30 de nov de 2009,21:25
TRIGÉSIMA NONA LEVA


Foto: Jackie Brito






CICERONEANDO




Há uma vida escondida por entre as nossas razões infindas. Onde quer que haja um sopro, ali estamos, prenhes de uma existência que só sabe acontecer pelo jogo inevitável de certas esperas. Misteriosamente somos hábeis em abraçar a escuridão que nos assoma as horas, ora podendo resistir bravamente, ora sucumbindo sem mais delongas. Cada artista, ao cruzar seus próprios desertos, caminha talvez obstinado em verter, na materialidade de seus feitos, as imagens primeiras do inefável espírito. De fato, os recantos mais secretos extrapolam os limites do desejo que não cabe em si. Quem se permitir ser fiel à genuinidade dos sentimentos mais antigos talvez se atire sem medo à aurora dos desavisados instantes. Mas eis que há o sabor atinente aos rumos de nossos tropeços, nossos desvãos, uma nossa carne exposta indistintamente nas vitrines do mundo. É quando poetas, lúcidos ou não, passam a habitar um mesmo plano. Em cada esquina de nossa nova Leva, habita a sorte de um idioma que sabe de nosso íntimo muito mais do que imaginamos. Compartilhamos das densidades espraiadas na poética de Noélia Estrela, Geraldo Lavigne, Pedro Du Bois, Victor de Oliveira Mateus e Líria Porto. Reconhecemo-nos difusa e inevitavelmente nos contos pungentes de Cláudia Villela de Andrade, Dheyne de Souza e André de Leones. Trocamos ideias com o poeta mineiro Romério Rômulo, autor que nos arrebata pela habilidade em lidar com as reentrâncias do ser. Na crônica cinéfila de Larissa Mendes, o filme Mary and Max está no cerne das reflexões sobre a inexistência de fronteiras para a amizade. Tudo que por aqui agora segue ganha completude pelos diálogos que emanam do olhar sensível e humano da fotógrafa baiana Jackie Brito. Não há uma só expressão que não cumpra, em sua peculiaridade, a condição de ser especial para o nosso projeto. Melhor ainda é saber que a fonte de tudo jamais se esgotará.




*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.






JANELA POÉTICA (I)



PERDIÇÃO


Noélia Estrela



Há fragmentos de mim

Em todos os recantos que passei.

Debalde, procuro sonhos

em ruas abandonadas.

Do amor, não vicejo vestígios:

resvalou-se em valas labirínticas.

A ternura, que se deitava comigo

Quando os luares eram prelúdios,

perdeu-se entre passos torpes.

Em todas as travessias,

Xxxxxxestilhaços do que fui.

E na perdição desse desencontro

Não há resgate para os meus restos.

Sou mosaico desconexo

de rimas estranguladas;

atalhos, miragens atropeladas.

xxxxxxEu estou

onde não me encontro mais.




(Noélia Estrela de Oliveira é baiana de Itabuna. Bacharela em Direito e Licenciada em Letras (UESC), pós-graduada em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa (UESC). Leciona Língua Portuguesa nas redes municipal e estadual)









Foto: Jackie Brito








AS HORAS

Cláudia Villela de Andrade



Que elas passem debaixo da torneira fria, enquanto o cantor de banheiro se lava rapidamente. Enquanto a alma estrebucha de agonia. Aflita, sem caminho. Sem volta. Enquanto a morte mostrar o valor da vida e Woolf deixar de ser Virginia. Eu não vejo mais as horas desde que soube que o pó nosso de cada dia se mistura à terra. Sem privilégios, os minutos se deslocam diferentes uns dos outros. Nem pedras pesam tanto.


Nenhum peso afoga assim. Dentro de mim, apenas o meu tique-taque.




