30 de ago de 2008,23:43
VIGÉSIMA QUARTA LEVA




Passagem
Pintura: Kelson Frost










CICERONENANDO



Epifanias humanas são o melhor idioma para a captura dos nossos instantes. Quer sejam lampejos de loucura ou lucidez, somos plenamente capazes de impor escolhas face aos redemoinhos autoritários impregnados de limitação. É quando sentimos também que podemos creditar à aurora de nossas criações doses precisas de tudo aquilo de que somos formados. Racionalismos à parte, imagens tantas pulsam na esquina de nossos passos, lembrando-nos que o semblante imponente da sensibilidade contempla as paisagens líricas do que podemos ter de melhor em matéria de olhar. Tais visões não escolhem endereço, abrigam-se na memória e nas ações dos que assim as permitem. Em meio a uma nova jornada cultural que ora se anuncia, aguarda-nos aqui o percurso de signos humanizados pela arte de Kelson Frost. Conduzidos pelas linhas de Wesley Peres e Janaína Calaça, cruzamos os vãos de densidades nossas. A cada apelo poético, sentido em Marcos Pasche, Aline Aimée, Assis de Mello, Juan Bautista Morán, Augusto Cavalcanti e Randolpho Gomes, corresponde um reflexo a se abrigar nos recantos da existência. A experiência vivida através do coletivo Dulcinéia Catadora, projeto no qual as trocas humanas estão no foco das atenções, resume uma entrevista com a artista plástica paulista Lúcia Rosa. O cinema espanhol é rememorado pelas impressões de Larissa Mendes. Na crônica de W. J. Solha desdobram-se flagrantes vivenciados pelo ator de teatro. Olimpíada e Arte tecem diálogos na crônica de Affonso Romano de Sant’Anna. Novas escutas se abrem à Vigésima Quarta Leva!




*Comentários podem ser feitos através do link EXPRESSARAM AFINIDADES no final da Leva.








(42.) *

Wesley Peres



Sei de cor o som do seu corpo, sei a textura de suas páginas mais azuis, sei os peixes de sua voz e quais de suas janelas não se abrem, sei a umidade de seu chão, sei as paredes de sua chuva, sei a lua em seu umbigo, sei suas vírgulas se fazendo caminho para o que não sei e a rouquidão específica de cada um dos seus silêncios e a ruptura de seus pensamentos quando me envio em leve vento fazendo-me grafia invisível em sua nuca, sei a mobília de seus olhos e os ruídos de suas aldravas, sei a sutil ranhura de seus dentes em meu cansaço, sei a alvura extrema de sua ante-sala e a nódoa que impede minha fala, sei a acústica de todo o seu corpo suando enquanto dorme sonhando o mapa evanescente dos meandros do miolo de seu rumoroso ser em carne viva. Pois aqui estou, metafórico e físico, encordoado na imagem do seu grito, sabendo o que não sei, falando o infalável, aqui estou, fora de qualquer casa, dentro de qualquer casa, caminhável, caminhante, quase transitivo, quase permitindo que as palavras me digam, quase sendo as palavras, quase sendo o que eu não digo, aqui estou, não redigindo a carta que me pediu, em que falaria de mim e só de mim, aqui estou, redigindo o seu corpo, fazendo do seu corpo palavra, ainda que sabendo que nem mesmo nas palavras pode um homem banhar-se outra vez no mesmo rio.

*Fragmento 42 do romance Casa entre Vértebras (Record)



(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance CASA ENTRE VÉRTEBRAS, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: PALIMPSESTOS (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, RIO REVOANDO (poemas) USP/COM-ARTE 2003; ÁGUA ANÔNIMA (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL)









O Último Texto
Pintura: Kelson Frost















JANELA POÉTICA (I)



O INCAUTO

Marcos Pasche



Num dia saí a catar os lírios,
escassos, brotados no asfalto.
O sol, que há muito me negava delírio,
vibrou raios nos meu seio incauto.

Daí os carros, em vultos estupefatos,
alardearam meu minuto ao muro que espreitava.
As formigas vigilantes alertaram os lagartos,
e dos lírios se corroía o que lhes vivificava.

De repente, uma falange de répteis e insetos
arrastaram-me ao bueiro aberto da realidade.
Omisso, deixei, pela cota do lote e do concreto,
os lírios perecerem em plena flor da idade.



(Marcos Pasche nasceu no dia 10 de fevereiro de 1981, na cidade do Rio de Janeiro, onde mora (no bairro Campo Grande) e trabalha como professor. Cursou Letras na UFRJ, onde hoje faz Mestrado em Literatura Brasileira, e defenderá dissertação sobre a poesia de José Paulo Paes. Em 2007, participou do livro “Papos contemporâneos” (UFRJ), como revisor e entrevistando Ferreira Gullar. “Acostamento” é seu livro de estréia)















O Fim
Pintura: Kelson Frost














ENTRE PERNAS

Janaína Calaça



A vida dele era vinil arranhado, tocando sempre-sempre a mesma canção arrastada, três notas, sem nenhuma variação de tom. A vida dele era assim: canção que de tão ouvida passava para o assovio mecânico, para a execução sem platéia atenta. Apartamento reformado, mulher modelada por bisturi, filhos na faculdade, cachorro sonolento, mastigando osso falso no canto da sala. Cenário desarmado apenas quando a mulher resolvia mudar os móveis, transformar a sala-luxo-pesado em algo clean. E o vinil continuava girando em torno de seu próprio eixo, ciclo fechado, agulha recolocada na mesma linha.


