31 de ago de 2010,00:00
QUADRAGÉSIMA OITAVA LEVA


Imagem: Floriano Martins






CICERONEANDO



Nesse vasto mundo onde se vislumbram as mais distintas faces do desejo, atravessamos tudo com certa mistura de busca irracional e, por assim dizer, instintiva. Por mais freudiana que a ideia demonstre ser, nosso tempo voyeur apela para todos os recursos possíveis, revelando-nos, desde sempre, atores vivazes do jogo cênico sexual. De fato, o diferencial humano está em sobrepujar as barreiras do instinto, denotando algo que representa bem mais do que uma mera compulsão animal. Em matéria de literatura e arte, o desejo é trunfo hábil nas mãos dos criadores. Nestes, assim como pulsam verdades latentes também há espaços para se alimentar fugas e sublimações, quiçá projeções de anseios inatingíveis. Dessa mescla de sensações, os apelos cativam e dialogam até mesmo com os mais obscuros segredos. Quando isso ocorre, há de se reconhecer também que, ao contrário da opinião de alguns, alma e sexo andam bem interligados. É aí que certa visão tradicionalista de que um corrompe o outro cai definitivamente por terra. Há mais dimensões para o desejo do que supõe nossas tenras expectativas. Vide, então, as construções presentes nas imagens de Floriano Martins, trabalhos que firmam um nexo com toda a profusão textual presente na Leva que agora nasce. Observemos, pois, o que encerra a poética em carne viva de gente como Ana Guillot, Bernardo Linhares, Líria Porto, Marcus Vinícius Rodrigues, Paula Cajaty, José Inácio Vieira de Melo, Beatriz Bajo e Natália Nunes. Somos testemunhas das confissões expostas nos contos de Flávio Otávio Ferreira, Dheyne de Souza e Carla Luma. Numa entrevista, o editor espanhol Fernando Ortega fala sobre as perspectivas do livro digital. Os olhares cinéfilos de Larissa Mendes rememoram 2046, filme de Wong Kar Wai. De ouvidos abertos, destacamos os lançamentos musicais de Luísa Maita e Djavan. Após 48 edições, impera o maior de nossos desejos, o da continuidade dos caminhos.



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.




JANELA POÉTICA (I)



XADREZ


Paula Cajaty



em jogo inútil e perigoso

me deito em tabuleiro

rainha do tapete

me penso peça

movimentada

ginete fiel

do vício alheio.


ando em frente

e atrás

deslizo partida

em branco e preto

intercalada

antevejo o ato

busco a fome

de ganhar

sem ser vencida.



(A poeta carioca Paula Cajaty iniciou a carreira no Direito, mas foi na literatura que encontrou o caminho para seus sonhos e prazeres. Em 2008, lançou o primeiro livro "Afrodite in verso", que tem como principais componentes a sensualidade, o romantismo e a poesia. Recentemente, lançou Sexo, Tempo e Poesia (7 Letras – RJ))








Imagem: Floriano Martins








FÁBULA


Flávio Offer



A palidez da pele e os olhos parados a olhar-se no espelho davam-lhe a certeza da brevidade de seus dias. Não queria crer em mais nada, nem confiaria na existência de algo maior que seus próprios medos. O sentimento que lhe arrebatava em imediatos segundos devolvendo-a estupidamente à realidade era algo indesejável ao mais louco dos homens. Sentia repulsa de si mesma e dignava-se a cortar a pele com um estilete improvisado de gilete. O sangue escorria livremente nas ranhuras manchando os lençóis. Ela se sentia só e sóbria. Soberbamente realizada. Não queria morrer. Nunca sentira necessidade de acabar consigo mesma. Tudo era apenas um belo ritual de auto-purificação. Fixava o olhar na lâmpada negra ao centro do teto e devaneando encantos se via deitada ao centro de um imenso jardim. Roseiras cresciam desordenadamente abraçando-lhe o corpo. Os espinhos rasgavam-lhe a carne encharcando as pétalas de um vermelho púrpuro desigual. Seus lábios simulavam beijos que nunca encontravam uma superfície quente e úmida que retribuísse as carícias ensaiadas. E lá, ao centro do quarto, ficava deitada à espera que o desespero que lhe assombrava tomasse a forma inesperada de um macho que sem qualquer pudor invadisse-lhe a alcova e desfrutasse de toda sua vulnerabilidade. Sonhava digladiar-se, contorcer-se febrilmente, rompendo com todos os valores, escandalizando a quem lhe cobrava compostura. Desejava escandalizar-se, rasgar-se inteira e completamente, sangrar até a última gota de esperança. Gozar minutos inúteis em futilidades bestas. Desejava amar, amarrar-se a sombras, deglutir prazeres frenéticos. Gozar inutilmente. Desejava o mais viril dos homens lambendo-lhe as entranhas, estranhamente desvendando-lhe o sexo. Desejava a mais fútil inutilidade. Um prazer de repente no meio da noite, em silêncios e gemidos de brisa. Em sorrisos e gemidos de brisa. Em gemidos e gritos de vento.


