28 de fev de 2010,22:10
QUADRAGÉSIMA SEGUNDA LEVA

Foto: Ricardo Miyajima






CICERONEANDO


Perceber as imagens de um mundo inexplicável em constante transformação parece ser uma das receitas em matéria de criação. A falta de um consenso sobre o conceito verdadeiro do objeto artístico talvez sirva como impulso para que outros horizontes sejam vislumbrados. Nesse ínterim, seria leviano considerar a concepção da arte pela arte como sendo o motor de todas as coisas. Sem pesquisa e estudo, criadores correm o sério risco de atrofiarem suas possibilidades, sobretudo se estiverem apegados à ideia minimalista de meros ímpetos derivados da tão viciosa inspiração. Achar-se capaz de utilizar apenas os recursos da sensibilidade para produzir algo é um aspecto cada vez mais pernicioso. Do mesmo modo, fazer apologias em tom radical e restritivo a cânones e referências consolidados pela tradição já não se apresenta como via principal de convencimento. Escritores, por exemplo, precisam compreender que não estão “soltos” no universo contemporâneo de um excesso ruidoso de informações. Esse turbilhão pode nos confundir e nos atirar rumo a noções equivocadas sobre o que seja viável em termos literários. De fato, estamos sempre indo e vindo no meio dessa interminável discussão sobre o rumo certo das criações, algo que nos atira inevitavelmente ao limbo dos juízos de valor. Amparados pela autocrítica e pelo respeito mútuo, andaremos bem e rumo a direções mais consistentes, pois os encontros e descobertas do caminho são também gratificantes. Apoiada nisso, a mais nova Leva da Diversos Afins aparece conduzida pelo olhar marcante e presente nas fotografias de Ricardo Miyajima. Um complexo de sensações pode ser visto através das falas poéticas de Rosane Carneiro, Abílio Pacheco, Alexandre Bonafim, Lígia Dabul, Edson Pielechovski, Paula Raposo e Alam Arezi. Numa entrevista, o cantor e compositor Celso Fonseca divide conosco um pouco do seu olhar sensível sobre a música e os novos desafios de sua carreira. Em sua crônica, o escritor W.J. Solha nos convida à leitura da tradução de Ivo Barroso para Georges Perec. Pelos contos de Samantha Abreu, Rodrigo Melo e Larissa Mendes, resta-nos o flagrante inalienável dos dias nossos. Contando ainda com incursões pelo cinema e pela música, saudamos a todos os leitores e visitantes em mais uma recompensadora jornada cultural.





*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.









JANELA POÉTICA (I)



PERCURSO


Para Tanussi


Rosane Carneiro



Para percorrer o corpo


há que se ter

um santo espírito

alma de pássaro

de vôo esconso


há que se ler

na pele abandonos

nos ossos temores

nas vísceras assombros


corpo percorrido

livro aberto

mar incontido


o mesmo que o universo ler

esfera no cosmos

pupila no olho

deus dentro do homem

e um homem presente no outro




(Rosane Carneiro poemiza alumbramentos. Alguns estão autoreados nos livros Excesso, Prova e Corpo estranho, e em antologias e revistas. É feita de ventos fortes e certos rituais à urgência da vida. Desconfia de que existe para textar filigranas: sensibilidades infindas e incontidas)





DE PEQUENAS CONFISSÕES


Samantha Abreu




Foto: Ricardo Miyajima





Tenho uma dor que ainda não foi descoberta.


Ninguém soube medicar, é uma dor muda e estrangeira. Uma dor liquefeita que me derrete por dentro e me dilui o reconhecimento. Escorre por minhas pernas, menstruando vida de mim.


Por outro lado, essa dor me concebeu uma insistência paciente: a de saborear o tormento do quase, do talvez, do quem sabe. Vem dela, da indecifrável via, o fascínio pelo imperfeito.


E é nisso que hoje me consumo: no encantamento pelas correntes que me transbordam para o mundo e que me privam de almejar a completude.


O que fica em mim é sempre o desejo dessa dor anônima.




(Samantha Abreu é de Londrina, Pr. Tem textos publicados em antologias, sites e revistas literárias, mas só escreve para ser outras tantas, para fingir, fantasiar e, no final das contas, poder sair da festa sem ser vista)








Foto: Ricardo Miyajima







JANELA POÉTICA (II)



LACRE


Ligia Dabul



Pó por todos os lados

mas as folhas são

de água dentro. Vai.

No meio de pedras

tem um líquido, então

abre, ele pedia. Não

chove há tempos.

Do viaduto sobe

essa poeira: Abre,

chove agora. Não é de

lama a resina. A peça

delgada, lamelosa,

primeiro. Anda,

até nas pedras tem.

Olha eu mesmo,

ensanguentando.

Pode ser uma flor

molhada - eu disse

assim como um óleo

de freio, para depois

abrir.