Ele pagava os retoques nos seios da mulher, na cintura, nos olhos, na boca. Quanto mais ela plastificava o corpo, menos se dava pra ele. Juventude guardada para si e para os espelhos. À noite, tocava uma no escritório, limpava os dedos e o pau e ia dormir, apagando o abajur e os olhos. Ela continuava ao seu lado, passando os cremes anti-anti e lendo as 100 maneiras de enlouquecer um homem na cama ou de como ser feliz em 10 lições rápidas.


Trabalhava ouvindo os outros. As pessoas entravam e saiam de seu consultório, derramando vidas em sua xícara de café. Bebia as lembranças dos pacientes em longos goles-sessões. Ouvia a todos, mas em casa todos pareciam ensurdecer diante dele. O silêncio fazia o som de uma colher caindo no chão soar mais estridente do que realmente é. Um dia desses, pegou a chave do carro e saiu. Foi neste dia que ele a conheceu.


Era um homem-caramujo, voltado para dentro, corpo espremido, medo de viver entre as gentes e de falar quando o assunto era ele. Foi difícil entrar lá, mas lembrava do sócio despojado dizendo que era um troço bom e que era gostoso ter um corpo e ouvidos só para ele. Nunca foi bom com as mulheres. Não sabia como começar as coisas, o que dizer, como tocar. Entrou lá cobrindo o rosto, chamando atenção pelo gesto. Falou com o outro homem e saiu com ela. Pagou caro. O homem sorriu contando as notas. Ele e ela não trocaram palavras. O único que podia falar era ele.


Entraram em um motelzinho afastado do centro. Queria evitar olhares. Carro com janelas escuras. Baixou o vidro, pegou a chave e subiu. O atendente do motel olhou estranho pra ele. No quarto, pensou em desistir, em recuar, mas ela já estava lá. Tinha gastado dinheiro e já não lembrava quando tinha trepado pela última vez. Era um corpo diferente do da mulher. Não sabia como lidar com aquele corpo estranho, mas mesmo assim, sem dizer nada, deitou na cama ao lado dela e, mesmo desajeitado, conseguiu subir nela. Tudo era diferente, inclusive a textura da buceta. Não demorou a gozar e enquanto seu corpo se desfazia em pequenas convulsões, despejava toda sua solidão branca dentro daquele corpo. Nada foi dito. Ele se lavou e lavou também o sexo dela. Deitaram novamente na cama de lençol personalizado e ele viu seu corpo magro e quieto paralelo ao corpo magro e quieto dela . Dormiu.


Ela virou dia-a-dia. Alugou um quartinho pra onde a levava todos os dias. Saía do consultório, almoçava e entre as pernas dela deixava a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro. Aos poucos perdeu o medo de falar com ela. Não se sentia mais tão ridículo. Começou a falar, falar, falar. Ela muda. Ela era corpo e ouvidos, mas ele não precisava mais que isso. Em casa, a mulher começou a estranhar sua ausência na hora do almoço, sua demora em chegar no consultório pela tarde. Estranhou também por ele não mais tocar suas coxas, pedindo um pouco de sua carne. Sentindo a traição, pediu conselhos às amigas. Mandaram ir atrás, seguir os passos, dar flagrante, fazer escândalo. E ela foi. Esperou ele sair do consultório ao meio dia e acompanhou seu carro. Descobriu o prédio simples de quatro andares, para onde provavelmente ele levava a outra. Passou uma semana acompanhando os passos do marido, mas ele sempre entrava no prédio sozinho. ”A vagabunda deve morar aí. Ele está sustentando uma vagabunda!!”. Queria saber como ela era, se era mais jovem, se tinha corpo bonito, dentes perfeitos. Imaginou todas as cirurgias que ele pagaria para a amante para deixá-la perfeita. Na semana seguinte, já intrigada com a situação, solvendo raiva na carne, resolveu acabar com tudo. Ia pegar o marido em flagrante, fazer cena, representar a vítima. Abram as cortinas, por favor. Luzes. 2ª chamada. Ok!


Naquele dia, ela se vestiu de vermelho. Foi vestida cantando guerra no tecido. Esperou o marido entrar, esperou alguns minutos e chegou à portaria. Deu o nome do marido, mas não disse que era sua mulher, perguntou o número do apartamento, disse ter esquecido o andar. Prédio simples, sem interrogatórios, diferente da fortaleza onde morava. Subiu. 3º andar. Parou diante da porta. Encostou o ouvido na madeira gasta e ouviu a voz do marido do outro lado. Ouvia apenas a voz dele e como ele ria. Ria musical, as notas saindo convulsivas. Não era mais o vinil arranhado.


Transbordante, a mulher, riso nervoso no rosto plastificado pelas cirurgias, tocou a campainha do apartamento. Tocou mais uma vez e mal ele abriu a porta ainda rindo, ela entrou no quarto/sala e correu para procurar a outra mulher. Ele correu e tentou impedir a mulher de ver na cama o corpo da outra, com o sexo à mostra escorrendo porra. Silêncio. Mãos tremendo. Ele de olhos baixos. Ela já começando a gritar e a esmurrar os ombros dele. A outra muda, quieta na cama. Ele caramujando, querendo se esconder. A mulher partindo pra cima da outra com as unhas. A outra muda. Nenhuma reação. Ele mudo novamente. E a mulher repetindo, já com as unhas cravadas naquela carne-ilusão: “Uma boneca, uma boneca, UMA BONECA!!!”. Ela agora o vinil arranhado, ele agora a agulha.