(A carioca Claúdia Villela de Andrade é professora, terapeuta holística, escritora e poeta. Na literatura, recebeu vários prêmios, destacando-se o Prêmio Áureo Nonato 2007, da Prefeitura de Manaus, destinado ao melhor livro de memória: Prosas do ninho. Organizou e participou da antologia poética DiVersos (Editora Scortecci, 2002) e da antologia de prosa, Com licença da palavra (Editora Scortecci, 2003). Recebeu Menção honrosa no Prêmio Nelson Rodrigues com o conto No compasso da vida)










Foto: Jackie Brito









JANELA POÉTICA (II)



Para Renata


Romério Rômulo



eu faço poesia

porque a vida não basta

e preciso dividir mistérios.

incertos, os maribondos vazios

me arrastam pela tarde.

o mel da manhã, fel em mim,

entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra

vão redimir meu corpo?

quanto de mim é fogo

e terra?

sobram o hiato das pontes, os rios

degenerados. minha manhã dura

só faz o recomeço das coisas.




(Romério Rômulo: um poeta confuso que, para ordenar o pensamento, tem sempre à mão os sonetos do Camões, o Augusto dos Anjos e o João Cabral. Seu mais novo lançamento é intitulado Per Augusto & Machina)








OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



MANACÁ – MANACÁ







Talvez não seja nada fácil esperar grandes revoluções, quando o gênero musical em questão é o rock. No entanto, é preciso primeiro livrar os ouvidos das mais doutas expectativas em torno de algo que venha a ser chamado de vanguarda. Definitivamente, convergir as energias para tal direção não é nada interessante, pois as tais gratas surpresas não têm hora definida para acontecer em meios aos marasmos tão costumeiros do meio. Então, quando deixamos de lado essas inúteis exigências, estamos mais preparados para entender melhor o momento de gente como os cariocas do Manacá. A começar pelo nome, que faz referência a uma ornamental planta das paisagens nordestinas brasileiras, a banda atira-se com vigor e propriedade a outras possibilidades sonoras. Ao seu pop/rock somam-se elementos folclóricos, regionais, ecos e imagens diversas da multiplicidade de um país imerso em proporções continentais.


Capitaneada pela doce e firme voz de Leticia Persiles, moça que fez o papel da machadiana Capitu na homônima microssérie da Tv Globo, a banda agrada de pronto. A começar pela faixa Flor do Manacá, temos, em meio a guitarras e rabeca, a atmosfera que ambienta os cenários em torno da vida que explode pela planta que batiza o grupo. No decorrer do disco, há o desfile de sensações produzidas por lampejos de um ilimitado imaginário popular, sobretudo em canções como Diabo, O Galo Cantou, Faca de Ponta e Lamento. Os arranjos de O Desejado trazem a presença marcante de castanholas, recurso que empresta outro brilho à música. De um modo muito especial, deparamo-nos, ainda, com a nova vida dada à preciosa Canto de Ossanha, eterno marco de Baden e Vinícius. Pelo fato de se traduzir num trabalho predominantemente autoral com letras de boa qualidade, o álbum merece respeito. Melhor de tudo é saber que o Manacá se impõe diante dos perigos da repetição tão típica das vias roqueiras. Uma possível vida longa se prenuncia.









Foto: Jackie Brito









JANELA POÉTICA (III)



DOR DE PEDRA


Geraldo Lavigne



a alameda úmida

por pouco não faz a bruma


a alameda prata

a praça escura


o andarilho cansado

o manto perdido

os pés descalços


uma família sortida em sangues

todos unidos na mesma sorte


a alameda úmida

quase chora o orvalho


a alameda ruborizada

a praça turva


as janelas mudas

as portas mudas

os gradis estanques


bruma e orvalho

cimento e pedra


alameda e praça

escura e turva


nas paredes escorre a chuva

nasce em todas o mesmo limo


petrificados, pelo tempo

xxxxxxxxxxxpelo desgaste

xxxxxxxxxxxpelas visões, todos dormem


o gélido vento traz o frêmito das almas desesperadas

o cálido sentimento se atenua nas coisas desbaratadas




(Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna, Bahia. Radicado em Ilhéus, cursa Direito na UESC. Poeta, apresenta seus trabalhos em jornais locais)