(Lígia Dabul é antropóloga. Nasceu e vive no Rio de Janeiro. O poema LACRE está em “Nave” (Lumme, São Paulo, no prelo))







OUVIDOS ABERTOS


Por Fabrício Brandão



ANA PAULA DA SILVA – AOS DE CASA




É como desfolhar um livro vivo de memórias. A gente percorre os recantos de um ontem, recorda imagens incapazes de se desbotar e depois sente o leve acalanto de que o agora é sempre o instante mais valioso de todos. Após todo o suor e labuta na construção da própria sina, a cada um de nós, guardadas as devidas diferenças e uma dose singular de experiências, é dada a chance de repousar na companhia fiel das lembranças. Por esta e outras razões é que Aos de Casa, mais novo trabalho da catarinense Ana Paula da Silva, nos faz adentrar num verdadeiro tempo da delicadeza. Trata-se de um disco repleto de signos imagéticos, no qual as canções refletem olhares do corpo, espaço e dos instantes que fazem da existência verdadeiro motivo de celebração incessante.


O título do álbum sugere uma noção de intimidade comum a toda e qualquer espécie de pessoa. Leia-se aqui o vocábulo casa como um ambiente em constante feitura, ofertando a cada ser a recordação de que cada história de vida tem status de indelével. Com sua voz suave, Ana Paula perpassa uma a uma das faixas como se nos conduzisse a um passeio sonoro onde se mesclam visões interioranas do Brasil, inclusive dotadas de signos folclóricos da nossa plural nação. Há vigorosa beleza na percepção de músicas como Infância, Dama, Anágua de Iaraiêmanjá, Aos de Casa e Benquerer. Cada uma das canções aparece revestida de arranjos cuidadosamente selecionados, algo que se constitui como um dos pontos de destaque do disco. Quando ciceroneamos pessoas em nossas vidas, certamente dividimos com elas um pouco mais do que aparentemente somos. Com algumas, somos afeto e lembrança. Com outras, embate e aprendizado. De todos os sentimentos, a ternura é capaz de suplantar equívocos, pondo-nos à porta de casa, à espera despretensiosa do novo.




Abra os ouvidos e conheça um pouco do disco aqui.








Foto: Ricardo Miyajima








JANELA POÉTICA (III)



ANTES


Paula Raposo



Antes de te saber

pensei-te precipício,

abismo insondável

de uma vaga alterosa;

pensei-te macho

-puro ainda-

feito de magia

e reencontros.


Pensei-te longe,

sempre tão longe,

tudo antes de te saber.




(A portuguesa Paula Raposo nasceu em Lisboa. Em 2001, publicou o primeiro livro em prosa ‘Incoerências’ (Ed. Minerva) e em 2006 o primeiro livro de poesia ‘Canela e erva doce’ (Ed. Magna). Editou em Novembro 2008 ‘Golpe de asa’, em Março de 2009 ‘Nevou este Verão’ e em Outubro o ‘Marcas ou memórias do Vento’ todos da Apenas Livros)









Foto: Ricardo Miyajima










O OUTRO ENREDO


Larissa Mendes



Dia de colocar o bloco na rua. Mestre-sala-casulo, porta-bandeira-clausura. Rumeiro atraso e sísmico humor. Desarmonia. Desfile (em carro não-alegórico) do lugar-comum, lugar algum. Uma avenida de impossibilidades. Adereços gastronômicos ao quesito apetite. Serpentinas de recordações, onde teorias caem como confetes. Não há comissão de frente, não há pierrôs. Eis a apuração: sem fantasia não se sobrevive ao carnaval, à cidade. Ou seria sem companhia? Recuo mudo e sem rumo da bateria. Uma semana-inteira de cinzas.



(Larissa, menina-catarina, é Bacharel em Turismo e Hotelaria, hóspede-cinéfila e turista no mundo das palavras)










Foto: Ricardo Myiajima








JANELA POÉTICA (IV)



NO PRELO


Abilio Pacheco



Se a minha palavra é a minha busca

de uma vida inteira, em todo mundo

e ela dorme encantada à sombra

de um livro raro, quiçá

encontrá-la-ei num alfarrábio,

num sebo, numa biblioteca pública...

Quem sabe minha resposta ainda

esteja no prelo.




(O baiano Abilio Pacheco reside em Belém. É Mestre em Letras pela UFPA- Belém. Publicou Poemia (poesia) em formato semiartesanal em 1998, Mosaico Primevo (poesia) em 2008, e Riscos no Barro: ensaios literários (2009). É um dos organizadores da Antologia Literária Cidade. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense com sede em Marabá)









Foto: Ricardo Miyajima








PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Fabrício Brandão



Uma estrada de vida é feita de possibilidades múltiplas, quiçá infindas. Saber e sabor parecem possuir mais sentido quando lhes é possível atuar em simultaneidade. Ao lado disso, a ferramenta da sensibilidade anda bem quando perpassa os trilhos da criação. O sucesso genuíno de um artista está cada vez mais ligado à capacidade que ele tem de perceber o mundo à sua volta, sobretudo quando potencializa, sem preconceitos e limitações, o valor da descoberta. Aquilo que parece ofuscado pelo manto viciado da obviedade ganha impulso novo quando o criador se permite olhar o mundo renovadamente a cada instante. Baseado nisso, é que o trabalho de artistas como Celso Fonseca prova ser possível encontrarmos pessoas que comungam desse tipo de pensamento.