(Janaína Calaça: Soteropolitana, hoje vivendo em São Paulo. Sente falta quase sempre de poder enxergar o horizonte, banalidade para uns, preciosidade para outros.. Gosta de acarajé e torta de limão e também gosta de cores fortes e carrega o vermelho na cabeça. Lê quadrinhos deitada no sofá laranja e rabisca de vez em quando uns contos tortos. Ri alto, é míope e usa sapatos rasteiros sempre. É graduada pela UFBA em Letras Vernáculas e largou no fim uma Especialização em Estudos Literários pela UEFS. Hoje descobriu o prazer sensorial da alquimia dos sabores. Escreve no Casa de Burlesco , no Jeguiando e está com um novo projeto no site Kitnet Babel)











A Isca
Pintura: Kelson Frost











JANELA POÉTICA (II)



bicho

Aline Aimée



...vagueando na hora clara,
mostro os dentes na selva-guache.
cai o sol, caem minhas asas, aí rastejo
lambendo o chão, arenito de espasmo.
vou hibernar a imagem sabida - infração da juventude -
que sou bicho a violar o evento,
às favas toca a fora!

não se metam no meu casulo,
se me meto no meu silêncio,
que o ronronar que ressona coberto
é meu instinto lendo atento
a linha do pensamento.



(Aline Aimée mora no Rio de Janeiro, é mestranda em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e trabalha como professora do ensino médio e técnica em propriedade industrial. Tem textos publicados nos sites Armadilha Poética, Maria Joaquina, Almanaque Virtual e Para ler e pensar. É entusiasta das surpresas da vida, mas escreve pra tentar entender essa coisa confusa e densa que é ser gente. Entre arrepios e fisgadas, quer perscrutar as possibilidades)











OUVIDOS ABERTOS (I)

Por Fabrício Brandão



KARINA NINNI – PELO RETROVISOR




É algo patente a riqueza que habita a MPB, seja pelas letras, seja pelas vias exploradas em torno de arranjos e outras tantas combinações melódicas. O mais interessante de tudo é poder perceber a peculiaridade que está contida em cada recanto dessa nação de proporções continentais. Imensos em extensões, somos também um país que denota caras e formas diferenciadas a cada porção de terra onde quer que os pés adentrem territórios. No entanto, para que os ecos típicos de cada lugar sejam reconhecidos como tal, é necessário abrir as alamedas da sensibilidade e conjugá-las aos contornos de cada ambiente retratado. Pelo Retrovisor é um desses exemplos em que de um lugar percorremos não somente a sua musicalidade, mas, junto a ela, vemos também desfilar sensações e imagens que fazem parte do universo das pessoas. Conduzidos pela paulista Karina Ninni, visitamos composições inteiramente feitas por músicos e letristas paraenses, num repertório que mescla elementos de chorinho, samba, bossa nova, bolero, dentre outros.

Com uma voz que reúne beleza e personalidade, Karina passeia por canções que trazem uma Amazônia desconhecida por muita gente, bem longe de quaisquer estereótipos já atribuídos à região. Por aqui, arranjos (criados pelos compositores Floriano e Pedrinho Callado) e interpretação caminham harmonicamente unidos a letras ricamente construídas. Chama atenção no disco a variedade instrumental presente nas faixas, sobretudo em músicas como De Um Coração Qualquer, na intensa Canção do Arvoredo, Pelo Retrovisor, Quase Vida, Deboche, Música Alagada e Tramóia. Sem dúvida alguma, o fato de a cantora ter vivido alguns anos em Belém fez com que uma atmosfera de intimidade com as composições favorecesse a elaboração desse grande trabalho. Não há uma só letra no CD que não seja revestida de tons poéticos, tudo trilhado com suavidade e um forte lirismo. Salve, compositores dispersos pelo Brasil! Salve, Karina, pela nobre oferta a nossos ouvidos!












Lúdico
Pintura: Kelson Frost















JANELA POÉTICA (III)



AUTO-IMAGEM

Assis de Mello



Nesta
pálida insignificância
vou-me múltiplo

Não temas
minha pouca estatura
que de ave me basto

: trago um vôo em cada pena

Se esmarrido me apresento
, distendo

meus tentáculos
como a erva mirrada
na eloqüência
da duna

E não me olhes
de viés

Arrancar-me do chão
é puxar o mundo

lançar-me ao ar
é cotucar ventania

interpelar trovões

Nesta
compleição anfíbia
de larva precoce entre grãos
sou a sombra psamófila
num ovo de dragão

mergulho no fogo // atiço as águas




(Assis de Mello é zoólogo e docente na UNESP. Escreve um pouco, pinta um pouco e fotografa um pouco. Apesar de ser cientista, passa 50% de seu tempo abominando Descartes e tudo aquilo que é excessivamente racional, pois está convicto de que certa irracionalidade deve trazer felicidade. Como zoólogo, especializou-se no estudo de grilos e insetos afins; ele suspeita que, se não for o maior especialista em grilos, deve ao menos ser o mais completo, uma vez que possui tanto grilos nas gavetas de seu laboratório quanto em sua cachola perturbada, porém lírica)












Me Abraça
Pintura: Kelson Frost















ARTE DO ATOR

W. J. Solha



Pequeno ensaio e testemunhos sobre interpretação.


Nelson Freire lembra-me o garoto Schroeder dos Peanuts empenhado nalguma obra de Beethoven no seu minúsculo piano. Quem vê o tímido concertista brasileiro no documentário de João Moreira Salles sobre ele, sente sua transfiguração quando nele baixa o espírito de Mozart, Schumann, Lizt, Chopin ou Rachmaninoff.

Música e teatro (além de cinema e tv) precisam de intérpretes que, no palco ou no set, saiam de si - e dali - para other voices, other rooms, o que me leva a “O Vingador do Futuro” – de Verhoeven – no qual Schwarzenegger vai a uma agência de “viagens” e ouve, do vendedor:

- O que, em todas as suas férias, você não consegue deixar para trás? Você mesmo. Aqui, porém, mentalmente poderá, entre outras coisas, ser outra pessoa, um espião, por exemplo, numa aventura cheia de emoções em Marte, tendo como parceira uma mulher que só vê em sonhos.