A friagem da noite arrepiava todos os pelos de seu corpo. Inconsequentes delírios deitada ao mármore frio. O quarto se alargara em um imenso brejo. Acariciando os seios sorria enquanto a outra mão tocava a virgindade despudorada. Fechou os olhos tremulando inteira. Impossível revelar as sensações, impossível nomear-se. Impossível não ser em profundo êxtase. Impossível ser. Quando abriu os olhos percebera quão inútil desequilíbrio. O quarto estava cheio de sapos, saltitantes com suas línguas enormes a lamber as muriçocas que voavam em torno das lâmpadas. Todos os sapos, enormes, miúdos, verdes claros, escuros, marrons. Rãs, pererecas, cururus, sapos-boi, zolhudos, tomates, ceras e todo tipo de anuros. Saltavam ao redor de seu corpo, atraídos pelo cheiro emanado. E, os sapos saltavam sobre ela, lambendo o sangue em sua pele, e surgiam mais sapos, infestando o quarto com um coaxar ensurdecedor. Fechava os olhos tentando lembrar-se do próprio nome, tentando esquecer a saparia, tentando não crer na existência de sua loucura. Mas, ao abrir os olhos podia perceber que havia mais sapos sobre a cama, sobre a cômoda, sobre todos os móveis do quarto. Os sapos se multiplicavam e tomavam conta de tudo. Aos poucos, ela sumia. Impossível ver-se ao espelho, impossível vê-la. De súbito, um sapo enorme abrira a boca e engoliu aos poucos aquela criatura que nem mais parecia gente. Sua palidez foi desaparecendo lentamente, enquanto o sapo ficava cada vez mais gordo. Enorme. Os olhos do sapo cresciam, seu corpo inchado se expandia pelo quarto. Suas cores transmutavam. Em alguns instantes o anuro explodiu, espalhando uma gosma esverdeada pelas paredes. Lá no chão, um corpo se contorcia misturado a uma estranha placenta. Virgínia renascia.



(Flávio Otávio Ferreira nasceu em João Monlevade, Minas Gerais. É graduado em Letras. Publicou os livros: “Cata-ventos, o destino de uma poesia” (KroArt Esditores, 2005) e “Itinerário Fragmentado” (Quártica Premium, 2009))








Imagem: Floriano Martins









JANELA POÉTICA (II)



A CASA DE EROS


Marcus Vinícius Rodrigues



Sei bem do amanhã a bater na porta,

sei bem do sol em nossa janela,

o adeus ofuscante nas frestas.


Sei bem que nada é meu

neste teu corpo que volta

ao dia das ruas lá fora.


E é só por saber tanto

que me arrumo casa arejada

para cada nosso furtivo encontro.


Faço-me quarto que nunca acaba,

faço-me noite morna e serena,

faço-me o tempo que não escapa.


E quando enfim te engolir a cidade,

com suas horas atropeladas,

ainda que abandonado, serei tua casa.



