso.


A poesia, para mim, sempre teve o poder de me reconectar com estes mistérios. Já dizia Novalis e eu reverbero e sinto em mim: “poesia é a religião original da humanidade”.


DA - Sem dúvida alguma, é admirável tudo o que foi construído até hoje nas trilhas percorridas com o Cronópios. Desde as origens desse trabalho, você já vislumbrava chegar aonde chegou?


EDSON CRUZ - De modo algum. O caminho sempre se faz ao andar, como já disseram vários mestres.


Devo assinalar que o Cronópios só é o que todos conhecem hoje graças à colaboração apaixonada de tantos autores e do trabalho árduo empreendido pelo meu parceiro Pipol.


E, pra ser sincero, creio que não cheguei a lugar nenhum, ainda.


DA - O que mudou em suas visões de mundo depois desse contato intenso com as rotinas da produção escrita via internet?


EDSON CRUZ - Muita coisa. Conheci muitos fazeres e possibilidades de escrita. Fiz muitos amigos e interlocutores. Aprimorei minha própria escrita. Conheci um pouco melhor os meandros do mercado editorial e o funcionamento errático dos escritores. Aprendi a pensar e a visualizar a Cibercultura, que já é nosso presente e será nosso futuro pelos próximos dez mil anos...


Estamos em uma época de simulação, de novas relações com o saber e na emergência/iminência de novas formas estéticas e tecnológicas. Quem souber lidar com isso, de forma aberta e criativa, irá longe, fará a história.


DA - Para quem se propõe a editar um veículo cultural de modo incessante, lidar com o tempo certamente é um grande desafio. Como é que você concilia essa complexa tarefa com as outras atividades que realiza?


EDSON CRUZ - O tempo sempre será um desafio a ser transposto. Às vezes não faço as coisas como gostaria e nem sempre consigo focar o que mais gosto, pois preciso trabalhar em outros fazeres para sobreviver. Mas, já disse alguém, os mais ocupados e comprometidos sempre conseguem ocupar-se de novas coisas. Os indolentes não conseguem dar conta nem de seus poucos afazeres.


DA - É possível admitir que com o impulso e a convergência das novas mídias ainda há espaço para se falar numa suposta vanguarda cultural?


EDSON CRUZ - A vanguarda é um termo obsoleto, apesar de toda contribuição que nos trouxe. A cultura de hoje é, como diz o filósofo Pierre Levy (citando Deleuze), desterritorializada. Não há mais um centro emanador de poder e de saber orientado.


As vanguardas sempre buscaram realidades socioculturais alternativas até tornarem-se elas mesmas o discurso dominante e reordenador.


Com o advento e a instauração da cibercultura tudo isso foi pulverizado e vários outros territórios estão sendo configurados com a característica universalizante de poderem dialogar e trocar entre si sem a cristalização de uma hierarquia, ou no mínimo sem a identificação de quem está na vanguarda ou na retaguarda.


DA - Somos utópicos quando acreditamos que nosso país possa ler mais e melhor?


EDSON CRUZ - As utopias são necessárias. Oxigenam nossa realidade comezinha. Essa, então, precisa ser mantida e perseguida com muita política pública voltada para a melhoria da educação em todos os níveis e o incentivo da leitura feita em casa com a participação dos pais, desde os primeiros anos de seus filhos.











Foto: Valéria Simões












JANELA POÉTICA (V)

REVELAÇÃO

Edson Cruz

tenho uma certeza
uma epifania pessoal
— quase religiosa —
o caminho que escolhi é o melhor
— entre os caminhos
é o melhor, pois foi o que escolhi.

tenha uma certeza
apesar da convicção que me anima
— quase fanática
não estou disposto a enforcar*
ninguém, por não compartilhar
de meu júbilo
de minha sina solitária.




*Joguinho temático: substitua a palavra em questão pelas ações nocivas que mais te apetecer: jogar bombas em; apedrejar; atirar em; exterminar; abraçar com morteiros no culote; embargar economicamente; eliminar; civilizar.

[O mesmo serve para as palavras em negrito. Substitua pelas quais quiser. Melhore o poema. Revele-se.]






(Edson Cruz é grapiúna (é meu chapa, o Brasil é grande e você não tem a mínima ideia do que eu estou falando, né? É assim que vc quer mudar o país?). Escreve porque ouviu um chamado do além – de si. E-mail: sonartes@gmail.com)











Foto: Valéria Simões










APERITIVO DA PALAVRA

Por Astrid Cabral


ESPIRAL. Luiz Otávio Oliani, Editora da Palavra, 2009.