Como ele, Nelson Freire é um virtual Rachmaninoff, durante a execução do concerto número 3, e recebe a ovação como se fosse o próprio autor da façanha musical que mais uma vez extasia o público.

Ao dar uma palestra para psicanalistas, no “Espaço do Ser”, pareceu-me que os surpreendi quando lhes assegurei que com o ator ocorre o mesmo. A diferença é que ele não incorpora o autor, mas um personagem dele.

- O fenômeno é tão fantástico - garanti - que o CORPO do intérprete ACREDITA na cena que interpreta. Claro, pois não há como enrubescer, chorar ou empalidecer, se não for assim.

Quando revejo “A Canga” do Marcus Vilar, parece-me surreal não ver na tela os quarenta técnicos que se esfalfavam em torno de Zezita Matos, do Everaldo Pontes, de Servílio de Holanda, da Verônica Cavalcante e de mim, durante as filmagens. Nós – entre cada grito de “Ação!” e “Corta!”- estávamos absolutamente sós com nossa tragédia, no meio da caatinga. O momento mais forte da produção aconteceu quando tudo se concentrou em Zezita, para registrar a reação de sua personagem ao ver um dos filhos apontar a arma para o pai, que era eu. Ela aguarda, apavorada, o desfecho da cena (que, na verdade, não vê), e estremece violentamente no momento do tiro. O que viveu em sua mente foi terrível.

Chovia na quinta-feira santa, quando, no “Auto de Deus”, apresentado ao ar livre diante do Santa Roza, vi Horiébir – no papel de Cristo – ser atirado ao chão por dois legionários romanos. Desci os dezesseis degraus da escadaria sobre o tapete vermelho encharcado, gritando, sob o aguaceiro: “Vós sois o rei dos judeus?”, e me impressionei com o nazareno que se levantava com dificuldade, de costas para mim, pois as carnes de suas espáduas (que o público não via!) ... tremiam, ele em estado de choque pelo flagelo de que “acabara de ser vítima”. Quando lhe perguntei “O que é a verdade?”, eu o vi voltar-se e dei com seus enormes olhos claros no rosto que sangrava na chuva. O impacto foi tão intenso que recuei, vacilante, no palco, sem precisar... simular que o fazia.

Quando ensaiávamos meu texto “O Vermelho e o Branco” em Pombal, 1968, Ariosvaldo Coqueijo – que, além de dirigir o espetáculo contracenava comigo – jamais conseguia dizer seu monólogo inicial por inteiro, pois chorava desesperadamente antes do parágrafo final. Na leitura de mesa de “Antígona”, uma adaptação minha do clássico de Sófocles, Emilson Formiga, que iria fazer o papel de um arcebispo, não “entrava” em seu personagem até que o fiz repetir o texto umas quinze vezes, sempre corrigindo o rumo de sua emoção. Aí, de repente, arrepiei-me sentindo que o “espírito” do sacerdote “baixara nele” e, extasiado, vi Emilson escalando a enorme montanha de sua dor, até que... deu um berro levantando-se, saiu correndo, chorando, e trancou-se no banheiro, insultando-me com palavrões.

Lembro-me de que o grande Rafael de Carvalho, que vivia o Papa Rabo no filme “Fogo Morto”, de Marcus Farias, depois do ensaio em que eu - Tenente Maurício -, discuti com ele e, furioso, fiz que lhe danei um tapa que o fazia cair rolando na escadaria diante da cadeia de Pilar, veio de lá de baixo transtornado e me disse: “Bate em mim de verdade! Bate em mim de verdade!” E foi essa a única vez na vida que bati – de verdade - na cara de um homem. Fazendo-o “voar”. De Verdade. E rolar na escadaria. De Verdade. Por conta de um ódio ingente. De mentira.

Ah, nunca tivemos nada parecido com o que Nelson Freire, Evgeny Kissin, Martha Argerich ou Vladimir Horowitz viveram e vivem ao interpretar o concerto que literalmente enlouqueceu David Helfgott pela sua enorme beleza e complexidade, segundo se vê no filme “Shine”, de Scott Hicks, mas como ex ungue leonem – pela unha se conhece o leão – posso imaginar a força do fenômeno em figuras de grande peso, com Liv Ullman ou Laurence Olivier num “Gritos e Sussurros” de Bergman ou num “Hamlet” montado pelo Old Vic Theatre. Mas... sim: tivemos Servílio fazendo um cachorro, no “Vau do Sarapalha”, literalmente entre other voices, em other rooms, aplaudido de pé no Barbican Pit Theatre, em Londres!



(W. J. Solha produziu, com o escritor José Bezerra Filho, o primeiro longa-metragem de ficção, em 35 mm., paraibano - "O Salário da Morte". Foi ator nesse filme e em "Fogo Morto", de Marcus Farias, "Soledade", de Paulo Thiago, "Lua Cambará", de Rosemberg Cariry, e "Bezerra de Menezes", de Gláuber Filho. Ganhou os prêmios Fernando Chinaglia 1974 com o romance "Israel Rêmora", INL 1988 com o romance "A Batalha de Oliveiros", ganhou o Prêmio Graciliano Ramos, da UBE Rio com a "História Universal da Angústia" (romances, contos e um roteiro de cinema) e o Prêmio João Cabral de Melo Neto, da mesma UBE Rio com o poema longo "Trigal com Corvos")
















Espera
Pintura: Kelson Frost















JANELA POÉTICA (IV)

Juan Bautista Morán



Y si soy,
si lloro, gozo, amo, grito…
es por el misterio de una humilde ofrenda,
que floreció inesperadamente
sobre las llagas de una tierra dolorida,
en su lejano y oscuro peregrinaje que pasa por mí.