(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA. Publicou os livros "Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado - 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009 e, mais recentemente, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)






OUVIDOS ABERTOS (I)


Por Fabrício Brandão



LUÍSA MAITA – LERO-LERO






Mesmo com um painel rico em novidades, há quem se digne a considerar que a música brasileira atravessa um cenário de saturação, dada a enorme quantidade de artistas mostrando suas caras. O motivo central da crítica aponta para uma espécie de uniformização dos estilos, o que poderia representar um esvaziamento do perseguido conceito da diferença. Rigores à parte, é possível, com um pouco mais de atenção, pesquisar a fundo e captar as sonoridades de gente que veio disposta a construir seu próprio espaço. Um desses exemplos está no trabalho de Luísa Maita, que em seu disco solo de estreia consegue criar uma atmosfera musical singular. Lero-Lero possui uma base acústica bastante acentuada, combinando elementos do pop, eletrônicos e percussivos. No álbum, há uma Luísa que se confunde entre a cantora e a compositora, mescla que ganha corpo com a firme e decidida interpretação da artista a passear por entre a vastidão dos mais diferentes ritmos brasileiros.


Gêneros como o samba, maculelê, baião e bossa nova estão dispersos por entre as faixas, todos eles trajando uma roupagem moderna, porém sem exageros e afetações. Diga-se de passagem, certa suavidade aliada ao canto intenso e sensível de Luísa conferem uma marca especial ao disco. Quem percorre canções como Alento, Desencabulada, Fulaninha, Maria e Moleque e Amor e paz, perceberá um pouco do que o álbum é capaz de ofertar aos ouvidos. Lero-Lero pode ser visto como um disco de imagens, no qual a poesia dos dias é cicerone primeira de um fluxo de sentimentos, muitos deles voltados para o amor e os enlaces sublimes da existência. Escutar Luísa Maita em seu doce cantar remonta a uma sensação de serenidade, como se até mesmo nossos mais típicos conflitos pudessem se diluir em tons mais leves. E bem mais perto que pensamos a qualidade brinca desavisada por entre nossos vãos.



* Para abrir os ouvidos ao disco, clique aqui








Imagem: Floriano Martins








JANELA POÉTICA (III)


Ana Guillot



en la súbita raíz

vertebrando la piel

como hemistiquios


en el húmedo hueco

pulsando los zafiros azules

de la arteria


el deseo


invocarlo es el privilegio

de quien engarza espinas

con la lengua



(Ana Guillot nasceu em Buenos Aires. É professora de Letras e coordena a oficina literária Tangerina. Tem participado de seminários de literatura e mitologia em seu país e no exterior. Como poeta, publicou “Curva de mujer” (1994, Libros de Tierra Firme), “Abrir las puertas (para ir a jugar)” (1997, Libros de Tierra Firme), “Mientras duerme el inocente” (1999, Libros de Alejandría), “Los posibles espacios” (Nuevohacer, Grupo editor latinoamericano, 2004), y “La orilla familiar” (2009; Botella al mar; edición bilingüe castellano-catalán)









Imagem: Floriano Martins







A AMANTE


Dheyne de Souza



Então ela disse a ele:

(Estavam num quarto comum de hotel.)


– Eu não quero que diga nada. Eu quero que se desvencilhe do que te prende a mente e deixe o teu corpo comigo. Solte seus maxilares e deixe teus lábios descansarem um pouco do que o mundo, os singulares, os apegos lhe deixam. Não, eu não só não quero, como isso é uma grande ordem. Mas não entenda assim tão forte essa pequena e única amarra que ponho em teus olhos, desassossegue teus punhos, largue à cama os teus conceitos, isso, que te fazem humano. Quero-te líquido, límpido, quero te despir sem anseio. Não, não há relógios, não olhe, dos teus sentidos eu quero nada, um mergulho pense só nisso, nesse corpo de plumas abaixo e sobre teu peito. Desfaço esses botões não como quem te arranca vazios, antes te sopra ares quentes, sim, solte estes teus dedos, deixe-me que com eles falo só. Vejo a poesia dos teus pelos darem ritmo às balizas do meu toque, canto, arremedos de fios percorrem agora teus calcanhares, teus joelhos, o escombro dos teus cotovelos, o nicho de teu umbigo. Descobrem-se todos cassinos no risco que minhas mãos, sim, cala sem te calar, fecha os olhos sem trancas, não fuja, deitado meu dente te invade mamilos, portas, tendões. Uma chuva inesperada e distante aproximo-me de teu hálito, deixe-o; na morada de teus vulcões entro só, permaneça, não mais, me deito larva em tua boca, corroo agora teu ventre, tuas emoções seitas ali, derramo tamanhas guelras num rio que te me faz estiagem, inundo-te pelos e peles, pelas frestas sulco cais, inauguro ilhas, portos, pequenas montanhas que sobrevivem as minhas águas, que peixe te fazes manso e o que te envolves é senão liquidez de tato e miragem.