Foto: Jackie Brito









PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Um sentimento perene atravessa a poesia, pulsa vigoroso e acontece em meio às auroras incessantes do ser. Jamais estaremos sós enquanto o intricado, sugestivo e arrebatador poder dos versos for capaz de nos propor a medida precisa de um diálogo que divisa criador e leitor. Há momentos em que o outro, quem escreve, se desloca sorrateiramente para o lado misterioso que abarca as nossas mais íntimas experiências. Nesse instante, é como se fôssemos recriados à imagem e semelhança de um alguém que não nos pertence e sobre o qual tampouco temos domínio, mas está em nós e põe em xeque muito daquilo ao qual atribuímos um status confortável de convicção.


Pelas linhas existencialistas dos versos de um alguém como Romério Rômulo, dificilmente sairemos impunes sem que nos seja dada a chance de testar os caminhos onde tecemos nossos próprios emaranhados. Quiçá nossos passos nos sirvam de guias no imenso sertão que atravessa múltiplas almas. Romério e seus olhares estão encravados em cada pedra edificada pelas alamedas seculares das Minas Gerais. Da sua adotada Ouro Preto, vislumbra versos como quem mergulha num mosaico onde o sentimento da desordem do caos humano cede gentilmente um lugar para o fluxo essencial, porém não menos leve, da vida. A cada homem, o seu tempo, seus desígnios, sua forma de agarrar aquilo que se consubstancia em matéria raiz de sua criação. Em Romério, somos muitos mais, passamos a deter a natureza que se abriga no instante visceral de todas as coisas. O autor de obras como Anjo Tardio (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983), Bené para Flauta e Murilo (Edições Dubolso, Sabará, 1990), Matéria Bruta (Altana, SP, 2006), vem nos falar um pouco da suas imagens interiores, dos desafios de mover a poesia viva em si, e, sobretudo, do ambiente de vivências instaurados em seu mais recente rebento, o instigante Per Augusto & Machina (Altana, SP, 2009).





Romério Rômulo

por de Laia



DA - Percorrer sua poesia é perceber um caminho aguçado sobre o caos que, ao contrário de se revelar uma via de desordem, estrutura sentimentos no complexo caldeirão das facetas humanas. Arriscaria dizer que tal tarefa resume um pouco a sua missão?


ROMÉRIO RÔMULO - Eu não diria missão. Diria trabalho. Nunca tenho domínio integral do que escrevo, embora tente. Há uma face caótica nisto e eu navego com e sobre ela. Aprendi que pode ser interessante. Daquele aparente emaranhado compulsivo, surgem umas ideias objetivas. É soltar o delírio e buscar aplainá-lo depois, tentar dominá-lo. O desafio: qual é o ponto final deste processo?


Já coloquei um poema destes em ordem direta, para uma avaliação. Mais ou menos: o que isto quer dizer? Encontrei sentidos, razões e faltas de sentidos e razões.


Ao final, criar é liberar o delírio, sempre caótico, e operá-lo, o que pressupõe organização. Nada é mais humano do que isto. E a densidade do conhecimento vai contar, sempre.


O essencial é nunca se satisfazer com o realizado.


DA - Seus versos equacionam doses de materialidade aos olhos que enxergam por entre certos labirintos da alma. A quais estímulos você atribui tal perspectiva?


ROMÉRIO RÔMULO - Eu tenho uma linha geral, construída e assimilada. Daí, é soltar as asas - que são materiais e delírios - e caminhar. A perda de controle pode ser o que interessa.


Também pode se tornar desgastante, cansativo, repetitivo. Por vezes, avalio que há manhãs e noites demais nesta poesia. O grande estímulo é a superação do tempo, da banalidade, do lugar comum. E uns mistérios que nos rondam sem sabermos como.


DA - A exemplo de Matéria Bruta, o seu Per Augusto & Machina aposta no diálogo vivo entre imagem e palavra, seja na plasticidade ali exposta sob a forma de ícones diversos, seja nos apelos sensoriais embutidos nas entrelinhas dos versos. Como é que você vislumbra esse poder ilimitado da sugestão?