Acumulando em sua carreira as feições de cantor, compositor e produtor musical, Celso tem uma trajetória marcada por incursões em gêneros como a bossa nova e o samba, dentre outros. Tocou e gravou com artistas de renome, compôs canções interpretadas por grandes figuras de nossa música, produziu vários artistas nacionais e tem se dedicado a consolidar um caminho essencialmente autoral. Durante muito tempo, o cantor trilhou uma carreira notadamente internacional, tendo sido conhecido muito mais fora do que dentro do Brasil. No entanto, ao que tudo indica, esse cenário tem mudado substancialmente, tendo em vista que Celso vem, cada dia mais, dialogando com o público brasileiro. Prova viva dessa mudança está no álbum Feriado, na acertada parceria com Marcos Valle através do disco Página Central e, mais recentemente, no registro intimista do seu último CD e DVD, Celso Fonseca – Voz e Violão. Para a Diversos Afins, que outrora testemunhou o artista embalado em suas expectativas e apostas, fica a confirmação de que espaços são devidamente conquistados pela conjunção entre talento, estudo e sensibilidade, aspectos que são parte ativa da história de alguém como Celso Fonseca. Hoje, a nossa conversa com o artista remonta ao significado das experiências vividas através da música, sobretudo do modo como esse nobre ofício implica em transcender os ímpetos mais valiosos da existência.




Celso Fonseca

Foto: Bianca Cardoso




DA - Na outra vez em que você nos concedeu uma entrevista, falamos sobre o fato de que sua carreira tinha muita visibilidade fora do Brasil. Hoje, é possível perceber uma mudança significativa nesse aspecto, pois você vem demarcando com vigor seu próprio lugar aqui pelo país. De que modo tem encarado todo esse novo panorama?


CELSO FONSECA - Você tem razão quando menciona que a minha visibilidade aqui no Brasil aumentou. Isso foi em parte porque decidi fincar o pé um pouco mais fundo na nossa terra. Passei a fazer mais shows aqui e minha imagem passou a ficar mais identificada com a minha música. Muita gente conhecia canções minhas, mas não saberiam me identificar se vissem uma foto. Hoje, as coisas melhoraram um pouco. Mesmo assim, ainda estou longe de ser um artista popular. Num certo sentido, acho que é isso que todos nós perseguimos. Independente do que façamos, a ideia é de que a nossa arte seja re-conhecida por um número cada vez maior de pessoas. No caso da minha música, acho que isso pode vir a acontecer com o tempo. Talvez a maior dificuldade seja mesmo o número grande de “concorrentes”. Existe muita música sendo feita hoje em dia, e ocupar um espaço no meio de tanta coisa continua sendo extremamente difícil... Eu sigo tentando...



DA - O seu disco Feriado traduz em muito a miscelânea virtuosa que é a alma brasileira, congregando gêneros diferentes num mesmo caldeirão sonoro. Inclusive, um dos pontos altos do disco é a leitura surpreendente e sensível que você emprestou ao funk Ela só pensa em beijar, do MC Leozinho. Foi um desafio lidar com tanta diversidade musical?


CELSO FONSECA - Ao longo da minha carreira, sempre procurei manter essa diversidade. Tenho influências diversas e isso sempre se traduziu nos discos que tenho feito. De uma maneira ou de outra, sempre gravei coisas diferentes com as quais eu me identificava. Talvez o “truque” seja extrair o que interessa de uma canção que aos olhos e ouvidos de outras pessoas poderia soar desinteressante.


Acho muito saudável o hábito de pescar a pérola escondida no fundo do mar. Não chega a ser um grande desafio, mas um hábito que venho cultivando há muito tempo. Gravei uma canção do Claudinho e Buchecha em 1997. Foi só uma música avulsa. Não saiu em nenhum disco meu, mas foi parar nas rádios e teve uma boa execução. Agora, no CD mais recente, eu a registrei definitivamente. Acho que não teria muita graça gravar só coisas identificadas com o universo musical ao qual eu pertenço – ou o que as pessoas acreditam que eu pertenço. É maravilhoso reler Jobim ou Chet Baker, mas também é igualmente prazeroso regravar a música do MC Léozinho. É uma linda canção de amor. Por que não mostrar a música da forma como eu a sinto no coração?



DA - Dentro da sua faceta de produtor, você deve se deparar constantemente com os ímpetos de uma nova geração musical que vem surgindo no país. De que modo você constrói seu diálogo com esses novos artistas?


CELSO FONSECA - Sempre de uma maneira muito positiva. Sou aberto a todas as novidades que aparecem. Sempre me coloquei à disposição de novos artistas no que diz respeito a dar a minha contribuição ao trabalho deles. Esse diálogo sempre foi positivo e, ao mesmo tempo, um aprendizado constante para mim. Acredito sempre na troca de experiências. Sempre achei uma coisa muito saudável, até pelo fato de que não tenho nenhum preconceito com relação a gêneros de música diversos. Acho que as misturas são muito positivas na formação de um artista novo e uma troca muito importante para artistas mais experientes como eu. O que poderia se configurar como uma grande diferença acaba se transformando numa afinidade inesperada e muito bem-vinda.



DA - De sua parceria com Marcos Valle nasceu Página Central, álbum que privilegia em muito os apelos instrumentais em meio às letras das canções e cujo resultado exala um ambiente de intensa suavidade. Como é que surgiu esse acertado encontro sonoro?