Abandonou seu corpo e deixou teus olhos no teto.

(Estavam num quarto comum de hotel.)



(Dheyne de Souza está em Goiânia-GO, escreve principalmente poesia, tem trabalhado em artes plásticas e colabora nos ambientes de Histórias Possíveis e Vida Miúda com o pseudônimo de Ana)








Imagem: Floriano Martins







JANELA POÉTICA (IV)



DANÇA DAS ROSAS


José Inácio Vieira de Melo



Rege a rosa impensada a duração

e, do ventre do espinho, nasce a forma

terrena da eternidade que passa.

Ah dolorosa dor que me perpassa.


Sozinha, no ar, minha vulva pensa

- rosa impensada a reger duração –

e digo aos tornozelos e aos jambos

esses incomparáveis sons que sinto.


Da régua restam passos a dançar,

os artelhos, as carnes, o infinito,

resta o canto que busca a alegria.


Com a geometria dos meus pés,

pisar na grande terra masculina

e guardar os segredos da roseira.



(José Inácio Vieira de Melo é poeta e jornalista. Alagoano radicado na Bahia, vem atuando como coordenador e curador de vários eventos literários no estado. Publicou os livros “Códigos do silêncio” (Salvador, Letras da Bahia, 2000), “Decifração de abismos (Salvador, Aboio Livre Edições, 2002), “A terceira romaria” (Salvador, Aboio Livre Edições, 2005), A infância do centauro (São Paulo, Escrituras, 2007) e, mais recentemente, “Roseiral”(São Paulo, Escrituras, 2010))








Imagem: Floriano Martins







PEQUENA SABATINA AO ARTISTA


Por Carolina Molina Argüello*



Muito se discute a respeito dos impactos trazidos pela leitura digital. Atrelada a essa tendência, surge a produção cada vez mais frequente de livros eletrônicos, fenômeno que parece se consolidar como algo irreversível. Longe dos já tão desgastados debates com os defensores do papel, há de se reconhecer que uma modalidade não exclui a outra. A leitura eletrônica, de fato, é consequência imediata da evolução das mídias digitais e do crescimento das demandas em torno de um novo modelo de transmissão de informações. E gente como o escritor espanhol Fernando Ortega Vallejo é prova viva de que todo esse processo caminha a passos bem largos.


Autor de Entre la soledad y el alma, Ellas... Mi Librog (Editorial Celya, Salamanca, 2008), dentre outros, e tendo participado de várias antologias poéticas, Fernando Ortega é um dos editores digitais mais conhecidos dentro e fora de seu país. Nesta entrevista, ele pontua aspectos que demonstram os avanços alcançados no terreno da edição de livros eletrônicos e, de modo polêmico, dá por encerrada a discussão a respeito das vantagens e desvantagens destes em relação aos livros do formato papel. Sua editora, a Publicatuslibros.com, presente no setor desde 2004, tem todos os seus títulos indexados no Google Books e acaba de lançar como novidade a edição eletrônica de toda a obra do poeta argentino Luis Benítez.






Fernando Ortega
Foto: divulgação



DA – Quais são as origens e os fundamentos de sua atividade editorial?


FERNANDO ORTEGA – Por volta de 2003, eu buscava alguma referência ou web que me permitisse publicar minhas criações poéticas. Não encontrei nada ou quase nada. Queria saber se minhas obras eram ou não merecedoras das leituras de alguém. Inclusive, busquei opções pagas na internet, mas não havia nada. Somente Badosa.com ofereceu-me a opção de poder publicar meus primeiros poemas. Então, pensei que, assim como eu, havia muitos escritores e criei o Publicatuslibros.com, espaço para divulgar obras de qualidade, com design, cuidado, uma edição adequada e, sobretudo, trazendo opções possíveis de serem lidas em qualquer parte do mundo. Àquela época, os blogs ainda não tinham “explodido”. Assim nasceu esse editor literário digital.