ROMÉRIO RÔMULO - Sempre falo deste diálogo palavra/imagem. A palavra tem uma imagem óbvia, associada a ela, pura, e ao seu desenho na página/suporte. A palavra é, também, linguagem gráfica. Trata-se, pois, de buscá-la, explorá-la. Só não faço isto sozinho. O poeta Sebastião Nunes, essencial na poesia brasileira, é a fera que realiza os meus livros como objetos. E realiza isto comigo. Aí o livro é desenvolvido a quatro mãos. Nesse campo, ele é o dono da bola e eu, o complemento.


Criamos um conjunto de sugestões que vão nos surpreender pela diversidade nas percepções do livro. O que significa a iconografia africana incorporada ao "Per Augusto & Machina”? Aí não há limites.


DA - Chama atenção em Per Augusto & Machina a sua capacidade de, digamos assim, criar uma espécie de bucolismo transgressor, algo que extrapola noções contemplativas para buscar nas entranhas do ser elementos novos e, portanto, originais. Há muito a se cruzar nesse “deserto” da criação?


ROMÉRIO RÔMULO - Sou obcecado pela transgressão da linguagem, qualquer linguagem.


O bucolismo é meu elemento vital: sou isto. Quando me descobri sertanejo, foi uma revelação, embora devesse ser o óbvio. Só que o óbvio nem sempre é fácil. Mas o sertão tem um bucolismo de aparência, sempre. A luta travada ali é permanente. Lavrar esta luta, como um Antônio Conselheiro ("guerrilheiro, berra", Per Augusto, pág.75), é o que cabe. Aí a criação é terra sem limites.


DA - De que modo as paisagens interioranas das Gerais, com toda sua carga eivada de signos históricos, são determinantes para a construção de sua obra?


ROMÉRIO RÔMULO - Estas paisagens foram e ainda são o meu espaço. São a minha matéria-prima e me moldam. Nasci dentro e sobre elas. Compõem a minha carga cultural e não há como fugir disso.


DA - Depois de algum tempo você aderiu às possibilidades da internet, sobretudo através da concepção de seu próprio blog. Dentro de suas expectativas, o meio tem sido efetivamente uma ferramenta de apoio ao seu ofício de escritor?


ROMÉRIO RÔMULO - A internet se tornou essencial, como ferramenta. A comunicação é mais ampla, o acesso, mais fácil, o público, muito maior, o diálogo, possível e mais rápido.


O alcance do texto mudou de dimensão, geografia e tempo. De repente, só para citar um caso atual, um poeta angolano, residente na Inglaterra, entra em contato comigo para publicar um poema meu.


Estas redes surpreendem. Aqui devo citar duas pessoas essenciais nesta minha caminhada, já que o instrumento está muito além de mim. A poeta Renata Nassif entendeu que um blog me seria importante e ela faz tudo se mover. O jornalista e músico Luis Nassif é o outro apoio essencial. Desde que conheceu a minha poesia, a página dele, de visitação altíssima, se tornou um espaço onde o meu trabalho é mostrado. E agora vou ao blog dele, pois sempre há coisa interessante por lá.








Foto: Jackie Brito








JANELA POÉTICA (IV)



AMARES


Pedro Du Bois



Ter a sensação do nada

feito marias submissas

fechadas em treliças

de onde expiam vidas

exteriores

maiores que suas vontades

inundadas

esgravatadas

nas pedras e nos seixos

contidos em beiras mares

desérticos


o coração em nadas

constam de ouvidos poucos

a escutar o rio correr

lentamente em mares

amares

amores


amorais sentidos recolhem

marias em velas menores.




(Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Itapema, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal)









Foto: Jackie Brito








CARTAS A ANA VII


Dheyne de Souza



Minha Ana,


Há um céu de musgo lá fora. E eu não tenho nada que te dizer hoje. Recolho as pontas de suas vírgulas mais tímidas agora. Recolho as pausas que nunca sei que dizem na verdade, se dizem tampouco. Eu vou dormir porque é tarde e não porque tenho sono, da mesma forma que te deixo a sós não porque quero. Dos teus silêncios todos, e todos são muitos, o que mais me dói é esse que não posso ver porque eu não quero interrompê-la e pois que sei que nunca me diria não. Dos teus silêncios todos que mais me impedem é esse de nunca me dizer um não. Fechei as janelas porque sei que poderia fechá-las por mim, porque sei que alguma parte da tua mudez se pergunta se já o fiz, se o farei, se teria que fazê-lo sempre por mim. Já abri treze livros nos últimos três dias e nenhum me tira o embaço, a fuga, esse exílio de olho. Sabe do que me lembrava hoje? É a música que te veste sempre na minha solidão. Me lembrava de quando dançavas pra mim, de quando dançavas contigo e contigo, e eu simplesmente ali. Tudo o que eu quero se resume nessa simplicidade tão maqueada: estar simplesmente ali, e ali as barras dos teus braços rodeando a sala. Ana, não sei mais como convencer seus silêncios, como persuadir o teu só, como justificar a aparência possessa desse nome ao dizer o quanto, Ana, és minha.






(Dheyne de Souza escreve principalmente poesia, também desenha e pinta. Está em Goiânia e nos ambientes de Histórias Possíveis e Nós, Sós, Ombros. “Cartas a Ana é uma "série" que está sob meu pseudônimo revelado no blog coletivo de arte & literatura Vida Miúda. Quem quiser fuçar nas cartas anteriores, é só clicar lá no link para selecionar textos de um autor, que seria a Ana”)









Foto: Jackie Brito









JANELA POÉTICA (V)


Victor de Oliveira Mateus



Queria para mim

a vastidão inconfundível

do sonho, o inexorável excesso

do horizonte. Queria

para mim um oceano


rumoroso de andorinhas

nos luminosos beirais

das colinas. Queria

a impertinência de um desejo

sempre retomado


e incompleto. Mas nunca

a voracidade deste lodo

nos alicerces da cidade;

monstro irrefreável

que amordaça a liberdade.




(Victor Oliveira Mateus, natural de Lisboa onde reside, é licenciado em Filosofia, abandonou recentemente o ensino dessa Disciplina para se dedicar apenas à escrita, tem publicados: quatro livros de poesia (e um no prelo), um romance, traduziu, prefaciou e anotou Safo, S. João da Cruz e Voltaire. A sua poesia e alguns textos de cunho ensaístico encontram-se dispersos em antologias e revistas de cultura de Portugal e do Brasil)








DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Larissa Mendes



Mary and Max. Austrália. 2009.






God gave us relatives; thank God we can choose our friends.

Ethel Watts Mumford



Sempre me intrigou quando as pessoas questionam: – Vocês são só amigos? Como ? Por que a amizade é tratada como algo inferior, como uma subdivisão do que chamam amor? Acredito que ela possa ser um trampolim para tal, ou no mínimo, o mais próximo do que chamam incondicional.


A propósito, quem disse que o improvável é exclusividade do amor? Certamente alguém que não ‘escolheu’ uma amizade, aleatoriamente, nas páginas de uma lista telefônica internacional, apenas com a intenção de saber se os bebês da América nascem numa lata de Coca-Cola. Pois foi assim que o destino de dois solitários se cruzou.


De um lado – mais precisamente em Melbourne (Austrália), em 1976 – está a menina Mary Daisy Dinkle, 8 anos e seu mundo cor-de-lama. Do outro, em Nova York, Max Jerry Horowitz, 44 anos, judeu-ateu, obeso quase mórbido e quase autista. No meio deles, além do Pacífico, a solidão compartilhada e a sensação constante de inadequação, gerando, assim, mais de duas décadas de correspondências, confissões e guloseimas.