Y si soy,
si realmente existo…
es porque alguien quiso forjar
en la férrea condena de una noche sin orillas
un alba de hombres libres.




(Juan Bautista Morán, París, 1966: Si algo me define posiblemente sean mis pasiones, y tengo dos. Una es la educación contra la exclusión social y favorecedora de la asunción personal y la participación social. La educación como causa de cambio social (¡Cuánto le debo a Paulo Freire!). Mi otra pasión es la imagen entre la palabra poética y la imagen fotográfica, en el borde donde ambas dialogan y se complementan.)











Encontro
Pintura: Kelson Frost














PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão



Basta um olhar um pouco mais atento e é possível percebermos o vasto universo de alternativas situado nas proximidades das nossas esferas pessoais. De fato, nem sempre vislumbramos o outro em meio ao roteiro de suas potencialidades. Dessa espécie de miopia, advêm as típicas barreiras produzidas pelo estranhamento no qual muitas vezes mergulhamos nossas convicções. No entanto, nada há de ser mais recompensador e vigoroso do que as revelações encerradas no fértil terreno das trocas humanas. É algo deveras renovador perceber a existência de manifestações que, na prática, propiciam outros horizontes ao complexo ambiente das relações interpessoais. E movimentos assim estão mais próximos do que imaginamos. Prova viva disso está na atuação do coletivo paulista Dulcinéia Catadora, cuja missão fomenta interações em torno das artes visuais e da literatura, aliada a uma perspectiva fortemente pautada na inclusão social. Nessa jornada, estão juntos filhos de catadores de papelão, artistas e escritores.

Tudo começa com a aquisição do papelão, comprado junto aos catadores por um preço superior ao convencional, e cuja finalidade é produzir livros com o material reciclado. Desse modo, além de se promover a valorização do ofício daqueles trabalhadores, o projeto também permite a inserção deles no processo de criação, que passa pela elaboração das capas e a conseqüente organização das obras. Impulsionado por outra iniciativa (a do coletivo argentino Eloísa Cartonera), o projeto, em pouco mais de um ano e meio de existência, já soma às suas ações a edição de 35 títulos, tendo vendido cerca de 2500 livros. Cada obra é comercializada por 5 reais, sendo que as capas são artesanalmente trabalhadas com o papelão, e as páginas, fotocopiadas. A renda obtida é revertida aos jovens participantes.

À frente do Dulcinéia Catadora, está a artista plástica, editora e tradutora paulista Lúcia Rosa, que traz em sua trajetória a participação em diversas exposições individuais e coletivas, destacando-se Ferro, na Caixa Cultural SP (2003), instalação com sucata de ferro no SESC Ipiranga, SP (2005), instalação na Galeria Aliança Francesa, SP, (2005), coletiva 30 no Pari, 2006, a colaboração com o Eloísa Cartonera na 27ª Bienal de São Paulo, 2006, dentre outros. Numa breve troca de idéias conosco, Lúcia deixa claras as motivações que consolidam o Dulcinéia, abordando um pouco de suas visões pessoais sobre a efetividade de uma iniciativa que reúne, a um só tempo, as porções cultural, social e artística, tudo isso somado ao aprendizado trazido pelas valiosas interações entre as pessoas envolvidas.





Lúcia Rosa
Foto: Petra Ramos



DA - Em que medida o Projeto Dulcinéia Catadora modificou o seu olhar de artista?

LÚCIA ROSA - Talvez melhor seria afirmar que aconteceu o inverso: meu olhar de artista e o amadurecimento de meu trabalho levaram-me a abraçar a idéia de formar um coletivo, em detrimento de uma obra autoral, individual.

DA- Dentro da clara perspectiva de inclusão social almejada pelo projeto, qual foi o maior desafio na aproximação com os catadores de papelão?

LÚCIA ROSA - Os anos em que fui a Sucatas e Cooperativas para comprar o material (lâminas de estator) para minhas obras marcaram meus primeiros contatos com catadores. Aos poucos, a troca de olhares, de estranhamento, distanciamento, receio e desconfiança de ambas as partes foi substituída por cumprimentos sorridentes; eles passaram a se sentir mais à vontade comigo. Conversava com eles enquanto separavam o material para mim. Depois fiz um trabalho em que abordava catadores na rua. Fiz gravações de conversas e, com a compra do papelão deles, montei objetos. Esses contatos facilitaram a montagem do grupo de filhos de catadores para participarem da oficina proposta pelo Eloísa Cartonera na 27ª Bienal de São Paulo. Não foi tarefa fácil porque, nesse caso, eu não iria até eles. Eles é que deveriam ir até o Ibirapuera e se disporem a vivenciar um ambiente totalmente desconhecido. Procurei o Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis, fiz a proposta e, depois de mais de três meses, consegui selecionar alguns jovens, que se “aventuraram” a participar da oficina diariamente. Os catadores são tão oprimidos, desrespeitados, desprezados que guardam uma desconfiança enorme. Custou-lhes acreditar que os meninos receberiam pela atividade, participariam de uma oficina (que consideramos prazerosa) de pintura, enfim, que eles teriam contato com pessoas que os respeitariam, acima de tudo.

DA - Quais os principais critérios adotados na seleção das obras a serem publicadas?

LÚCIA ROSA - Na escolha de poemas e contos, há sempre uma tendência de ir ao encontro do que é percebido e pensado enquanto inscrição da comunidade. Entretanto, deve ficar claro, que as formas escolhidas independem do tipo de inserção social dos artistas ou do modo como as formas artísticas refletem estruturas ou movimento sociais, como podem ver pela relação dos autores publicados pelo projeto, como Sebastião Nicomedes, que, durante alguns anos, viveu em situação de rua, e Manoel de Barros, diplomata. A escolha está na prática, na invenção de formas sensíveis, na novidade intuitiva da linguagem, nos exercícios ‘no limite’, na maneira como as obras ‘fazem política’ atuando o sensível, quaisquer que sejam as intenções ou quem as atua.