DA – Como se desenvolveu o Publicatuslibros.com? Quantos volumes e quais gêneros integram sua biblioteca eletrônica?


FERNANDO ORTEGA - O desenvolvimento tem sido lento, porém crescente. Deparamo-nos, hoje, com o receio dos autores em abrir suas obras e o medo do plágio. Nós jamais tivemos problema algum. Na internet, o “compartilhar para crescer” é a regra básica e foi ela que procuramos aplicar no Publicatuslibros.com. Portanto, há ainda um caminho a ser percorrido. Contudo, já contamos com mais de 150 autores de diversos países e que já publicaram conosco 202 títulos entre prosa, poesia, livros técnicos, quadrinhos ou fotobooks. Também temos algo no formato áudiolivro. Além disso, todos nossos livros estão indexados no Google Books. E poder registrar a totalidade dos livros com ISBN também foi outro aspecto que levou muitos autores a publicar conosco.



DA – Como a cena literária tem recepcionado a proposta do livro eletrônico? Existe uma polêmica entre os partidários do livro impresso e os do livro eletrônico?


FERNANDO ORTEGA - Acredito que essa discussão já esteja superada. Há uma porção de anos era conhecida como uma cruzada contra o livro eletrônico. Os “talibãs” do papel acreditavam que fracassaria. Mas nada disso aconteceu, conforme afirmaram alguns. Apenas, como em outros setores, houve uma mudança no modelo de negócio. A validade do livro eletrônico é indiscutível, graças aos leitores dos livros digitais ou e-readers, sendo que as editoras tradicionais impressas optam por utilizar a Rede como instrumento de difusão e promoção doa autores.



DA – De que modo os leitores podem acessar os títulos do Publicatuslibros.com?


FERNANDO ORTEGA – É muito simples. A rede está aberta e o acesso a todos os livros é gratuito. Editamos em copyleft. É possível navegar por autores, obras ou gêneros. Além disso, temos uma seção de notícias do setor.



DA – Sendo você também um autor, como é a sua experiência com o e-book? Tem participado e organizado diferentes encontros de editores eletrônicos?


FERNADO ORTEGA – Sinto-me um autor digital e global. Minha experiência com o papel foi muito limitada, como também o foi a da imensa maioria de escritores como eu, que temos de sobreviver de outras atividades. E escrever é pura paixão. Por isso, transito por todos os gêneros, desde a poesia, prosa, prosa poética, ensaios, artigos jornalísticos, pequenos contos, etc. Optei pela publicação e edição digital desde o início. E assim sigo. Pratico e “evangelizo” elas. Escrevo diariamente há mais de 4 anos em meu blog, Vagamundos. Em duas ocasiões, 2007 e 2009, organizei, em Jaén, o Interliteral, Encontro de Literatura Digital, evento que teve uma aceitação muito importante do setor, dos criadores e dos profissionais de edição digital. Apesar da grave crise econômica enfrentada pela Espanha, espero poder organizar a edição de 2011.


DA – Recentemente, você publicou os Poemas Completos do argentino Luis Benítez, depois de haver editado uma antologia desse mesmo poeta, organizada pela estudiosa argentina Elizabeth Auster, em 2008. O que o levou a encarar essa edição dos Poemas Completos daquele autor e quais conclusões você pode tirar a respeito disso?

FERNANDO ORTEGA – O caso de Luis Benítez é único. Ele como pessoa e escritor é uma “grande figura”. Teve a ousadia de apostar no Publicatuslibros.com e disponibilizar toda a sua obra poética. Quando fiz isso, tomei como um enorme desafio, já que conheço a dimensão da obra e da figura de Luis Benítez no cenário poético Argentino, como também em todo o mundo hispânico. O trabalho de compilação, prólogo, do próprio autor e da edição creio que tenha sido dos mais importantes realizados em quase sete anos de existência. Além disso, acredito que seja um nobre exemplo a ser seguido por outros autores. Agora a obra de Luis Benítez é universal.