Palavra artística, tempo e condição humana são temas que se entrelaçam neste livro de rara coerência formal.


Luiz Otávio Oliani distingue-se ao optar pela essência, criando versos marcadamente substantivos. Daí forte grau de despojamento, total ausência de adjetivos, rejeição de jogos musicais gratuitos ou de qualquer recurso retórico que soe retumbante ou excrescente.


No poema "Transformação", manifesta o severo rigor que mantém com a palavra. Abraçado à extrema economia verbal, Oliani parece adotar o famoso lema estético less is more que orientou a revolução da Bauhaus. Graças à atitude apolínea, consegue o máximo de significação com o mínimo de vocabulário, extravasando-lhe os limites pelo poder sugestivo.


Desenvolve, portanto, poética de autêntica parceria com o silêncio. Ao contradizer a afirmação heideggeriana da linguagem como morada do ser, dizendo "faço do silêncio/ a morada do ser", apenas aponta para a eloquência que a contrapelo habita o silêncio, o complementar e rico avesso do verbo, que também se constitui em enigma do mundo.

A consciência do silêncio permeia Espiral e é em sua busca que se lança Oliani, tentando revelá-lo, perguntando pela chave da palavra. Afinal, segundo ele, "a poesia é grito/ feito em surdina", isto é, palavra que reverencia o silêncio e dele participa.


(Astrid Cabral é poeta, contista, professora e funcionária pública. Viúva do poeta Afonso Felix de Sousa e diplomada em Letras Neolatinas pela UFRJ e em língua inglesa e literatura norte-americana pelo Teacher's Training Course do IBEU, publicou 12 livros.)










Foto: Valéria Simões







JANELA POÉTICA (VI)


MÃOS DESUNIDAS

Luiz Otávio Oliani



não serei o poeta do passado
embora dele me alimente

canto o presente
que Drummond não vê

nada de serafins
cartas de suicida
- os homens aterraram
a palavra amor
num canteiro de obras

as mãos desunidas
traduzem: os espinhos
inda sufocam as flores



(Luiz Otávio Oliani é natural do Rio de Janeiro, graduado em Letras e Direito. Participou de diversas antologias e tem poemas publicados em jornais do País e do exterior. Com incursões no teatro e no jornalismo, frequentou oficinas e atua no movimento literário da cidade carioca desde 1990, período em que obteve mais de 50 premiações. Publicou "Fora de órbita” (Editora da Palavra - poesia, 2007). "Espiral"( Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2009) é segundo livro do autor)





OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



TONINHO HORTA & ARISMAR DO ESPÍRITO SANTO – CAPE HORN







Chega a ser indescritível a emoção que brota ao se ouvir uma canção como Beijo Partido, composição do talentoso homem das cordas mineiro Toninho Horta e que ficou eternizada na marcante voz de Milton Nascimento em seu disco Minas, de 1975. A letra, por si só, já é algo pungente e mexe com as mais íntimas visões do amor que podemos nalgum momento vislumbrar. No entanto, ouvi-la em suas intensas feições instrumentais consegue ser algo arrebatador, sobretudo pela preciosidade musical que emana do trabalho de Toninho. O instante de agora contempla a junção das mãos habilidosas de dois grandes instrumentistas do cenário mundial. Toninho Horta, já tão consagrado pela sua absurda capacidade de construir melodias e arranjos inovadores e valiosos, une-se ao virtuoso multiinstrumentista Arismar do Espírito Santo para juntos percorrerem um caminho onde os sons seguem os trilhos da beleza.


Cape Horn, além de rememorar toda a sensibilidade encontrada em Beijo Partido, é um disco de qualidade impecável do início ao fim. A escolha do título faz menção ao encontro entre os oceanos Atlântico e Pacífico, um lugar onde o navegar se torna tarefa engrandecedora para os seus desbravadores. E para referendar tal descoberta, estes signos se encaixam perfeitamente, já que a nau capitaneada por Toninho e Arismar sabe agarrar ventos de bom norte e se une aqui a outros valiosos condutores, a exemplo de João Donato, Ricardo Pontes, Lena Horta e Robertinho Silva. Um passeio por That’s All, pelo belo arranjo regado à flauta de Lembrando Hermeto, pela harmoniosa junção entre vocalizes e cordas de Days of Wine and Roses, além da viva brasilidade de Vestido Longo, reforça os quesitos de qualidade do álbum. Outro ponto alto do disco está na suavidade do samba de Sonhando Acordado. Diante de toda uma atmosfera que une ritmos brasileiros aos apelos sublimes do jazz, os ventos sopram conciliadores para todas as direções. Tê-los como guias é firmar um pacto delicado com a serenidade tão necessária à alma.