DA- De que forma é feita a distribuição dos livros?

LÚCIA ROSA - Temos alguns pontos de vendas em São Paulo e também enviamos livros por correio.

DA - A América Latina mescla contradições e virtudes tão comuns entre muitas de suas nações e, ao que se pode perceber, mantém-se aceso o desejo de integração multicultural. Vocês conseguem dialogar efetivamente com iniciativas semelhantes vindas de outros países?

LÚCIA ROSA - Nosso diálogo é mais intenso com o pessoal do Eloísa Cartonera (Argentina) e do Yiyi Jambo (Paraguai). Trocamos alguns títulos e livros. Integrantes do Eloísa vieram para o Brasil em 2007, e fizemos um trabalho juntos, na Mostra SESC de Artes, Circulações. Sabemos como esses grupos funcionam e reconhecemos as diferenças entre nós. A tentativa de contato com as outras cartoneras, no entanto, ainda não foi bem-sucedida.




Lúcia em seu atelier
Foto: Joanna Barros



DA - O Brasil, em muitos projetos que assistem minorias, sobretudo os governamentais, age equivocadamente por assumir uma via assistencialista como norteadora das ações. Você acha que ainda podemos superar certos vícios e renovar o que já temos em mãos?

LÚCIA ROSA - Quando uma prática assistencialista se firma, resultante de um modo de pensar as diferenças em que se atribuem valores galgados em uma sociedade hierarquizada, sendo os preconceitos hipocritamente camuflados por princípios cristãos, fica difícil reverter esse quadro. Nem acho que a proposta do Dulcinéia, como coletivo, em que cada integrante dá sua colaboração e não se estabelecem critérios de valoração e todos se beneficiam desse convívio, tem a pretensão de mostrar um caminho ou uma possibilidade de reverter esse modelo, seguido pelo terceiro setor.

DA - Através das visões de mundo percebidas em pessoas com experiências diferentes envolvidas em projetos como o Dulcinéia há uma espécie de “choque de realidades”. Considera que conjunções como esta inauguram novos conceitos em matéria de arte?

LÚCIA ROSA - As relações entre pessoas com formações, visões e experiências diversas envolvem tensões. Lidar com as diferenças é um aprendizado diário. Mas essas trocas são fundamentais e enriquecedoras para todos. Creio que a ação do coletivo poderia se encaixar no que Nicolas Bourriaud denominou Estética Relacional, que não seria exatamente um “novo conceito”. Na década de 1990 (século passado!!!!), são identificados coletivos e artistas no mundo todo com propostas que têm como conceito-base a estética relacional.

DA - Em pouco mais de um ano e meio de existência do projeto, já é possível vislumbrar uma expansão das ações?

LÚCIA ROSA - Posso dizer que o Dulcinéia firmou-se como grupo e, à medida que as vendas aumentam, temos condições de introduzir mais jovens. Porém, como nos propomos a ser um coletivo de arte, e definitivamente não migraremos para qualquer outro modo de constituição formal, essa expansão é lenta e, sem dúvida, limitada. Porém, acredito que as ações do coletivo reverberam, principalmente com a colaboração dos autores e através da prática contínua de intervenções urbanas.

DA- Acredita que algum dia você resuma em suas telas as escutas humanas vivenciadas através do Dulcinéia?

LÚCIA ROSA - Não tenho pintado telas. Há alguns anos meus trabalhos migraram para objetos e instalações. Mas, nesse ano e meio de atividade no Dulcinéia, não vi espaço, nem razão para desenvolver um trabalho individual. Nem sei se algum dia retomarei esse caminho. O trabalho no Dulcinéia sintetiza um conceito precioso para mim, da fusão de arte e vida, que eu não atingiria plenamente atuando individualmente, pois passa pelas relações interpessoais.














A Carta
Pintura: Kelson Frost












JANELA POÉTICA (V)



retrato final

Leila Andrade


a inconstância do mundo apavora
o corpo que se move lento
respira sem profundidade
numa desordem possível
: os cálculos imperfeitos

retalhos de uma vida deserta
espalhados na colcha da cama fria
combinação exata com a falta de leveza
das cores prediletas
vermelhas, amarelas, culpadas










Sobre Cegueira
Pintura: Kelson Frost











OLIMPÍADA E ARTE

Affonso Romano de Sant'Anna



No dia da fantástica abertura dos jogos olímpicos lá em Pequim, estava eu no Centro Cultural São Paulo para fazer uma conferência sobre a arte de nosso tempo. Arte e olimpíada têm tudo a ver. Nas olimpíadas espera-se sempre a quebra de novos récordes. Mais do que medalhas, importa alcançar marcas nunca obtidas por outros competidores. Vejam o nadador americano, que até o momento em que escrevo, já tinha amealhado 11 medalhas de ouro.

Pode-se portanto falar da olimpíada da arte e a arte da olimpíada. A arte no século 20 virou uma grande olimpíada. E eu havia planejado ver no MAM de Sâo Paulo a retrospectiva de Marcel Duchamp, esse atleta olímpico da arte moderna. Desde então, cada novo artista contemporâneo, obriga-se a fazer algo que nunca se viu antes. Se isto deu certo no campo dos esportes, no entanto, no espaço das artes gerou equívocos constrangedores. Era isto que, de outra forma, explicava eu à heróica platéia que foi me assistir. Pode-se dizer que a arte e as olimpíadas têm um traço comum: ambas são atividades lúdicas, são jogos dos quais participam os atletas (e ou artistas) e obviamente a torcida e o público. Mas no caso dos esportes, você vai a uma competição e encontra lá a piscina e os nadadores que mergulham, dão suas braçadas, cada um na sua raia. Igualmente, os jogadores de vôlei, basquete, futebol ou os que arremessam dardos, discos, os que fazem esgrima, etc. Todos obedecem a regras, severíssimas, que infringidas, provocam a eliminação do atleta.