DA – Quais são seus planos imediatos para o Publicatuslibros.com e como imagina a evolução que pode ser alcançada pelo livro eletrônico num futuro próximo?

FERNANDO ORTEGA – Como havia dito, a espantosa crise que se abateu sobre a Espanha tem levado a cultura aos limites da “sobrevivência”. Favores políticos na Espanha estão na ordem do dia e a cultura está extremamente politizada, como um setor que se curva ante o poder. Um dos efeitos sofridos foi que, após três convocatórias de contos e poemas, não voltamos a promover nossos prêmios “La cerilla mágica” e “El verso digital”. Temos trabalhado sem patrocinadores. O futuro do livro eletrônico é grande e belo. Como é o da internet. Quebraram-se barreiras da exploração do direitos autorais por parte das editoras que minavam os autores, foram rompidas as distâncias, superamos as diretrizes políticas das editoras. Finalmente, editamos em copyleft, aspecto que se opõe à posição da atual Ministra da Cultura, partidária da ditadura típica do monopólio do poder que exerce o “lobby cultural” da esquerda espanhola. Superamos todas essas coisas e por isso eles estão com medo. Não há como parar. A produção coletiva do conhecimento não é um fato trivial, que pode ser controlado pelos caprichos do poder. É a grandeza da internet. A grandeza, insisto, do “compartilhar para crescer”. Há uma explosão de criatividade como jamais se percebeu, transformando criadores em geradores de cultura livre e de acesso universal. Se Gutemberg fosse nosso contemporâneo, seria um adepto da edição digital. Sem dúvida.


* Carolina Molina Argüello é jornalista e integra a Ediciones Nueva Generación, da Argentina.




Imagem: Floriano Martins





JANELA POÉTICA (V)


Natália Nunes



que se pulverizem os pântanos as letargias
o controle escondido nos dentes trincados

que se escaldem as nuvens brancas a massa dos corpos perdidos
se em ti rasgo o batismo da cama e acendo
o que também é pássaro na alma todo dia



(Natália Nunes ramifica-se em corpestranho e INCENDIÁRIO)





DROPS DA SÉTIMA ARTE


Por Larissa Mendes



2046 – Os Segredos do Amor. China. 2004.





“O amor é uma questão de timing: de nada vale encontrar a pessoa certa muito cedo ou muito tarde"

(Chow Mo Wan)



Os brasileiros (e principalmente as brasileiras) hão de concordar que não existem mulheres mais elegantes e sensuais do que as orientais. Mesmo vestidas até o pescoço, em longos e justos cheong-mais de seda delineando suas formas esguias, com apenas os braços desnudos, chinesas e japonesas exalam feminilidade. E, neste contexto, a câmera do cineasta Wong Kar Wai passeia suavemente por seus corpos de delicadas curvas que sobem e descem escadas. O erotismo aqui não é explícito. Está contido nas entrelinhas, nos gemidos, no tremor das paredes e do movimento de livros em prateleiras improvisadas.


À primeira vista, 2046 surpreende pelo título e pela temática. Sob o pretexto de um enredo de ficção científica, faz alusão ao quarto vizinho (e por que não às suas belas ocupantes) de onde o jornalista Chow Mo Wan (Tony Leung) escreve o romance intitulado 2046, no qual passageiros de um enigmático trem embarcam rumo a suas memórias perdidas. Paralelamente, o filme narra as projeções amorosas e boêmias de Chow, hóspede do apartamento 2047 do Oriental Hotel, em Hong Kong. Ironicamente, o romance futurista funde-se ao seu passado e presente amoroso.


Espécie de continuação do aclamado Amor À Flor da Pele (2000), é como se Chow, antes devoto da idealização romântica – naquela instância às voltas com a traição da mulher e a paixão platônica pela vizinha – desiludido do amor, mantivesse apenas relações superficiais, uma vez que a verdadeira entrega só pudesse existir em suas lembranças.