CELSO FONSECA - Minha parceria com Marcos Valle foi um grande acontecimento na minha carreira. Sou fã do Marcos há muito tempo e o reconheço como um dos grandes talentos da música brasileira de todos os tempos. Talvez grande parte do público não saiba o tamanho e a importância da obra dele. Digo isso para reafirmar a importância de me tornar parceiro de um artista como ele.


Nós nos conhecemos há alguns anos atrás. Ele conheceu o meu trabalho através do meu parceiro Ronaldo Bastos, que o presenteou com a nossa trilogia iniciada com o CD “Sorte”, de 1994. Depois disso, o próprio Marcos me convidou a dividir o palco com ele em várias ocasiões. A primeira delas em Paris, num concerto que reunia grandes nomes, como Carlos Lyra, Roberto Menescal e Wanda Sá. Um show maravilhoso com quase 5.000 pessoas na platéia. Depois disso, participei de outro projeto com ele aqui no Brasil, com outros convidados como João Donato, Ed Motta e Roberta Sá. Daí em diante, nossa amizade e afinidade musical já estavam consolidadas. Muitos shows juntos depois, alguns amigos meus resolveram, num jantar comigo, sugerir que eu fizesse um disco totalmente instrumental. Esse lado de instrumentista é cobrado por muitos fãs e mesmo por muitos amigos que gostam de me ver tocar mais o meu instrumento. Acham que, nos últimos anos, tenho me dedicado muito mais a cantar e compor, sem explorar mais o meu lado de instrumentista, que, afinal, tem sido uma coisa natural na minha carreira desde o início. Achei que eles podiam ter razão.


Eu sugeri, então, um CD em parceria com o Marcos. Achei que seria uma oportunidade de nos juntarmos para escrever música juntos. Foi o que fizemos. Escrevemos nove temas no primeiro dia em que nos encontramos para trabalhar! Daí em diante, o resto veio facilmente. Fizemos quatorze músicas juntos. Decidimos escolher onze ou doze para compor o CD. A metade, resolvemos que deveria ter letra e a outra metade seria instrumental mesmo. Assim nasceu o CD “Página Central”, que é um trabalho do qual eu me orgulho profundamente. Gravamos um disco como não se faz há muito tempo. Com uma grande orquestra, com a participação de músicos excepcionais e também do trio Azimuth, que convidamos para tocar numa das faixas. Pude, dessa forma, explorar meu lado de instrumentista ao mesmo tempo em que exercitava o meu lado de compositor de canções. Fazer isso ao lado de alguém como o Marcos Valle me deu um prazer muito maior do que se eu fizesse sozinho. Isso aumentou ainda mais nossos laços afetivos de uma amizade que já se consolidara, como também nossa identificação musical. O Marcos pensa exatamente como eu. Não tem nenhum tipo de preconceito com nenhum estilo musical e tem muitas influências parecidas com as minhas. Posso afirmar seguramente que fazer esse trabalho foi um dos grandes momentos na minha carreira.



Foto: Bianca Cardoso




DA - São algo inegáveis o seu desprendimento e o tom intimista com os quais você se expressa no registro do show de seu mais recente DVD. Diria que essa energia toda parece confirmar que os caminhos por aqui estão abertos e que você está mais próximo do público?


CELSO FONSECA - Talvez. A ideia desse último trabalho foi do diretor Roberto de Oliveira. Ele me convenceu a fazer um DVD em que eu pudesse cantar coisas de compositores que admiro. Ele argumentou que meus trabalhos anteriores já tinham muito desse meu lado de intérprete, que relê canções escritas por outros artistas. Ele me sugeriu gravar da maneira oposta a que eu vinha fazendo desde o início nos meus discos. Que eu cantasse oitenta por cento de músicas alheias e o resto fosse composto de outras minhas que fizeram sucesso.


A princípio, eu estranhei um pouco a ideia, mas depois me convenci de que eu tinha mesmo muita vontade de cantar um repertório de canções que admirava. Sendo assim, fiz a primeira seleção. Foi muito difícil escolher. Parti de sessenta músicas, no início, para trinta, e depois para as dezoito que compõem o DVD.


Determinamos que a atmosfera do DVD deveria ser a mais intimista possível, e isso nos levou ao Estrela da Lapa, uma casa pequena aqui no Rio que nos possibilitou captar a atmosfera que queríamos.

Não sei se esse DVD determina que os caminhos estão mais abertos pra mim, mas acho que esse é um projeto em que as pessoas vão poder me ouvir cantando muitas das canções que elas gostam e podem cantar junto comigo. Até agora, em todos os shows que já fiz com esse repertório, o público tem sido muito generoso nesse sentido.



DA - Com o advento da internet, a indústria fonográfica e os artistas tiveram que rever posições face à enxurrada de downloads gratuitos de músicas. Há, inclusive, músicos que defendem essa “liberdade” ofertada pela grande rede, sobretudo porque o acesso ganhou status de democratização e visibilidade de conteúdos. Acredita na existência de um debate ainda viável para tal questão?