O longa, baseado em fatos reais – produzido em massinha em stopmotion não é apenas uma animação para adultos, de alto requinte tecnológico, com fisionomias e gestos perfeitos, é um filme encantador, de uma sensibilidade ímpar, ora divertido, ora dramático. Sua maestria está nos pormenores, tanto dos cenários como da interação das realidades dos personagens, sobretudo no que se refere à curiosidade de Mary reativando a memória de Max. Esse universo conta com o suporte de uma narrativa nos moldes de conto de fadas, fazendo de Mary and Max um clássico moderno. A trilha sonora orquestrada contrapõe-se à abordagem ácida de temas polêmicos como religião, sexo, política e morte, além de abordar mazelas que assolam nossos dias, como vertentes de solidão e depressão. É interessante, ainda, observar a palheta de cores da fotografia, que varia entre o acinzentado (quando o filme se passa nos Estados Unidos) e tons terrosos (quando na Austrália), criando um clima melancólico e nostálgico.


Numa época em que qualquer aproximação entre um adulto e uma criança possa ser vista com os olhos da pedofilia, Mary e Max é uma celebração da amizade que ultrapassa impedimentos etários ou geográficos e sobrevive ao tempo e até mesmo ao (des)entendimento. Escrito e dirigido por Adam Elliot ganhador do Oscar de Melhor Curta-Metragem Animado em 2003 por Harvie Krumpet e dublado por Toni Collete e Philip Seymour Hoffman, nos papeis de Mary e Max, respectivamente, a animação abrange tantas emoções quanto uma – ou melhor, duas vidas – poderiam conter.




(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras)









Foto: Jackie Brito










JANELA POÉTICA (VI)




CASTA

Líria Porto



flor amarela não tem opção
não tem sangue nas pétalas


e ser branca não é cor
é condição


*


(Líria Porto é mineira de Araguari e mora em Belo Horizonte)








OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



IZMÁLIA – QUASE NÃO DÓI







A moça da voz e da vez vem assim, decidida a demarcar suas pegadas no melindroso terreno do rock. E ressaltar essa propriedade um tanto perniciosa do gênero é fundamental, já que muito pouca coisa inovadora tem surgido. Criar algo interessante nesse meio, sem que pareça forçado, panfletário ou até mesmo gratuito, tem sido definitivamente tarefa para poucos. Mas aquela mesma moça, gaúcha por natureza, parece disposta a contrariar os vícios desse ofício. Apoderando-se de seus recursos vocais muito bem carregados de personalidade, Izmália Ibias nos apresenta seu disco de estreia com a segurança atinente a uma veterana do ramo. Some-se a isso a marca autoral da cantora, condição dispersa por entre todas as dez canções do álbum.


Quase não dói é praticamente um manifesto explícito ao amor. A cada momento em que os sentimentos vão sendo ali expostos, as constatações amorosas vão se diluindo no compasso intenso e acelerado da conjunção de guitarras, baixo e bateria. Diga-se de passagem, a moça também está devidamente acompanhada por músicos de qualidade. O disco exala uma busca pelo entendimento do que venha a ser o desejo projetado em si e que desemboca no outro, o objeto incorrigível das paixões. E tal condição segue revelada em faixas como Além do que se pode alcançar, O beijo que não tem saída e Desculpa. O mais importante para um alguém que se atira aos ventos da música é definir aonde se quer chegar. E isso Izmália parece saber de cor. Basta pôr as canções para girar e logo se fica sabendo do sabor dos rumos e dos tons desnudados do que compartilhamos no solo comum dos desejos. De resto, a nossa miopia para lidar com as visões do amor talvez jamais encontre um par de lentes ideal.









Foto: Jackie Brito








JANELA POÉTICA (VII)