Foto: Valéria Simões










JANELA POÉTICA (VII)



ACREIDEAS


José Gil


"La langage poétique est une écoute.

La lecture et la poétique sont

l'écoute de cette écoute."

H. Méshonnic, Pour la Poétique II



as borboletas vivem nas dobras azuis de Maio

um bando deserto tem o brilho eficaz do luar

o que nos povoa de palavras entre os braços?

as asas dos abraços alados, as éguas e os cavalos.


estou em Lisboa , vou onde a poesia é diária

no canto chão, os acreideos zumbem á volta

da cabeça da sílaba tônica, e não escuto


a noite é longa e acumulo sílabas, vejo os camponeses

entre as espigas e as sementes, abrem-se as arcas

antigas e somos apenas irmãos das novas fontes.




(José Gil, ator, poeta, encenador, professor, cidadão do mundo com um livro de poemas publicado e diversas participações em Antologias e Listas da Internet)












Foto: Valéria Simões











Augusto Boal e o Teatro do Oprimido


Por Ana Lúcia Vasconcelos




“No principio o teatro era o canto ditirâmbico, o povo livre cantando ao ar livre. O carnaval. A festa. Depois as classes dominantes se apropriaram do teatro e construíram muros divisórios. Primeiro dividiram o povo, separando atores e espectadores: gente que faz e gente que observa. Terminou a festa. Segundo: entre os atores separou os protagonistas das massas: começou o doutrinamento coercitivo. O povo oprimido se liberta. E outra vez conquista o teatro. É necessário derrubar muros. Primeiro, o espectador volta a representar, a atuar: teatro invisível, teatro foro, teatro imagem. Segundo, é necessário eliminar a propriedade privada dos personagens pelos atores individuais: Sistema Coringa.”


É assim que o brasileiro Augusto Boal (1931-2009), falecido no último dia 2 de maio de 2009, dramaturgo, diretor de teatro, inicia a quarta parte do seu livro Teatro Político e Outras Poéticas Políticas. Augusto Boal é conhecido em todo o mundo pelas suas teorias teatrais inovadoras, especialmente o teatro do oprimido, metodologia internacionalmente conhecida que alia teatro a ação social, a qual deixa uma marca indelével na maneira de se olhar a arte teatral, comparável a outros grandes criadores como Brecht e Stanislavsky. Ali, Boal relata suas experiências realizadas no Brasil, Argentina, Peru, Venezuela e outros países da América Latina onde esteve exilado desde sua saída do Brasil, em 1971, justamente pela criação deste método teatral, como ele vai dizer em entrevistas posteriormente:


“Para que se compreenda bem esta Poética do Oprimido deve-se ter sempre presente o seu principal objetivo: transformar o povo espectador, ser passivo no fenômeno teatral, em sujeito, em ator, em transformador da ação dramática. Espero que as diferenças fiquem bem claras: Aristóteles propõe uma Poética em que os espectadores delegam poderes ao personagem para que este atue em seu lugar, mas se reserva o direito de pensar por si mesmo, muitas vezes em oposição ao personagem. No primeiro caso, reduz-se a uma catarse, no segundo uma conscientização. O que a Poética do Oprimido propõe é a própria ação. O espectador não delega poderes ao personagem para que atue nem para que pense em seu lugar: ao contrário, ele assume um papel protagônico, transforma a ação dramática inicialmente proposta, ensaia soluções possíveis, debate projetos modificadores. Em resumo, o espectador ensaia preparando-se para a ação real. Por isso creio que o teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente pode ser excelente ensaio de revolução. O espectador liberado, um homem íntegro se lança a uma ação. Não importa que seja fictícia: importa que é uma ação.”


Boal, neste livro, desenvolve várias teorias sobre o que é teatro: para ele, todo teatro é necessariamente político porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas. E os que pretendem separar o teatro da política querem, na verdade, nos conduzir ao erro - e esta é uma atitude política. Quer ainda provar que o teatro é uma arma e uma arma muito eficiente, daí a necessidade de lutar por ela. Por isso, as classes dominantes tentam, segundo ele, apropriar-se do teatro, utilizá-lo como instrumento de dominação e, quando fazem isso, modificam o próprio conceito do que seja o teatro. Ao mesmo tempo, acredita que o teatro possa ser também uma arma de liberação e para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes. “É necessário transformar.”