CELSO FONSECA - Sim. Acredito que muitas possibilidades relativas a esse tema ainda podem surgir. A Internet é um território livre e acredito que isso é uma coisa muito saudável no que diz respeito àqueles artistas que precisam mostrar seu trabalho e não conseguem pelos meios tradicionais ligados às gravadoras e selos.


Não sou contra a troca de arquivos entre dois amigos que gostam de música, por exemplo, mas sim contra a pirataria e a falta de respeito com os profissionais envolvidos na confecção de um trabalho. Desde o compositor - que obviamente deve receber pelo seu trabalho como qualquer outro profissional, até porque muitos deles não fazem shows nem cantam suas composições - até os músicos, engenheiros de som, fotógrafos, artistas gráficos, enfim, toda a equipe que trabalha para a finalização de uma única musica ou de um CD inteiro.


Acho que essa “liberdade” tem certos limites que devem ser respeitados, e isso envolve diretamente profissionais que trabalham duro e devem ser dignamente pagos pelo seu serviço. Acredito que, num futuro próximo, vamos ter normas e uma legislação justa, que possa ao mesmo tempo democratizar esses conteúdos, sem prejuízo direto para quem trabalha e precisa ser pago por isso. Acho esse debate muito produtivo e que deve ser levado adiante por todos aqueles que se interessam por música e por todo o seu significado na vida de todos nós. É um debate longo e talvez interminável num certo sentido, mas absolutamente necessário.



DA - Depois de um período intenso de produções, você já definiu se fará uma turnê pelo Brasil?


CELSO FONSECA - Cada vez mais se verifica a dificuldade grande em fazermos turnês pelo país como se fazia antigamente. Os custos são altos e a oferta de artistas é muito grande. Hoje em dia, mesmo os artistas renomados precisam de um patrocínio para colocar a sua equipe em campo e percorrer um país gigantesco como o nosso. Tenho muita vontade de fazer isso e venho trabalhando muito no sentido de viabilizar esse desejo. Por mim, cantaria em cada recanto desse nosso imenso território,levando alegria e diversão para cada brasileiro. Ainda sonho muito com isso. Enquanto não acontece, vou, aos poucos, chegando aonde é possível chegar...









Foto: Ricardo Miyajima










JANELA POÉTICA (V)


Alexandre Bonafim



O que se perdeu, verão maduro

a queimar as águas, branca

chuva a lavar a memória, irrompe,

súbito, feito um rio submerso

a irrigar a aridez desse inverno.

O que se findou, roteiro de aves

em exílio, não vive na superfície

dessa terra sedenta, nesse frio

feito de galhos secos e ervas mortas,

mas nas sementes de setembro,

nas mãos a semear primavera.

Por detrás dessa neve,

há vinhas de latejantes manhãs,

sopros de abelha e mel.

Sob essa poeira em ruínas,

há trigais plenos de vento,

primícias de doce sumo.

Desnudado pelas constelações nuas,

só sei viver nas funduras dessa aridez:

raiz de água a escavar os alumbramentos.




(Alexandre Bonafim é poeta, contista e ensaísta. Nasceu em Belo Horizonte, mas passou a maior parte da vida pelas terras do estado de São Paulo. É eternamente mineiro em exílio, mineiro nas raízes da vida. É mestre em literatura brasileira. Defendeu a seguinte dissertação: "A graça poética do instante: poesia e memória nas crônicas de Rubem Braga". Atualmente é doutorando pela USP, em literatura portuguesa)








IVO BARROSO E A PROEZA DE TRADUZIR PEREC


Por W. J. Solha






Eis que há cerca de um mês me chegou pelo Sedex um pacote enviado por Ivo Barroso. Dentro da caixa, um exemplar de A Vida Modo de Usar - de Georges Perec. Ivo traduzira o famoso romance editado pela Companhia das Letras em 1991, e o livro saía novamente, agora, pela série Companhia de Bolso.


La Vie mode d´emploi, publicado pela editora parisiense Hachette em 78, demonstrara – depois do Cien Años de Soledad de Gabriel García Márquez, de 65 – que o romance estava muito e muito vivo, ao contrário do que muitos propalavam depois dos aparentes extremos atingidos pelo Ulysses e pelo Finnegans Wake, de Joyce. Ele conta tudo a respeito dos apartamentos e moradores do prédio número 11 da rua Simon-Crubellier, décimo sétimo arrondissement de Paris, e é de um tal exagero de técnica e imaginação, que me pareceu ser a tentativa premeditada, bem sucedida, da construção de um marco literário, tal como fizeram João Martins de Athayde e Leandro Gomes de Barros – guardadas as devidas proporções - com seus cordéis Marco Meio Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo, de 1915 e 1917, onde um se empenhou em criar uma Babel mais delirante do que a do outro.