Na arte, não. E aí é que as diferenças passam a ser didáticas. Na arte, desde Marcel Duchamp, decretou-se que não há mais regras, que qualquer coisa é arte e que todos são artistas. Se os princípios dele fossem aplicados aos esportes, os atletas que estão em Pequim seriam pessoas que decidiram "conceitualmente" que são atletas e a rigor nem precisariam praticar o esporte, diriam plagiando erradamente Da Vinci, que "o esporte é coisa mental". Outra coisa que ocorre na olimpíada artística é o fato de o artista (ou nadador) dizer que prefere nadar numa piscina vazia. O corredor, por sua vez, dirá que prefere correr parado ou fora do campo. O jogador de vôlei, enquanto artista, achando-se um grande transgressor, manda tirar a rede e anuncia que para ele o campo é o mundo inteiro, portanto, joga a bola onde quer, se é que precisa ainda de bola.

Em outros termos, assim como Duchamp disse: “a idéia de julgamento deveria desaparecer", o artista olímpico contemporâneo elimina os juizes dos jogos; para que julgamento?. E assim como Duchamp dizendo-se um não-atleta ou "anartista", perguntava - " pode alguém fazer obras que não sejam obras de arte?" , nas quadras da arte, qualquer um que se apresente como artista (atleta) terá seus 15 minutos de fama. Enfim, na olimpíada da arte, cada um dita (ilusoriamente) as não-regras do seu não-jogo. Por questão de coerência, na olimpíada artística não deveria haver medalhas, já que todo mundo é artista (ou atleta) e a não-arte (ou não-jogo) é a norma. Quer dizer, não deveria haver mais museus nem galerias nem deveriam pagar milhões por certas obras olimpicamente leiloadas.

Nessa relação entre jogo e arte contemporânea, contudo, há coisas que não foram ainda analisadas. É revelador que Duchamp que aboliu todas as regras do jogo artístico e se intitulava "pseudo", fosse exímio jogador de xadrez. Nunca quis mudar as regras desse jogo. No fundo, ele sabia que se inventasse regras só suas não poderia jogar com ninguém.

Pois estava eu em São Paulo, como lhes disse, e pensava em ir ver a retrospectiva sobre Duchamp, lá no MAM. Já havia visto aquelas peças em dezenas de museus pelo mundo, mas julgava que deveria rever aquilo. E ia já sair do hotel, quando liguei a televisão e deparei-me com o espetáculo da abertura das olimpíadas de Pequim, no qual todas as artes e todos os esportes estavam integrados de maneira deslumbrante e comovente. Isto é que é arte, eu me dizia. A mais alta tecnologia e as coisas mais primitivas fundidas numa narrativa simbólica comovente e inteligente.

Então, decidi: deixa esse Duchamp prá lá. Arte, realmente, nem sempre está no museu. No caso, está num estádio em Pequim e todo o mundo a viu extasiado.


(Affonso Romano de Sant’Anna é colaborador da Diversos Afins)












Eram Apenas Palavras
Pintura: Kelson Frost















JANELA POÉTICA (VI)



AMBÍGUOS FLUIDOS

Augusto Cavalcanti



Signo.
dois significados:

1/12 avos dentro do céu
30 graus separados do espaço
regem semelhanças nos temperamentos

rosa
idéia psíquica que causa rosa
regem com semelhantes versos poesia

Alguma metáfora:
carapaça de caranguejo
independente com um beijo
lar: todo destoante em tempestade de raios

Depois os dois:
olhar
silêncio
verdade percebida nos erros passados
crescer
na dor
distância: madurecer distante dela (é como o a que se foi)

Enquanto agora:

1/12 avos dentro do teu mel
30 graus inclinados no chão do terraço
regidos por puro júbilo expelido em êxtase

rosa
aroma de ambíguos fluidos
contorcendo túmida em tua poesia tímida

uma metáfora:
jorro de signos desconectados dançando dentro da mente

Depois os dois:
olhar
silêncio
verdade sem erro algum, amor.




(Augusto Cavalcanti nasceu em julho de 1982. Era manhã e fazia frio. Não provou do café e bolinhos por questões claras. É formado em Cinema pela Universidade Federal de São Carlos. Escreve roteiros, poesias e afins literários.)











DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes




Segunda-feira Ao Sol. (Los Lunes Al Sol). Espanha. 2003.




“A questão não é acreditarmos em Deus ou não. A questão é se Deus acredita em nós”.
(personagem Amador)



A primeira coisa que vem em mente quando se assiste Segunda-feira ao Sol é aquele anúncio que consagrou Washington Olivetto e seu “Homem de 40 Anos”, na conquista do primeiro Leão de Ouro do Brasil em Cannes (o prêmio máximo da propaganda mundial), em 1972.

Para quem não lembra, o anúncio falava de homens de meia-idade considerados inadequados para o mercado de trabalho. E lá figuravam nomes que começaram a vida ‘bem depois dos quarenta’, como Einstein, Picasso, Neruda, Jorge Amado, Chaplin, entre outros gênios de cabelos grisalhos.

Muito diferente da temática de desemprego sob a ótica de Costa Gavras em “O Corte” (onde o desempregado toma medidas bem mais radicais para acabar com a situação), Segunda-Feira Ao Sol é de uma sensibilidade ímpar. A começar pela bela canção-título. E ao mesmo tempo tem um senso de humor muito bem dosado.