Foto: Leonardo Aversa




Dramaturgia simultânea



São de sua autoria Revolução na América do Sul, Arena Conta Zumbi, e Arena conta Tiradentes, as duas últimas em parceria com Gianfrancesco Guarnieri, com quem estruturou o Sistema Coringa de interpretação, praticado inicialmente pelos atores do Teatro de Arena, fundado por ambos na década de 50, em São Paulo. Escreveu ainda: Lisa, com música de Chico Buarque de Hollanda, A Tempestade, com música de Manduca, Crônicas de Nuestra América, o romance Deliciosa e Sangrenta Aventura de Jane Spitfire Espiã e Mulher Sensual, Teatro da Liberação, Murro em Ponta de Faca, entre dezenas de outras peças e musicais.


Escreveu, ainda, Duzentos Exercícios e Jogos para o Ator e não Ator com Ganas de Dizer Algo através do Teatro, que vale citar justamente por reunir uma série de exercícios para serem desenvolvidos nas diversas etapas do “plano geral de conversão do espectador em ator”, sistematizado em quatro etapas: 1.Conhecimento do Corpo; 2. Tornar o Corpo Expressivo; 3. O teatro como linguagem, que, por sua vez é dividida em três graus: 1.dramaturgia simultânea; 2. teatro imagem; 3. teatro debate; 4. teatro com discurso que podem ser: teatro- jornal; teatro-invisível; teatro fotonovela; quebra de repressão; teatro-mito; teatro-julgamento e rituais e máscaras.


Para entender melhor, vejamos um exemplo de dramaturgia simultânea. Numa favela de San Hilarión, em Lima (Peru), uma senhora propõe um tema - era analfabeta e seu marido lhe pedira que guardasse certos “documentos”, os quais, segundo ele, eram de suma importância. A senhora os guardou sem suspeitar de nada. Um belo dia, os dois brigaram e a mulher lembrou-se dos tais documentos e quis saber do que se tratava, pois temia que se relacionassem com a casinha que possuíam. Como não sabia ler, pediu ajuda a uma vizinha que, muito amável, leu “os documentos”. Para posterior diversão do bairro todo, eram nada menos que cartas de amor escritas pela amante do marido. A mulher traída jurou vingança, mas como vingar-se?


Os atores improvisaram a história até o ponto em que o marido retorna à casa, depois de um dia de trabalho, quando a mulher acabara de ser informada do mistério das cartas. Aqui, interrompia-se a ação e a atriz que interpretava a senhora analfabeta perguntava aos demais participantes qual deveria ser a sua atitude frente ao marido. As mulheres sugeriram várias propostas que, em seguida, foram representadas pelos atores participantes.


A primeira: chorar muito para fazer com que o marido se sentisse culpado. A cena foi representada já que os atores não podem se recusar a interpretar o que os espectadores-participantes propõem. Mas, depois de consolada, a “esposa traída” foi fazer o jantar e tudo ficou na santa paz. O público não aceitou esta solução, especialmente as mulheres para quem o marido merecia maior castigo.


A segunda proposta foi: a mulher abandonar a casa deixando o marido sozinho como castigo. Depois de ter feito a cena, arrumando as malas, saindo de casa e deixando o marido sozinho, a atriz perguntou ao público o que deveria fazer. Como viveria daqui para a frente? Este castigo não servia porque caía sobre ela mesma.


A terceira proposta foi expulsar o marido de casa - variante que também foi encenada, mas não foi aceita porque se concluiu que então ele poderia viver com a amante tranquilamente. A atriz comentou que não havia gostado da solução porque o marido agora viveria com a outra enquanto ela, pobre, o que faria já que não ganhava o suficiente para se manter?


Finalmente, a última solução foi apresentada por uma senhora gorda e exuberante e foi aceita por unanimidade pelo público presente: homens e mulheres. Disse ela: “Por que você não faz assim como eu te digo: deixa ele entrar, agarra um pau comprido e bem forte e, quando ele estiver dentro de casa, baixa a lenha com toda a força, bate bastante. Depois que tiver dado uma boa surra para que se arrependa, você joga o pau fora, serve o jantar a ele com muito carinho e o perdoa?”