É incrível o que Perec faz em quase dez anos de trabalho maluco, na criação desse romance. Nem falo da matemática que aplicou na sua concepção, coisa que Osman Lins fez por aqui em Avalovara, e que arquitetos e pintores têm utilizado em todo o mundo, desde que Virgílio e Fidias, Leonardo e Piero della Francesa, Le Corbusier e o grupo Section d´Or descobriram o calculado macete de que a natureza se serve, através da série Fibonacci, para a reprodução animal ou para a proporção ideal de uma concha ou a disposição mais coerente das sementes de um girassol. Foram dez anos de trabalho obsessivamente concentrado no registro de pormenores que nos cercam a todos, com paralelo apenas, talvez, nos iguais quase dez anos que o pintor inglês Richard Dadd levou, preso no Departamento de Lunáticos do Bethlem Royal Hospital de Londres, para pintar todos os detalhes da tela de 54 X 40 centímetros intitulada Golpe de Mestre do Lenhador Mágico. Mas não exatamente. Embora exímio contador de uma centena de pequenas estórias que há no romance (que ele chama de romances), Perec faz com que seus milhares ou milhões de objetos de cena tenham tanto realce no texto, quanto os desenhos dos papéis de parede, das tapeçarias, das toalhas de mesa e dos vestidos que envolvem as figuras retratadas pelo pós-impressionista Edouard Vuillard, ou mais: tudo isso acrescentado de muitas jóias, flores, deteriorações e amarfanhamentos das roupas, como os retratados do americano Ivan Allbright.


O resultado é exaustivo, mas impressionante. Barroso sabia que eu iria gostar de Perec e, ao ver meu entusiasmo, lá pela página duzentos, disse-me que aguardasse o capítulo 74. Esse trecho, de fato, é um dos mais fascinantes que li em toda a minha vida. Em Maquinaria do Elevador – Machinerie de l´ascenseur – Perec, depois de descrever todo o edifício, desce conosco a seus segredos inferiores, vasculhando tudo, acabando por nos levar, com seu exacerbado realismo, para a mais pura e - no caso – inesperada literatura à la Brueghel e Bosch..


Foi nesse ponto da leitura que tive consciência completa do trabalho igualmente minucioso, detalhista, perfeccionista de Ivo Barroso. Apenas com um Virgílio desse poderíamos – em português - ir tão fundo em La Vie mode d´emploi. Somente com o poeta que escreveu O Peixe de Neruda e enfrentou a tradução de Baudelaire, Breton, Gide, Malraux, Romain Rolland, Rimbaud e Yourcenar, além de Svevo, Shakespeare e Hesse, entre outros, poderíamos sentir-nos tão à vontade entre tanta extravagância literária.


Ivo jamais é traditore, apesar de me lembrar o talentoso Ripley, que assume a personalidade de Dickie Greenleaf - imitando-lhe voz, assinatura e modo de se vestir – até tomar seu lugar, como Matt Demon, nesse filme de Anthony Minghella, toma o de Alain Delon de O Sol por Testemunha, de René Clément. A leitura de Ivo Barroso para La Via mode d´emploi nos proporciona o mesmo prazer pesado e poderoso que nos dá Miguelângelo na sua versão Rodin.




(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal)







Foto: Ricardo Miyajima








JANELA POÉTICA (VI)



PARECIDO COM O QUE SE DESCONHECE


Alam Arezi



A distração escolhe a mão a se seguir numa travessia
De um lado toda calmaria, por ventura desbloqueada
Pelo contrário o vazio de um acidente...
O mundo em seu final como uma súplica

Um perdão, cometido pelo destino: o assassino de planos
Comemorando em nossos pés um funeral
De alguma virtude do erro aprendido.


Amontoado de placas fincadas na liberdade

Aclamando prepotência são ignoradas

A menos de uma quadra de distância

A ilusão da lei era quebrada.


No desconhecido se encontra a perda

O retrato de tanto esparso

Com o erro aprende-se a cometê-lo diferente

Acertos seguem na contramão ilusória

Feito fracasso.




(Alam Arezi nasceu em Nova Prata do Iguaçu, Paraná. Quando criança, interessou-se pelo fascinante mundo dos livros e, desde seus oito anos de idade, vem produzindo aforismos, poemas e contos. Graduado em História - FAFIUV, 2009 – por vezes, em escritos, como pensador Alam Arezi desenvolve a racionalização de sentimentos à custa da consciência histórica, trazendo, também, encantamento com o confuso e contraditório momento de seu humor: ‘maníaco-depressivo’ – Amor à Meireles, Baudelaire e Bukowski)






Foto: Ricardo Miyajima








RASO DEMAIS


Rodrigo Melo



Tinha um pessoal cheirando pó dentro de um carro na frente do bar. Dois caras e uma mulher. Debrucei o meu tronco no muro da varanda, ficando praticamente dependurado, e falei com eles:


- Ei, Turma, aí não!

- O quê?! – gritou o que estava no banco do carona.

- Vocês não podem fazer isso aí, não! – repeti.

- Isso o quê?

- Isso o que vocês estão fazendo.

- Não estamos fazendo nada.

- Então porquê ficam aí sem sair do carro?

- Vai encher o saco de outro - resmungou o motorista, colocando a cabeça para fora -, a gente tá numa rua, porra, num lugar público!

- Vocês estão no passeio do meu bar, seus filhos da puta! Se continuarem aí, vou chamar a polícia! – gritei.


Então eles conversaram um pouco, depois ligaram o carro e foram embora.


Voltei para o balcão e preparei o conhaque com gelo e refrigerante de Adib. Adib vez por outra também fazia das suas, mas usava o banheiro, ia sozinho e quase nunca deixava pistas por lá – o tipo do frequentador que se preocupa com a fama do estabelecimento. Isso conta bastante. Ele pegou o copo de conhaque com refrigerante e deu dois bons goles. Em seguida acendeu um Hollywood e olhou pra mim.