Ambientados na década de 60, as semelhanças entre Amor À Flor da Pele e 2046 são evidentes, embora a sequência funcione perfeitamente de forma isolada. As cenas nos táxis, as músicas latinas, determinados personagens e objetos, alguns diálogos e até mesmo o quarto de número 2046 estão lá somente para brincar com nossa memória. Todo o romantismo quase espiritual do primeiro filme é substituído pelo desejo físico, ainda que jamais de forma vulgar, prezando o apuro estético peculiar de Wong Kar Wai. Senhores passageiros, bem-vindos a 2046: ‘Paixão’ À Flor da Pele.



(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)








Imagem: Floriano Martins







JANELA POÉTICA (VI)



ITAPARICA


Bernardo Linhares

a Fabrícia Miranda

a Florisvaldo Mattos



O ocaso bronzeia o lilás que lança

e tinge de vinho a cinta da ilha.

Em volta o silêncio entorna o laranja,

sereia desenha o seu arco-íris.

A fragata branca acolhe o amarelo,

gaivota de prata sopra na brisa,

a vela florida versa no tempo,

revela no vento o verde da vida.

Molhada no ventre, côncava concha,

rosa dos ventos colore o coral

e anima na tarde o anil da paisagem.

Pintada de mel nos raios do sol,

a estrela do mar delira profunda,

é lírio que fulge o azul de Netuno.



(Bernardo Linhares,

Soteropolitano do Porto da Barra,

com livro no prelo,

não estudou para ser doutor,

nem se esforçou para ser atleta.

Nunca imaginou que fosse poeta)








Imagem: Floriano Martins








ANTICLÍMAX


Carla Luma



Coçou a cabeça e murmurou alguma coisa em uma língua secreta. Uma oração, talvez. Uma oração tão antiga quanto as cerimônias pagãs que remontam à pré-história das religiões. É a sua defesa contra o intruso, o desconhecido que pode invadir impetuosamente a nossa indiferença oferecendo a fantasia dos instintos liberados pela poesia, pela arte, estas atividades eróticas que substituem o amor convencional, o cotidiano ritual dos encontros e desencontros cuja função é nos manter ajuizadamente à margem de qualquer tentativa de arder.


Ajoelhou-se, me olhou como se eu fosse uma desconhecida e suplicou que nos tornássemos sensatos novamente.


Não faz mal, não tenha medo, uma das nossas molas se quebrou, mas não é uma desgraça, para tudo dá-se um jeito. É impossível irmos além. Já fomos longe demais. É suficiente permanecer no desejo de exceder sem, porém, ir até o fim, sem executar o passo final, fatal.


Eu esperava algo assim, mas fiquei arrasada. Eu estava pronta para a aniquilação. Já não me satisfaz a ilusão da morte como se fôssemos personagens de um drama, de um filme, de algo que se sente intensamente, mas do qual escapamos aliviados quando fecha a cortina, quando a luz se apaga, quando o livro alcança o ponto final.


Talvez a morte seja apenas um mito, uma maneira natural e elegante do corpo enganar o tempo que o consome assumindo ou se convertendo em outra substância. O desconhecido me fascina.


Eu não chorei. Sorri cinicamente, como se tranquilizada pelo anticlímax que se coaduna perfeitamente com a índole deste adorável covarde que, contudo, neste dia dos namorados, me trouxe flores, chocolates, uma garrafa de vinho e um livro com a Obra Poética Completa de Federico Garcia Lorca.



(Carla Luma nasceu em Jacarezinho, Paraná. Costuma se apresentar como manicure e vendedora de cosméticos. É autora do livro de memória precoce "As mãos me falam, os falos me calam", totalmente escrito em alfabeto ideográfico, que será lançado na China, com prefácio de Mao Tsé-Tung, antes do dia do Juízo Final. Espera ansiosa que morra algum imortal, pois pretende candidatar-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras para aproximar-se dos seus ídolos: Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro)








Imagem: Floriano Martins








JANELA POÉTICA (VII)



LIBIDO


Beatriz Bajo



estrelas nulas

quase luas

sempre nuas

e sós

meu querido

escuridões

em vértices doloridos

e pontiagudos

sobre os secos

retalhos dos meus

lados que te esperam

adormecidos

ainda quebrados

nunca querendo

tanto teus braços

atrelados às minhas

pernas ridículas

e cínicas em forjar

a distância

suplicando que

chegasse na velocidade

da luz com a nossa

sina de melhor cena

ensandecida

viagem ao redor

de lençóis já antigos

já rotos no estro

de um poema

e sua libido.