A atriz representou esta versão e depois de dar uma boa surra no “marido” para diversão do público presente, sentou-se à mesa com ele e, enquanto jantavam, discutiram amistosamente as últimas medidas do governo nacionalizando companhias ianques.





Foto: divulgação



Demolindo o muro



Esta forma de teatro, segundo Boal, produz uma grande excitação entre os espectadores, já que ela começa a demolir o muro que separa atores e personagens. Os espectadores sentem que podem intervir na ação. Os atores continuam interpretando, mas, agora, em vez de interpretar o que um senhor escreve, fechado em seu escritório, vai interpretar um dramaturgo coletivo que pode viver numa favela, ou trabalhar numa fábrica ou são os vizinhos que se reúnem na sociedade dos amigos do bairro, ou os paroquianos de uma igreja ou os camponeses de uma Liga Camponesa ou os estudantes de uma escola. Eles deixam de interpretar o indivíduo e passam a interpretar o grupo - deixam de interpretar um texto já escrito e acabado e passam a interpretar uma dramaturgia embrionária, que ele considera muito mais difícil, mas muito mais criativa.




(Ana Lúcia Vasconcelos é jornalista, atriz e escritora não publicada. Licenciada em Ciências Políticas e Sociais, com mestrado em Filosofia da Educação, atuou no jornalismo e teatro como atriz. Tem textos publicados em vários fascículos e revistas da Editora Abril e colaborou em alguns importantes veículos da imprensa paulistana. Escreveu um livro sobre a escritora Hilda Hilst, de quem foi amiga, ainda inédito)















JANELA POÉTICA (VIII)




Foto: Leila Andrade




POR UM SOL DE OUTONO


Leila Andrade



Linhas curvas desenham ombros ao sol

carregam luminosidades


Tentam magias impossíveis

porque deslizam em mares de calma


Tantos ombros ao sol

também os meus

apenas esperam por outros verões.












Foto: Valéria Simões








Schopenhauer, Augusto dos Anjos e o mosquito da dengue


Bernardo Linhares



Porto da Barra. Sanatório Espanhol. Rangem os caninos, queima a garganta. A língua está morta. Meus olhos quedos e úmidos parecem admirar um túmulo. Desencadeados, os sinos da face emitem gritos que desembocam no labirinto e ecoam no meu crânio. A febre inferniza, eu não aceito a dor. A cada espirro, um tiro aflige meus lábios. Vejo Caravaggio, o pescoço entorta, quase não respiro. Rezo pro Augusto, já nem conto as sílabas... minha inspiração estertora-se.


Mantendo o espírito, a morte se diverte:


- É tarde. Quem te espera no purgatório é Schopenhauer.


Assustado, abro os braços, ensaio um sorriso, e, sem urubus nem moscas, apenas um mosquito, ergo-me, náusea sem vômito. Porém, meus pés, pássaros molhados, tremem mais que as asas do maldito que não rachou a conta. Melhor chamar a médica. Definitivamente, o álcool no sangue não é repelente. É a pena pra quem pensa que é poeta.




(Bernardo Linhares,

Soteropolitano do Porto da Barra,

sem livro editado ou no prelo,

não estudou para ser doutor,

nem se esforçou para ser atleta.

Nunca imaginou que fosse poeta)











Foto: Valéria Simões









*Coisas, pessoas e lugares dispersos estão no sensível registro da fotógrafa baiana Valéria Simões. Muito além do torvelinho tão típico das paisagens urbanas e outras tantas, as lentes dela ousam captar aquilo que pulsa nas entrelinhas de nossos signos. A cada detalhe flagrado de nossas existências, suas imagens emanam segredos quiçá inconfessáveis a mero olho nu. Há no trabalho da artista o vigoroso espírito do sentimento das cidades e a revelação disso constrói suas formas intensas.


Graduada em Artes Plásticas pela UFBA, Valéria trabalha como fotógrafa desde o início dos anos 90. Ganhou diversos prêmios e já participou de inúmeras exposições individuais e coletivas em Salvador, Alagoas, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Paris, Montreal, dentre outros. Realizou fotografia de cena para cinema (Memórias Póstumas de Brás Cubas, de André Klotzel, e Trampolim do Forte, de João Rodrigo). Atualmente vem se dedicando à documentação de projetos ligados à cultura popular e desenvolvendo ensaios autorais, a exemplo de “Lugar de Ausência”, em exposição no Museu de Arte Moderna da Bahia.




 
publicado por Fabrício Brandão
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