O filme gira em torno de um grupo de amigos desempregados e seus encontros no bar de um deles, compartilhando entre um gole e outro, frustrações e expectativas. Ou seja, um desfile dos infortúnios de ‘ser experiente’, porém não ter o que se chama de uma carreira de sucesso.

O longa explora ainda a variedade de reações que o ser humano pode ter quando se depara com tal situação. Constrangimento? Desespero? Impotência? Abandono? Revolta? E você, optaria pela tintura no cabelo, sucumbiria à idade do lobo ou à morte?

Segunda-Feira ao Sol é um filme comovente que tem a direção precisa do jovem diretor Fernado Leon de Aranoa e a sempre impecável atuação de Javier Bardem.

Aos olhos dos desempregados todos os dias são iguais e talvez somente eles tenham o privilégio de desfrutar - ainda que com sentimento de culpa - uma segunda-feira sob o sol da Espanha.



(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras)










Entorno
Pintura: Kelson Frost











JANELA POÉTICA (VII)



SIGAM-ME OS BONS

Randolpho Gomes



Diversos Afins
Afinidades em Diversidades
Adversidade finita aos confins das intempéries
Se interpreta o inverso, tal Começo é o Fim
Desertos a mim de um brilho espectro das boas novas
São bem vindas, sejam Elas
Seja Eu mesmo em tais tracejos de luminosidade
Sejam todas Interação ao indizível que também sou Eu
No subterfúgio de fugas
Decalque de recalques de qualquer querela que seja
E que seja....o Tempo o templo de um cíclico presente
Ente das Verdades e das verídicas falsidades
Faço passo falso esboço ao acerto
Torno espesso o meu apreço por um coletivo Bem Viver
De verdes e televisivos bem-te-vis...que seja
Pois o espelho de mim mesmo, nenhuma LCD High definicion refletirá
Que se condensem então tais preceitos
Em gotejos infinitos de partículas evolutivas de difusões tecnológicas
Lógicas em suas técnicas
Top Line do avanço
Modernidade e sofisticação em questão de caráter.



(Randolpho Gomes, mais conhecido como Rãs, tem 30 anos e é um dos vocalistas da banda Oquadro)











OUVIDOS ABERTOS (II)

Por Fabrício Brandão



GAL COSTA – GAL CANTA CAYMMI






Embalados pelo canto que deriva das rotas de amor e de mar, rendamo-nos facilmente aos percursos navegados pelas canções de Dorival Caymmi. Beleza aqui é sinônimo de simplicidade, sobretudo pelo fato desse grande mestre de nossa MPB ter construído uma obra notadamente pautada no olhar sereno e suave sobre aspectos que permeiam sentimentos de gente e lugar. Com o seu “desaparecimento”, resta-nos o legado precioso de suas músicas, certamente algo inalienável, pois canções jamais se perdem, são impressas sob o solo firme da memória quando esta é devidamente cultivada. E Gal Canta Caymmi é um disco que serve como uma confirmação de quão especial é desfrutar desse sentimento perene frente à boa música.

Gravado há pouco mais de 30 anos (1976), o disco de Gal Costa deita olhares precisos a tudo o que pode servir como representação fiel da obra de Caymmi. Começando por Vatapá, somos apresentados ao modus operandi de uma baiana que prepara a iguaria típica dos recantos da terra natal do compositor. Aliás, as reminiscências e toda a devoção aos sentimentos derivados da Bahia marcam presença na maioria das canções, principalmente nas faixas Festa de Rua, São Salvador e Dois de Fevereiro. Num trabalho que conta com os arranjos de João Donato e Perinho Albuquerque, a voz firme e bela de Gal empresta vivacidade ao canto sublime predominante no repertório. Abrilhantando ainda mais o CD, o romantismo é exaltado nas intensas melodias de Nem Eu e Só Louco, letras que tratam o tema com leveza e sem a densidade apocalíptica que permeiam as tradicionais dores de amor. Parafraseando o próprio Caymmi, chamemos o vento para que ele revolva incansavelmente as nossas existências. Quem sabe aí possamos dar menos força às tempestades que assolam as marés de nossa memória.













Boneca
Pintura: Kelson Frost











JANELA POÉTICA (VIII)



miopia

Fabrício Brandão



se absorvo tua fala
agora entre os nós da carne
é porque sei brincar
molduras de sempre

se me contento a tudo
ofereces-me ventos errantes
desses que envergam edifícios
sem aviso aparente

se me trazes até aqui
não existe um sequer acaso
tudo são verdades caducas
num passo insano de repetição










Molde
Pintura: Kelson Frost







* O mineiro Kelson Frost tem trinta anos de pintura. Em seus trabalhos, busca uma linguagem própria usando materiais e elementos inusitados para composição. Exprime sua sensibilidade colocando em suas obras a fusão do realismo com o abstrato. Em uma linguagem contemporânea, traça um extenso leque surrealista. Durante toda a sua trajetória, vem realizando sua obra à margem dos modismos temáticos e formais, longe das imposições do mercado e da mídia. No entanto, tal comportamento não significa um afastamento das coisas do mundo, inclusive da política, da economia e da tecnologia. O que prevalece, no seu fazer criador, é a visão humanista da arte. Um humanismo recatado, que nada tem de panfletário ou de demagógico. A memória profunda de fatos e situações vividas nas regiões em que morou, a natureza e a luminosidade brasileira, a rica experiência do cotidiano, que vem se somar à atividade incessante do inconsciente, formam o substrato que serve de base para as indagações construídas através da sua arte.

Gosto de lidar com os elementos de uma transformação: a pintura é um momento, que se captura na fotografia. É como um instantâneo que depois se lança a um estado de trânsito.”

Kelson Frost


 
publicado por Fabrício Brandão
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