- Você ta preocupado com alguma coisa.

- Eu?

- É. Ta com uma cara diferente. Se for o meu débito, terça sai um dinheiro.

- Certo.

- É o meu entra e sai do banheiro?

- Não.

- Alguma coisa que eu falei?

- Não.

- Hum...


Tirei as cervejas que estavam na parte de cima do freezer e passei para a geladeira. Quatro ou cinco empedraram. O movimento estava fraco. As madrugadas, de qualquer maneira, traziam surpresas e eu coloquei mais água na estufa e três quiches para assar. Adib falava sobre alguém que aprontara com ele no bar do italiano na noite passada. Ou talvez na noite retrasada. Ele falava daquele jeito dele, meio enrolado, quando Deise apareceu. Vinha da casa de uns amigos. Cortara os cabelos e estava usando um vestido vermelho com um decote nas costas. Não era bonita, mas o colo e as pernas grossas ajudavam. Em determinado momento os dois foram para a varanda, conversaram um pouco, cada um acendeu um cigarro e então Deise pegou o caminho do banheiro. Alguns minutos depois, saiu com uma cara de quem acabou de ser flagrada roubando. Achei engraçado, mas triste. Pensei em falar qualquer coisa.


- Me dá uma dose de tequila – pediu.


Coloquei a dose e ela virou de uma vez.

- Outra, por favor.


Sentaram-se do outro lado do balcão. Adib voltou a falar sobre o cara que aprontara com ele. Uma estória confusa, parece que o cara o roubou de alguma forma e depois fingiu que nada havia acontecido. Não prestei muita atenção. Há dias me sentia um tanto distraído e, ao mesmo tempo, estranhamente incomodado, sem, no entanto, entender o motivo daquilo. Olho gordo, encosto ou inferno astral, imaginei que ficando quieto uma hora passava.


Mudei a posição das quiches no forno e acendi um cigarro. Havia uma placa na parede, que eu mesmo colocara, dizendo que era proibido fumar ali. Parecia estranho eu não dar a mínima para aquilo.


Então deixei Adib contando o caso e fui até a varanda. O carro com os dois sujeitos e a mulher voltara para o mesmo lugar de antes. Eu via através das sombras o movimento que faziam. Por mais que a rua estivesse sem fluxo, a qualquer momento poderia aparecer alguém. Qual o significado de ser logo na frente do bar? De uma hora pra outra, eu sabia, começariam a dizer que a culpa era minha.


- Ei, caras! Ei! – berrei.

- Qual é?

- Já mandei vocês caírem fora!

- Caralho, meu amigo, vai tomar conta da sua vida, finge que a gente não está aqui! Merda!

- Ah, é?!


Desci, peguei a pedra que escorava a porta e fui em direção ao carro. Estava enfurecido – um tanto pela estupidez do mundo, outro tanto pelo mal estar que vinha sentindo. Enquanto caminhava, ouvi um deles gritar - “Puta merda, aquele maluco ta vindo com uma pedra pra cá!”, e no mesmo instante ligou o motor e saiu cantando os pneus.


O homem e o mundo. Ou o homem e os outros homens. Ou o mundo e os homens: invenções que nem sempre casam bem.


Depois disso a terra girou, ela que não deixa de girar, e eu me descobri do outro lado da rua, encostado à mureta. As luzes dos barcos deslizavam lá embaixo, no mar, e a luz do farol no morro às vezes iluminava o seu caminho. Poucas vezes parara pra reparar naquilo e agora era bonito, a noite e tudo mais. A maré secara e o barco passava por um filete de água, num espaço que parecia ser muito raso. É bem possível que vida não preste, calculei, mas às vezes pode ser um bocado simpática também.


Quando retornei, vi apenas o copo de Adib em cima do balcão. Talvez estivessem lá em cima, no espaço para shows. O caso é que somente o banheiro, e apenas em algumas ocasiões, era o único lugar que poderia ser usado para certos fins. Então fui, tentando não fazer barulho, ver o que estava acontecendo. Subi as escadas, olhei para o palco, nenhum sinal. Nas mesas, debaixo do reboco, também não havia ninguém. Quando me virei para o outro lado, encontrei Deise debruçada na janela e Adib pegando-a por trás, pela cintura, naquele movimento de ir e vir. Praticamente não faziam barulho e estavam bem colados um no outro: o vestido dela suspenso até a cintura, as calças dele na altura dos joelhos. Observei-os um pouco e não pude deixar de ver um certo encanto ali, e vi ainda vida e beleza, os dois embalados pelo álcool, pela noite, pela necessidade de sentir e pelas cafungadas, filme nacional mal feito mas cheio de boas intenções. A luz do poste em frente criava ainda um reflexo nos dois, às vezes ele aumentando o ritmo e ela gemendo baixinho, jogando a cabeça para trás.


Voltei para o balcão, coloquei um disco pra tocar e tirei as quiches do forno. Eram 12:17 de uma noite fria e, pelo visto, sem futuro algum. Eu poderia contratar alguém, pensei. Ou viajar. Peguei o copo de conhaque com refrigerante de Adib e virei.