(Beatriz Bajo é paulista. Poeta, escritora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). Editora da seção literária do site Armadilha Poética e membro do conselho editorial do Projeto Macabéa. Participou de antologias e mantém publicações frequentes em revistas literárias e espaços virtuais como Portal Cronópios, Germina Literatura e Confraria do Vento)






OUVIDOS ABERTOS (II)


Por Fabrício Brandão



DJAVAN – ÁRIA





A uma trajetória de vida que sempre trilhou seu caminho autoral há sempre um considerável espaço para contemplar afetos musicais. Se conceito e estilo próprios sempre foram a marca de ninguém menos do que o alagoano Djavan, certos estão também os valores das suas predileções pessoais. O resultado acaba sendo uma refinada seleção de verdadeiras pérolas habitantes do nosso cancioneiro popular. Ária, novo rebento do artista, deixa um pouco de lado as feições de compositor de Djavan para dar vazão a trabalhos de outros tantos valiosos nomes. Basta correr as faixas e logo estamos diante de uma seleção de repertório primorosa, que enaltece compositores do quilate de Cartola, Caetano Veloso, Beto Guedes, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Luiz Gonzaga e Gilberto Gil.


Da interpretação vigorosa em torno da figura de Cartola, o cantor nos brinda com a emocionante Disfarça e chora, faixa que abre o disco de forma magistral. Sabes mentir, belíssima composição de Othon Russo, faz parte duma memória afetiva de Djavan, pois se trata de uma canção que deriva das primeiras escutas da sua infância. Fruto da parceria entre Beto Guedes e Caetano Veloso, vem a intensa Luz e mistério, aqui muito bem arranjada e interpretada. Outro grande momento do cd está em Nada a nos separar, canção de Wayne Shanklin e que evoca lembranças da adolescência de Djavan. A combinação de baixo acústico, percussão, violão e guitarra, além de representar um traço basicamente acústico, ajudou a definir uma atmosfera intimista ao disco. As escolhas feitas pelo artista são, sem dúvida, verdadeiro mergulho por referências que povoaram a sua formação musical, condição esta que mescla desde lembranças mais pueris até momentos em que cantava na noite.


Por toda a vivência experimentada por Djavan, é de se supor que a tarefa de se lançar a um projeto como Ária tenha sido algo complexa, sobretudo pelo fato dele percorrer inteiramente criações alheias. No entanto, há uma curiosa sensação de novidade. Quiçá isso não esteja nas escolhas propriamente ditas, conhecidas dos amantes da boa MPB, mas inscrito num tempo que não limita o nascimento de outras percepções.








Imagem: Floriano Martins






JANELA POÉTICA (VIII)


ELAS

Líria Porto



a vida é a puta
que em mim se esfrega
e espera que eu resista
às suas curvas

a vida é a santa
que me recusa
e assim me arrasta
para suas pernas

a morte é mulher
sem intenções escusas



(Líria Porto é mineira de Araguari e mora em Belo Horizonte. Autora dos livros “Borboleta Desfolhada” e de lua”, publicados em Portugal, participou de algumas antologias, entre elas Dedo de Moça e Mulheres Emergentes).








Imagem: Floriano Martins






* Atravessada pelas imagens de Floriano Martins pulsa a miríade dos desejos humanos. Por entre os recantos, ergue-se o lapso dos corpos, muitos deles prenhes de luz e mistério. As fotomontagens do artista ousam falar de segredos da alma, seus rompantes e ausências. É como se o universo da pele regesse idiomas próprios, indiferentes ao desejo que arde na brasa perene da hesitação. A visão do poeta ensaia seus arremates e aceita pagar as custas do insone pacto da carne. De todas as faces, há ainda aquela que espera. Ávida e desperta, uma existência não se recusa ao jogo alheio. Pelo contrário, permanece atrelada ao tempo de decifrar a si mesma. Evoé, Floriano e seus cortantes signos!



 
publicado por Fabrício Brandão
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