LIVRO


Leila Andrade



Como capítulos de um só livro

As mesmas dores divididas

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx- mesmas vidas


As mãos segurando raízes

O tempo secando paredes


A casa espera por nossa respiração

As distâncias me consomem os sonhos








Foto: Jackie Brito









Limitrofia ou CID-10: F60.31


André de Leones



você e essa sua terrível mania de tentar cortar a própria cabeça [ponto] ele gostava de pensar em termos de maiúsculas [abre parênteses] sic [fecha parênteses] quando se informava e [vírgula] depois [vírgula] enquanto matutava acerca das informações repetindo mentalmente Sentimento Crônico de Vazio e coisas desse tipo [vírgula] abraçando cada Sintoma e cada Informação colhida ao acaso pela Grande Rede afora com uma espécie muito particular de Horror [ponto] [começar a frase seguinte com letra minúscula e repetir esse procedimento no decorrer do texto e também em seu início] não confundir com Transtorno Bipolar [abre parênteses] CID-10 [dois pontos] F60.31 [fecha parênteses] [ponto] ele pensa se a última frase soou/soará engraçada apenas para si [ponto] não confundir com Transporte Coletivo Urbano [abre parênteses] TCU [fecha parênteses] [ponto] ele imagina risadas isoladas e um enorme quarto e uma pessoa enorme diante de uma enorme tela de computador lendo o texto e rindo enquanto repete o seu nome [abre parênteses] dele [vírgula] autor [fecha parênteses] e o nome de dois ou três escritores que contaminaram o texto lido pela pessoa enorme de tal forma a levá-la [abre parênteses] a pessoa enorme [fecha parênteses] a repetir o seu [abre parênteses] dele [vírgula] autor [fecha parênteses] nome e o nome de dois ou três escritores que contaminaram [ponto] ele gosta de pensar nas palavras importantes e imaginá-las com as iniciais em maiúsculas como se não houvesse como escapar disso [ponto] mudanças constantes de Planos Profissionais [vírgula] de Círculos de Amigos [ponto] os meus amigos são os mesmos desde que eu me entendo por gente [abre parênteses] [reticências] [fecha parênteses] ele sorriu quando leu que esse tipo de coisa seria comum em pessoas que sofreram abusos quando crianças [ponto] havia uma cama enorme e um Gigante mal cabendo na cama dizendo [dois pontos] [abre aspas] vem aqui [fecha aspas] [ponto] um Gigante de Asas Enormes [ponto seguido por crédito ao escritor latino-americano admirador de certo ditador esquerdista muito doente e afastado do poder] em um dos contos que escreveu [vírgula] a personagem principal mente para o analista dizendo que teria sido abusada sexualmente pelo próprio pai durante boa parte da infância e começo da adolescência e [vírgula] quando perguntada [vírgula] ela [ponto cortando a frase antes do fim] [o corte abrupto sugerindo um monte de coisas ou sugerindo coisa alguma] [apenas um corte abrupto] [um corte abrupto significando única e exclusivamente um corte abrupto] [abre aspas] Padrão de Comportamento [trecho ilegível] Interpessoais Instáveis [trecho ilegível] intensos [ilegível] alternância entre extremos de Idealização e Desvalorização [ilegível] Abuso de Substâncias [ilegível] Violência [abre parênteses] não só sexual [fecha parênteses] [vírgula] impulsividade [vírgula] sensibilidade exagerada [ilegível] rejeições [ponto] [fecha aspas] o Sentimento Crônico de Vazio [dois pontos] como encaixar uma coisa dessas em uma piada [interrogação] exemplo [dois pontos] dois sujeitos entram em um bar [vírgula] um deles com um Sentimento Crônico de Vazio [ponto final] [corte abrupto pretendendo informar ao leitor que a Mensagem foi passada] [você não percebeu [vírgula] não entendeu [vírgula] certo [interrogação]]




(André de Leones, nascido em Goiânia (1980), é autor de "Hoje está um dia morto" (romance) e "Paz na terra entre os monstros", ambos publicados pela Record)










Foto: Jackie Brito





* A fotógrafa baiana Jackie Brito é confidencial, traduz em imagens o que não se diz em palavras. Há uma simplicidade explícita, sim, mas uma riqueza de detalhes que não são despercebidos. Tanto em cores quanto em p&b, Jackie parece visitar um mundo de percepções. Em gentes ou lugares traz seu olhar com espontaneidade, diversidade e um quase sentido de busca.


Além de tudo, o importante é que, por traz de todo detalhe, há uma parcela humana e significativa a nos perseguir nesse pequeno resumo do seu trabalho.


 
publicado por Fabrício Brandão
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