(Rodrigo Melo escreve prosa para não ser chamado de poeta. Vive em Ilhéus, no sul da Bahia)







Foto: Ricardo Miyajima









JANELA POÉTICA (VII)



PRESENÇA


Edson Pielechovski



ssssó palhaços brincariam com aqueles balões

só dragões

sorteando valentias


v e n d o

a embalagem da razão

num convite à trapaça


em respeito ao ar

em respeito ao ar


dum enterro que racha

de algum sono rente ao chão


v o g a i s

sonâmbulas

não se ofertam


nãonãonãoNão animam nenhum clã do circo de amores



(Edson Pielechovski é pesquisador, solteiro)









DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Larissa Mendes



Um Homem Sério. A Serious Man. Estados Unidos. 2009.





Receive with simplicity everything that happens to you.

- Rashi


É com esta frase de Shlomo Ben Isaac, o célebre Rashi, símbolo do judaísmo, que os irmãos Ethan e Joel Coen, peritos em enredos inusitados, iniciam o seu novo longa metragem Um Homem Sério, sucessor (de orçamento modesto) de Onde Os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler e candidato ao Oscar 2010 em duas categorias, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.


Depois de um conto introdutório – que não tem relação direta com o restante do filme, mas nem por isso deixa de ser muito ilustrativo – estamos no final da década de 60, acompanhando a vida de Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg), professor universitário de física, que se vê às voltas com uma promoção em seu departamento e as investidas de suborno do aluno coreano. Em casa, sua esposa Judith (Sari Lennick) anuncia que está apaixonada pelo colega do marido, Sy Ableman (Fred Melamed). Alheios aos infortúnios do pai, o filho Danny (Aaron Wolff), divide-se entre seus seriados favoritos, a maconha e seu Bar Mitzvah, e a filha Sarah (Jessica McManus) só pensa em tirar o complicado tio Arthur (Richard Kind) do banheiro para que possa lavar seus cabelos e ir ao Hole com as amigas.


Em meio a todos estes acontecimentos, tudo o que Larry tenta é buscar respostas em sua fé (para isso consulta três rabinos diferentes) para manter-se um homem correto e comedido. O que também é bastante curioso, vindo de um homem que vive de uma ciência exata como a física, ou para as desgraças da vida não há lógica? Ironicamente, o homem que é considerado sério – e homenageado como tal em determinado momento – é justamente Sy Ableman, o amante de sua esposa.


Um Homem Sério ironiza a obsessão religiosa pela busca do “sentido da vida”, sobretudo no que tange às provações do ser humano, o conforto espiritual e porque não, o próprio fanatismo. O filme faz uma reflexão, ainda, sobre o papel da família e dos bons costumes na sociedade atual. É importante ressaltar que os cineastas utilizaram de suas próprias raízes judaicas para tecer a história. Garantindo o humor sombrio que lhes é peculiar, há espaço, também, para criticar o painel dos guetos em que os judeus continuam vivendo nos Estados Unidos.


Num contexto mais aprofundado, Um Homem Sério faz diversas alusões bíblicas, comparando Larry à Jó (um homem “íntegro, reto, temente a Deus e que fugia do mal”). A sequência em que o protagonista observa a vizinha tomando sol, enquanto ele está sobre o telhado consertando a antena (imagem do pôster), remete à visão que o Rei David teve de Bathsheba. Na cena final, quando Danny vê a aproximação de um tornado, a referência seria de quando Deus fala à Jó sobre a chegada de um redemoinho e afirma que não dará explicação alguma para as coisas ruins que estão lhe acontecendo.


Os irmãos Coen parecem levar ao pé da letra aquela propaganda do Canal Futura: "são as perguntas que movem o mundo e não as respostas". Os diretores pretendem instigar as pessoas a não deixarem de refletir, nem de questionar o mundo e o próprio cinema, seja você um homem sério ou cético.









JANELA POÉTICA (VIII)



INVISÍVEIS MÁGOAS


Leila Andrade




Foto: Leila Andrade



Certos de uma harmonia singular

pudésseis seguir o caminho

indolor, abrasivo

inspirados em alguma luz


céticos de infortúnios


Pois quem dera o mar

como garrafa em ondas

- carregasse

todas estas invisíveis mágoas











Foto: Ricardo Miyajima





* O fotógrafo paulista Ricardo Miyajima é dono de um olhar que ultrapassa o tradicional, principalmente quando o assunto é a moda e seus bastidores. Ao longo de seus registros pungentes, é capaz de nos surpreender ao captar o feminino, pois revela o algo mais, um espírito inusitado, um corpo que significa. Certo ar dramático também acompanha suas cenas. Nada parece cotidiano. Nada parece banal. Os instantes são flagrados de modo intenso e retidos para traduzir a esfera poética que aflui das mais variadas ambientações.


O artista começou a expor suas imagens em galerias de arte e espaços culturais de São Paulo, tendo atuado também como assistente de moda. Atualmente, Ricardo fotografa para a Revista Made in Japan, através da qual exerce um trabalho cuja perspectiva autoral, confessa, é o seu maior trunfo.



 
publicado por Fabrício Brandão
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